1.05.2015

engolida pelo Sol

Hoje encontrei uma amiga que já não via há muito tempo. Talvez há uns quatro anos, pelo que me lembro. A primeira vez que olhei para ela pensei que fosse apenas uma mulher parecida, mas depois reparei que era mesmo ela e então cumprimentei-a. Acho que lhe aconteceu o mesmo relativamente a mim, porque não me disse nada na primeira vez que trocámos olhares.
Estávamos num café em Aveiro. Eu sozinho numa mesa e ela acompanhada por um homem e uma criança noutra mesa. Levantámo-nos ao mesmo tempo, depois de um lapsus facial simultâneo, e demos um abraço a meio do caminho, muito perto duma outra mesa onde duas mulheres bebiam chá e comiam torradas. 
De certa forma apetecia-me contar-lhe e ouvir-lhe tudo sobre o tempo que passou por nós desde a última vez que nos vimos, mas a situação não o permitiu. Dois minutos depois do nosso abraço, o homem levantou-se e levou a criança pela mão até à porta do estabelecimento, onde ficou em pé a esperar por ela. Eram o marido e o filho que a chamavam sem chamar. Ela abanou os ombros como que desculpando-se, deu-me outro abraço e despediu-se. Disse-me que temos que falar para pôr a conversa em dia.
Não fiquei com o número dela nem ela com o meu. Acabei de o procurar e não consta da minha lista telefónica. Acho que o perdi numa das mudanças de telemóvel bruscas que fiz no passado recente. O mais provável é que se passem mais quatro anos até eu a encontrar de novo, por acaso, num café qualquer da cidade.
Não sei quando é que o tempo se tornou assim, imensamente pequeno e minuciosamente grande. Acho que fiquei alguns minutos em pé no meio do bar, a vê-la afastar-se e sair pela porta cujos vidros eram violentamente trespassados pela luz do Sol. Quando me sentei percebi que as mulheres que bebiam chá e comiam torradas cochichavam qualquer coisa sobre mim. Não sei bem o quê, mas suspeito que tinha a ver com o facto de eu ter ficado a suspirar assim que ela foi engolida pelo Sol.

8 comentários:

Fatyly disse...

O cochichar das ditas pouco interessa, mas por vezes acontece esses (des)encontros e pena é que não se consiga dar uma dúzia de palavras até englobando a família.
Sinceramente meu amigo, não gostei embora saiba que por vezes acontece e por culpa dos protagonistas:)

Beijos e um bom ano para ti e todos os teus

Chama a Mamãe! disse...

Lendo-te, Bagaço, querias mesmo é que teu nome fosse... Sol.

Chama a Mamãe! disse...

Lendo-te, Bagaço, querias mesmo é que teu nome fosse... Sol.

csa disse...

Sempre belos textos :)

Boop disse...

Os encontros da vida são às vezes deliciosos! (ou não... o que realmente acho delicioso é o sentirmos coisas inesperadamente, porque alguém nos toca, ou porque nos deixamos tocar por alguém)

(Já tinha passado por aqui algumas vezes, não sei se algumas vez comentei... hoje apeteceu-me! ;) )

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, bom ano para ti. obrigado. :)

Chama a Mamãe!, por um momento queria, sim. :)

csa, obrigado. :)

boop, obrigado. :)

Anónimo disse...

É por textos como este que venho aqui.
Gostei.
Matilde

Bagaço Amarelo disse...

matilde, obrigado. :)