11.20.2015

respostas a perguntas inexistentes (354)

uma mulher na passadeira

Mesmo à minha frente, uma mulher atravessa a avenida com as mãos nos bolsos dum casaco comprido. Foi a primeira a pisar os traços brancos da passadeira, assim que o semáforo para peões ficou verde, mas vai ser última a chegar à outra margem, aquela em que eu estou petrificado como uma estátua esquecida. Todos os outros transeuntes, apressados, ultrapassaram-na como se estivessem a chegar à meta numa prova de velocidade e agora passam por mim tangendo-me os ombros com toques embrutecidos.
Os motores dos automóveis rosnam como cães raivosos atrás de um portão de ferro, ameaçando avançar com a mesma ânsia.
Apercebo-me agora que todos os que tenho visto na rua parecem estar com pressa para chegar a qualquer lado. Menos ela, claro, que finalmente passa por mim. Trocamos olhares durante dois segundos e ela continua até desaparecer numa esquina qualquer. Foi a única que me viu. Foi a única que eu vi...

7 comentários:

marta disse...

Estou a olhar para a caixa de comentários e sem saber o que escrever, gostei, como aliás também gosto dos outros, mas este, por algum motivo leva-me a pensar nele e a identificar-me. Não que não tenha tido um dia alguém que hoje seja (apenas) o meu vento norte, não que não tenha vontade de gritar as minhas dores para lá dos meus próprios muros... talvez a vontade de comentar este texto em particular se deva ao facto de não ter pressa, seja porque não tenho onde ir, seja porque não sei que caminho tomar...

margarida rosa disse...

Olá, de vez em quando venho ler o seu blogue, gosto de o ler, além de escrever muito bem, é uma pessoa simples, normal, sem manias de superioridade. Escreve sobre grandes assuntos, duma forma simples, de tal forma, que por vezes me vejo retratada.Tenho 64anos, uma vida muito preenchida, filho, netos, mas distantes.O meu filho foi a minha obra prima. Neste momento, estou sozinha, numa casa grande, com minha cadela, minha companheira. Esta conversa toda, porque o Bagaço faz-me companhia, ajuda a passar o tempo, que por vezes faz doer a alma, sim, a alma, se é que ela existe.OBRIGADO, não sou esta mulher da passadeira, mas posso ser de outras passadeiras, noutros lugares.Beijinho e tudo de bom para si.Margarida

Bagaço Amarelo disse...

marta, obrigado. não ter pressa acontece-me tanto... o que não me acontece tantas vezes é perceber que isso pode ser bom. :)

margarida rosa, obrigado pelo comentário e por me fazer sentir mais acompanhado. Beijinho. :)

Flash disse...

Um texto especial, que retrata bem o vazio de que somos feitos nos dias de hoje. Cheios de pressa, fechados em nos mesmos. Mesmo assim, ha sempre alguem que ve. Parabens pela sensibilidade.

Bagaço Amarelo disse...

Flash, é por aí, sim. Obrigado pela presença. :)

S.o.l. disse...

:)

Bagaço Amarelo disse...

s.o.l., obrigado... :)