1.06.2016

As avós sabem tanto como as árvores

As árvores calavam-se quando eu passava por elas. Estavam nuas naquela altura do ano, mas não me pareceu que sentissem frio. Na verdade, acho que cochichavam sobre mim como velhas no café que falam sempre dos netos. Agradeço-lhes por isso, por terem sido minhas avós nesse dia.
Sabiam que eu voltava de um adeus para sempre, na janela duma casa antiga que ficava longe. Tinha andado mais de duas horas a pé para a ver despedir-se de mim em silêncio, acenando com a mão e com uma face inexpressiva, mais o ladrar de um pastor alemão que também não me queria lá.

- Coitado. Sempre foi assim, o rapaz. Por Amor, faz tudo... - segredou uma avó.
- Isso passa-lhe! Ele já sabia que ela não o queria... - respondeu outra.
- Mesmo assim foi lá, vê-la uma última vez... - concluiu a primeira.

A minha avó, a verdadeira, nunca me perguntava nada. Sentava-me na pequena mesa da sala e dava-me uma colher de sobremesa e um pudim amarelo que eu comia em apenas duas dentadas. Depois dizia-me que tudo havia de correr melhor. Foi com ela e com as árvores que aprendi que as avós sabem sempre o que se passa com os netos, mesmo que eles não lhes contem nada.
As avós sabem tanto como as árvores.
É por isso que sempre que passo por uma lembro-me da minha avó a segredar-me a minha própria vida enquanto engolia a sua num silêncio sofredor. Aconteceu-me ainda agora. Escondi a cabeça no capucho do meu casaco, para a cidade não perceber quem eu era, e parei junto à berma da estrada para calcular o melhor percurso para atingir a outra margem sem pisar as poças de água.

- Vai tudo correr melhor!

Um automóvel travou para me deixar passar. Dei quatro ou cinco passos em corrida e acenei-lhe com a mão para agradecer. Um pastor alemão que costuma andar por ali esperou por mim e pela festa habitual que lhe costumo fazer. 
Vim para casa devagar. As árvores calavam-se quando eu passava por elas. Estão nuas nesta altura do ano, mas não me parece que tenham frio. 

7 comentários:

Janita disse...

Ler, reler e voltar a ler...ficar pensativa e nada dizer, também serve como comentário?
Espero que sim...É que desta vez, só me apetece dizer como a primeira árvore e não gostaria de o fazer...
Ele é tão bom rapaz!!
-Sei que tudo irá correr melhor. :)

Bagaço Amarelo disse...

janita, obrigado. :)

Fatyly disse...

Gostei muito e fiquei sem palavras...como avó, espero que falem e até consigo saber a razão dos seus silêncios...basta ver, basta olhar!

Um bom dia

Beijos

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, pois basta. beijinho. :)

Ella e o Gato disse...

E lá voltaram as memórias de quando Ella andava por Belém... entre árvores e silêncios.

redonda disse...

Gostei muito deste texto (como outros aqui, em que se tivesse chegado pela 1ª vez, faria que me tornasse logo seguidora)
um beijinho

Bagaço Amarelo disse...

Ella e o gato, :-)

Redonda, beijinho e obrigado pela tua presença. :-)