5.16.2011

pensamentos catatónicos (248)

erva daninha

A palavra "flor" devia ser afastada da palavra "Amor". Que mania irritante, essa de oferecer flores a quem se Ama ou se quer Amar como se isso significasse alguma coisa. Não significa nada. Zero. É como se o Amor fosse uma erva daninha. Cresce onde menos se espera e mesmo que se a arranque pode tornar a aparecer, ali, num local árido onde parecia impossível crescer fosse o que fosse.
É por isso que um  primeiro encontro entre duas pessoas nunca é um erro. É uma hipótese, é uma fome. O que pode ser um erro entre duas pessoas são os encontros seguintes. O segundo, o terceiro, o quarto, o quinquagésimo... se forem uma tentativa de floricultura metódica. Pode ser bonito, pode cheirar bem, mas não vale nada porque cresce em nome da forma e não do conteúdo.
Ser flor é insustentável. Uma flor é uma mulher que sai do cabeleireiro e que em nome da beleza não se deixa tocar. Pelo contrário, uma erva daninha é aquela que nos agarra pelos colarinhos e nos dá um beijo de língua enquanto os cabelos se entrelaçam ao vento. Em nome do Amor matemos a floricultura. Vivam as ervas daninhas.

5.15.2011

conversa 1777

Andava à procura de um sítio onde pudesse jantar decentemente por relativamente pouco dinheiro, mas tinha-me esquecido do nome do restaurante que, horas antes, um tipo me tinha aconselhado. Sabia que era na zona industrial do Porto e era por aí que andava à procura das referências que ele me tinha dado. Cansado das ruas despovoadas, encostei o automóvel quando vi uma mulher parada no passeio, sem sequer perceber que era duma prostituta que se tratava:

Eu - Onde é que aqui se pode comer bem e barato?
Ela - Aqui já comeram muitos e nunca ninguém se queixou, querido. Nem do serviço nem do preço.
Eu - Ah! Peço desculpa.

Arranquei em direcção a lugar nenhum enquanto ouvia o "Como O Macaco Gosta de Banana" numa rádio qualquer. Nessa noite não jantei.

5.13.2011

pensamentos catatónicos (247)

Deixemos a dialéctica em paz. O que o Amor quer é um silêncio contemplativo, uma garrafa de vinho e sexo. Muito, se possível. Tudo o resto são nuvens passageiras, às vezes brancas, outras vezes cinzentas.
Ao contrário do que se possa pensar, não compreender uma mulher não é um estado de ansiedade. Muito pelo contrário, é o melhor que nos pode acontecer. A incompreensão duma mulher é a última das etapas na vida de um homem. É o arhat da alma ou, se preferirem, é o "que se foda! o melhor é não me chatear".
A vida, tal como a vivemos, não é compatível com o Amor tal como o Amamos. Por isso que se lixe a vida! Vem o Amor todo lampeiro e depois, atrás dele, a conta do gás, a conta da edp, a conta da água, o puto que com cólicas que tem de ir para o Hospital, o gajo que nos bateu no carro, o vendedor da Tv Cabo que é um chato do caraças, o emprego matinal depois de noites mal dormidas. Enfim, vem a vida toda a impedir-nos de Amar e mais uns sacanas a falar na televisão em nome do Défice: "O Défice isto, o Défice aquilo", e nós a querermos Amar...
Há uma altura em que se aprende a olhar para quem se Ama com olhos de quem Ama, não com olhos de quem vive e não quer compreender coisa nenhuma a não ser isso: um silêncio contemplativo, uma garrafa de vinho e sexo.

Sic, música e desenhos

O blogger anda a funcionar mal. Para além de não me ter deixado actualizar o blogue, apagou-me duas conversas e uma série de comentários. Aproveito, no entanto, este momento de paz para colocar aqui algumas datas importantes para os próximos tempos. Importantes para mim, claro, não para o mundo.

16 de Maio 2011 || presença no programa Boa Tarde, SIC canal, apresentado por Conceição Lino, para falar de "erros no primeiro encontro". Algures entre as 16:00 e as 17:00.

19 de Maio 2011 || dj Bagaço Amarelo e dj Moa Bird no Clandestino, Aveiro, Portugal a partir das 23:00

17 de Maio a 04 de Junho de 2011 || desenhos Bagaçólicos - exposição de desenhos do Bagaço Amarelo no Mercado Negro, em Aveiro.

conversa 1776

Ela - Eu, às vezes, só me apetece sexo oral, e não há nenhum homem que compreenda isso.
Eu - Não compreenda, como?
Ela - Não há nenhum homem que se disponha, pelo menos uma vez de vez em quando, a fazer sexo oral à mulher e mais nada.
Eu - Mas que tipo de sexo oral? Minetes?
Ela - Havia de ser o quê?
Eu - Beijos...
Ela - Porque é que eu acho que não estavas a pensar em beijos?
Eu - Bem... beijos é sexo oral.
Ela - Comer gelados também, já agora.

conversa 1775

Ela - Pela minha experiência, os homens que se acham muito bons na cama são sempre uma nódoa, enquanto os outros, os que não têm a mania, normalmente até se safam.
Eu - Ah!
Ela - Tu és bom na cama ou nem por isso?
Eu - Nem sei que te diga.
Ela - Bem me parecia.

5.11.2011

pensamentos catatónicos (246)

a insustentável brutalidade da mulher

Zango-me quando as mulheres dizem que os homens são uns brutos. Altero-me, fico bruto, porque a última coisa que um homem quer ser é bruto.
Por bruto entende-se que se pensa pouco, que se é irracional e que a manifestação corporal ganha espaço à intelectual. O problema é que as únicas vezes que um homem deixa de pensar é porque está perto duma mulher. Era bom que as mulheres pudessem ver os homens quando não estão com eles, mas não podem. Por isso pensam que os homens são aquelas coisas que coçam os tomates em público, bebem cerveja e arrotam a seguir, dizem três asneiras em cada duas palavras e conduzem como se o mundo estivesse a acabar.
Os homens não são isso. Melhor, nunca são isso. A não ser que haja uma mulher por perto, claro. A culpa é toda delas e a acusação também. É injusto, e mais injusto se torna por causa da mania que as mulheres têm de encapotar a sua própria brutalidade. São bonitas, parecem frágeis e sensíveis, mas são sempre elas a manifestar desamor. Não há nada mais brutal do que isso.
Os homens são sempre os primeiros a dizer "Amo-te", as mulheres são sempre as primeiras a dizer "só quero ser tua amiga" que é o mesmo que dizer a um gajo "vai dar banho ao cão". É por isso que apesar de sermos   os primeiros a falar de Amor, antes de o fazer ficamos nervosos, ansiosos, com taquicardia e descontrole de movimentos. Até nos podemos peidar antes de o dizer, mas não há nada mais bonito do que dizer "Amo-te" enquanto as nossa tripas dão um nó. Depois gozam connosco, homens. As brutas são vocês, mulheres. Acho que é por isso que Vos Amamos ainda mais. Foda-se!

5.10.2011

e o povo, pá?

Os Homens da Luta são agora mais portugueses do que ontem. Porquê? Porque foram os melhores e perderam. Foi a primeira coisa que pensei depois do final do Festival da Eurovisão onde, entre dezoito músicas feitas à medida e ao formato europeu, havia uma que não cabia ali. Era a portuguesa, aquela que falava de política, de vinho, de pão e de queijo. Era a única música corajosa, mas os europeus não gostam de coragem.
Há duas verdades sobre Portugal e a Europa. Uma é que Portugal é o último país da Europa, outra é que Portugal é o primeiro país da Europa. Isto quer dizer que não estamos lá no meio e nunca somos convidados para a festa. Não cabemos lá e por isso fazemos a festa sozinhos. Ser português é ser isso. É assim desde que o Eusébio foi o melhor jogador do Mundial de 1966 e perdeu a final com a Inglaterra porque foi roubado pelo árbitro. O Eusébio não cabia ali. Portugal também não.
Ser português é saber estar sozinho. É saber rir sozinho e saber chorar sozinho. Ninguém no mundo é tão bom a fazer isso como nós. É por isso que não cabemos ali, no meio duma Europa onde andam todos às turras uns com os outros. Os Europeus não sabem estar com ninguém e também não sabem estar sós. É a verdade. É por isso que quando se põem a cantar são todos iguais e soam a falso. Foi o que aconteceu no Festival da Eurovisão, que foi uma merda. Os Homens da Luta não. Foram os melhores e perderam. Hoje são mais portugueses do que ontem. Por isso mesmo.

conversa 1774

Ela - Olha lá. Venho agora de um primeiro encontro com um gajo e venho enojada. Quero perguntar-te uma coisa...
Eu - Pergunta.
Ela - Será que um homem não sabe que antes de se encontrar com uma mulher deve lavar os dentes, principalmente se esteve a comer coisas coloridas?

coisas que fascinam (125)

a mais bonita

Vi hoje um miúdo de calças de ganga rotas a brincar com um carrinho no café onde tomei o pequeno-almoço. Ajoelhou-se no chão e conduziu o seu pequeno bólide por entre vários clientes, incluindo eu, enquanto gritava para a avó que o carro dele era o mais rápido do mundo. O mais rápido, repetiu ele várias vezes.
A vantagem de ser criança é essa: acreditarmos que alguma coisa ou alguma pessoa pode ser a mais não sei o quê do mundo. Um carro em miniatura pode ser o mais rápido do mundo, um boneco do super-homem pode ser o mais forte do mundo, um chocolate pode ser o mais saboroso do mundo e a cama onde se dorme pode ser a mais confortável do mundo. Dizemo-lo acreditando que é verdade.
É o estado de adulto que nos tira essa capacidade. O nosso carro pode até nem ser mau, mas se tivéssemos dinheiro comprávamos um melhor. Quando vamos jantar fora e gostamos do sabor, acabamos sempre a conversar sobre outros restaurantes mais famosos. Já nada é o melhor do mundo.
Resta-nos o Amor nessa decadência determinista do mundo. Resta-nos apaixonarmo-nos para tornar a acreditar que é verdade que uma mulher é a mais bonita do mundo. E quando lhe dizemos isso ela até pode responder, porque também já é adulta, que lhe estamos a mentir. É aí que eu penso sempre que ela não percebe nada sobre ela mesma. É tão cega que nem sequer sabe que é a mais bonita do mundo. E ainda bem, porque se soubesse talvez eu nem gostasse dela.

5.08.2011

pensamentos catatónicos (245)

O estômago e o coração

A relação entre o coração e o estômago é a mesma que existe entre a solidão e a fome. Aliás, a solidão é a fome da alma. Digo-o eu, que hoje acordei com um apetite invulgar, talvez porque por motivos políticos passei o fim de semana em Lisboa e longe da Raquel, e por isso reforcei a refeição matinal. Um iogurte, uma taça de cereais com leite, um pão macio com um cremoso doce de cereja e outro com manteiga fresca, um sumo de laranja e por fim um café com espuma.

O pequeno-almoço de hoje confortou-me o estômago como às vezes o Amor me conforta o coração. Dizê-lo é foleiro mas também é verdade, e as verdades foleiras têm a mania de se querer esconder quando não devem. É por isso que o digo com a noção existencialista de que o corpo precede a nossa essência, ou seja, a nossa fome a nossa solidão.

Normalmente tomo um pequeno-almoço mais pobre ou, se preferirem, frugal. A Raquel preocupa-se com isso e às vezes diz-me que me pode dar a fraqueza. As mulheres falam sempre em fraqueza quando querem que um homem as ouça de facto. Está-nos nos genes não saber digerir uma mulher a insinuar que podemos passar por um estado débil, e elas sabem que somos assim, uns fracos. No fundo é uma estupidez, mas elas também sabem que somos estúpidos. Respondo-lhe sempre que o estômago, depois do sono da noite,  e por ter estado em descanso várias horas, não deve começar a trabalhar demasiado. É que tal como o coração, o estômago também se estremunha.

5.06.2011

conversa 1773

Ela - Ando a precisar de estar sozinha.
Eu - Mas tens algum problema?
Ela - Não. Apetece-me estar sozinha, é só isso.
Eu - Mas se te apetece estar sozinha porque é me telefonaste para sair contigo?
Ela - Porque és o único homem com quem consigo estar como se estivesse sozinha.
Eu - Nem sei se considere isso um elogio...
Ela - Bem, é um elogio e ao mesmo tempo não é.
Eu - Como assim?
Ela - Gosto de estar contigo porque és meu amigo e porque sabes dar-me espaço. Ao mesmo tempo, quando me apetece estar com alguém não é a ti que te telefono.

pensamentos catatónicos (244)

máquina de beijos

Acho que tive a sorte de desejar um beijo de algumas mulheres que nunca me quiseram beijar. Os beijos conseguidos têm sabor mas os outros, os que não chegam a acontecer, também têm. Das mulheres que nunca beijei mas quis beijar, recordo com nostalgia o sabor a maçãs vermelhas dos lábios carnudos da Patrícia, o aroma a mar dos lábios delicados da Cláudia ou a textura de almofada dos lábios da Madalena.
Recordo o sabor de beijos que nunca tive porque me apaixonei por essas mulheres, e não há nenhuma mulher por quem se sinta paixão que não tenha um sabor na nossa imaginação. Aliás, o beijo é a maior prova de Amor entre duas pessoas, porque só ele permite comprovar esse mundo de paladares.
Li por estes dias, nas páginas dum jornal qualquer, que o laboratório duma universidade japonesa inventou uma máquina de beijar à distância, ou seja, através da internet. Pelo que percebi, a coisa passa por meter os lábios numa palhinha que se mexe da mesma forma que outra palhinha ligada a um computador distante.
Imagino que quem inventa uma máquina destas é uma pessoa só. Não por estar sozinho nem por nunca ter beijado ninguém, mas sim porque nem sequer conseguiu ter lembranças de beijos que nunca aconteceram. Só quem não tem imaginação para o Amor pode ter imaginação para uma máquina de beijos. Mas não sabe o que isso é: beijar.

5.05.2011

pensamentos catatónicos (243)

O estrangeiro

Quando eu era mais novo as mulheres portuguesas preferiam homens estrangeiros. Eu tinha uns ciúmes danados deles, dos estrangeiros, por causa disso. Um estrangeiro dizia três ou quatro palermices e ganhava imediatamente o estatuto de "homem interessante" junto de qualquer mulher portuguesa. Eu, por mais que me esforçasse, não passava da mísera condição de vulgar português.

Esta sensação de injustiça que habitava em mim ganhou contornos definidos quando conheci a Luísa e, pouco depois de começar a namorar com ela, fomos convidados para uma festa de estudantes universitários onde ia estar um estrangeiro. No caminho para lá, e assim como quem não quer a coisa, ela mencionou o facto pelo menos dez vezes, revelando uma ansiedade que só por si já me incomodava. Claro que, pouco tempo depois de lá chegarmos, já ela achava aquele estrangeiro um doce enquanto eu o via como um imbecil.
Passei essa festa sentado numa cadeira da cozinha a falar com mais três ou quatro portugueses tão simplórios como eu, tentando disfarçar a sensação de derrota enquanto o exuberante estrangeiro se passeava pela casa seguido de perto por todas as mulheres presentes. Não vi a Luísa uma única vez a não ser quando ela veio buscar uma cerveja ao frigorífico. Para o estrangeiro, claro. Nessa noite voltei para casa sozinho e o Amor entre nós esfriou rapidamente, até desaparecer por completo.
A verdade é que nesses tempos ser estrangeiro em Portugal ou artista de circo era mais ou menos o mesmo: coisa rara e, portanto, digna de se ver. Havia um complexo de inferioridade que nos fazia levantar rapidamente para dar a nossa cadeira a qualquer estrangeiro que aparecesse por aí, enquanto lhe perguntávamos humildemente se estava bem ou se queria um café. Não era simpatia, era mesmo um certificado de tacanhez.
Há uns tempos encontrei a Luísa e perguntei-lhe se ela se lembrava dessa festa. Baixou os olhos e esboçou um sorriso envergonhado. Disse-me que tinha sido de propósito, para eu sentir ciúmes e me roer por dentro. Pela primeira vez percebi, muitos anos depois, que talvez eu tenha sido mais importante para ela que o estrangeiro nessa festa, e amarrado pela minha adolescência insegura era só isso que eu queria. Mas no Amor sê-lo não chega, é preciso parecê-lo.

conversa 1772

Ela - Acabar o meu namoro com o Zé foi um alívio.
Eu - Pois... por isso é que o acabaste.
Ela - Não é bem isso, é que nunca gostei dele.
Eu - Então porque é que andaste tanto tempo com ele?
Ela - Só comecei a namorar com ele porque na altura estava com a auto-estima tão em baixo que pensava que nunca na vida algum homem ia gostar de mim.
Eu - Foi um teste, portanto...
Ela - Sim, foi.

5.04.2011

conversa 1771

Ela - O namorado da Fátima é a coisa mais desinteressante que já vi.
Eu - Achas?
Ela - Acho. Veste-se mal e não diz nada de interessante.
Eu - Não sei... por acaso eu acho-o simpático.
Ela - Eu acho que a Fátima é mulher a mais para ele.
Eu - Nunca se sabe.
Ela - A não ser que...
Eu - A não ser que o quê?
Ela - Que ele tenha qualquer coisa fora do normal.
Eu - Fora do normal?
Ela - Sim. Assim a tender para o grande.

respostas a perguntas inexistentes (149)

Encontrei a Rita como quem se banha no mar

Encontrei a Rita como quem se banha no mar. Há alguns atrás, e depois do meu divórcio, foi a primeira mulher com quem marquei um encontro. Ela acabara de se separar também, e foi a desilusão que ainda nos parasitava que nos fez ganhar coragem para combinar uma tarde a dois. Lembro-me de ela me dizer que talvez fosse bom passar algum tempo com um desconhecido, porque entre o círculo de amigos toda a gente tinha alguma coisa a dizer sobre a sua separação e ela não queria ouvir ninguém. Só queria falar. Estava farta, eu também. A Rita vivia em Coimbra e eu em Aveiro, por isso combinámos na Curia, um terreno neutro.

Encontrei a Rita como quem se banha no mar. Durante uma tarde caminhámos sem direcção, tanto no percurso pedonal como nas palavras, no que se tornou um lento funeral dos nossos Amores passados. Enterrámo-los assim, falando dos nossos filhos, das nossas discussões, dos objectos lá de casa e da incerteza que nos povoava. Depois despedimo-nos sem marcar um novo encontro, ainda que com vã a promessa de o fazer. Nunca mais a vi. Até hoje, cinco anos depois, por acaso e numa rua qualquer da cidade de Aveiro.
Encontrei a Rita como quem se banha no mar, numa onda que vai e volta e que hoje voltou para me dizer como as coisas mudaram desde então. Encontrou por acaso, durante este tempo de distância, um velho colega do liceu por quem se apaixonou e com quem vive. Agora acha que aqueles tempos estéreis de Amor foram o melhor que lhe podia ter acontecido. Eu também, respondi-lhe. Depois despedimo-nos sem marcar um novo encontro.

5.02.2011

conversa 1770

Ela - Quando me apaixono por um homem, costumo imaginar-me a fazer certas coisas com ele.
Eu - Que coisas?
Ela - Ir às compras, ir ao cinema, cozinhar com ele...
Eu (silêncio)
Ela - Que ar de decepção é esse?
Eu - Não é nenhum...
Ela - Ah!

conversa 1769

Ela - Preciso de um homem para ir de férias este ano.
Eu - Porquê?
Ela - Queria ver muito tectos.
Eu - Muitos tectos? Não percebo...
Ela - Oh Santa Inocência...
Eu - Ao menos explica-me...
Ela - O que é uma mulher vê quando está por baixo de um homem?
Eu - Bem, há várias hipóteses. Para começar depende para onde está virada. Se estiver virada para cima, em princípio, vê o homem. Se estiver virada para baixo, em princípio vê as almofadas e os lençóis. Isto se tiver os olhos abertos.
Ela - Retiro o "Santa Inocência", pronto.

5.01.2011

pensamentos catatónicos (242)

O Amor é o tempo

O comboio está atrasado vinte minutos. Pergunto-lhe se ela quer ir tomar um café e ela pergunta-me para quê. Para passar o tempo, respondo. O tempo passa na mesma, diz ela. E tem razão. Fico a contar os segundos que vão passando enquanto o vento lhe serpenteia os cabelos como se estivesse a tentar dançar com eles. É bonita, e zango-me comigo mesmo por a minha primeira opção para passar o tempo ser ir tomar um café e não ficar a olhar para ela. Ainda bem que não fui. Ainda bem que não fomos.
O tempo é a prenda da vida, e às vezes ajo como se estivesse sempre a tentar gastá-lo. Nem o chego a desembrulhar e a agradecer a oferta. É uma merda, ser assim. Acho que é e sempre foi o maior obstáculo ao Amor. 
Uma vez disse-lhe, com um ar cansado, que não tinha nada para fazer. Era sábado à tarde e a cidade encolhera-se num enorme silêncio perante a agressividade da chuva. Não podíamos sair a não ser para cantar o Singing In the Rain. Ela olhou para mim durante alguns segundos, não percebi se zangada ou simplesmente com pena de mim, mas percebi que tinha acabado de dizer uma coisa estúpida. Estávamos os dois no mesmo apartamento e amávamos-nos. Não termos nada para fazer era o melhor que nos podia acontecer. Calei-me e baixei os olhos derrotado pela mania que os meus reflexos têm de contornar o Amor. Ela saiu da sala e só voltou uma hora depois. Acabámos abraçados com os meus dedos a dançarem nos cabelos dela. Os mesmos cabelos que olho agora.
Estou a pensar que não lhe torno a fazer isto. Nem a ela nem a mim. Não torno a falar do tempo que é só nosso como se fosse dispensável. Porque não é. Na verdade é o tempo mais importante da minha vida. Ainda por cima não se repete, o sacana. Quero estar com ela outra vez sem nada para fazer, para poder sorrir-lhe e abraçá-la sem o meu estúpido ar de tédio.
Que merda, esta mania que o Amor tem de se esconder por trás de coisas insignificantes. Ora atrás dum café, ora atrás dum jogo de futebol ou de um filme estúpido de que nunca ouvi falar. Não o deixo mais. A partir de agora vou lembrar-me: o Amor é o tempo, o Amor é o tempo.