2.02.2012

guardanapos

Apercebeu-se que gostava dela durante as compras num supermercado, ao discutir a cor dos guardanapos de papel que iam utilizar no jantar. Ela queria uns brancos mais baratos, ele queria uns surpreendentemente pretos. Duas douradas enormes, uma garrafa de vinho e um ramo de salsa já estavam no cesto. Faltavam apenas os guardanapos, de que se tinha lembrado ao estacionar o carro lá fora.
Conheceu-a algumas semanas antes, numa festa de amigos comuns. Todos beberam muito nessa noite, menos eles os dois, que ficaram a noite inteira a conversar na varanda com os copos de vinho vazios. Foram os últimos a sair e, quando se despediram, não trocaram os números de telefone nem beijos, apesar da vontade que ambos tinham de o fazer. Nesse dia cruzaram-se ao fim da tarde numa avenida da cidade e ficaram a conversar sentados numa paragem de autocarro, até ele a convidar para jantar lá em casa. Ela aceitou à primeira.
Ele sabe que só consegue ter discussões sobre temas banais com mulheres que é capaz de Amar, nem que seja por uns momentos. É sempre assim que detecta uma possível paixão, discutindo coisas sem interesse mas com o maior dos empenhos, tal como aconteceu enquanto os peixes assavam no forno. Primeiro falaram sobre vinhos, depois sobre as cidades de que gostam mais, sempre com os lábios de ambos cada vez mais próximos. Por fim fizeram Amor.
Começaram na cozinha e acabaram na chaise long da sala, com a roupa espalhada pelo chão como testemunha dos acontecimentos. Os quatro sapatos e a camisola dela na cozinha, a camisa dele e a camisola interior dela no corredor, as calças dele e o sutiã dela à entrada da sala. Finalmente, já junto ao ninho do pecado, toda a roupa que faltava.
Ele lembra-se que ao vir-se lhe cheirou a queimado, mas achou normal dada a fricção dos acontecimentos. Há momentos em que o cérebro humano é incapaz de prolongar um pequeno pensamento que seja, e por isso pode fazer associações surreais. Só ao acordar, duas horas depois, é que percebeu tudo. Ela já não estava, mas num dos guardanapos tinha deixado o seu número de telefone e um aviso de que a dourada estava queimada. Ah! e que é por isso que os guardanapos brancos são uma escolha melhor. Dão para escrever avisos e deixar números de telefone.

13 comentários:

São Rosas disse...

Genericamente genial e com detalhes preciosos.

bagaco amarelo disse...

são rosas, lol. é o cheio a peixe... :)

São Rosas disse...

Pois... como ela não comeu, ficaste cheio... de peixe queimado :O)

bagaco amarelo disse...

são rosas, eu cá é que não... eu lá ia deixar estragar duas douradas... :)

Anita Garcia disse...

Extraordinário!!
Mas há bonitos guardanapos brancos! Especialmente depois de escritos :)

Maria disse...

Duas douradas muito bem queimadas. Assim vale a pena deixar queimar o peixe. :))

São Rosas disse...

Só se estragam as que caem ao chão :O)

bagaco amarelo disse...

anita garcia, pois há... os guardanapos deviam ser património mundial. :)

maria, :)

são rosas, lol. :)

Poison disse...

eu também queria que se lixasse o cheiro a queimado... pedia-se pizzas.

parabéns pelo texto cativante! :)

Anónimo disse...

GE-NI-AL!

Adorei.

EJSantos

bagaco amarelo disse...

poison, obrigado. :)

ejsantos, obrigado. :)

Fatyly disse...

Além do recado (os brancos servem para tudo) ainda foi simpática em ter desligado o fogão, caso contrário seria dePILAção total...minha nossa...e assim ficaste com as douradas bronzeadas e come-se à mesma:):):)

Gostei imenso

bagaco amarelo disse...

fatyly, lol lol lol... dePILAção... :)