9.12.2011

respostas a perguntas inexistentes (177)

estar bem

Que "está bem", diz ela. Tem um emprego que lhe dá para pagar a casa que sobrou dum divórcio recente, para comer e andar com as contas mais ou menos em dia. E repete, enquanto faz uma pausa no café do pequeno-almoço, que "está bem". Eu sorrio-lhe, mas ela sabe que o meu sorriso não é de concordância. "Estar bem" não é isso. "Estar bem" é outra coisa, que não tem nada a ver com o cumprimento de deveres legais ou financeiros.
Passei alguns anos, talvez oito ou nove, sem a ver. Depois encontrei-a uma vez por acaso no cinema. Estava sozinha e eu também. Ela acabada de se divorciar e sem saber muito bem onde pôr os pés no pântano em que a sua vida se tornara, eu apaixonado pela primeira vez depois da minha separação. O divórcio dela estava ali, bem presente em toda a ânsia dos seus gestos, enquanto o meu já não passava de um ponto escuro na linha do horizonte. Nessa altura ela não "estava bem" e via-se, e eu sei que é por isso que hoje ela insiste que "está bem". Não "está bem", mas pelo menos já não se vê.
Pergunta-me, enquanto se assoa a um lenço vermelho, porque é que sorrio. É que "estar bem" é estar como nos apetece, não como conseguimos estar. A mim, por exemplo, apetecia-me estar com quem Amo a beber uma garrafa de vinho e a comer figos. Não estou, mas logo à noite vou estar, porque é assim que me apetece "estar bem" no dia de hoje, uma condição da vida que passa sempre pelo Amor e não pelo desAmor.
O desAmor é o desgaste do tempo no Amor. O mesmo que o vento ou o mar fazem numa rocha qualquer. Lento, cruel e imperceptível. Foi ela quem mo disse. Apaixonou-se, casou-se e teve filhos. Com os anos viu o olhar meigo do marido transformar-se num olhar de ódio e as suas palavras doces petrificarem com esse ódio. É a lenta metamorfose de quem não consegue nem sabe Amar. Pensou que ia viver sempre assim, nesse clima de guerra fria, até ao dia em que lhe morreu alguém e se deu conta que só se tem uma vida.
Olho para o fundo da minha chávena vazia. Gosto de ver as marcas que o café vai deixando à medida que o bebemos, com níveis e intensidades diferentes. Insisto que ela não "está bem". Pensa que está mas não está, e só lho digo assim, desta forma crua, porque não quero que ela se fique por aqui. O Amor transforma-se em desAmor e o desAmor em Amor novamente. Só temos que perceber que a felicidade não se resume às nossas contas da luz, do gás, da água e o que mais houver. Temos que perceber isso... e às vezes apagar as marcas que nos ficaram para trás. Acho que "estar bem" é só isso.

12 comentários:

Maria Suzel disse...

........normal,eu sou uma das que digo" estar bem", no fundo sabemos que isso não é estar bem e vamos vivendo assim,como dizes." como conseguimos estar". A vida nem sempre é preto ou branco, existe a cor cinzenta para atrapalhar!bj

bagaco amarelo disse...

maria suzel, com certeza que sim. mas podemos sempre não aceitar isso tão facilmente. bjo :)

Anónimo disse...

as vezes é tudo o que resta! e é infinitamente melhor do que não estar bem!

bagaco amarelo disse...

anónimo, verdade. :)

Salsa disse...

estar bem é diferente de ser feliz, podemos estar bem e não sermos felizes,ou então estarmos bem e não sermos felizes.
certas coisas dizem-nos tanto e a outros passam completamente ao lado.
sabes na minha opinião pessoal apenas importa o quanto somos felizes, tudo o resto são coisas que passam e passamos na vida.

bagaco amarelo disse...

salsa, é por aí, sim... :)

Olga disse...

É o "vai-se andando" que tanta gente dá como resposta. Quando tudo o resto já se desmoronou o facto de conseguir pagar as contas ao fim do mês pode ser a única forma de não deixar a máquina parar.

bagaco amarelo disse...

olga, pois é... até que um dia nos apercebemos disso mesmo. :)

Fatyly disse...

Concordo e o "estar bem" é saber limpar o sotão cerebral...apesar de haver marcas que nunca se apagam, tal como uma cicatriz...mas também ninguém fica bem e diz o contrário quando a precariedade se intala.

Podes amar e ser amado, mas ninguém vive apenas de amor, para mim o amor é um dos vários condimentos de uma vida...saudável!

bagaco amarelo disse...

fatyly, concordo. :)

Anónimo disse...

Á medida que leio o que escreve, tenho vontade de pegar numa caneta e no meu caderninho e reflectir... Será que estou bem? Será que faço o que estou como me apetece estar ou me conformei a estar no caminho a que fui conduzida? Muito bom! São demasiados castelos para ultrapassar e uma armadura demasiado enferrujada para tirar. ("O cavaleiro da armadura enferrujada, experimente ler!)
Obrigada por me fazer pensar.

bagaco amarelo disse...

anónimo, eu é que agradeço. pela simpatia e pelo conselho. :)