3.28.2013

pensamentos catatónicos (291)

É uma pena que os balcões dos bares estejam em vias de extinção. O balcão do café, com aqueles pequenos bancos giratórios, eram o melhor amigo do Homem, mas actualmente vivemos na ditadura das mesas de café.
Um homem quando está só, precisa tanto dum balcão de um bar como do ar para respirar. É que o balcão engrandece a solidão, uma mesa reprime-a. Um balcão é um tapete de boas-vindas a quem anda sozinho pelas ruas, uma mesa é um dedo acusador. "Estás sozinho e aqui só se sentam pessoas acompanhadas", diz-nos. É triste, mas é assim.
Quando um homem está sentado ao balcão de um café, está assumidamente só. Quando está numa mesa de café, não é possível perceber se está à espera de alguém, mas mesmo que não esteja, a tristeza é o ar que se lhe dá. As mesas de café, com uma só pessoa sentada, são um deserto de emoções.
O balcão sim, é uma verdadeira instituição de engate. O empregado de balcão, aliás, é outra. Um cliente pede uma cerveja mas compra também uma conversa sobre seja o que for, nem que seja o estado do tempo, e de repente tod@s @s solitári@s ali sentad@s estão a conversar através dele.
Foi assim que conheci a Luísa há alguns anos atrás. Sentei-me ao lado dela, deixando um lugar vazio entre nós para não parecer mal. Através do empregado, um tipo simpático de bigode ruivo, acabei por falar directamente com ela e saltar, em apenas alguns segundos, essa enorme distância dum pequeno banco giratório que nos separava. Ainda somos amigos e, uma vez por outra, ainda falamos desse dia com um misto de nostalgia e júbilo.
Hoje disseram-me que o Refúgio, o café com o maior balcão da cidade de Aveiro, já não existe. O tempo chamou-lhe velho e fechou-o. Resta-nos as trincheiras do café Ramona e da sala interior do Convívio. É uma pena. Hoje seria difícil conhecer a Luísa.

11 comentários:

Fatyly disse...

Pode ser uma "instituição de engate", mas sinceramente não via esses bancos dessa forma...via-os como uma merda para subir para eles,por vezes rasgar a saia e bater com os joelhos na porra do balcão e se fosse para engatar alguém...perdia logo a vontade toda lol
Por isso eu bebia o café em pé e no meio deles.

Infelizmente neste país tudo fecha minha gente...pela crise ou pela boleia dela por já não terem pachorra para continuar a trabalhar na exploração de locais "emblemáticos".



Anónimo disse...

Não é um bar, mas o balcão d'O Augusto é para mim o sítio mais típico para se almoçar ou jantar em Aveiro.

Estrela disse...

Concordo plenamente contigo.
Eu, que ando muitas vezes sozinha de dia e de noite, adoro um balcão.
Gosto da liberdade de ir onde quero e não me sinto só, mas sentada a um balcão uma pessoa sente-se integrada em qualquer lugar.

Gostei!

Beijo *Estrela*do*

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, de saia rasgada ainda seria mais fácil, lol. :)

anónimo, às vezes vou lá. :)

Estrela, obrigado. :)

dufas disse...

Minino, se acredita que hoje deixei de tomar café num lugar por isso, faltava um balcão! Segurei a fome e vim comer perto de casa - no balcão da padaria.
Texto preciso e delicado, como de costume. Obrigada por ele.
Beijo,
Helê

Anónimo disse...

Não sei se serei só eu, se será uma coisa de mulheres, mas quando vou a um café sozinha e com tempo, gosto de me sentar a uma mesa e ler um livro, naquele misto de me sentir sozinha e acompanhada.

Maria

Olga disse...

Hoje em dia temos a Internet onde se fala com toda a gente e não se conhece ninguém. Acho que essa é a grande instituição do engate hoje em dia. Até já há divórcios por causa da dita cuja!

Bagaço Amarelo disse...

dufas, obrigado. :)

maria, acho que tenho essa imagem de algumas mulheres, sim. :)

olga, quando não se conhece uma pessoa, ela é produto da nossa imaginação. :)

Anónimo disse...

Aliás, mais que a instituição de engate que é o balcão, o balcão ainda serve de filtro. Quem se senta numa mesa, sozinho ou acompanhado, está tão longe da cultura de bar e café que é virtualmente impossível ter uma conversa interessante. Num balcão falasse de tudo, arte, política, ciencia, filosofia (e quem melhor que bebados para falar de filosofia), histórias de vida, reloigião, e todos os grandes temas. Numa mesa fala-se da vida dos outros, ou na melhor das hipóteses, queixumes próprios.

O que disseste é o que digo há anos, há velocidade em que eles desaparecem, que é a velocidade em que ando a perder a vontade de sair.

Olga disse...

Tens toda a razão. Quando se descobre que afinal aquela pessoa não é o que se pensava ser, é porque se passou o tempo todo a imaginar alguém que não existia. :)

Bagaço Amarelo disse...

anónimo, :)

olga, é a magia da internet. :)