3.03.2014

respostas a perguntas inexistentes (270)

Um local assombrado é sempre uma história de Amor

Só agora, com mais de quarenta anos, é que percebi plenamente uma frase da minha professora de Educação Física do sétimo ano do liceu. Quase trinta anos depois, portanto. Não sei o que é feito dessa professora, porque nunca a mais a vi. Nem sequer faço a mínima ideia se ela está viva, nem me lembro do nome dela. Aquela frase, no entanto, e por qualquer motivo, agarrou-se às paredes da minha memória e nunca mais a esqueci.

- O exercício físico é a melhor forma de esquecermos os nossos problemas de Amor.

Eu tinha uns treze anos quando ela me disse isto, pelo que os meus problemas de Amor se resumiam às minhas crises e inseguranças do princípio da adolescência. Embora fortes, não eram verdadeiros problemas de Amor. Mesmo assim, aquela frase pareceu-me importante e nunca mais a esqueci. Esta semana, numa das poucas tréguas que a chuva deu à cidade de Aveiro, pus-me a caminhar sem direcção, apenas pelo vício de caminhar. Creio que com a mesma sensação que um urso deve ter quando sai da toca depois de um longo período de hibernação, porque de facto as condições meteorológicas não me têm dado muita vontade de sair de casa.
Encontrei a Catarina, com um passo apressado, ali perto de um centro comercial no centro de Esgueira. Já não a via há algum tempo e a primeira coisa que me veio à memória assim que a vi foi a de um abraço que ela me deu há uns atrás do qual, talvez por me ter sabido a uma sinceridade extrema, também nunca mais me esqueci. Convidei-a para tomar café, mas ela limitou-se a cumprimentar-me, dizer-me que precisava de andar e despedir-se de mim novamente.
Devo dizer que tenho um fetiche por centros comerciais construídos nos anos oitenta, daqueles que eram apenas uma série de corredores com lojas que mais pareciam aquários. Tenho esse fetiche porque, nos dias que correm, esses locais mais parecem locais assombrados de tão abandonados que estão. É por isso que de vez em quando visito um ou outro, que foi o que fiz nesse dia. Primeiro passei pelo Carramona, em Esgueira, que mesmo assim ainda tem bastantes sinais de vida, depois pelo Riaplano, perto duma das mais importantes avenidas da cidade e que faz mais justiça à descrição de local assombrado.
Foi nesse local assombrado que reencontrei a Catarina, umas duas horas depois, com o mesmo ar tenso que lhe vira antes. Sorri-lhe, mas não lhe disse nada, pois a forma como ela se despedira de mim antes indicava que ela não estava com muita paciência para ter conversas de circunstância comigo. Só que desta vez foi ela quem parou.

- Também estás desiludido com alguém?

 A pergunta apanhou-me de surpresa e até me deixou um pouco baralhado, mas não me ri porque o ar dela era grave e sério.

- Para além de alguns milhares de portugueses que consideram que o país está no bom caminho, não estou desiludido com ninguém... - arrisquei.
- É que eu só me ponho a andar assim pela cidade quando estou desiludida. - respondeu.
- E estás desiludida agora?
- Sim, e acho que o exercício físico é a melhor forma de esquecer um problema de Amor.

Assim que ela me disse isto lembrei-me da minha professora de Educação Física. Talvez ela, naquela altura, tivesse feito exactamente o mesmo que a Catarina estava a fazer naquele preciso momento, andar pela cidade sem qualquer tipo de objectivo a não ser mergulhar num mundo maior do que os seus pensamentos mais íntimos e preciosos. Pelo menos, acho que é assim que, caminhando ou fazendo exercício, conseguimos esquecer um problema de Amor.
Ainda assim, a Catarina, aceitou tomar o tal café comigo. Expliquei-lhe porque é que gosto de visitar centros comerciais decrépitos e abandonados. À semelhança do que ela sentia, talvez seja porque em todos eles identifico sinais de agitação, de felicidade e alegria adormecidos em cada canto.
Talvez dentro de todos nós, depois de passada uma determina idade, exista um local assombrado destes, uma memória de felicidade que entretanto nos deu um abraço sincero e nos disse adeus. Um local desses é sempre uma história de Amor.

8 comentários:

Pedra do Sertão disse...

Fazia tempo que não vinha por aqui...gostei muito da imagem que você construiu da experiência com sua professora.

Abração e bom carnaval...

Venha nos visitar: www.pedradosertao.blogspot.com.br

Anónimo disse...

Eu sou mais uma Catarina deste nosso Portugal dos deprimidos.
Embora nao me chame Catarina, acho que vou recomeçar as caminhadas.
O que achas?
Caminhada alone... enfim, vou calçar as sapatilhas...

Beijinho

Bagaço Amarelo disse...

pedra do setão, lá irei. um abraço. :)

anónima, beijinho. :)

Maria Eu disse...

Talvez procuremos os lugares desolados para condizer com o nosso desolamento!

Beijinhos Marianos, Bagaço! :)

Bagaço Amarelo disse...

Maria Eu, Com certeza que sim. A coisa anda por aí... :)

EJSantos disse...

"acho que o exercício físico é a melhor forma de esquecer um problema de Amor."
E não só. Sabe tão bem.

Bagaço Amarelo disse...

ejsantos, bem... algum sabe bem. outro nem por isso. :)

Anónimo disse...

O título da publicação lembrou me uma frase de Agustina Bessa Luís em Os meninos de Ouro.
resumindo seria"nunca podemos voltar aos lugares onde fomos felizes" ficam lá sempre os fantasmas do q se foi não do que é.
Lembrei-me ;)

Lisa P.