2.19.2016

respostas a perguntas inexistentes (368)

Depois de um Amor qualquer, é preciso aprendermos a não Amar durante algum tempo

Depois de um Amor qualquer, é preciso aprendermos a não Amar durante algum tempo. É a única forma de conseguirmos Amar outra vez.
Há pessoas que nunca param de Amar. Amam sempre e insistentemente como se o Amor fosse apenas o verbo e não a pessoa que se Ama. Nessas alturas e nessa situação, qualquer um que se atravesse na sua mira passa a ser Amado. Mas mal, claro.
Ser mal Amado é isso mesmo. Alguém nos Ama apenas porque precisa de Amar alguém, seja lá quem for, e fomos nós que nos atravessámos à frente. Podíamos ter sido atropelados por um automóvel na estrada ou ser atingidos por um raio, mas acabámos por ser Amados por um vazio maior do que o próprio vazio.
O Amor dá trabalho, porra! É preciso saber isso. Se ele estivesse ao virar de cada esquina, não era sequer Amor. Era um mero passatempo de fim de semana. Também pode ser, se tivermos noção que não é a mesma coisa.

Subi os degraus dos três andares para ir a casa dela. Quando lá cheguei, a porta já estava aberta. Limitei-me a limpar os sapatos num tapete que dizia "welcome" e fechar a porta atrás de mim. Olhei para o cinzeiro cansado para olhar também para ela, cujas palavras tinham morrido, pareceu-me a mim que sufocadas por meia dúzia de cigarros ansiosos.
Ela estava sentada no sofá azul onde uns dias antes me tinha dito que ia parar e não Amar durante algum tempo. Mas não conseguiu. Nunca consegue. Está sempre a Amar como se o Amor fosse a munição duma arma automática. Quem se atravessar à frente pode dar o corpo às balas.
Há um homem qualquer que dá isso mesmo: o corpo. Depois vai-se embora por tempo indeterminado e ela fica a fumar cigarros na sala. Nervosa. Eu apareço, quase sempre com uma garrafa de vinho, e digo-lhe que depois de um Amor qualquer é preciso aprendermos a não Amar durante algum tempo. É a única forma de conseguirmos Amar outra vez.
Os homens são lixados. As mulheres também.

6 comentários:

Ana Martins disse...

Chega uma altura em que é melhor aprender a viver sem Amor. Com carinhos e afectos sim, dão mais cor à vida. Mas Amar, quero dizer Amar mesmo, é muito desgastante.

Lullaby disse...

acho que eventualmente desempenhamos os dois papéis ao longo da vida: o de amar incessantemente e o de ser mal amado por quem não sabe quando parar. felizmente para mim, soube parar de amar e ser mal amada e estou actualmente numa pausa em busca do amor-próprio (porque esse, quando se perde, é que é uma chatice).
obrigada mais uma vez por desabafos tão bons :)

Catarina Vilas Boas disse...

Revi-me nisso como num espelho. Não é que eu ame repetidamente, mas quem amei também só me deu o corpo. E eu depois também ficava a fumar cigarros, nervosa, à espera que ele dissesse alguma coisa. Esse homem foi um cabrão. E eu agora sou uma cabra. Mas ao menos já não o amo mais!! E ele ama outra a quem dá mais que o corpo. E eu talvez esteja finalmente preparada para deixar de ser cabra e voltar a amar. A vida é uma filha da puta doente! Mas no final tudo se resolve. Tudo passa. Diz-lhe!

Bagaço Amarelo disse...

Ana Martins, o Amor aprende-se... e talvez seja mesmo nesse sentido de que falas: diminuir o desgaste e aumentar o afecto. :)

lullaby, estás mais ou menos como eu... talvez eu vá um pedacinho à frente. obrigado. :)

catarina vilas boas, tudo passa, sim. já disse... :)

Belisa disse...

Gostei do que li "...depois de um amor qualquer é preciso aprendermos a não amar durante algum tempo...". É preciso esvaziar completamente o que está cá - porque não sai todo de uma vez - para que um dia se possa outra vez encher de novo. Eu chamo-lhe a fase do desamor. É fodida e dolorosa mas sem ela não ficamos limpos. Equivale ao luto porque se perde alguém. Perde-se no dia a dia dos afetos e dos hábitos que até ali estavam instalados e isso demora tempo. Mas a ânsia por sair da fossa e muitas vezes a fuga à mágoa e à solidão impelem à busca desesperada de novo amor que nunca o é... é um ocupar oco e sem sentido. Já passei por isso e a sensação foi de me semear ao vento, de escancarar as portas do templo do meu corpo ao nada. Não quero repetir. Em desamor não dá nem para sexo. Saber esperar e é tudo...

Bagaço Amarelo disse...

Belisa, estamos de acordo nessa matéria, creio que até ao mais pequeno pormenor. :)