4.29.2011

conversa 1768

Ela - Eu estou interessada por um homem que não conheço da lado nenhum e admito que isso me faz confusão.
Eu - Faz-te confusão porquê?
Ela - Porque nem o conheço. Acho que estou mais interessada naquilo que imagino que ele é do que naquilo que ele realmente deve ser.
Eu - Só tens uma maneira de o saber. É ir ter com ele e conhecê-lo.
Ela - Posso ficar decepcionada se o fizer.
Eu - Pois podes, mas essa decepção passa com o tempo. A frustração de nunca ter feito nada para descobrir se realmente ele é ou não um homem de quem gostas é que pode não passar assim tão facilmente.
Ela - Pois... e no Amor não há segundas oportunidades, pois não?
Eu - É muito raro haver, acho eu. O melhor é aproveitar a primeira.

respostas a perguntas inexistentes (148)

os cinco sentidos

Sou contra as máquinas fotográficas digitais. Prefiro as outras, as químicas, aquelas em que é preciso meter um rolo que dá para tirar vinte e quatro ou trinta e seis fotografias e, depois de as tirar, ainda é preciso revelar e imprimir em papel para poder ver as imagens.
Contra mim falo, que também substituí o rolo por uma Nikon Coolpix não sei quantos e agora, quando ando com ela, tiro fotografias a tudo e a todos sem saber porquê. O que eu perdi foi a sensibilidade de escolher um momento e um enquadramento únicos. Todos os momentos agora são banais, pelo menos para quem levanta a mão e faz clic com uma mão enquanto come uma sande de fiambre com a outra. Mas isso nem é o mais grave. O pior é não haver um espaço de intervalo entre a visualização da fotografia que se tira e o momento em que se a tira. Qual é a piada de estar a olhar para uma foto de um castelo quando ainda se está dentro do castelo? Nenhuma. Pois é.
Esta semana recebi o telefonema de uma amiga que esteve recentemente na Tailândia. Tens que vir ver as fotos que tirei, disse ela. E eu fui, com uma garrafa de vinho na mão para regar a sessão. Devia ter levado um garrafão de cinco litros porque as fotografias nunca mais acabavam. Eram mais de mil e nem sequer tive tempo para a ouvir falar desses dias. Dantes, numa viagem de uma semana, tirar-se-ia no máximo umas cento e oitenta fotografias, o correspondente a cinco rolos de trinta e seis, e depois sobrava tempo para uma conversa, para ouvir um cd de música local e para provar uma amostra de queijo da região visitada. Desta vez fiquei-me pela violação dos meus olhos com uma enorme quantidade de imagens desinteressantes. Disse-lhe isso com um bocejo e não vi tudo até ao fim. Salvo pela honestidade, portanto.
A overdose de imagens que a Ana trouxe da Tailândia explica-se duma forma muito simples. É pelos olhos que nos apaixonamos, por isso é pelos olhos que tentamos registar a vida. Esse é o problema do olhar. Podemos apaixonar-nos através dele mas não conseguimos Amar através dele. O Amor é também um som, um cheiro, um sabor e uma textura. É esse o registo analógico da vida no Amor e é por isso que até podemos Amar às escuras.

4.28.2011

respostas a perguntas inexistentes (147)

fronteiras

A França e a Itália querem repor as fronteiras no espaço europeu. Há vários tipos de fronteiras na nossa vida, para além das fronteiras físicas entre países, e todas elas têm uma coisa em comum: tornam-nos a nós, pessoas do mundo, ainda mais pequenas e insignificantes.
A expectativa que temos uns dos outros também tem fronteiras. Por exemplo, aquilo que esperamos do condutor dum automóvel é que ele pare na passadeira para podermos atravessar uma estrada. Entre o peão e ele é essa a fronteira da expectativa. Se pensarmos bem, temos essa pequenez pragmática de não esperar muito uns dos outros. Aquilo que esperamos de um transeunte é que nos indique a direcção do nosso destino, aquilo que esperamos dum empregado de balcão é que nos tire um café e aquilo que esperamos dum porteiro é que ele nos abra a porta. Tudo o resto, aquilo que é o sumo da vida quando a esprememos, como a simpatia, um sorriso ou um abraço, pode vir ou não.
Só o Amor não tem fronteiras e é essa a sua grandiosidade. Esperamos tudo de quem amamos. Tanto, que até esperamos que o nosso Amor espere o mesmo de nós. Tudo. O Amor entre duas pessoas é, aliás, a demonstração política de que a utopia não existe enquanto tal.
Hoje mesmo vi um homem sentado no comboio com o computador em cima dos joelhos. A companheira dele, que seguia ao lado com um ar cansado, acabou por adormecer pousando a sua cabeça no seu ombro com a brandura de uma pena esvoaçante. Ele desligou imediatamente o computador, abdicando do que estava a fazer para tornar um pouco mais cómodo o sono dela. É esse o todo sem fronteiras que esperamos dos outros no Amor.
Os europeus não estão a perceber isso, e querem repor as fronteiras para que os que são capazes de dar o ombro a um Amor adormecido passem apenas a parar na passadeira, a tirar um café ou a abrir uma porta. Porque entre as pessoas de países diferentes passa-se o mesmo que entre pessoas do mesmo país. Ou tudo ou nada.

4.27.2011

conversa 1767

Ela - Se há coisa que detesto num primeiro encontro com um homem, é irmos jantar fora e ele recusar-se a escolher o vinho e a ementa.
Eu - Mas porquê?
Ela - Fico logo a saber que ali está um gajo com falta de iniciativa. Enfim, um panhonhas...
Eu - Hum... isso aconteceu-te?
Ela - Sim, ontem fui jantar com um tipo e ele disse-me para escolher eu o vinho, depois disse-me para escolher uma dose de qualquer coisa porque naquele restaurante uma dose dá para dois.
Eu - Era para gastar menos dinheiro. Não acho assim tão mal.
Ela - Mas então ele que propusesse qualquer coisa. Gosto de homens com iniciativa.
Eu - Se calhar ele estava só a ver se eras capaz de seres tu a escolher. Talvez também não goste de mulheres panhonhas...
Ela - Tens a mania que és engraçadinho, não tens? Estás a chamar-me alguma coisa?
Eu - Estou só a ver se te defendes. Gosto de mulheres com garra.

pensamentos catatónicos (241)

Ao ler o Público fiquei a saber que o radiotelescópio Allen vai deixar de escutar o Universo à procura de vida extra-terrestre. É uma desistência, portanto, mas uma desistência que eu compreendo. Escutar o vazio para procurar vida é algo por que todos passamos de vez em quando nas nossas fases de desamor. O vazio é o contrário do Amor e hoje, ao ler esta notícia, não deixei de pensar que é nesse estado que está o nosso planeta. Aquele que agora desistiu de escutar.

4.26.2011

coisas que fascinam (124)

crisálida

Quase todas as pessoas desprezam as lagartas, quase todas as pessoas gostam das borboletas. Uma borboleta é uma lagarta com asas. 
Hoje vi, pela primeira vez este ano, uma borboleta. Esvoaçava perdida entre uma interminável fila de automóveis impacientes pela mudança de cor dum semáforo, e eu parei para a seguir com os olhos por ser a coisa mais bonita da minha manhã. Acabou por desaparecer perto do cano de escape dum camião qualquer e eu segui o meu caminho, olhando para os meu pés que se moviam contra a vontade enquanto uma pedrinha me crescia na alma.
Acho que é assim que nos apaixonamos, parando a vida por momentos para seguir com os olhos o voo errante duma borboleta sufocada por centenas de canos de escape nervosos. Pelo menos é assim que eu o faço, numa tentativa de fuga ao dióxido de carbono do Desamor. Lembro-me de seguir a Raquel com o meus olhos para todo o lado como se ela fosse a borboleta dos meus dias, até desaparecer numa curva qualquer e eu me afastar com a mesma pedrinha na alma. O Amor tem a mania de ser isso: duas asas fugidias que nunca conseguimos tocar.
Lembro-me também da primeira vez que vi um casulo e da minha mãe me explicar, enquanto afastava os meus dedos daquele pequeno berço de seda, que aquilo era uma crisálida, ou seja, uma lagarta em vias de se tornar borboleta. Nunca mais me esqueci desse nome, crisálida, e foi com essa memória que  mais tarde desejei que a Raquel deixasse de ser borboleta e passasse a ser uma, só para eu lhe conseguir tocar. Porque o Amor é isso mesmo: irreversível na metamorfose da vida.

4.25.2011

25 de Abril

O 25 de Abril em Portugal coincidiu no tempo com outro golpe de Estado: o do Chile (1973), aquele em que os Americanos "mataram" um presidente democraticamente eleito, o Salvador Allende, para colocar no seu lugar um ditador sangrento, o Augusto Pinochet.

Com Augusto Pinochet, o Chile foi o primeiro país do mundo a adoptar o modelo económico da Escola de Chicago, liderada então pelo pai do capitalismo neoliberal, Milton Friedman. Friedman considerava que uma Economia sem qualquer regulamentação do Estado se regulava a ela mesma mantendo um equilíbrio natural. Falhou a experiência, e as privatizações que se fizeram no Chile (segurança social, recursos naturais, saúde, etc) rapidamente tiveram como consequência a fome. Para controlar a oposição Pinochet usou a tortura e a morte.

O modelo falhou, mas mesmo assim Friedman ganhou um prémio Nobel e o modelo foi exportado para todo o mundo Democrático, onde os partidos do poder foram aplicando as mesmas regras e, pouco a pouco, criando mais desregulamentação dos mercados e criando mais fome e pobreza. Em Portugal, os partidos que fizeram isso foram o PS, o PSD e o CDS. Por isso é que não voto nem nunca votei neles.

É que recuso-me a aceitar que a Democracia se resuma a um voto que ainda por cima é fortemente condicionado pelos media. Democracia é também gostarmos uns dos outros e termos uma Economia solidária, em que os impostos são usados para que os mais pobres tenham na mesma acesso ao que é fundamental à vida. O Capitalismo é o contrário disso, e portanto é também o contrário do Amor. Eu sou anticapitalista por causa disso, porque me recuso a aceitar que alguém, por ser pobre, não tenha acesso a água, saúde, educação, alimentação, habitação, mobilidade e... enfim... felicidade.

O Capitalismo é o modelo que cria propositadamente desemprego para que quem emprega possa pagar menos a quem trabalha, e ao mesmo tempo chama falhados aos desempregados. O capitalismo é o modelo do PS, do PSD e do CDS, e é por isso que eu não voto nem nunca votei neles. É também por isso que não olho para o 25 de Abril como algo que acabou, mas sim como algo que ainda está a começar.

Bom 25 de Abril para todos vocês, leitores deste blogue, de quem eu gosto e a quem, estejam desempregados ou não, desejo uma vida feliz.

4.24.2011

conversa 1766

Ela - Não percebo como é que o meu ex-marido já anda com a mesma gaja há três anos.
Eu - Porquê?
Ela - Quando nos divorciámos, eu disse-lhe que com aquela maneira de ser nunca mais ia conseguir dar-se com ninguém...
Eu - Mas parece que conseguiu.
Ela - Conseguiu. Bem, ele disse-me o mesmo a mim. Que era uma egoísta e que nunca na vida ia arranjar alguém que conseguisse aturar-me.
Eu - Mas tu também já tens um namorado há muito tempo, não já?
Ela - Há quase três anos também.
Eu - Parece que às vezes parecemos impossíveis de aturar mas até nem somos...
Ela - Pois é... é estranho, isso.

4.23.2011

conversa 1765

Ela - Não percebo como é que um homem, apenas uns dias depois de ter acabado com uma mulher, já consegue andar com outra.
Eu - O teu ex-namorado já anda com outra?
Ela - Já! Eu não percebo. Vou precisar de uns dois meses para esquecer.
Eu - Ele também. Envolver-se com outra mulher agora ajuda-o é a esquecer-se mais rapidamente.
Ela - Não percebo os homens.
Eu - Mas olha que é fácil.

4.22.2011

respostas a perguntas inexistentes (146)

Amor, Amore, Love, Amour, Liebe

O Amor em Portugal é um sopro ou um segredo, mas nunca é um grito. Os portugueses escondem a palavra "Amor" debaixo da língua ou atrás dos dentes como se tivessem vergonha de a soltar e, não vá ela morder alguém, quando a deixam vir cá fora espreitar amordaçam-na com o acento circunflexo (ô) que está lá mesmo sem estar.
Já os ingleses dizem "Love" como quem vai beber uma Pint a um pub, o que torna a palavra um tanto ou quanto banal. Aplicam o "Love" tanto a uma pessoa como a um objecto qualquer. Se uma inglesa me disser "I Love you" alguma vez na vida, ficarei sempre na dúvida se ela me ama ou se me quer comprar. A palavra "Love" não se esconde como a palavra "Amor", mas circula de boca em boca como um bêbado solitário o faz nas ruas de Londres: sem dar cavaco a ninguém.
É por isso que gosto da Itália, onde "Amore" é tão grande que é difícil escondê-la onde quer que seja, quanto mais num canto da boca ou atrás dos dentes. O "Amore" é aberto e confirma-se sempre com o "Io te voglio tanto bene" para que não restem dúvidas e para que a coisa venha com garra.
A garra, precisamente, é o que falta aos franceses. O "Amour" nunca vem só, é servido numa taça com champanhe, flores e caviar como se só pudéssemos ter o seu usufruto se lavássemos primeiro as mãos e nos vestíssemos apropriadamente. Exactamente o contrário dos alemães, cujo "Liebe" parece ter tesão para pouco mais de cinco minutos.
A forma como se diz "Amor" quer dizer tudo sobre um povo, e se é verdade que nós não somos capazes de gritar como os italianos, não nos queremos vulgarizar como os ingleses, não somos de floreados como os franceses nem martelamos como os alemães, também é verdade que segredamos como ninguém.
O nosso "Amor" é assim, um segredo que vagueia entre a louca nudez de um dia de Verão e a tristeza momentânea de um dia de chuva. Somos assim. Eu sou assim. De facto tenho orgulho nisso, num Amor que é  tão saboroso quanto melancólico e que só se dá quando os lábios se aproximam do ouvido e dizem: "Eu Amo-te!".

4.21.2011

respostas a perguntas inexistentes (145)

Amor e Água

Ainda bem que o Amor não se pode vender, senão um gajo qualquer como o Passos Coelho já o tinha dividido em fatias pequenas, embalado e colocado nas prateleiras dos supermercados. Tudo em nome do Crescimento Económico. Acredito que seria uma medida acolhida por uma grande parte da população, que diria aqui e acolá que "sim senhor, tem que ser, se as pessoas querem ter Amor têm que pagar. Claro" e olhariam para um mendigo de Amor, apaixonado à janela da mulher do seu coração, dizendo: - "olha-me este! quer Amar mas não quer pagar! Que vá mas é trabalhar". Afinal de contas o Amor é tão natural como a água e é isso que já acontece com ela. E com a comida e com tudo o que é essencial à vida. Resta-nos o Amor e a esperança que os desapaixonados da vida, vulgos capitalistas, desapareçam de vez.

Na verdade é para aí que isto caminha, um gajo pagar a conta do gás, da electricidade e na da água vir uma taxa qualquer porque o Estado descobriu que estamos apaixonados. A taxa do Amor. Afinal de contas o Amor é um recurso natural como outro qualquer. A primeira geração sente-se indignada mas a segunda não, porque já nasceu assim e foi ensinada a não questionar o que quer que seja. Passa a ser natural pagar a paixão ao quilo e pronto.

Nunca me consegui apaixonar por uma mulher, por muito bonita que fosse, que numa discussão política me dissesse que achava muito bem pagar a água como uma mercadoria. É que uma mulher que acha isso, lá no fundo, acha o mesmo do Amor.

segredos do mar

Logo à noite, pouco depois das 22:30 e até às 4 da manhã, é noite de dj Bagaço Amarelo no melhor bar do mundo, que para quem não sabe é o Clandestino em Aveiro. Também no Domingo à noite e no melhor clube do mundo, que para quem não sabe é o Mercado Negro em Aveiro, é noite de Skasonic (até à 1 da manhã) e dj Bagaço Amarelo depois dessa hora.

respostas a perguntas inexistentes (144)

da Páscoa e do Amor de Jesus

Por estes dias celebra-se a crucificação e a ressurreição de Jesus Cristo, mas não se celebra o Amor.
Dizem-se muitas mentiras sobre o Amor de Jesus, sendo que a maior de todas é a de que ele Amava toda as pessoas. A ter existido, acredito que Jesus tenha amado alguém, mas não todas as pessoas. Pelo menos, e para bem dele assim o espero, porque Amar todas as pessoas é a mesma coisa que não Amar ninguém.
Quem já experimentou Amar sabe que uma das definições de Amor é sentir que uma pessoa é especial. É querer tocar-lhe, ter sexo (ou, lá está, fazer Amor) com ela, dividir uma trinca num chocolate e passear de mão dada ao fim da tarde numa praia qualquer. Sempre sem condições.
Do Amor espero que todos, para bem também de todos, percebam isso mesmo: que a melhor forma de Amar passa pelo nosso egoísmo com quem Amamos. Só assim todos poderemos experimentar o Amor. Com alguém especial, claro.

4.20.2011

conversa 1764

Ela - Comprei um vibrador.
Eu - Compraste?
Ela - Sim, fui a uma sexshop em Madrid e comprei um.
Eu - Já o usaste?
Ela - Ainda não tive coragem.
Eu - Porquê?
Ela - Aquilo é maior do que qualquer pénis que já vi na minha vida. Não é que tenha visto muitos, mas já vi quatro ou cinco.
Eu - E não tens coragem porquê? Se tu é que controlas tudo...
Ela - Tenho medo é de, depois de o usar, nunca mais me satisfazer com um homem.

pensamentos catatónicos (240)

A mulher objecto

As mulheres detestam ser tratadas como objectos, pelo menos é o que dizem. Parece que lhes afecta a dignidade ou coisa parecida. Sempre tentei perceber isso mas nunca o consegui, principalmente porque nunca vi ninguém a tratar tão bem objectos como as mulheres com quem já partilhei a vida.

Lembro-me de um domingo daqueles em que não se tem nada para fazer, esses domingos que são tão santos quanto cheios de tesão porque, convenhamos, o ócio é o melhor amigo do sexo. A Sandra passeava-se por casa e eu a mendigar uma dose, meia que fosse, de atenção. Vi-a a abrir o telemóvel e escovar-lhe as entranhas com uma escova microscópica, vi-a limpar todos os vidros de todas as molduras lá de casa e vi-a a puxar o brilho a um vaso made in Germany que nem planta tinha. Plantado fiquei eu, quando arrisquei tudo metendo-lhe as mãos nas cintura enquanto lhe soprava ao ouvido que a achava mais bonita do que nunca. Que não gostava que a tratassem como um objecto, disse-me. Que eu queria que ela me tratasse como um objecto, pensei.

Sou homem. Normalmente chego a casa e atiro a mala para um canto qualquer da sala como se a quisesse esquecer. Faço o mesmo ao telemóvel, à carteira e ao porta-chaves. Costumo tratar assim todos os objectos que possuo: com o desprezo que lhes é inerente pelo facto de não respirarem, não conversarem e não Amarem. Quando um homem tenta ir para a cama com uma mulher não a está a tratar como um objecto, mas pelos vistos está a tentar ser tratado como um.

4.19.2011

conversa 1763

(no café)

Eu - Porque é que estás a chorar?
Ela - Por causa do filme que me emprestaste.
Eu - Estragaste-o? Não te preocupes, não é preciso chorar.
Ela - Não é isso. Comoveu-me.

respostas a perguntas inexistentes (143)

pasta dentífrica

Não acredito em conselheiros matrimoniais. Aliás, o facto de alguém achar que pode dar conselhos a um Amor que não lhe pertence é a primeira prova de que não percebe nada do assunto. O Amor não admite conselhos. Se porventura o admitir uma vez que seja deixa de ser Amor. Morreu ou, como dizem os brasileiros, danou-se.
Os conselheiros matrimoniais são pessoas que acham coisas mas não sabem nada. Nada de nada. Normalmente dão conselhos sobre o comportamento de cada um dos Amantes, ou porque acham que um deles fala demais e isso prejudica a relação, ou porque o outro é possessivo e isso prejudica a relação, ou porque o raio o parta e isso prejudica a relação. Não percebem que quando se Ama uma pessoa que fala demais, por exemplo, é assim que tem que se gostar dela, a falar demais. Se não se gosta e se lhe pede que fale menos, então não se ama essa pessoa. Ama-se aquilo que se imagina que ela devia ser.
Até se pode Amar uma pessoa que passou a falar menos porque foi aconselhada assim, mas só se a Ama mais ou menos. Também sabe bem, mas não sabe tão bem quanto o outro Amor, aquele que é só Amor e exclui o "mais ou menos".
É por isso que o Amor é raro, mas é também por isso que ele sabe tão bem. Um homem pode passar décadas a Amar "mais ou menos" sem perceber que lhe falta qualquer coisa. Eu só o descobri um dia quando estava a lavar os dentes e, por entre a espuma da pasta dentífrica, disse uma série de asneiras que pontilharam o espelho da casa de banho de pintinhas brancas. Eram asneiras felizes que brotavam dos meus lábios como um vulcão em actividade porque era assim também que estava o meu coração: em actividade. E quando ela me disse, num ar grave e sério, que eu tinha que limpar o espelho, continuei a Amá-la sem pestanejar.

4.17.2011

coisas que fascinam (123)

Os meus pais fizeram este fim de semana 50 anos de casados. Diga eu o que disser sobre Amores de cinquenta segundos, cinquenta horas ou cinquenta meses, fascinam-me mais os Amores de cinquenta anos. Escrevi-lhes este texto:

Chá de canela e gengibre

Das várias coisas que já fiz nesta vida, a última tinha sabor. Fervi água, juntei-lhe um pau de canela e um pedaço de gengibre. Depois deixei a mistura abafar durante uns vinte minutos para fazer chá. Foi a primeira vez que fiz esta infusão de sabores, que misturei da mesma forma que se mistura outra coisa qualquer: um amigo e uma cerveja, uma tarde e um livro, uma noite fria e um cobertor, um copo de vinho e algum queijo ou uma vida e alguém.

Descalcei-me sem desatar os cordões e atirei um sapato para cada lado, como se estivesse a dar um chuto em mais um dia cansativo, e sentei-me no sofá a beber da mesma maneira que aprendi a beber a vida: lentamente e em pequenos goles. Aliás, foi esta a forma que encontrei para contrariar a velocidade dos dias: bebê-los devagar.

Na verdade, mal ou bem, cheguei também à conclusão que esses dias, os nossos dias, não são mais do que as misturas e combinações que vamos fazendo. Misturamos sabores, sons, imagens, emoções, razões e também nos misturamos uns com os outros, numa decisão que acaba por se tornar das mais importantes na definição do que é a nossa tristeza e a nossa felicidade.

Foi assim, com esse pequeno e saboroso prazer a beijar-me os lábios, que me propus a escrever-vos sobre a mistura dos Vossos cinquenta anos, porque dessa mistura cinquentenária dependo eu e todas as misturas e combinações possíveis que já fiz ou ainda virei a fazer. Algumas delas amargas, outras bem doces, mas que independentemente do sabor valem sempre a pena.

Este texto é um agradecimento sincero por terem sido essenciais para que hoje, sentado neste sofá, eu esteja a experimentar mais uma dessas muitas combinações dos meus dias. Desta vez um chá de canela e gengibre. Amanhã outra coisa qualquer.

4.15.2011

conversa 1762

Eu - O que é que se passa?
Ela - Nada. Deixa lá...
Eu - Estás a chorar, é porque alguma coisa se passa.
Ela (abana os ombros)
Eu - Diz-me o que é que se passa, caramba! Estou a ficar preocupado.
Ela - Um dos meus gatos está doente.
Eu - Ah! Pronto, ainda bem que não é nada de importante.
Ela - Não é nada de importante?! Um dos meus gatos está doente. Se calhar vai morrer...
Eu - Sim, está bem, mas pelo menos não é nada contigo.
Ela - Tudo o que é com os meus gatos também é comigo.
Eu - Sim, quero dizer que pelo menos não és tu que estás doente.
Ela - Olha, sabes uma coisa? Eu não quero falar disto contigo.
Eu - Está bem, então não fales.
Ela - Opá! A sério...
Eu - A sério o quê?
Ela - Uma pessoa diz-te que não quer falar duma coisa e tu aceitas logo. Não dás luta nenhuma.
Eu - Mas, mas...
Ela - Eu sei que tu não interessas pelos meus gatos, mas pelo menos podias fingir um bocadinho. Eu estou triste...
Eu - Pronto, pronto... qual é o gato que está doente?
Ela - O Pintor.
Eu (risos) - Tens um gato que se chama Pintor?! A que propósito?
Ela - Já to apresentei, por isso devias saber. É aquele que tem pintinhas e parece um pintor cheio de tinta.
Eu - Sinceramente nunca levei a sério o acto de alguém me apresentar um gato. Um gato é um bicho, não se apresenta um bicho a ninguém.
Ela - Neste preciso momento estou a pensar porque é que sou tua amiga e não encontro motivo nenhum.

conversa 1761

(na minha casa)

Ela - Fui à tua casa de banho e aproveitei para me pesar na tua balança. Ela está calibrada?
Eu - Não. Tem um erro de cerca de oito quilos. Se te apareceu sessenta, por exemplo, é porque estás nos sessenta e oito.
Ela (gritando) - O quê?
Eu - Tem calma, estava só a brincar...
Ela - Ias-me matando do coração. Não tornes a fazer isso.
Eu - Foi só uma brincadeira.
Ela - Pois, mas agora nem sei se acredite ou não em ti. Será que os teus vizinhos da frente têm balança?
Eu - Não sei, mas não lhes vou pedir agora, quase meia-noite, que deixem entrar uma amiga minha para se pesar.
Ela - Era o mínimo que podias fazer depois do susto que me pegaste.
Eu - Vá, tem calma. Bebe mais um copo e come mais um queijinho.
Ela - Agora não consigo ingerir nada. Ainda estou em estado de choque.