1.12.2015

um pássaro assustado

Neste momento quase só trabalho. As horas de lazer de que desfruto são roubadas a muita coisa que tenho que fazer e resumem-se a ver um ou outro filme à noite ou ler um ou outro livro. Quando posso vou ver a minha companheira, o que acontece menos vezes do aquilo que eu quero e preciso. Para além disso, a minha vida social resume-se quase só aos amigos e amigas que me visitam quando estou na loja e, claro, a alguns momentos com a minha filha.
Não me considero com jeito para vendedor, mas nunca me tinha acontecido isto: simplesmente não conseguir ter emprego e ter que iniciar uma actividade por conta própria. A minha loja ainda não está a dar dinheiro, mas as reacções da generalidade dos clientes dão-me alguma esperança de que eu possa vir a viver disto. Uma das vantagens é que converso com mais pessoas que não conheço de lado nenhum, clientes que entram, compram uma ou duas postas de peixe e falam sobre temas variados. Ainda assim, passo muitas horas sozinho.
Na rua onde estou não há árvores no passeio. É uma avenida preenchida por edifícios herméticos, com cerca de seis ou sete andares cada um, que parecem indiferentes ao que se passa lá fora. Existe uma esplanada onde o Sol costuma tomar café depois do almoço e eu, sempre que posso, também. Tudo o resto é quase sempre sombra.
Foi num desses momentos que percebi que alguns pássaros pequenos pousam na frágil vegetação da faixa central da avenida. Cada vez que passam automóveis, eles assustam-se e voam. Depois tornam a pousar, como se o susto os tivesse cansado bastante. Não sei se é sempre assim, mas pelo menos foi uma vez.
Foi dessa esplanada, também, que vi um senhor de idade tropeçar e estatelar-se no chão. Ninguém se levantou para o ajudar, a não ser eu e o amigo que estava nesse momento comigo. Às vezes parece que quantos mais somos, mais sós vivemos. É por isso que aproveitamos a compra duma posta de peixe para falar sobre qualquer coisa, seja o que for. Eu também sou assim, uma espécie de pássaro assustado.

12 comentários:

Maria Eu disse...

Terás, certamente, muitas mãos que amparem esse pássaro assustado! Ainda há quem se levante para ajudar um velho, também haverá quem aninhe pássaros nas mãos. :)

Beijinhos, Ivar, e muita sorte! :)

Fatyly disse...

e é nesses pequenos diálogos com os clientes que por vezes está a alma de qualquer negócio.
Acredito que vai correr tudo bem e gostei imenso deste teu post!

Beijocas

Maria das Palavras disse...

"quantos mais somos, mais sós vivemos"
Tão verdade.

csa disse...

Só tenho uma coisa a dizer: grande Ivar :)

Bagaço Amarelo disse...

maria,eu, obrigado. :)

fatyly, obrigado. :)

maria das palavras, :)

csa, obrigado. :)

David disse...

Ivar,

És um campeão :)

Bagaço Amarelo disse...

david, ou isso ou estou feito ao bife. ainda não sei... :)

duasfridas disse...

Minha torcida daqui do BRasil para você, Ivar.
Aquele Abraço,
Helê

Teresa Costa disse...

Boa Sorte :)

Maria Eu disse...

Não é feito ao bife, é feito ao alabote! :P

Bagaço Amarelo disse...

duasfridas, obrigado. :)

teresa costa, obrigado. :)

maria eu, sempre é melhor. :)

Bagaço Amarelo disse...

duasfridas, obrigado. :)

teresa costa, obrigado. :)

maria eu, sempre é melhor. :)