2.22.2012

mindelo

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Numa rua qualquer do Mindelo vou dando pontapés no que sobrou da noite anterior. Alguns copos de plástico e lixo indecifrável que o vento tenta limpar com insucesso. Sei que passei por aqui ontem mesmo, pela confusão do Carnaval Popular. É que por aqui existem dois tipos de Carnaval, um organizado e a fazer lembrar o Brasil, outro que lembra o fim do mundo, como se todos saíssem à rua para aproveitar os últimos dias de vida.
Foi nesse fim do mundo que uma mulher me tentou beijar à força, que um local me mandou voltar para a minha terra  e fez questão de me dizer que odeia os portugueses de merda, que outro me abraçou e insistiu que era o meu melhor amigo. Os sentimentos contrários misturaram-se nesse cocktail de grogue, mãos que pediam e que davam, olhares furtivos que fui tentando entender.
Numa rua qualquer do Mindelo vou dando pontapés no que sobrou da noite anterior. Reparo num resto de pano verde que adormeceu abraçado ao tronco duma árvore e lembro-me de o ter visto a vestir uma mulher de cujos olhos não me esquecerei. É da cristalização dessas lembranças frugais que se alimentará a minha memória desta terra. Delas, da simpatia quente da maior parte dos caboverdianos, e de ter aqui estado tão apaixonado como nunca pela mulher da minha vida, porque o Amor é sempre o ingrediente principal de qualquer viagem. Aqui, como noutro sítio qualquer.

Ilda d'Cais

Conheci a Ilda d'Cais, uma senhora que imediatamente me convidou para jantar cachupa em casa dela e da sua família numerosa. A porta da casa está sempre aberta, para que qualquer um dos seus ainda mais numerosos amigos possa entrar e sair a qualquer altura.
Ter sempre a porta aberta é uma demonstração de Amor. E eu, que não consigo ser como esta senhora, percebi que ela sente por todos aquilo que eu sinto apenas por quem Amo. Se não na forma, pelo menos na intensidade. Agradeço-lhe a lição.

12 comentários:

Maria disse...

Lições dessas são sempre para agradecer, de coração.

Blair Randall disse...

estiveste lá...
como eu queria ter estado por lá tb :)

espero que tenhas guardado na memória todas as coisas boas que a cidade tem para oferecer como eu!

xoxo***

Lianita disse...

Já estava com saudades dos teus posts!
Obrigada por dares o ar da tua graça mesmo estando de férias :-)

O post está estupendo (como sempre)

Fatyly disse...

Ver contrastes de um povo afável ao lado de quem se ama é sempre uma fortificação interior, e tal como os angolanos:) cuja porta está sempre aberta:)

Quanto ao que te disse "que odeia os portugueses de merda" é uma minoria...por cá é uma constante ouvir a velha frase "odeio-te preto de merda e vai para a tua terra"...só que a terra dele ou deles é mesmo Portugal.

Estão felizes e absorver tudo e isso é muito bom!

Anónimo disse...

"e fez questão de me dizer que odeia os ..."
Não te trates, não...

"Ilda d'Cais"
Depois do pior, o melhor. Estás com sorte.

EJSantos

► JOTA ENE ◄ disse...

ººº
Escrita intensa. O Jota gostou da cadência deste texto. Excelente tom narrativo.

bagaco amarelo disse...

maria, obrigado. :)

blair randall, cheguei agora mesmo. amanhã, em princípio, falo mais de Cabo Verde. Há tanto para falar. :)

lianita, obrigado. cheguei agora mesmo. :)

fatyly, ouve-se esse tipo de coisas um pouco por todo o mundo... :)

ejsantos, foi tudo positivo. :)

jota ene, obrigado. :)

Nina... disse...

Tão bonito de se ler...

OBS: Aqui no Brasil é um tanto comum estar a andar pela multidão e a cada 5 passos ser surpreendido por beijos,e beijos,e beijos.Mas como é carnaval mesmo,ninguém se importa!=)

Anónimo disse...

Olá, Olá!!!
Está na nossa ilha!!! Aproveitá bem esse ilha sab de mund!!!
Bijim li di Lisboa de Gi e JoManel

bagaco amarelo disse...

nina, é o mesmo... :)

anónimo, já cá estou. :)

hildmel disse...

É tão bom ler o que os outros percebem de nós :) mesmo havendo multiplas realidades dentro do cabo-verdiano.

Espero que tenhas disfrutado o meu Mindelo!

bagaco amarelo disse...

hildmel, desfrutei pois, e a ver se o torno a fazer um dia... abraço. :)