1.03.2016

Só as mulheres é que se protegem da chuva


- Estás com um ar cansado.

A Márcia diz-me isto, assim com um misto de ternura e de aviso. Há poucos minutos ouvi a voz dela escondida na chuva. Tinha os sapatos encharcados de tanto caminhar sem me desviar das poças de água. Procurei-a entre o pequeno grupo de mulheres que esperavam, no alpendre de um edifício velho, que as nuvens se cansassem e agora estou aqui, com ela ao alto a dizer-me que estou com um ar cansado.
Na verdade, foi também o que pensei quando a vi. Há dez anos, pelo menos, que não sabia nada dela. Parece que entretanto o vento lhe provocou alguma erosão na face, da mesma forma que o faz nas montanhas de pedra que se tentam manter em pé junto ao mar. Levou-lhe os sorrisos e o brilho de que me lembro. Deixou-lhe a beleza, mas entristeceu-a.

- Estás bonita.

E ela sorri encolhendo o sorriso, como se o quisesse engolir e não fosse capaz. Estou tão molhado e desconfortável que me apetece deitar no sorriso dela. Imagino-a a tapar-me com ele e a fazer-me uma festa na testa. Já não tenho a certeza, mas acho que foi assim que ela se despediu de mim a última vez.

- Talvez um dia eu volte...

Não voltou.
Os nossos olhares já se cruzaram algumas vezes, mas ainda não se fixaram um no outro. Parecem borboletas bêbadas a voar sem lógica. Tenho dúvidas que ela se lembre do que me disse quando me deixou e não me parece que a deva lembrar. O que eu sei é que são os Amores que terminam que me cansam, que me fazem andar à chuva sem me preocupar com as poças de água e, agora que penso nisso, o grupo de mulheres que se abriga neste alpendre aumentou. No passeio mais ou menos movimentado apenas homens andam à chuva. Talvez seja isso... talvez sejam sempre as mulheres a despedirem-se dos homens e a cansá-los assim.

- Só as mulheres é que se protegem da chuva?

Sorrio. Ela também, mas desta vez conseguiu engolir o sorriso.
Qualquer Amor, por curto que seja, é uma escultura que se ergue na nossa memória para sempre. De vez em quando, ao passearmos pelos dias que já passaram, paramos para a ver e ficamos a admirá-la. Como em qualquer obra de arte, descobrimos sempre um pormenor novo. Talvez seja mesmo isso. Todas as histórias de Amor são uma obra de arte.

- Parece que tens razão. Só as mulheres é que se protegem da chuva...

O que me apetece é abraçá-la. Os dois beijos que lhe dei souberam-me a quase nada. Acho que num deles nem sequer nos tocámos. Foda-se lá para o tempo que passa, para o fim dos Amores e para as mulheres que se abrigam da chuva.
Entre os homens há uma que passa e não se abriga. Leva um grande guarda-chuva amarelo com uma marca de uísque impressa. Não lhe vejo a face, mas sigo-a até desaparecer na primeira esquina.

- Vamos beber um galão quente e comer uma torrada cheia de manteiga?

Ela responde que sim apenas com a cabeça. Acho que o Inverno serve para isto mesmo, para nos sentirmos desconfortáveis sozinhos e nos lembrarmos que precisamos de alguém. Mesmo que não chegue para voltarmos um para o outro, que chegue para leite com café e pão torrado. 

7 comentários:

Janita disse...

Um texto que me entristeceu muito!
Lindo, muito lindo, mas triste.
Mesmo sem ter posto um pé fora da porta, nem ter molhado um fio de cabelo, senti-me encharcada e desconfortável.
Por ele...
Porque razão os homens nunca se protegem da chuva?
Sem querer o meu olhar voou para aquele passarito só, em cima do fio eléctrico. E senti vontade de pegar nele e trazê-lo para junto do meu aconchego.

Maria Eu disse...

Caramba! Nem sei o que diga! É tudo sempre tão bonito, aqui!
Fica-se sem palavras!

Beijinhos, Ivar. :)

Bagaço Amarelo disse...

Janita, obrigado. pela presença e pela companhia. Na verdade, nunca percebi muito bem porque é que não me protejo... mas acho que nem preciso saber.

Maria Eu, já está dito. obrigado pelo gesto. :)

redonda disse...

Gostei muito deste texto.
Agora vou andar a tentar ver se vejo homens a protegerem-se da chuva.´
um beijinho

Bagaço Amarelo disse...

redonda, se me vires a mim, vais reparar que não protejo. :)

Claudia Sousa Dias disse...

Gostei tanto!
«Qualquer Amor, por curto que seja, é uma escultura que se ergue na nossa memória para sempre. De vez em quando, ao passearmos pelos dias que já passaram, paramos para a ver e ficamos a admirá-la. Como em qualquer obra de arte, descobrimos sempre um pormenor novo. Talvez seja mesmo isso. Todas as histórias de Amor são uma obra de arte.»


Embora, para mim sejam mais como uma pintura onde se pode contemplar ou o horror de olhar para a cabeça da Medusa, agora inofensiva, porque perdeu o seu poder, ora o Éden, inacessível no agora e imerso em nostalgia.

Bem haja o presente.

Bagaço Amarelo disse...

Claudia Sousa Dias, anda por aí, sim... :)