10.03.2011

respostas a perguntas inexistentes (181)

fiatlux
Não me esqueço de ninguém nem de nada. Está toda aqui na minha cabeça, a minha vida e a pessoas que fazem ou fizeram parte dela, por um segundo que tenha sido. Basta-me um sinal qualquer e recordo uma situação antiga como se fosse hoje. Vivo-a, portanto. Ainda bem.
Há muito tempo que não faltava a luz em minha casa, um apartamento perdido entre tantos outros nos subúrbios de Aveiro. Desta vez fiquei às escuras e fui procurar a lanterna que funciona a energia solar. Encontrei-a rapidamente, que por ser solar está sempre numa das janelas a olhar para o Sol. Depois, sentado no sofá da sala, pus-me a brincar com as sombras dançantes ao som do tímido foco de luz, recordando simultaneamente outras sombras, aquelas que dançavam nas paredes da casa onde cresci.
A minha mãe tinha sempre velas num armário da cozinha. Quando faltava a luz acendia várias, umas na outras sucessivamente para poupar nos fósforos, e colocava-as em sítios estratégicos para que fosse possível caminhar. Uma na casa de banho, outra na entrada, outra na sala e outra na cozinha. Normalmente sobravam sempre duas ou três volantes. Eram essas as únicas noites em que o televisor se calava e as palavras se tornavam o mais importante. O meu pai a dizer que quando era criança era sempre assim, a noite e um candeeiro a petróleo; o meu avô a confirmar com uma saudade que eu não percebia mas sentia; a minha mãe a chamar constantemente pelos filhos todos, como se eles se pudessem perder na escuridão que povoava o apartamento.
Há muito tempo que eu não conversava assim com ninguém. Só que agora sou adulto, e à falta do meu pai e da minha mãe conversei comigo mesmo. Não estava mais ninguém em minha casa, mas na verdade também não me tenho feito muita companhia às claras. Talvez por falta de tempo, o tempo que apareceu num corte da energia eléctrica. No nada.
Foi assim, ou quase sempre assim, que me nasceu nos lábios a palavra Amor. No minimalismo da noite, digo. Sem televisor, sem música, sem livros. Às vezes também sem roupa. Os ambientes estéreis são os mais fecundos para a palavra Amor, pensei. Como se a paixão fosse um oásis qualquer. É assim contigo, por exemplo, que quando estás comigo o mundo é um deserto árido.
Depois fez-se luz.

12 comentários:

cycle disse...

Poças, quase que fiquei cansada ;)

bagaco amarelo disse...

cycle, :)

$hort disse...

Giro, pensar que no principio era o verbo...

E o verbo era: Amor

Dexter disse...

Adorei o texto, principalmente porque me revejo nele. Mais no início do que no fim, mas não deixo de me identificar :)

AC disse...

Sabe tão bem de quando em vez, desligarmos a luz que nos rodeia e pararmos para olhar para dentro de nós e para a nossa luz interior...repensarmos escolhas e recordarmos o passado:)

bagaco amarelo disse...

$hort, como Amor também gosto mais do verbo. :)

dexter, :)

ac, :)

Fatyly disse...

Lindissimo e tiro-te o meu chapeú!

Anónimo disse...

a infância é um tempo em que somos felizes e não sabemos!
maravilhoso! e apetece lá voltar muitas vezes, quando chegamos à " brilhante " conclusão que o mundo é de doidos!! só dos doidos!!

bagaco amarelo disse...

anónimo, é que é isso mesmo. :)

bagaco amarelo disse...

fatyly, obrigado. :)

memyselfandi disse...

Também me lembro de passar alguns serões assim, em criança, quando não havia luz e tínhamos de acender velas. Conversávamos muito mais e era bem giro! Recordo que até o sono chegava mais serenamente e adormecia com uma paz especial, não sei explicar bem. =)

bagaco amarelo disse...

memyselfandi, :)