6.07.2013

dona Elvira

Começo pelo baloiço do parque. Aquele onde a Helena conseguia sempre baloiçar mais alto do que eu e depois saltava lá de cima até enterrar os pés na areia. Lembro-me de a ver a sacudir as mãos e a dizer-me "outra vez!". E eu, que não tinha coragem para ir tão alto, ficava a vê-la repetir a operação durante uma tarde inteira.

- Não fazes? - perguntava ela de vez em quando.
- Não me apetece! - nunca admiti que tinha medo.

Depois veio o ciclo e uma nova paixão, já diferente da anterior e mais perto do início da puberdade. Não havia baloiço, mas havia um enorme muro onde jogávamos ao equilíbrio. A Maria fazia-o todo quase em bicos de pés, eu caía sempre antes de chegar ao fim. Era grande demais para a minha idade e meio desconchavado. Uma vez ela começou num extremo do muro e eu no outro, até nos encontrarmos algures no meio. Dei-lhe a mão e a voz tremeu-me.

- Gosto de ti!

Ela olhou para mim durante alguns segundos, com aqueles enormes olhos de amêndoa de que nunca mais me esqueci. Atirou-me ao chão e fugiu. Eu chorei escondido num arbusto da escola, sem ninguém me ver. Depois o Filipe deu-me um maracujá, porque eu gostava de maracujás ou pelo menos fingia que sim. Talvez tenha sido a minha primeira desilusão de Amor.
Veio o liceu e mais duas mulheres com quem nunca tive coragem de falar, que não queria cair de mais nenhum muro. Passei por elas durante anos como uma bola perdida numa máquina de flippers, aquela Dona Elvira onde vim a fazer um dos meus melhores amigos depois duma cena de pancadaria entre os dois.
Eu estava a jogar, creio que quase a bater o meu recorde pessoal, e ele deu um pontapé na máquina para accionar o bloqueio automático da mesma. Os dois flippers pararam e eu perdi o jogo. Dei-lhe um encontrão que se veio a transformar em murros e pontapés. Acabámos os dois a sangrar do nariz e expulsos do café por um dos empregados, que nos pediu para nunca mais lá voltarmos.
Passámos a cumprimentarmo-nos nos corredores da escola, já que afinal de contas éramos conhecidos. Primeiro com alguma distância, mas depois o tempo curou a nossa zanga e tornámo-nos amigos. Bebemos as primeiras cervejas juntos e falávamos de Amor como se dominássemos o assunto. Não dominávamos, mas parecia que sim e só ele sabia de quem eu gostava mesmo.
Hoje, tantos anos depois, gostava de lhe poder dizer que uma dessas miúdas é a minha namorada, por quem estou apaixonado como quando andava no liceu. É essa a recordação que eu tenho da escola. De Amores transformados em lágrimas e lágrimas transformadas em abraços. É certo, mais um murro ou um pontapé à mistura.
Talvez hoje a escola não esteja a formar pessoas, não esteja a ensinar-nos a viver com o sucesso e com a derrota, ambos inerentes à própria vida. Talvez a competição instaurada entre alunos seja um erro e talvez a maior parte dos professores não tenha mais forças para realmente o ser.
Há qualquer coisa de errado nisto tudo, menos os putos.

6 comentários:

Anónimo disse...

Só para te dizer: gosto mesmo do que escreves.
Um abraço.
EJSantos

Bagaço Amarelo disse...

ejsantos, obrigado. um abraço. :)

Fatyly disse...

Há de facto, não qualquer coisa, mas muita coisa errada nisto tudo...a começar pelos pais, educadores ou responsáveis pelos mesmos, que se demitiram do seu papel e delegam na escola tudo, mas tudo e sobretudo a retirada da autoridade dos professores e directores e nenhuma penalização ao puto ou putos infractores.

O problema que falas sobre a escola já vem há décadas e tudo porque quem faz as leis e ou esteve aos comandos dos ME sempre tiveram os filhos em escolas privadas e esteviram-se nas tintas para a pública.

Enfim poderia dizer mais algumas coisas...mas não me apetece...só à chapada e ao murro é que eu punha esta cambada no lugar!!!!



Bagaço Amarelo disse...

fatyly, por acaso concordo muito, quando dizes "educadores ou responsáveis pelos mesmos, que se demitiram do seu papel e delegam na escola tudo" :)

memyselfandi disse...

olha, vou levar uma parte, ok? ;)

Bagaço Amarelo disse...

memyselfandi, obrigado. :)