6.02.2014

coisas que fascinam (171)

da minha avó

Quando se é criança e se conversa com um velho, o mais interessante é perceber que os velhos falam a olhar para o passado e as crianças para o futuro. Acho que é por isso que, pelo menos às vezes, crianças e velhos se dão tão bem. Há um ponto de encontro entre as duas gerações, ponto esse que só se encontra nessas conversas.
Na loja do meu avô, por exemplo, lembro-me de um casal de velhos que ia lá apenas para falar. Ela entrava sempre depois dele. Nunca compravam nada, mas o meu avô recebia-os todos os dias como se não os visse há muito tempo. Enquanto ele falava do passado com um entusiasmo inesgotável, ela ficava em silêncio a ouvir as histórias que tinham passado ao lado da sua própria vida. Às vezes, entre um leve abanar de ombros, lá interrompia por uns segundos sempre no mesmo tom.

- Eu aturei muita coisa! - dizia.

E o homem e o meu avô sorriam entre dentes.
Assim, fiquei sempre com a sensação de que as mulheres é que tinham abdicado de si durante a vida. Independentemente das agruras da vida, os homens falavam sempre dela como se fosse um romance. Já as mulheres nem por isso. Primeiro para não prejudicar o casamento, depois para não prejudicar os filhos e por fim para não prejudicar os netos, remetiam-se a uma vida de algum silêncio sofrido. 
É assim que me lembro da minha avó, a viver sem prejudicar ninguém, prejudicando-se a ela mesma. Conversei muitas vezes com ela, comigo a olhar para o futuro e ela a olhar para o passado, ou seja, para este tempo em que agora eu vivo e escrevo com saudades dela.
As conversas entre crianças e velhos olham sempre para um dia como o de hoje, em que rego as plantas da minha varanda com as instruções que ela me deu há trinta e cinco anos atrás, numa estufa improvisada nas traseiras dessa loja. Sempre sem prejudicar ninguém, como todas as mulheres do seu tempo.

4 comentários:

Fatyly disse...

Tão bonito, real e de uma geração em que quem mandava eram eles.
Só recordo com saudade o meu avô materno mas foi sol de pouca dura porque morreu cedo. Da minha avó não guardo qualquer recordação saudável e boa. Não me lembro dos meus avós paternos pois estavam na "metrópole".

Hoje sou avó de 4 netos e as duas mais velhas pedem-me muitas vezes para lhes contar coisas da minha infância e juventude. Mas também falamos de tudo um pouco do presente, projectado no futuro que será delas.

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, obrigado... a questão é que os avós são inesquecíveis para a vida quando são como tu... :)

Olga disse...

Adorei ler a tua história e a forma como me permitiu viajar ao mesmo tempo que lia as tuas palavras. :)

Bagaço Amarelo disse...

olga, :)