1.15.2015

respostas a perguntas inexistentes (295)

Em criança, a minha mãe costumava dizer-me que eu estragava o calçado muito depressa. Tal não se devia ao facto de eu abrir a ponta dos sapatos quando jogava à bola, embora isso também acontecesse, mas sim à forma como gastava as solas. Pela minha forma de correr e andar, rapidamente os sapatos passavam a parecer um automóvel com os pneus furados de um lado. Ficavam tortos e desequilibrados.
Estou a olhar para os meus sapatos agora. Ainda é assim hoje em dia. Tem piada, reparar na forma como as minhas solas estão gastas trouxe-me várias recordações de infância. A voz doce da minha mãe, a luz do Sol a desenhar os buracos da persiana na parede do meu quarto e ao canto, sempre no canto, a minha velha bola de futebol a descansar dos pontapés que levava diariamente.
Às vezes jogava no tapete de relva que ainda está no bairro da Gulbenkian, em Aveiro, onde morava a minha avó. Jogava o dia todo, com intervalos apenas para comer o pudim amarelo, que ela fazia quase todos os dias, e para fugir dos funcionários da câmara que nos proibiam de pisar a relva.
Lembro-me de, ao fugir deles a sete pés, tropeçar no passeio, cair e ser apanhado por um.

- Um dia, quando cresceres, vais perceber porque é que não podes pisar a relva! - disse-me ele em tom ameaçador.

A minha avó viu tudo da varanda e saiu em meu socorro. O homem afastou-se, pareceu-me que frustrado por não me ter assustado mais.

- Eu já sou velha e ainda não percebo porque é que fazem tapetes de relva, se não os podemos pisar... - disse ela.

Eu tenho quarenta e três anos agora. Também ainda não percebo.

E foi nisto que pensei ao olhar para os meus sapatos.

10 comentários:

Anónimo disse...

Tenho 27 e também não entendo.
E também gosto do pudim amarelo da avó, com caramelo a escorrer por cima.
Matilde

csa disse...

Lindo ;)

EJSantos disse...

Don't walk on the grass. Smoke it.

Bagaço Amarelo disse...

matilde, boa. :)

csa, obrigado.:)

ejsantos, eu sou como o obélix. caí no caldeirão quando era pequenino. :)

Carlos disse...

Pois eu tenho 60 anos e piso a relva porque me dá imenso prazer...

Bagaço Amarelo disse...

carlos, boa! um abraço... :)

Fatyly disse...

Quase nos 64 anos continuo a pisar e quando me chamam a atenção digo logo: ai é? e esta poia de cão e aquela e a outra acolá com o respectivo dono, estes são extraterrestres ou invisíveis??? Calam-se logo.
A sério Bagaço, fico piursa com isso, porque piso e os netos brincam, mas temos que ver onde fica a merda canina. Mais...mesmo que apanhem a trampa, as bactérias ficam lá...e afinal para que servem os jardins com relva?

Um bom sábado

redonda disse...

Gosto de avós assim.
um beijinho

Josiel Dias disse...

Olá meus amigos, como é maravilhoso encontrar sites com este seu. Parabéns pelo belo trabalho, já estou seguindo.
Aproveitando a oportunidade gostaria de compartilhar com você nosso
blog. Ficaremos felizes por vossa visita e mais ainda se seguir-nos.

AGUARDAMOS SUA VISITA

Atenciosamente

Josiel Dias
http://josiel-dias.blogspot.com
Rio de Janeiro

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, boa semana. :)

redonda, beijinho. :)

josiel dias, um abraço. :)