6.05.2014

pensamentos catatónicos (308)

Às vezes, normalmente uma vez por semana, vou almoçar a casa dos meus pais. Fico sempre a saber que a minha mãe começou a preparar o almoço algumas horas antes, às vezes até no dia anterior. Também era assim quando eu era criança. Lembro-me de ver o bacalhau a demolhar lentamente numa grande bacia com água ou os bifes entre limão espremido e alguns dentes de alho cortados em pedacinhos.
É então que reparo que, apesar do meu humilde gosto pela cozinha, nunca preparo nada com antecedência. Quando cozinho para amigos, o máximo que faço é temperar a comida uns trinta minutos antes. Se cozinhar só para mim, nem isso.
Com o tempo perdemos o tempo, ou seja, perdemos a disponibilidade para pensar nas coisas com alguma antecedência. Só por si, a coisa pode não parecer grave. Afinal de contas vende-se bacalhau já demolhado e vinagre tão bom que tempera bem os bifes em cerca de dez minutos. É na falta de projecto que está o problema. Para a geração da minha mãe tudo era um projecto de vida, para a minha tudo é um improviso.
Às vezes tenho a sensação que este princípio se aplica a tudo. Também ao Amor, onde vamos Amando o que é possível Amar sem ensaiar muito a coisa. Dez minutos agora, vinte minutos amanhã. Só por si a coisa não parece grave. Afinal de contas os Amores vão-se digerindo como uma qualquer refeição improvisada.

12 comentários:

Cláupi disse...

Pode não estar nada relacionado com isso, pode só estar relacionado com o valor que as pessoas dão às coisas e com aquilo que as faz sentir valorizadas pelos outros. A improvisação, facilita o ganho de tempo para outras coisas, pode pensar assim, quanto menos tempo eu levar a fazer o jantar, por exemplo, mais tempo me vai sobrar depois, para o amor...
PS: Gosto muito do que escreve e algumas das suas "conversas", fazem-me rir às gargalhadas.

Til disse...

Olha eu acho que temos mães iguais,a minha mãe faz as mesmas coisas que a tua!
Porque não comentas no meu blog,eu comento no teu.Achas que o teu é melhor do que o meu?

Bagaço Amarelo disse...

cláupi, obrigado pela presença. é óptimo podermos abordar a mesma questão por ângulos diferentes. :)

til, na verdade eu não sou leitor de blogues. já fui, mas por qualquer motivo deixei de ser... e tens razão, vou mudar isso. :)

Olga disse...

Estamos na era do "fast food" e do "fast love". Somos levados a pensar que é mais prático e melhor mas saímos sempre a perder.

Til disse...

Muito obrigada!
És tu,como é óbvio,que decides o que lês e se lês e eu não tenho nada a ver com isso...
A pergunta é simples e honesta e a forma educada,civilizada (e sem prantos)como respondeste diz muitas coisas sobre ti!

Rosa Alice disse...

"Com o tempo perdemos o tempo"
Esta frase vai para a minha lista daquelas que ficam. Obrigada.

Maria Varredora Pau de Vassoura disse...

Temos a sensação que as nossas mães têm tempo para tudo, não é?
Pessoalmente acho que "aquele tipo de mãe à antiga" é sinonimo de super ultra hiper mega mulher.

Vivam as nossas mães.
( ahhh a minha é assim.)

dufas disse...

Meu problema é que tenho o projeto, mas falta a carne :-).
Aquele Abraço,
Helê

Bagaço Amarelo disse...

olga, genericamente é isso, sim. :)

til, mas é um vício que eu tive e perdi, sem explicação aparente... tenho que o recuperar. provavelmente, metade dos blogues da minha lista de links estão mortos... :)

rosa alice, obrigado. :)

Maria Varredora Pau de Vassoura, porque é mesmo assim. as mães são sempre heroínas. :)

dufas, lol. abraço. :)

Fatyly disse...

Mais um texto que dá para pensar e reflectir e que tal mudar de postura? Sei que não é fácil, mas nada impossível!

Gostei muito!

Teresa Costa disse...

É, normalmente, as questões existenciais que nos apoquentam são mais ou menos as mesmas... não entre nós dois, suspeito, mas entre todos nós, aqueles que têm a mania/privilégio de ver para além das coisas. Também já pensei nisso. Gostava desses projetos de vida, onde o tempo que se gastava nas coisas preenchia vidas. Agora é tudo tão rápido que deixámos de ter capacidade de planear e esperar. é pena, mas só nos resta inventar uma forma igualmente interessante de viver :)

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, tens toda a razão. :)

teresa costa, eu sinto mais ou menos o mesmo... tudo demasiado rápido, incluindo eu próprio... :)