3.27.2012

coisas que fascinam (142)

acumulação

Hoje acordei de manhã para lavar a louça acumulada há dias no balcão da cozinha, aspirar o pêlo dos gatos acumulado nos cantos da casa, passar a esfregona sobre a sujidade acumulada nos chão cerâmico da cozinha e da casa de banho e, por fim, passar a ferro a roupa acumulada no quarto. Os dias acumulam-se uns sobre os outros, em prazer e dor. O prazer de não fazer nada e a dor de saber que se terá que fazer tudo duma vez, um dia qualquer.
Já fui diferente, isto é, já fui daqueles que não deixam acumular nada e têm sempre a vida vestida a rigor. Lavava a louça logo a seguir ao almoço ou ao jantar, não tinha gatos e aspirava a casa duas ou três vezes por semana e, por fim, passava a roupa a ferro mal a tirava da corda. Não acumulava nada nos meus dias,  nem sequer um Amor que fosse.
Há uma certa paixão na desordem da vida que não quero voltar a perder, porque ela é um pilar essencial da minha capacidade de me apaixonar. Hoje mesmo, sorri ao lavar o fundo duma série de copos que ainda cheiravam a vinho, porque recordei os bons momentos em que os bebi ao jantar com uma amiga. Recordei também Cabo Verde, ao procurar a cidade do Mindelo no mapa da t-shirt que a Raquel me ofereceu durante as férias que lá fizemos. Depois escolhi uma banda sonora para passar a roupa a ferro: Buraka Som Sistema para as t-shirts, Cesária Évora para as calças e para as toalhas, Mayra Andrade para  roupa interior.
Com o tempo apercebi-me que os dias que se acumulam sobre a minha casa são apenas a minha vida. Deixo-a acumular-se devagar, percebendo-lhe cada hora, cada minuto, cada segundo. E nela, nessa acumulação, percebo que nada do que ali se amontoou foi em vão. Nada é para ser esfregado logo a seguir à sua existência. Limpei hoje, para que nos próximos dias possa renovar essa lenta acumulação de quem está apaixonado, prolongando-a. 

16 comentários:

Maria disse...

Eu era muito arrumadinha e limpinha quando era solteira. Agora, limpinha continua a ser, mas arrumadinha, nem sempre. Existem perfiro brincar com o meu filho ou namorar com o meu marido é a prioridade. Arrumar, fica para depois. Muitas vezes a vida quer-se é desarrumada. :))

Pipoca dos Saltos Altos disse...

:) eu tb não sou escrava da casa. Limpo quando posso, quando apetece.

Malena disse...

Apetece-me, apenas, deixar-te um sorriso. :)))

Carmo disse...

:D

Bonita interpretação para toda essa desarrumação, não há dúvida.

Pérola disse...

A limpeza ou arrumação vista desta forma, deixa-me a pensar. Vimos as recordações nas coisas em desalinho, afinal é a nossa vida. Não a teriamos ou sentiriamos com a mesma intensidade se os objectos estivessem arrumados? A nossa mente e os nossos sentidos não serão necessários para se sentir essa paixão de que não abrimos mão?
Confio na nossa imaginação e na nossa capacidade de memória. Para sentir a vida não precisamos de objetos, ela faz parte de nós assim como todos os sentimentos que deixamos entrar...

Anita Garcia disse...

É uma forma feliz de sentir a acumulação de tarefas... É a forma feliz de sentir de quem tem uma razão para as acumular e até faz sentido deixar de as fazer.

Eli disse...

É mesmo mesmo isso e mais umas tantas coisitas, assim como daquela vez que falas de quando tinhas visitas e não tinhas que ter uma casa impecavelmente arrumada, pois isso seria reflexo do que não eras.

Se ainda me lembro é porque encontrei um ponto em comum! :)

redonda disse...

Gostei muito desta forma de ver a acumulação e a desarrumação :)
beijinho

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

eh pá...excelente!!! Correndo o risco de debitar frases feitas, cá vai: identifiquei-me quase quase na íntegra! Difere apenas no tipo de pêlo acumulado no chão: aqui é pêlo de cadela, Golden Retriever, que faz uns montinhos jeitosos... e difere também: hoje ainda não limpei!

Gostei muito deste texto, não só pela identificação comigo, mas especialmente pela forma como o transmite. Muito bom!

MM disse...

É um privilégio poder ler-te de borla. Obrigada :-)

Helê disse...

Acho deliciosamente desconcertante esse seu escrever que finge ir para um lado e escolhe outro inesperado, como um drible de bom jogador de futebol. Adoro. Outro excelente post.
Aquele Abraço,

marta disse...

sim, porque não? :)

bagaco amarelo disse...

maria, boa. :)

pipoca dos saltos altos, é isso mesmo. :)

carmo, obrigado. :)

malena, obrigado. :)

pérola, em última instância, precisamos de respirar. :)

anita garcia, exactamente. :)

eli, nem eu me lembrava disso. :)

redonda, obrigado. :)

maria sem frio nem casa, obrigado. :)

mm, para mim é que é um privilégio ser lido. obrigado. :)

helê, obrigado. :)

marta, :)

memyselfandi disse...

também já fui uma obcecada pela limpeza... e também já não sou. também me sabe bem deixar acumular algumas coisas... ôxenti, góstêi! =D

Fatyly disse...

O pior erro de casados, apaixonados, amigados, sozinhos é serem escravos da casa. Tudo deve ter o seu tempo e um pouco de pó ou pelos de gato até vai criando uma certa imunidade:) e alguma vez eu deixaria de fazer algo que gosto em troca dos afazeres da casa?

Já foi chão que deu uvas. Limpar é uma coisa, agora limpar+limpar é outra...até porque sou organizada e num abrir e fechar de olhos faço rápido:)

Dou-te um exemplo: as netas estão de férias e têm ficado com o pai que se recompõe das 6 costelas que partiu numa queda estúpida. Lá anda meio torto:) e foi-nos ver jogar futebol para o quintal e estou aqui que nem posso. Quero lá saber da roupa que está no varal, quero lá saber do pó...vim aqui ler um bocadinho e vou agora dormir...e amanhã, se acordar logo faço. mas se não acordar alguém fará por mim loll

Que continues apaixonado e continua a ter essa postura perante a vida...porque ela passa tão rápido!

Bagaço Amarelo disse...

memyselfandi, obrigado. :)

fatyly, obrigado. a jogar futebol também fico que nem posso. :)