9.24.2009

respostas a perguntas inexistentes (64)

Ele pergunta-lhe o que é que ela quer e ela responde que qualquer coisa. Ele pergunta-lhe se pode ser um café e ela abana a cabeça afirmativamente num silêncio que o incomoda. Tem vivido tanto tempo em silêncio que preferia que ela falasse mais, que se decidisse mais. Ela, no entanto, desabituou-se de poder escolher o que quer que fosse na vida. Ele levanta a voz para pedir dois cafés ao empregado adormecido do outro lado do balcão.
É assim o primeiro encontro entre um homem e uma mulher, ambos divorciados, que se conheceram na internet. Ainda não têm a certeza que desejam o outro para a vida, no entanto ambos têm a certeza que desejam o outro para uma noite. O empregado pousa os cafés na mesa e afasta-se.
Enquanto mexe o café, ela mergulha o olhar na espiral de espuma que se desenha na superfície. Ele, que não pôs açúcar e já bebeu tudo num só gole, observa-a atentamente no seu prolongado e minucioso gesto. É que também já lhe observou o corpo e a ânsia para a tirar dali e levá-la para casa, talvez para a cama, cresce a cada segundo que passa.
Agora a espiral de espuma desfaz-se numa espécie de mar morto para onde ela continua a olhar. Depois pousa a colher mas, como não dá sequer o primeiro gole, ele impacienta-se de novo. Tenta apressá-la com uma pergunta estratégica: "Depois do café onde é que queres ir?". Ela levanta os olhos e encolhe-se antes de responder: "Eu, na verdade, não gosto de café".

15 comentários:

GiGi disse...

^^

bagaco amarelo disse...

gigi, :)

R. disse...

O desabituar de fazer escolhas, infelizmente, é mais vulgar do que deveria.

R.

bagaco amarelo disse...

R. , pois é... pois é... :)

memyselfandi disse...

Gostei da história. Haveria tanto para dizer... however, apetece-me dizer que o mistério que envolve esta primeira vez e esta timidez inicial é muito doce... E, se me permites, a resposta dela pode ser o mote para se dizerem um ao outro tanta coisa!

Paula disse...

está adormecida...precisa acordar.
:)

Bichana disse...

Este post foi um dedo na ferida...
Já estive na mesma situação "dela". E é do mais triste que pode existir, corrói.

bagaco amarelo disse...

memyselfandi, pode sim... claro que pode. :)

paula, é o que eu acho. até pode acordar logo a seguir... :)

bichana, é um dos sentimentos que pode surgir. :)

Bichana disse...

Peço imensa desculpa, é que não li a história convenientemente, julguei que se tratava de um casal que embora se tivesse conhecido na internet já tinha uma relação de algum tempo e que tinha caído na monotonia... ou seja, comentei num contexto diferente! Oops...

Olga disse...

Ele deixa-a à porta de casa e o carro afasta-se lentamente seguido atentamente pelos olhos dela que se fixam no fundo da rua à espera que ele decida voltar para trás num misto de ansiedade e de medo.
No dia seguinte os dois estranhos de ontem voltam a conversar como velhos amigos na net porque é muito mais fácil falar atrás do ecran.

A Tela disse...

...Tão descartável essa coisa do desejo só por uma noite, logo assim, à partida...e as pessoas, aonde é que ficam?!

bagaco amarelo disse...

bichana, lol... não peças desculpa. :)

olga, mas se calhar o interesse diminuiria. :)

a tela, concordo que é descartável... mas isso não tem que ser mau. :)

Olga disse...

Não diminuiu, desapareceu. Enquanto ele só queria mais uma novidade para passar o tempo, ela cometeu o grave erro de se permitir sentir algo mais. Pelo menos descobriu que a solidão e o vazio até nem são tão maus assim.

bagaco amarelo disse...

olga, exacto. :)

Anónimo disse...

espantoso como vão as pessoas!
como vão os encontros!

seguramente eu não queria ir para cama com ele! mesmo nesse cenário ( q não me revejo ) após o café, inventava uma desculpa e ia-me embora, excepto se tivesse a mesma vontade que ele!