11.29.2010

conversa 1649

(na rua)

Eu - Olá! Há tanto tempo. Estás bem?
Ela - Mais ou menos. Deixei de fumar há uns meses e estou a engordar muito. O meu marido já me começou a mandar bocas, que se calhar era melhor não ter deixado de fumar e isso. Não é só por eu estar a engordar, é porque ele também fuma e agora eu não consigo estar muito tempo perto dele para não me deixar cair na tentação. Além disso ando mais ansiosa e com os nervos à flor da pele. Até já me chateei no emprego e tenho que ter cuidado porque estou a recibos verdes e um dia destes ainda vou para a rua. O meu patrão até é porreiro mas, como se divorciou há pouco tempo, também anda mal com a vida e não está para brincadeiras, percebes? Ainda ontem tive que sair mais cedo para ir ao psiquiatra e ele não me queria deixar. É assim, só stress. E tu, estás bem?
Eu - Estou.
Ela - Ok! Tenho que ir andando. Vemo-nos por aí um dia destes.
Eu - Tchau!
Ela - Tchau!

tempestade

Lembro-me dela como de açúcar, que a sua presença me adoçava os dias amargos da solidão. E é assim que penso neles, nesses dias em que contava uma a uma as gotas de chuva que iam morrendo num voo suicida sobre as janelas da marquise. Dias amargos entre dois mundos: o mundo interior da minha casa e o mundo exterior da minha casa. Da imensidão do mundo exterior recebia às vezes a visita dela, e esses momentos eram os únicos em que eu não contava as gotas de chuva na janela. Ficava a ver os seus dedos finos a abraçar uma chávena de chá acabado de fazer para se aquecerem e a responder às suas perguntas. As nossas conversas eram sempre assim, com ela a perguntar e eu a responder preguiçosamente.
A minha preguiça, no entanto, não era uma fuga à sua presença. Antes pelo contrário, era uma forma de a prolongar. Esticava as palavras e temperava-as com um ou outro suspiro para render mais. Chegámos a estar tardes inteiras assim, com ela a perguntar e eu a responder, ela a perguntar e eu a responder, ela a perguntar e eu a responder. Fiquei a saber que podemos conhecer um pessoa não pelas respostas que dá mas sim pelas perguntas que faz. Tanto, que numa dessas tardes me apaixonei.
Quando estamos apaixonados queremos fazer amor, e quando queremos fazer amor as palavras deixam de o ser de facto. As nossas, para mim, passaram a ser um empecilho entre a marquise e a cama, e fui ganhando ciúmes até da chávena de chá onde ela aquecia as mãos. Depois, como o amor é sempre uma tempestade, deixei também de conseguir contar as gotas de chuva que se multiplicavam na janela quando ela não estava. Acho que foi num desses dias que ela não veio pela primeira vez. Talvez tenha tido medo da minha paixão, não sei. Nunca mais a vi.
Só um destes dias é que tornei a vê-la, por acaso, no formigueiro que era um dos centros comerciais da cidade. Convidei-a para tomar café. Ainda aquece as mãos frias nas chávenas quentes e acho que pela primeira vez foi ela a responder-me. "Lembras-te de mim?", perguntei-lhe como quem tem noção de que, fazendo parte de um mundo menor, possa ter sido esquecido. "Ia perguntar-te o mesmo", disse ela.

11.26.2010

conversa 1648

(depois do jantar, com vinho nos copos, quando eu me preparava para começar a limpar o fogão)

Ela - Está quieto!
Eu - Vou só limpar o fogão e não faço mais nada. É só para esta sujidade não secar...
Ela - Eu sei, mas estás a limpar o fogão com um tira-nódoa para roupa.
Eu - Olha, pois estou. A forma da embalagem é igual à do desengordurante que uso para o fogão.
Ela - Lá está, és homem.
Eu - O que é que isso tem?
Ela - Só ligas à forma. Se te importasses em ler o que passa pela tua vida não te tinhas enganado.
Eu - Foi um gesto instintivo. Mais nada.
Ela - Talvez sim, mas é assim em tudo. Os homens só ligam a uma mulher se gostarem da forma dela, as mulheres gostam de ler o homem antes de se deitarem com ele.
Eu - E achas que os homens são todos assim?
Ela - Na verdade acho.
Eu - Se os homens são todos iguais então as mulheres são burras. Pelo menos na tua opinião.
Ela - Porquê?
Eu - Passam a vida a ler os homens apesar de eles serem todos iguais. É como ler o mesmo livro repetidamente a vida inteira.
Ela - Bem, também ligamos à forma, pronto. Mas pelo menos tentamos dar um enredo à coisa.
Eu - São líricas, portanto.
Ela - Sim, é mais ou menos isso.
Eu - Então vamos dar uma de lirismo e acabar a garrafa de vinho do jantar.
Ela - Vamos, até porque no vinho a forma não interessa. As garrafas são todas iguais. Interessa é o sabor, o aroma e a textura.
Eu - Hum... não sei porquê mas isso já me parece mais com o que um homem pode procurar numa mulher: sabor, aroma e textura.
Ela - Pois... uma mulher num homem também.
Eu - É tudo igual independentemente do género, não é?
Ela - É. Quer dizer... quase igual.
Eu - Quase?
Ela - Nós somos mais... mais... mais...
Eu - Mais teimosas?
Ela - Pelo menos isso.

conversa 1647

Ela - Cheguei à conclusão que é possível amar tanto um objecto como um homem.
Eu - Diz lá qual foi o objecto por que te apaixonaste. Estou curioso.
Ela - Por nenhum.
Eu - Por nenhum?
Ela - Por nenhum mesmo. Passei foi a ver o meu marido mais como um objecto do que como um homem.
Eu - Mas... como?
Ela - Não me interpretes mal. Há objectos antigos dos quais não me consigo livrar porque gosto muito deles. Só que normalmente esses são os objectos que já não servem para nada a não ser como... sei lá... decoração.

11.25.2010

cinema

O sexo tem velocidade, ou melhor, tem velocidades. Há sexo mais rápido e sexo mais lento, e isso lembra-lhe ao que se resumia a sua opinião sobre o cinema quando era criança. Alguns filmes eram lentos, outros eram mais rápidos. Normalmente preferia os filmes rápidos e quando a televisão emitia um filme lento ela protestava. Dizia que “o filme era muito parado”.
Com o sexo também foi assim. Preferiu sempre o sexo mais rápido do que o sexo mais parado. Os motivos é que são diferentes. Quando via filmes na televisão em pequenina era a receptora e exigia essa velocidade do emissor. Queria romance. No sexo, sem perceber como, habituou-se a ser ela a emissora e o marido receptor. No fundo ela estava ali para lhe agradar, e por isso é que imprimia a velocidade. Às vezes até dizia coisas que não sentia, como “gosto quando és bruto!” ou lhe pedia para a dominar.
Por isso é que ainda não adormeceu e já a noite se dissolve na doce luz da manhã que se vem deitar ao lado dela. Ontem deitou-se pela primeira vez com um desconhecido com que se cruzara por acaso no bar do hotel. Sexo descomprometido, que na conversa de engate durante uma margarita ambos se disseram casados e ambos abanaram os ombros sobre o barómetro da felicidade dos respectivos casamentos. Nem sequer sabiam se tinham um casamento feliz ou ou casamento triste. Depois, só por acaso, as mãos de ambos tocaram-se no botão do elevador e já não se separaram mais. Fora assim, dadas, até um dos quartos. Por sinal o dela.
Ali pisaram a fronteira da legalidade com um primeiro beijo tão brando quanto o fim do voo duma ave. Depois, a fronteira da legalidade tem a mania de ser assim: só custa a transpor a primeira vez. Fizeram amor como exploradores que esquadrinham a área a Lua pela primeira vez. Devagar, e com interesse por cada centímetro quadrado do corpo. E, tal como na Lua, sentiram a falta de gravidade e voaram. Ele dentro dela e ela dentro dele. Tão devagar que o sono ainda não passou por ali. Até agora, que ele saiu deixando nos lençóis apenas o calor do corpo. Ela fecha os olhos. Se calhar tem que rever o filme da sua vida.

conversa 1646

Ela – Achas que o Júlio e a Sandra têm uma relação não assumida?
Eu – Não acho nem deixo de achar. Porquê?
Ela – Andam sempre os dois juntos...
Eu – Não acho que o facto de um homem sair com uma mulher signifique obrigatoriamente que tenham uma relação.
Ela – Esse é que é o teu problema.

conversa 1645

Ela - Já tiveste sexo com alguma mulher de quem nem sequer te lembres?
Eu - Não sei.
Ela - Não sabes?
Eu - Se tive, não me lembro.
Ela - Não é isso. Estou a falar duma situação em que te lembras que tiveste sexo mas não te lembras bem com quem.
Eu - Que raio de pergunta...
Ela - É que queria perceber porque é que um tipo com quem estive há um mês atrás não me telefona nem me atende o telefone.
Eu - Há um mês atrás?
Ela - Sim, acho eu. Já não me lembro bem...

pensamentos catatónicos (223)

Ele está na janela da sala. Observa as mulheres que passam na rua e pensa que se podia apaixonar por cada uma delas, se por acaso o destino alguma vez o cruzasse com elas.
Ela está sentada no sofá. Observa-o a ele e sabe que, se por acaso nunca o tivesse conhecido, ele seria apenas mais um por quem passaria eventualmente na rua. E se passasse o mais provável era nem reparar nele.

11.24.2010

conversa 1644

Ela - Tenho que deixar de comer torradas com manteiga ao pequeno-almoço, pá.
Eu - Então?
Ela - Tenho que ter cuidado com o colesterol.
Eu - Ah! Fazes bem, nós somos mesmo aquilo que comemos.
Ela - Pois somos, eu que o diga. Ando a comer um colega do escritório desde o princípio do mês e ando toda alterada com isso.

11.23.2010

conversa 1643

(a propósito do meu pensamento catatónico 222)

Ela - Se eu morrer um dia destes fazes-me uma coisa?
Eu - O quê?
Ela - Em vez de ires ao meu funeral, juntas alguns amigos e bebem uns copos a pensar em mim.
Eu - Ah! Está bem. Isso não custa nada.
Ela - Caraças. Não custa nada?
Eu - Não. Quer dizer, não custa nada beber uns copos. Tu morreres ia custar um bocadinho.
Ela - Só um bocadinho? Vai-te lixar.
Eu - Eu disse só um bocadinho porque pensei que era isso que querias que eu dissesse. Se querias que eu bebesse uns copos era para não sofrer. Certo?
Ela - Errado.
Eu - Errado?
Ela - Errado. Era para tu sofreres muito mas a pensares que eu não queria que sofresses.
Eu - Começo a ficar com dores de cabeça com isto.
Ela - Esquece, esquece...
Eu - Já esqueci. Afinal nem sequer quero pensar na tua morte.
Ela - Ah! Assim é melhor.
Eu - Mas eu só falei por tua causa...
Ela - Não digas mais nada. É melhor. Quando falas, ou entra mosca ou sai asneira.

só sexo?

Ele decidiu fingir que adora o timbre da voz dela, mas não adora. Na verdade às vezes até o irrita, principalmente quando atinge um leque de frequências mais agudas que o faz lembrar uma mulher a ralhar com uma criança. Fê-lo de forma consciente, para não perder aquilo de que realmente gosta nela: o sexo. Ela decidiu fingir que gosta das piadas dele durante as refeições, mas não adora. Na verdade normalmente nem as percebe muito bem, já que são quase sempre sobre futebol, e do pouco que percebe até as acha estúpidas. Fê-lo de forma consciente, para não perder aquilo de que realmente gosta nele: o sexo.
Andam assim há anos, desde o deslumbramento da primeira noite na cama. A ela nunca lhe tinham feito um minete tão certo, e certo é o adjectivo que o qualifica realmente, pela pontaria e pela subtileza. Tanto, que a fez esquecer-se da língua de gato do seu ex-marido. A ele nunca lhe tinham feito um felatio tão profundo, e profundo é o adjectivo que o qualifica realmente, pela forma como ele se lembra dos lábios dela a beijarem-lhe os pêlos púbicos. Tanto, que o fez esquecer-se das constantes recusas da ex-namorada em fazer sexo oral. Desde então que estão juntos numa relação que depende exclusivamente do sexo. Quando este acabar, acaba também a relação. Algumas relações são assim, outras não. Ambos sabem disso.
É por ambos saberem disso que hoje aceitaram a mentira um do outro. Ele telefonou-lhe do escritório a meio da tarde, disse que tinha que trabalhar durante toda a noite e não podia ir dormir a casa. Ela fingiu acreditar e desejou-lhe boa sorte. Um “boa sorte” honesto até, já que sabia perfeitamente que ele ia sair para o engate. Depois de desligar desejou boa sorte a si mesma também.
Sair para o engate quando não se precisa de sexo é diferente de sair para o engate quando não se quer outra coisa. Ele percebeu isso na primeira tentativa, enquanto se oferecia para pagar, ao balcão de um botequim de esquina, uma bebida a uma desconhecida que se apressou a encostar-lhe as mamas na barriga e apertar-lhe o falo com os seus dedos de aranha. Ia perguntar se ele tinha alguma coisa no bolso ou se estava contente por a ver, mas ele não estava nada contente por vê-la. Infelizmente também não tinha nada no bolso. Pagou-lhe a bebida e foi-se embora fazer aquilo que pensara fazer por uma vez na vida com uma mulher: passear na marginal e falar. E fê-lo, só que falando consigo mesmo.
Sair para o engate quando não se precisa de sexo é diferente de sair para o engate quando não se quer outra coisa. Ela percebeu isso na primeira tentativa, enquanto apreciava os lábios dum homem a remexer um palito entre dentes com nódoas verdes de esparregado. Do peito saiam-lhe alguns pêlos arduamente penteados e da boca alguma palavras arduamente soletradas. Tens uns pára-choques fixes, cuspiu ele. Ela acabou por fugir aproveitando uma suposta ida à casa de banho. Queria, por uma vez, dar a mão a um homem e dividir o prazer de ver montras com ele, mas acabou por dar as suas próprias mãos uma à outra enquanto encostava a cabeça ao vidro duma loja abandonada.
Talvez por isso continuem os dois a dividir a vida. Ele fingindo que gosta da voz dela, ela fingindo que percebe as piadas dele. Sempre com muito sexo que, afinal, talvez não seja só isso.

11.22.2010

conversa 1642

Ela - As mulheres precisam menos de sexo do que os homens.
Eu - Como é que sabes?
Ela - Sou mulher e vivo com um homem.

conversa 1641

Ela - Ando a tentar ter uma vida social mais activa.
Eu - Acho que fazes bem.
Ela - Acho que se tiver uma vida social mais activa tenho também mais oportunidades de conhecer homens interessantes.
Eu - Pois... é possível. E o que é que andas a fazer para ter uma vida social mais activa?
Ela - Para já fiz uma lista com as minhas amigas que eu acho que são mais feias do que eu. Agora vou convidá-las, uma a uma, para sairmos uma noite destas.
Eu - Quem é que está na tua lista?
Ela - Que tu conheças está pelo menos a Márcia*
Eu - A Márcia não é...
Ela - Não é o quê? Não me digas que ela não é mais feia do que eu.
Eu - Não, não. Estava a dizer que a Márcia é bonita.
Ela - Bem... acho que é melhor riscar a Márcia e passar para a seguinte.
Eu - Qual é a seguinte?
Ela - Não digo. Começas a dizer que elas são bonitas e daqui a pouco não tenho ninguém para convidar.
Eu - Pronto. Quantos nomes tens?
Ela - Três.
Eu - Ok... ainda te restam duas amigas mais feias do que tu.
Ela - Não achas pouco?
Eu - Sei lá, não acho nada. O que é que eu hei-de achar?
Ela - Devias achar pouco.
Eu - Opá... se quiseres vou eu contigo. De certeza que a maior parte dos homens que se possa interessar por ti me acha mais feio do que tu.
Ela - Mas tu és homem. Se eu sair com um homem nenhum se vai interessar por mim.
Eu - Isso não é ter uma vida social mais activa. Isso é sair para o engate.
Ela - É?
Eu - É. Uma vida social mais activa é saíres comigo e ires conhecendo amigos meus e eu amigos teus.
Ela - Isso não quero. Prefiro o engate, então.

* nome fictício

pensamentos catatónicos (222)

Hoje o comboio onde eu seguia de manhã no sentido Porto-Aveiro atropelou uma senhora. O revisor percorreu todo o corredor central da composição para informar que a viagem ia atrasar bastante. Lá dentro, apesar da morte nos carris, a vida continuou. Uns protestavam com o atraso, outros telefonavam para parte incerta, outros liam o jornal como se nada fosse. Não sei explicar bem porquê mas esta mania que a vida tem de continuar sempre, independentemente do que nela acontece, faz-me confusão. Alguns passageiros saíam pela única porta aberta para ir ver o cadáver. Eu, que não tenho prazer nenhum em ver cadáveres, encostei a cabeça a uma das janelas e tentei adormecer. Quando a vida continua sem eu perceber porquê é o que faço: tento dormir.
Foi com a cabeça encostada ao vidro da janela que tentei visitar outros momentos em que fiz o mesmo: tentar adormecer para contornar a sôfrega e intrigante respiração da vida. Foram todos momentos em que, por uma razão ou outra, um Amor terminara ou estava em vias de terminar. Passei o resto do dia com esta transparente indisposição. Não pela morte da senhora em si, mas pelo paralelismo que estabeleci sem querer entre o fim da vida e o fim do Amor. Não é a mesma coisa, pois não?

11.19.2010

conversa 1640

Ela - Hoje não tenho ninguém para sair à noite.
Eu - E o teu marido?
Ela - Está um bocadinho chateado comigo.
Eu - Jantar fora e beber um copo num bar simpático pode ser uma boa maneira de fazer as pazes com alguém.
Ela - Bem... ele está muito chateado comigo.
Eu - Mas está assim tanto que nem as pazes quer fazer?
Ela - Para ser sincera ele está é amuado comigo.
Eu - Mas o que é raio aconteceu?
Ela - Perguntei-lhe se ele não era capaz de se despachar.
Eu - Despachar?
Ela - Sim, durante o sexo.
Eu - Ah!
Ela - Eu já estava satisfeita e ele nunca mais acabava...
Eu - Ah!
Ela - E estava quase a começar um programa de televisão que eu queria ver...

11.18.2010

conversa 1639

Ela - Ando há que tempos para explicar ao meu marido que preciso de vida própria.
Eu - Não tens vida própria?
Ela - Acho que o facto de viver com ele e praticamente já não fazer nada sem ele está a matar lentamente a nossa relação. A única coisa que faço sem ele é trabalhar no escritório...
Eu - Eu percebo isso perfeitamente.
Ela - Percebes?
Eu - Percebo.
Ela - Mas há uma vantagem nisto tudo.
Eu - Qual é?
Ela - Não odeio completamente o meu trabalho. Na verdade até começo a gostar de ir trabalhar.

são só palavras...

...para informar que hoje à noite no Clandestino Bar, em Aveiro, os Couscous Prosjekt vão passar música toda a noite. A mariana também vai...

11.17.2010

conversa 1638

Ela - O ciúme que um homem tem é maior quanto mais inseguro esse homem é.
Eu - De certeza?
Ela - Sim, o meu marido anda muito ciumento, e isso tem a ver com o facto de estar a ganhar uma barriguinha e de ainda haver homens que olham para mim na rua...
Eu - Acredito que haja homens a olhar para ti na rua, não acredito é que ele esteja inseguro.
Ela - Está, está. Não o assume mas eu noto.
Eu - E tu? Nunca tens ciúmes?
Ela - Tenho, claro que tenho. Mas as mulheres não têm ciúmes por insegurança.
Eu - Então é porquê?
Ela - Quanto mais detestam a gaja que se meter com o homem delas, maior é o ciúme que sentem.

mataram o pião

Lembro-me de ter que pôr as duas mãos em cima do velho balcão de madeira da loja e içar-me para conseguir ver os vários piões que o senhor Chico punha à minha disposição. Depois pegava neles deixando-me cair no chão para os poder observar ao detalhe. Fazia isto um a um antes de escolher o pião ideal. À noite, o meu avô observava-o também e aprovava ou não a minha decisão.
E se cedo a minha vida com as mulheres começou a falhar (a Helena, a Teresa e a Márcia nunca me ligaram nenhuma durante o ciclo preparatório), não foi por causa da minha falta de investimento pessoal nessa primeira formar de afirmar a masculinidade. Os rapazes tinham piões, as raparigas não. E numa aula de Ciências da Natureza sobre transferências de energia em que era preciso escolher um aluno para demonstrar como se transferia a energia para o pião, fui eu o escolhido com o voto quase unânime de todas elas. Por uma vez na vida todas as miúdas, ou quase todas (raios Márcia, eras sempre tu), escolheram-me a mim para alguma coisa.
No recreio jogava-se ao Racha. Fazia-se um círculo no chão e tinha que se conseguir que o pião começasse dentro desse círculo e acabasse fora, caso contrário ficava onde estava para os outros jogadores tentarem parti-lo. Normalmente partiam-no mesmo. Depois vinham as lágrimas e um pontapé ou outro de vingança. Era um jogo viril e uma aprendizagem para a vida. Não se podia falhar.
Agora mataram o pião. Ontem os meus enteados apareceram em casa excitados com um brinquedo novo, uma coisa de plástico e metal chamada beyblade. É uma maquineta às cores que faz um pião girar sem hipótese de erro. Aquilo gira sempre, basta puxar uma espécie de cordel e já está. Depois os vários beyblades vão girando uns contra os outros até o último parar. Mais nada. Nunca se partem nem exigem o aperfeiçoamento da técnica para enrolar o cordel. É o fim do pião. É o fim de tudo.
O governo devia proibir imediatamente a importação do beyblade. Qualquer dia vemos os velhotes no parque a jogar à malha ou à petanca com peças de plástico e um contador electrónico a pilhas. Não me fodam, há coisas que não deviam mudar.

11.15.2010

conversa 1637

Ela - Mais uma amiga minha que engravidou sem querer.
Eu - Sem querer?
Ela - Sim, acho que ela e o namorado utilizam o método do "tirar fora na hora h".
Eu - Bem... deviam saber que não é um bom método.
Ela - Não deviam nada. Ela está tão feliz...
Eu - Feliz? Se calhar engravidou mas foi por querer engravidar.
Ela - Oficialmente foi sem querer, isso é que interessa.
Eu - Interessa como?
Ela - É mais bonito engravidar sem querer. Quer dizer que há tanta paixão naquele casal que nem conseguiram separar-se a tempo.
Eu - Não estás a falar a sério, pois não?
Ela - Claro que estou. Tu é que és um insensível.