9.17.2007

é só uma chávena

É só o fundo duma chávena com o resto do que já foi um café. Bebi-o enquanto estava quente, sabes? Tentei afogar nele a taciturnidade que se hospedou nos meus olhos quando, há uns dias, deixaste um cigarro silencioso a fumegar na concha a que chamamos cinzeiro e depois abanaste os ombros. Abanaste os ombros mas não foi um abanar qualquer. A atmosfera agitou-se e ventos fortes sopraram na floresta densa onde às vezes fazíamos amor. Depois os meus olhos choveram até o silêncio cobrir o cenário pós-tempestade, e deitar-se na manta morta como um lençol sobre um defunto.

É só uma chávena de café. Pouso-a na banca entre as chávenas dos cafés que bebi ontem, anteontem e nos dias anteriores. Acho que falam umas com as outras, provavelmente para gozarem comigo. Provavelmente porque estão cansadas de esperar que alguém as lave. Mas... se até o cigarro se cansou de esperar e morreu à fome negra na brancura da concha.

É só o fundo duma chávena de café. Agora só fazes o percurso do quarto para a porta da saída e da porta da saída para o quarto, como uma álgida locomotiva entre estações. Às vezes páras no apeadeiro da casa de banho e eu ouço da sala o teu silêncio feroz. Mas olha, o café é preto... e nele não posso ver o reflexo dos meus olhos. Nem sei se estou triste ou feliz. Provavelmente não estou nada. Nada mesmo. Na casa de banho tens um espelho, onde de certeza te estás a ver e onde de certeza estás qualquer coisa. Qualquer coisa não é mau, sabes? Quer dizer que existes.

É só o fundo duma chávena. Uma vez verti uma réstia de café no teu nevado corpo, tornando-me nascente dum rio negro que te serpenteou as montanhas e correu lentamente até desembocar num vale forraginoso. Contemplei a paisagem bíblica durante tanto tempo... depois sequei-te o rio até gemeres e adormeceres no Éden. E eu também. Nessa noite o leão dormiu com o cordeiro. Foi a última vez.

É só o fundo duma chávena de café, é só um rádio que fala pela trigésima vez da miúda que despareceu no Algarve, é só uma planta que rego com uma garrafa de água com uma tampa furada por uma garfo, é só um avião que risca o céu e onde eu não vou, é só uma lata de atum semiaberta no frigorífico, é só uma porta que esconde o cotão dos dias atrás dela, é só o Sol que ocupa noventa e oito por cento do sistema solar. Estás a ver? É só tanta coisa. É só que eu gosto de ti, e talvez possa salvar-te a vida se lavar as chávenas acumuladas na banca da cozinha e depois sair.

11 comentários:

Elora disse...

É só a vida que não tem nada de simples.

Joanissima disse...

(escreves realmente muito bem... é um prazer imenso ler-te...)

Um beijo.

Patrícia Manhão disse...

Eu também já tive uma concha a servir de cinzeiro....:)

Gostei muito.

Ivar C disse...

elora, é só mais isso, sim :)

joana, obrigado. :)

patrícia, eu nem fumo... mas tenho duas. :)

Patrícia Manhão disse...

na altura eu também não fumava....

Ivar C disse...

patrícia, ui... mas olha que eu não quero começar agora a fumar... pelo menos tabaco. :)

Anónimo disse...

é só o fundo de um sentimento que quer apagar o negro das memórias, com o "nevado" de um corpo quente.
...é muito mais do que uma chávena! é uma declaração...de amor ou saudade?!?
Carla

Ivar C disse...

das duas, carla. das duas... :)

Patrícia Manhão disse...

:)

Fatyly disse...

É só o rolar de sentimentos fortes e marcantes que custam a passar no folhear da vida.
Parabéns escritor.
Toma lá duas beijocas

Ivar C disse...

fatyly, obrigado. :)