9.02.2015

respostas a perguntas inexistentes (329)

um caroço de pêssego

Era Verão quando eu fazia isto. Viajava com os meus pais pelo país e de vez em quando parávamos para comer qualquer coisa. A minha mãe levava sempre fruta, protegida em tupperwares redondos, que distribuía por cada um dos filhos. Lembro-me de um pêssego em particular, creio que perto de Coruche. Comi-o e depois atirei o caroço o mais longe possível, para um imenso terreno com água que se estendia em frente aos meus olhos até à linha do horizonte.
Para mim, se eu passasse ali uns anos depois, seria natural ver um pessegueiro. Algum tempo antes, na escola primária, tinha colocado um feijão em algodão branco e percebido o que é uma semente. Não sei quantas vezes atirei caroços para lugar nenhum à espera que pudessem crescer, mas sei que foram muitas. Talvez mil.
Uma vez disse isto à Joana, enquanto comíamos nêsperas no parque. Acho que ela se riu de mim e, muito provavelmente, foi a primeira mulher a chamar-me idiota neste mundo. Mas não o disse, apenas pensou. Depois atirou o caroço da nêspera dela para perto do meu e disse que ali iam crescer duas árvores.
Claro que nunca cresceram, mas cresceu em mim uma memória indestrutível. Sempre que passo por aquele lugar lembro-me dela e desse curto momento. É o que nos acontece quando Amamos alguém: coleccionamos momentos que ficam para sempre. A montra duma loja, um cartaz numa parede, um beijo num muro... nada se apaga antes de nos apagarmos nós mesmos.

4 comentários:

Maria Nunes disse...

Não se apaga, mas vai-se apagando.
Por vezes chego a perguntar-me se realmente aconteceu, porque a memória já é muito difusa e gasta.
Até as memórias têm o seu início e fim.
Teresa

Bagaço Amarelo disse...

Maria Nunes, eu tenho tudo tão vivo na memória... :)

Ana Martins disse...

Quando amamos alguém coleccionamos memórias que ficam para sempre. É isso.. exactamente.

Bagaço Amarelo disse...

Ana Martins, e que colecção. :)