10.07.2011

respostas a perguntas inexistentes (182)

um bocadinho
Ela dizia que gostava do meu café, aquele que eu fazia numa cafeteira velha herdada da minha avó. Sentava-se na mesa da cozinha com um cigarro na mão, ansioso por ser fumado, à espera que eu lhe enchesse a caneca estalada. Depois bebia-o em goles tão pequenos que me parecia impossível que um dia chegasse ao fim. Mas chegava sempre. E como eu sabia que o meu café era igual a qualquer outro, acreditava que o que ela queria dizer era que gostava um bocadinho de mim.
Quando não estamos apaixonados por outra pessoa mas gostamos um bocadinho dela, dizer que gostamos do café que ela faz é uma maneira de lhe agradecermos a existência. Assim, sem assumir uma responsabilidade demasiado grande pelo que se diz. E eu respondia-lhe sempre que o café era bom, não por minha causa mas por causa da cafeteira da minha avó. Depois ela ia fumar para a varanda e eu ficava dentro de casa, encolhido pela evidência de ter conhecido mais uma mulher que gostava um bocadinho de mim e de quem, na verdade, eu também só gostava um bocadinho.
Depois duma separação nunca se gosta muito de alguém. Gosta-se um bocadinho, aqui e ali, num processo terapêutico lento para que um dia se consiga Amar outra vez. Foi essa a importância da Márcia, que também se tinha divorciado pouco tempo antes e também estava de férias quando a conheci. Eu estava parado na margem duma estrada qualquer a encher-me do silêncio dum rio e ela veio do nada pedir-me água para lavar as mãos. Colocou-as em concha e eu verti generosamente da que estava a beber. Esfregou-as uma na outra com vivacidade e depois sentou-se ao meu lado. Ficámos ali algumas horas a cuspir palavras sobre nós, como se quiséssemos dizer quem éramos sem contar o que nos tinha acontecido.
Gostei dela nesse dia e nos dias que se seguiram. Um bocadinho só, mas gostei. Por isso é que lhe fiz café.

11 comentários:

Fatyly disse...

Depois de uma derrocada...são esses "bocadinhos" que nos aparecem de mil formas, que devem ser absorvidos...lentamente...numa de assentar a poeira!

Não há relação nenhuma que vingue...sobretudo aquelas tipo vingança ou mostruário de que...enquanto nos encontramos debaixo dos escombros emocionais.

E como descreves tão bem algo da máxima importância. Parabéns já está gasto...dir-te-ei...nunca desistas destas tuas psicanálises:)

bagaco amarelo disse...

fatyly, obrigado. :)

Malena disse...

Mas são consoladores para ambos, esses bocadinhos! :)

bagaco amarelo disse...

malena, então não são? :)

Anónimo disse...

é um dos caminhos que se pode percorrer nesa fase. mas sempre ilusório, para quem quer esquecer o que não deve ser esquecido, porque o tempo encarrega-se de fazer renascer o amor, e não precisa da nossa mãozinha...

bagaco amarelo disse...

anónimo, a nossa mãozinha está lá, precise ou não... :)

Poison disse...

depois de uma separação temos sempre que voltar a aprender a amar, como se fossem os primeiros passos... e gostar-se um "bocadinho" de alguém é como alguém que volta a dar pequenos passos até conseguir caminhar com firmeza novamente...

Adorei o texto... Extraordinário!!!

Porque um dia me perdi... disse...

Esse bocadinho que se gosta é o máximo que se pode dar depois da "tempestade". São memorias boas que ficam....tipo sol que nos aquece em tarde de Outuno

bagaco amarelo disse...

poison, concordo. obrigado. :)

porque um dia me perdi..., obrigado. :)

Carmo disse...

É bem verdade, depois duma separação é dificil voltar a amar. Comigo aconteceu e já lá vão 4 anos. `As vezes dou por mim a pensar como resolver este problema, é que nunca mais consegui achar graça fosse a quem fosse... mas é que nem para um cafezinho!

:|

bagaco amarelo disse...

carmo, o cafezinho é um bocadinho. para mim foi muitas vezes. :)