3.12.2012

coisas que fascinam (140)

bombardeamento

Aquela mulher é bonita. Tão bonita que agora mesmo, quando peguei no meu copo de cerveja para dar um gole, reparei que estava morta. A cerveja, não a mulher. Morto estive eu, durante não sei quanto tempo a olhar para ela sem me aperceber que tinha uma garrafa de Sagres à minha frente. Aliás, sem me aperceber de mais nada. O tlintar inquieto das moedas na bandeja do frenético empregado do café, o vapor da máquina expresso a aquecer mais um galão, o arrastar das cadeiras dos clientes que vão entrando e saindo. Não ouvi nada.
Agora levanto-me, vou à mesa dela e peço licença para me sentar. Digo-lhe que ela é bonita e agradeço-lhe a existência. Peço outra cerveja e bebo-a enquanto discutimos uma trivialidade qualquer. Era, de facto, o que me apetecia fazer. Mas não o faço. Fico aqui a sofrer os horrores de quem, sem contar, foi bombardeado e agora é um mero despojo esquecido duma guerra de que nem se deu conta. É assim que me sinto. O coração apertado, o estômago duro como uma pedra, as pernas tão enfraquecidas que tenho medo de cair quando tentar levantar-me. Estou ferido, pronto.
As mulheres não sabem, ou fingem não sabê-lo, mas o Amor é sempre uma operação de socorro a um homem ferido. Uma questão de vida ou de morte. Uma urgência. Esta também não o sabe, certamente, que agora se levanta deixando o dinheiro contado em cima da mesa, num desenho de moedas que se assemelha a uma flor qualquer. Como ela é. Vai-se. Desaparece pela porta de saída sem escutar os meus intensos e silenciosos pedidos de ajuda.
O café volta a ser isso mesmo. Apenas um café. E eu torno a sentir a ponta dos dedos dos pés. Lentamente apercebo-me de que o sangue recomeça a circular nas minhas veias e artérias. Abraço, com a palma da mão, a garrafa. Ainda está fria, apesar de tudo. Procuro um relógio para saber que horas são e, se possível, também que dia é, e de que mês e ano. São duas da tarde de um dia de Março de 2012. Sobrevivi.

12 comentários:

Briseis disse...

Queridíssimo Bagaço, tenho andado longe, não me sobra muito tempo para te vir ler e comentar, mas ainda bem que cá vim hoje. É que, assim do nada, percebi o porquê de teres tanto sucesso, pelo menos entre as mulheres, porque dos homens não posso falar... =) e a razão é cada mulher desejar profundamente que todos os homens sejam como tu! Que, de cada vez que um estranho olha para elas, seja porque está a pensar como tu pensas, a ser bombardeado como tu foste. Isso e não aquela coisa absolutamente repelente que são os olhares gulosos e as bocas grosseiras que às vezes são largadas... Tu és um achado, homem! =) um beijinho

bagaco amarelo disse...

briseis, obrigado. mas olha que isto é ser guloso. :)

Fatyly disse...

Como sou imensamente bonita, vou estar mais atenta a essas urgências, mas primeiro tenho que ir tirar um curso de "adivinha" porque já tenho o dos primeiros socorros LOLLLL

Anónimo disse...

Muito bom, bagaço

Um abraço

Pedro Ferreira

Olga disse...

Eu sinto o mesmo quando olho para um bolo de chocolate e sei que não posso comer. Uma verdadeira tortura, oh vida cruela! ;)

bagaco amarelo disse...

fatyly, lol! bem visto. :)

pedro ferreira, abraço. :)

olga, lol. :)

Ana disse...

Atrás de tanta beleza, está apenas um ser humano com defeitos e virtudes. Acho que devias ter falar com ela.
Para a próxima, força e coragem :)

Boa sorte!

bagaco amarelo disse...

ana, :)

Helê disse...

Apaixonei-me. De novo.

bagaco amarelo disse...

helê, :)

menina em Paris disse...

Querido Bagaço,
parabéns pelo texto. Tens uma maneira de escrever fabulosa :) continua :)

bagaco amarelo disse...

menina em paris, obrigado. :)