8.31.2009

conversa 1310

Ela - Onde é que vais jantar hoje?
Eu - Em minha casa.
Ela - Não queres jantar comigo?
Eu - Está bem. Onde?
Ela - Na tua casa. Já tinhas dito que era na tua casa...

pensamentos catatónicos (189)

Passei este fim de semana junto ao Observatório Astronómico e da Natureza António dos Reis, em Miranda do Corvo, a fazer uma visita à floresta circundante e depois, durante a noite, a olhar para o céu através de telescópios. Primeiro acompanhado por um botânico e depois por astrónomos. É tão grande a sensação de pequenez quando percebemos o nosso real lugar no universo que acho que só é comparável à pequenez que sentimos quando o amor nos desilude. Ao pensar nisto cheguei à conclusão que uma mulher pode ser o nosso universo.

8.27.2009

conversa 1309

(no café)

Ela - Eu quero uma cerveja...
Eu - Eu quero uma cerveja e um pires de caracóis...
Ela - Não vais comer desses bichos nojentos ao pé de mim, pois não?
Eu - Eu vou comê-los aqui. Se quiseres podes afastar-te.
Ela - Nunca pus na boca coisa tão nojenta.
Eu - Acho que sim, que já puseste...
Ela (silêncio)
Eu - Só aquele Bollycao que comeste há bocadinho...
Ela - Bem... pensei que ias ser brejeiro.
Eu - Brejeiro porquê?
Ela - Porque os homens têm sempre pensamentos perversos.
Eu - Neste caso foste tu que tiveste.
Ela - Foste tu.
Eu - Foste tu.
Ela - Foste tu.
Eu - Vêm aí os caracóis... deixa-me em paz.
Ela - Quem come esses bichos nojentos só pode ser perverso.

conversa 1308

Ela - Não contes o que eu te disse a ninguém, está bem?
Eu - Está bem.
Ela - Ou então conta mas diz que é para não contar a mais ninguém...
Eu - Ahn?
Ela - É óptimo quando todas as pessoas sabem coscuvilhices e fingem que não sabem...
Eu - Pois... é sempre assim, não é?
Ela - É. Hi!, hi!, hi!

8.26.2009

conversa 1307

Ela - Não sei lá muito bem o que é que queres dizer com isso de seres socialista...
Eu - Isso é por causa da História.
Ela - Que História?
Eu - Da História. O século passado alterou o significado de Socialismo por causa dos erros cometidos na União Soviética, na China, em Cuba e assim... acho que o desafio hoje é precisamente esse: devolver o significado verdadeiro à palavra Socialismo que, aliás, é extremamente simples...
Ela - Pronto, está bem, está bem... agora cala-te. És tão chato quando começas com essas coisas...
Eu - Tu é que perguntaste.
Ela - Às vezes pergunto só para te fazer a vontade... mas hoje não consigo mais, está bem?

como ele e ela se deitam...

ele:
1] Senta-se na cama, desaperta os sapatos e atira-os para um canto do quarto. Depois faz o mesmo com as meias, com as cuecas, com as calças e tenta acertar com a camisola na cadeira.
2] Adormece.

ela:
1] Descalça-se e alinha os sapatos no armário ao lado dos outros pares.
2] Tira as calças, tenta definir melhor os vincos da mesmas e pendura-as num cabide.
3] Pergunta-lhe a ele se já está a dormir e se não toma banho. Ele não responde.
4] Tira as meias e as cuecas e leva-as, juntamente com as cuecas e as meias dele, para a máquina de lavar roupa.
5] Tira a camisola e pendura-a noutro cabide.
6] Pergunta-lhe a ele se já está a dormir e se não toma banho. Ele não responde.
7] Vai lavar os dentes e lavar-se.
8] Põe cremes hidratantes no corpo todo.
9] Pergunta-lhe a ele se já está a dormir e se não toma banho. Ele não responde.
10] Deita-se e pega no livro que anda a ler.

ele:
3] Acorda e tenta fazer amor com ela.

ela:
11] Diz-lhe que ele tem que ir tomar banho.

ele:
4] Vai tomar banho com o pénis erecto.

ela:
12] Aproveita para ler o mais possível do seu livro enquanto pode...

respostas a perguntas inexistentes (63)

Ela diz-lhe que está cansada e ele responde-lhe que então é melhor descansar. Aquela resposta cansa-a ainda mais. Ele não percebe que há vários tipos de cansaço e que ela está a falar de uma variante de cansaço que a está a afastar dele. Lentamente. É aquele cansaço que faz com que os dias pareçam sempre iguais e que torna os beijos insossos. Ele pergunta-lhe se ela não vai dormir e dá-lhe um beijo de boa noite. Ela abana os ombros e comprova que o beijo dele já não tem sabor.

conversa 1306

(ao telefone)

Ela - Queres vir cá a casa tomar um café? Já não falamos há tanto tempo...
Eu - Boa ideia. Passo aí por volta das onze...
Ela - Não... passa mais cedo. Se puderes às dez é melhor.
Eu - Às dez vai ser difícil. São nove e meia e ainda nem jantei.
Ela - É que às onze, mais coisa menos coisa, começa o Caminho das Índias.
Eu - O caminho de quê?
Ela - É uma telenovela...
Eu - Não vou fazer vinte quilómetros de carro para chegar aí e tu ficares a ver televisão.
Ela - Por isso é que devias vir às dez.
Eu - Mesmo que pudesse estar aí às dez, que dizer... às onze mandavas-me embora porque querias ver a telenovela.
Ela - Não te mandava nada embora. Podias ficar a na internet enquanto eu via a novela e depois continuávamos a conversa...

8.25.2009

conversa 1305

(no supermercado, com uma senhora que queria passar à minha frente na fila de pagamento)

Ela - Não me deixa passar? É que eu só tenho estes tomates para pagar...
Eu - Eu também só tenho estas cervejas...
Ela - Mas eu só tenho estes tomates...
Eu - E eu só tenho estas cervejas...
Ela - Mas à sua frente, essa menina tem mais coisas...
Eu - Pois tem... e como está à minha frente tem o direito de as pagar antes de mim. Depois dela pago eu e depois de mim paga a senhora.
Ela - Pronto....
Eu - Pronto...

a lei afegã vs a lei portuguesa

O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, aprovou uma nova lei para os muçulmanos xiitas que permite que os homens castiguem com a privação de alimentos as suas mulheres, caso estas lhes neguem o direito à satisfação das suas necessidades sexuais.
Acho que o presidente de Portugal devia fazer o mesmo, sinceramente, mas trocando os géneros. Se um homem não satisfizesse as necessidades sexuais da mulher ela deixava de cozinhar para ele.
É que se no Afeganistão é suposto que as mulheres dependam totalmente dos homens, em Portugal a maior parte dos homens depende das mulheres no que diz respeito à cozinha. Eu, por exemplo, para não deixar de comer de vez os carapaus grelhados e o caldo verde que a minha companheira faz de vez em quando, até Viagra tomava se fosse preciso.

8.22.2009

conversa 1304

Ela - Estou sem fome. Tenho que jantar que é para depois podermos ir beber um cerveja mas estou sem fome...
Eu - Vou ali comprar um peixinho para cozer, pode ser?
Ela - Já te disse que estou sem fome. Não me chateies.
Eu - Também disseste que tens que comer qualquer coisa.
Ela - Qualquer coisa não tem de ser peixe.
Eu - Mas então diz-me o que queres que eu não consigo adivinhar.
Ela - Ok, pode ser peixe...
Eu (só em pensamento) - Foda-se!

8.21.2009

conversa 1303

Ela - Olha... o que é que tens?
Eu - O que tenho, como?
Ela - Pareces um bocado triste...
Eu - Não... não me sinto triste.
Ela - Mas pareces.
Eu - Mas não estou.
Ela - Pronto. É estranho porque pareces...
Eu - Se estou a dizer que não estou é porque não estou.
Ela - Se estou a dizer que pareces é porque pareces.
Eu - Então pareço mas não estou.
Ela - Não sei... normalmente quando se parece é porque se está.
Eu - Mas eu não estou.
Ela - Podes estar e não sabes.
Eu - Quando se está triste sabe-se que se está triste.
Ela - Nem sempre...
Eu - Quando é que não se sabe?
Ela - Sei lá... às vezes... mas não te enerves.
Eu - Eu não estou nervoso.
Ela- Mas pareces...
Eu - Mas não estou. Se estiver é porque me enervaste agora.
Ela - Vês? Estás nervoso e estavas a dizer que não. Se calhar também estavas triste e a dizer que não.
Eu - Deixa-me um bocado...
Ela - Eu deixo... mas tenho razão.
Eu - Foda-se! (só em pensamento)

acho que é sempre assim ou quase assim...

Onde é que está o livro que ando a ler? A pergunta surge-me enquanto dou passos lentos no corredor duma casa que não é minha, a ver se ganho tempo para decidir para que divisão devo ir. É que não me é óbvia a decisão.
Acho que é sempre assim ou quase assim. Conhece-se uma mulher bonita que se convida para uma cerveja. Depois descobre-se que ela sorri bastante e que para falar com ela não é preciso respigar assuntos nem palavras. Vem mais uma cerveja e os olhares, que até então se evitavam, arrostam-se cada vez mais. Depois, já na rua, dão-se as mãos como um princípio do corpo.
Acho que é sempre assim ou quase assim. O corpo e a noite. Estamos numa cama que não conhecemos bem e por isso reparamos com mais intensidade no enquadramento nocturno da janela do quarto. É estranho, o nosso mundo mudou totalmente numa noite mas lá fora continua tudo igual: a Lua, as nuvens, os telhados e o ruído dos automóveis que pontilham a noite com faróis perdidos. Para o mundo ainda é segredo que nos estamos a apaixonar.
Acho que é sempre assim ou quase assim. De manhã ao acordar não sabemos se foi apenas mais um queca fortuita, por isso fechamos os olhos de novo para poder sonhar nessa incerteza. O toque do despertador não foi igual ao que estamos habituados. A estação de rádio sintonizada também não nos é familiar, assim como não é o candeeiro de mesa ou o chão onde as nossas roupas estão espalhadas.
Acho que é sempre assim ou quase assim. Apaixonarmo-nos é também emigrar e perdermo-nos num mundo novo onde temos que perguntar os nomes das ruas. A paixão não é só fácil. Às vezes também é difícil. Só é sempre boa. Pensei nisso agora que me perguntei onde é que está o livro que ando a ler e não soube responder. Acho que está na minha casa e no meu mundo de onde emigrei...

8.20.2009

um rabanete estrangulou uma mulher...



O ano passado, a empresa de fatos para homem, Duncan Quinn, promoveu o seu produto com este cartaz onde um tipo bem vestido parece ter acabado de estrangular uma mulher em roupa interior, deitada sobre o capô de um automóvel. O site feminist considerou-o, e muito bem na minha opinião, o Most Disturbing Ad of the Year.
É verdade que eu normalmente não uso fatos e que a minha roupa preferida passa por calças de ganga escuras, sapatos de pele confortáveis e camisolas mais quentes ou mais frescas consoante a temperatura ambiente, mas ainda assim não consigo perceber como é que este anúncio pode levar alguém a comprar um Duncan Quinn. É que uma mulher morta em cima de um carro com um gajo com ar de rabanete a puxá-la por uma gravata não é nada apelativo. Realmente, só se alguém se quiser disfarçar de rabanete no Carnaval. Por mim, vou continuar a vestir as minhas t-shirts preferidas: uma com o Gasganete e outra SuperFro.

conversa 1302

Ela - Ajudas-me a fazer a minha cama antes de saíres?
Eu - A esta hora? É quase meia-noite... não te vais deitar?
Ela - Vou... quero deitar-me com a cama feita...
Eu - Para quê? Vais fazer a cama para a desfazer logo a seguir...
Ela - Não me peças para te explicar. Acho que é uma coisa que os homens não conseguem entender...

8.18.2009

conversa 1301

[num café com uma empregada de balcão (1) e uma de mesa (2)]

Ela 1 - Vai ali atender o teu cliente.
Ela 2 - Meu? Alguma vez ele é meu? Se fosse saltava-lhe já para cima.
Ela 1 (virando-se para mim) - Olhe que ela é casada.
Ela 2 - Sou casada mas o meu marido já não dá nada...
Ela 1 - Dá sim senhora. Olha não dá...
Ela 2 - Se dá é contigo. Comigo chega a casa a cheirar a vinho e adormece.
Ela 1 - Credo, comigo não que me estou a guardar para o casamento.
Ela 2 - Então também não interessas a ninguém que isso é só teias de aranha.
Ela 1 - Pergunta lá ao teu cliente se quer alguma coisa.
Eu - Eu queria uma água, por favor.
Ela 2 (virando-se para a Ela 1) - Olha, este bebe água. Também não deve ser grande coisa...

conversa 1300

Ela - O que eu não percebo é porque é que pessoas que já tiveram casamentos falhados e sofreram com esses casamentos tornam a casar...
Eu - Bem... o casamento não sei. Isso é um pormenor... mas acho normal que as pessoas se juntem outra vez após uma relação falhada.
Ela - Achas? Porquê?
Eu - Duas pessoas juntam-se essencialmente por dois motivos, acho eu: um é combater a solidão, outro é ter uma vida sexual activa.
Ela - O quê? Para combater a solidão também?

mulheres artistas que não compreendo (22) e pensamentos catatónicos (188)

mulheres artistas que não compreendo (22)

Maria Teresa Fernández, uma fotógrafa mexicana radicada nos Estados Unidos, anda há quase vinte anos a fotografar a vida na fronteira entre o México e os Estados Unidos onde, em cerca de um terço da sua extensão total, existe uma barreira física a impedir a passagem.
Do seu trabalho constam imagens de abraços entre familiares, amantes e amigos que vivem do lado oposto da fronteira. Segundo a fotógrafa, durante anos muitas pessoas viajaram centenas de quilómetros para poder abraçar um filho, um pai ou um marido.
Há uma coisa que eu tenho a certeza que é necessária para conseguir fazer um trabalho destes: ser forte. É que esta barreira física demonstra o quão contraproducentes os indivíduos da nossa espécie consegue ser: por um lado viajam quilómetros para sentir o calor e o palpitar da vida de um ente querido, por outro aceitam uma organização política que os divide construindo muros e afins.

pensamentos catatónicos (188)

Estava a reportagem sobre ela no site da BBC brasil e, ao ver o abraço da fotografia, lembrei-me de alguns abraços a mulheres que também já dei assim, através de um muro que me separador. É que entre duas pessoas que se amam surgem constantemente muros invisíveis que, embora não acabem com a vontade de abraçar, impedem que esses abraços aconteçam. É o que acontece, por exemplo, com uma simples discussão por um motivo absurdo qualquer. O muro cresce... até que um dos dois tenha a coragem de o demolir.

o gato, a saga continua...

Ontem deixei o gato siamês que encontrei no núcleo de Aveiro da PRAVI (também existe nas cidades de Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra e Santarém) e, porque percebi que é uma associação que trabalha a sério, o mínimo que posso fazer é ajudar na sua divulgação.
Para além de recolher e tratar animais em risco, tenta arranjar-lhes um dono. Para o siamês que lá deixei já encontrei, muito provavelmente, acolhimento (leitor deste blogue), mas há lá muitos outros gatos e cães à espera de encontrar um dono melhor do que eu.
Para adoptarem um animal ou simplesmente ajudarem a associação, podem contactar a senhora Olga através do número 966 089 957.

8.17.2009

conversa 1299

(ao telefone)

Ela - Já conseguiste dar o gato que apanhaste na rua?
Eu - Não. Conheces alguém que o queira?
Ela - Não... mas gostava de ir aí vê-lo...
Eu - Ao gato ou a mim?
Ela - Ao gato, claro. A ti já te vi demasiadas vezes...