12.11.2013

sem título, sem nada

Primeiro, aquilo de que um Amante sente falta é da própria falta. Perguntamo-nos se, em vez de Amar, não seria melhor procurar eternamente o Amor como se ele estivesse à nossa espera na próxima esquina, percorrendo assim todas as esquinas da vida até esta se apagar num ligeiro sopro de alívio.
Procurar o Amor, viver nessa expectativa, é uma infelicidade tão próxima da felicidade que chegamos a acreditar que vale a pena. Talvez valha. Sei lá.
O que eu sei é que há um momento em que acreditamos que não. É quando damos a mão a alguém que nos estende a sua e tudo o resto perde a importância. A árvore que nos observa do meio da avenida, o polícia que multa um carro em segunda fila ou o resultado dum jogo de futebol. Tudo se engrandece para se reduzir a nada.
Porque o Amor é o único capaz de viver do nada.

12.10.2013

conversa 2055

(no café, depois do telemóvel dela ter recebido algumas dezenas de mensagens)

Eu - Caramba! Recebes mais mensagens do que o Pai Natal.
Ela - Pois recebo. É por causa do Facebook.
Eu - Do Facebook?!
Ela - Sim. Cada vez que alguém comenta uma coisa minha, eu recebo uma mensagem no telemóvel a avisar.
Eu - Ah! Já sei. Eu desliguei isso tudo. Também o podes fazer...
Ela - Eu sei que posso, mas não faço.
Eu - Não?! Isso, assim, é uma tortura. Recebes uma mensagem de dois em dois minutos...
Ela - Pois é, mas o eu marido fica roído de ciúmes. Pensa que são amigos meus...

12.08.2013

respostas a perguntas inexistentes (268)

Pela janela, cujos cortinados brancos e limpos me escondem, vejo uma mulher lá fora. Vai olhando para o relógio como se o tempo lhe começasse a faltar. Talvez esteja à espera de alguém que nunca mais chega. Tem o cabelo ligeiramente ruivo, provavelmente pintado com um produto qualquer comprado num supermercado.
Tudo o resto é paisagem. Era, aliás, nessa paisagem que eu estava a tentar acreditar. É que por ali, entre a aparente solidão de alguns edifícios decrépitos que povoam a estranha cidade de Gaia, sobram alguns sinais dum Amor clandestino. Alguém escreveu numa parede a palavra "Amor", em letras tortas e desproporcionais como se estivesse a gritar.
A Ana entra na sala e traz-me a melhor bebida do mundo, segundo ela mesma uns minutos antes. Um chá que não é apenas um chá. Pousa as canecas e olha-me de frente, sem piscar os olhos e com um sorriso que me parece esconder uma tristeza qualquer.

- Prova! - diz.

Aceno afirmativamente com a cabeça enquanto uma pequena porção de um sabor forte e quente percorre o meu esófago.

- É bom. Muito bom... - confirmo.

A Ana não me quer falar sobre o que o seu sorriso esconde. Conheço-a o suficiente para perceber isso. Se quisesse, o mais provável era nem sequer ter feito chá nenhum. Tinha começado a falar assim que abriu a porta de casa para eu entrar. É mau sinal. Talvez seja grave.
Desvio o olhar do nosso silêncio e digo-lhe que está uma mulher lá fora, à espera de alguém, com um ar anormalmente ansioso. Aparenta ter a minha idade, mais ou menos. É bonita, com aquela beleza que só uma mulher de quarenta e poucos anos consegue ter, mas vai abraçando-se dentro de um casaco comprido como se se quisesse esconder do vento, que é o único ocupante da rua. Ou isso, ou então sabe que alguém a espreita cobardemente por trás duma cortina branca.

- É maluca! - diz a Ana - está sempre ali à espera de alguém que nunca chega. Todos os dias faz o mesmo.

Não tenho muito bem a certeza se posso considerar uma pessoa maluca por estar permanentemente à espera de outra. Na verdade, tanto quanto me já me apercebi, essa é uma das condições essenciais do Amor. Esperar, às vezes sem sequer saber por quem. Dou outro gole, desta vez maior. O meu esófago queixa-se.

- Estou sozinha outra vez.
- Já percebi que sim.
- Como é que percebeste?
- Não sei explicar. Assim que entrei na tua casa percebi isso mesmo. Como é que te sentes?
- Aliviada.

O alívio pode ser triste? Pode esconder-se atrás dum sorriso enquanto se serve um chá a um amigo? Talvez possa. Pelo menos espero que sim. Olho-a nos olhos, com o mesmo espírito de um cientista que espreita pelo microscópio. Num imenso mar azul não vejo muito mais do que alguém que regressa a essa condição de espera.
Lá fora, do outro lado da janela, a paisagem subtraiu a mulher que espera permanentemente.

12.07.2013

falhanço


Hoje, sábado às 14:45, estarei no World Failurists Congress, a partir do Tecnoparque, na Curia

12.05.2013

respostas a perguntas inexistentes (267)

acidente por cima da toalha de mesa

Lembro-me daquele milésimo de segundo da mesma forma que me lembro de algumas histórias que li em criança. Com a mesma intensidade e, acima de tudo, com a mesma duração. Foi um milésimo de segundo que durou várias horas. Na verdade talvez ainda dure. Por isso é que estou a falar dele, apesar de ter nascido e morrido há alguns anos atrás.
Eu estava a pôr a mesa para jantar e a Marta quis ajudar. Foi à cozinha buscar duas peças de cada. Dois pratos, duas facas, dois garfos e dois copos de vinho. Sorrimos um para o outro por um momento e os nossos dedos tocaram-se, por acidente, durante o reposicionamento dos copos. Nos dela não sei, mas nos meus ficou guardada a textura da sua pele. Fechei-os, como se assim a pudesse guardar para sempre

- Se o jantar estiver muito salgado não é grave. Telefonamos para a Telepizza! - ri-me.

Ela também se riu.
Não havia razão nenhuma para estarmos os dois em minha casa à hora de jantar, a não ser uma daquelas coincidências cosmológicas que a vida nos traz, de vez em quando, como prenda. Tinha-a encontrado no dia anterior a respirar solidão, num bar qualquer da baixa da cidade. Por descontrole absoluto inspirara um pouco de mim. Trocámos algumas piadas sem piada e contámos mentiras um ao outro toda a noite. Depois combinámos jantar no dia seguinte. Só isso.

- Está bom. Poupaste o dinheiro duma chamada... - disse ela ainda antes de tocar na primeira garfada. 

Os lábios dela eram suaves.
Eu ainda estava a pensar no acidente, aquele em que nossos dedos se encontraram por acaso, um pouco acima da toalha de mesa, como se fossem dois aviões no céu em rota de colisão. A lâmpada de sessenta watts, mesmo por cima de nós, acendera-se pelo mesmo motivo. Um toque, neste caso de alguns fios eléctricos. Estabeleci a comparação como forma de me explicar a mim mesmo, ainda que de forma absurda.

- És tão bonita! - apeteceu-me dizer-lhe.

Mas não disse.
E se de repente fizéssemos Amor? Mas não fizemos. 
Talvez, de vez em quando, o melhor seja não fazer aquilo a que o corpo se propõe com tanta vontade. O corpo tem a mania de não ser lúcido e de querer apagar o desejo que o cérebro e o coração precisam. Sem sexo, talvez aquele calor que pulava na ponta dos meus dedos se mantivesse mais tempo ali. Muito tempo. E manteve.

- Uma das coisas que aprendi nesta vida é que o Amor sugere-se como fácil...
- Mas não é, pois não? - Interrompeu ela.

Não.

12.04.2013

conversa 2054

Ela - Acho que estou a passar a fase de maior actividade sexual da minha vida.
Eu - Fixe. Fizeste alguma coisa para isso?
Ela - Fiz. Comecei uma dieta.
Eu - Uma dieta?!?!
Ela - Sim. À noite, como não posso ir ao frigorífico buscar pão com manteiga, fico tão tensa que tenho que fazer alguma coisa com o meu marido.
Eu - Okay, mas não lhe expliques isso assim...
Ela - Já expliquei.
Eu - Já?!
Ela - Já. Ele perguntou-me o que é que se passava...
Eu - E reagiu bem?
Ela - Acho que sim. Disse qualquer coisa do tipo: "que se f**a!".

12.03.2013

conversa 2053

(em minha casa)

Ela - Tens uns vasos no meio da tua casa...
Eu - Estou a experimentar uma coisa que vi na internet. Colocas umas velas a aquecer um vaso pequeno, virado ao contrário, com outro vaso maior por cima. Parece que aquece o ambiente...
Ela - E aquece mesmo?
Eu - Aquece, embora ainda não esteja satisfeito com os resultados obtidos.
Ela - Mas porque é que estás a usar velas perfumadas para esta experiência?
Eu - Só tinha essas velas em casa quando me decidi a fazer isso.
Ela - Mas estas velas são caras, sabias?
Eu - Estou-me nas tintas. Não servem para nada. Tenho-as aí há que tempos. Foi alguém que mas deu num aniversário, num Natal, ou coisa parecida...
Ela - Pois foi, eu sei. Fui eu que tas ofereci...

11.30.2013

Poemarma

O Poemarma é um poema escrito pelo Manuel Alegre que o Rui Oliveira decidiu cantar. Foi para essa canção que fiz um vídeo. Espero que gostem. Bom dia para vocês!

11.29.2013

conversa 2052

Ela 1 - O Mário é mesmo um homem interessante!
Ela 2 - Achas?!
Ela 1 - Acho, por acaso acho. Tu não achas?
Ela 2 - Mais ou menos... como sou amiga dele há muitos anos nunca pensei nele como um amante, para ser sincera.
Ela 1 - Não?! Eu acho que ele é um naco.
Ela 2 - E deve ser sério. Nunca lhe conheci uma namorada...
Ela 1 - Ui! Acabei de perder todo o interesse nele.
Ela 2 - Porquê?
Ela 1 - Não gosto de automóveis em primeira mão. Prefiro-os usados.

11.28.2013

a primeira vez

Há demasiadas mulheres inteligentes que se deixam anular por homens estúpidos. Pode parecer um contra-senso, mas não é. Deve haver alguns homens que, depois de lerem esta primeira fase, chegam à conclusão que não há homens estúpidos, caso contrário não conseguiriam anular mulheres inteligentes. Errado. A estupidez não tem apenas a ver com o nosso pensamento dedutivo, mas também com o nosso comportamento, e quem se apropria da vida de outra pessoa é porque é estúpido. Ponto.
O que eu estou a dizer é que é muito mais importante o que nós fazemos com a nossa inteligência do que a nossa inteligência propriamente dita. Um homem que agride constantemente a mulher é estúpido, um homem que controla todos os movimentos da mulher é estúpido, um homem que manda calar a mulher também é estúpido. Por muito inteligente que se ache, claro.
Já sei que me vão dizer que também se passa o inverso. Obrigado, eu sei. Só que também sei que tenho quarenta e dois anos e nunca li no jornal que dezenas de homens foram assassinados pelas suas suas companheiras em Portugal, enquanto sobre mulheres mortas leio constantemente. Este ano foram trinta e três, num país do tamanho de um berlinde.
A violência doméstica não tem solução, se calhar porque a estupidez parece ser uma característica biológica e não cultural. Pelo menos nalguns casos. Por isso é que a coisa tem que passar pela primeira vez. E isto é um pedido que faço a todas as mulheres: a primeira vez que ele vos levantar a mão, a primeira que ele vos ameaçar, a primeira vez que ele fechar a porta de casa e esconder a chave ou a primeira vez que ele vos ofender, a única solução é dizer-lhe adeus. 
A estupidez funciona muito melhor quando está sozinha.

11.27.2013

conversa 2051

Ele - Já leste aquele estudo, duma universidade americana qualquer, que diz que ter sexo com a ex-namorada ou a ex-mulher faz bem à saúde?
Eu - Já. Por acaso li ontem na internet.
Ele - Eu também o li na internet e mandei-o logo à minha namorada, por email, a ver se a irritava. Ela costuma ter ciúmes da minha ex-mulher...
Eu - E ela Irritou-se?
Ele - Nem por isso. Respondeu-me logo, passado cinco minutos. Pôs-me um bocado a pensar..
Eu - Então?
Ele - Disse-me que o melhor é separarmo-nos já, a ver se o sexo entre nós nos começa a fazer bem.
Eu - Isso anda assim tão mal?
Ele - Pelos vistos...

11.25.2013

conversa 2050

Ela - Posso contar-te um desejo que tenho?
Eu - Podes.
Ela - Ando a precisar de me envolver com um homem mais novo do que eu.
Eu - Quanto mais novo do que tu?
Ela - Sei lá... preciso dum gajo que tenha aí vinte e cinco anos. Trinta no máximo, vá lá.
Eu - Tu tens quarenta e cinco, não é?
Ela - É.
Eu - Curioso...
Ela - O que é que é curioso?
Eu - Já te ouvi dizer várias vezes que os homens com quem te relacionaste quando eras mais nova eram imaturos e estúpidos a todos os níveis. Agora queres envolver-te com um?
Ela - Quero. Agora é que era bom arranjar um homem dessa idade. Já tenho experiência suficiente para o levar para a cama e não ligar nada ao que ele diz.

11.24.2013

sem título

Saí sozinho. Fui ter a um bar nos subúrbios de Aveiro onde estava uma mulher sentada no canto, pelo menos há uns trezentos anos, com um cão de guarda adormecido. Atrás do balcão, um homem que lia jornais desportivos já amarelecidos pelo tempo perguntou-me o que eu queria. Apeteceu-me dizer-lhe que me apetecia que houvesse paz no mundo, que o capitalismo acabasse duma vez por todas como pai do nosso modelo económico e que a Lena D'àgua nunca tivesse envelhecido. Pelo sim pelo não, acabei por pedir apenas uma aguardente CR&F.

- Tem CR&F? - perguntei.
- Tenho, mas também tenho mais baratas.
- Quanto é a CR&F? - assustei-me.
- Três.
- Pode ser.

A mulher com mais de trezentos anos olhava para mim. Eu sabia-o, embora ela não estivesse dentro do meu ângulo de visão. Há olhares que pesam sobre nós, mesmo quando não os enfrentamos. O homem, por qualquer motivo que nunca vou perceber, serviu-me duas CR&F duma vez e cobrou-me só uma. Em silêncio, cheguei à conclusão que ele sabe que quem bebe CR&F nunca bebe só uma. É uma questão estatística e, pela parte que me toca, tem razão.

- O Ronaldo é muito melhor que o Eusébio. - disse o homem.

A mulher com mais de trezentos anos riu-se, embora eu tenha dúvidas que saiba porquê. Pedi mais duas aguardentes com a condição de pagar só uma. Os bares dos subúrbios da cidade são embrulhos de solidão. É por isso que gosto deles. São os únicos capazes de pegar na solidão de várias pessoas e embrulhá-la duma forma bonita, como se fosse uma prenda de Natal.
Lembro-me de ter ido a este mesmo bar há uns oito anos atrás, pouco tempo depois do meu divórcio e quando me sentia o homem mais sozinho do mundo, com excepção de todos os outros, e de ter visto a mesma mulher com mais de trezentos anos e o mesmo homem a ler jornais desportivos.
Tal como as fases da Lua, há coisa que nunca mudam.


11.21.2013

respostas a perguntas inexistentes (266)

do Amor incondicional

Foi hoje que ouvi um amigo dizer que Ama incondicionalmente uma mulher. Disse-o ao meu lado, enquanto dividíamos uma garrafa de vinho e uma chouriça assada cortada em fatias pequeninas. Uns minutos antes, enquanto eu procurava desesperadamente palitos na minha cozinha para poder picar a chouriça, ele já me tinha dito que anda um bocado em baixo.
Andar um bocado em baixo e Amar incondicionalmente alguém são duas expressões que normalmente dão as mãos.O Amor sem condições não é Amor, é uma desistência de nós mesmos. Enfim, talvez também seja, no verdadeiro sentido do termo, uma infantilidade.
Digo-o, porque foi com a idade (talvez até tardiamente) que percebi a coisa. Agora só Amo com condições, sendo que a maior condição de todas é ser Amado também. Sem essa condição, o melhor que pode acontecer ao interesse por uma mulher é ser isso mesmo: um interesse, uma investigação, uma eventualidade.
Amar incondicionalmente já me aconteceu. Apercebi-me do erro quando dei por mim a mergulhar esse Amor em alguns copos de vinho, como estes que bebíamos hoje, mas sem chouriça, sem palitos e sobretudo sem amigo ao meu lado. O Amor incondicional é a mesma coisa que a solidão, porque quem Ama sem condições não se faz desejado por ninguém.
O vinho, tal como o Amor, deve ser sempre partilhado. E um amigo com quem dividir uma garrafa é bem mais importante que um Amor impossível.

11.14.2013

morte à "gaja boa"

Aviso: este texto é só para homens

Há uma relação directa entre a quantidade de vezes em que um homem chucha no dedo sozinho e aquelas em que diz que uma gaja qualquer é boa. Eu, sempre que ouço um tipo qualquer dizer que "aquela gaja é mesmo boa", tiro automaticamente a conclusão de que ele é apenas um pobre solitário, uma espécie de satélite longínquo do planeta em que queria tocar. A má notícia é que elas tiram a mesma conclusão. Com excepção, claro, da Scarlett Johansson, que é mesmo boa. Quando um gajo me diz que a Scarlett é mesmo boa, eu aceno afirmativamente com a cabeça e, lá está, passo a ser eu o satélite.
O problema da "gaja boa" não é apenas semântico. "Boa" podia querer dizer generosa (na maneira de ser e não nas formas) ou justa (na maneira de ser e não não nas formas), mas todos sabem o que é que aquilo quer dizer realmente. Não é que seja mau olhar para uma mulher por causa do seu impacto visual, mas é demasiado mau parecer um cachorro abandonado e a salivar, que é o que parece um gajo qualquer quando diz que "uma gaja é boa".
Por tudo isto declaro morte à expressão "gaja boa" e anuncio a boa nova, ou melhor, a mais ou menos nova. Devemos todos começar a dizer que as gajas são mais ou menos. É preciso ser inteligente e não parecer um cão que não come há duas semanas. Ao dizermos que uma gaja é mais ou menos, mantemo-nos no mesmo patamar dela. Impedimos que ela passe a olhar para nós como seres miseráveis e tristes que só pensam em sexo. Com excepção, lá está, da Scarlett Johansson. A essa podemos dizer que é boa, até porque é mesmo.
Se todos passarmos a dizer que as gajas são mais ou menos, não ofendemos ninguém e damos aos piropos um ar mais elegante e selecto. Com o tempo e com a habituação até podemos, eventualmente, começar a dizer coisas como "tu és mesmo toda mais ou menos" ou "mas que gaja tão mais ou menos". É melhor para todos, acreditem. As mulheres vão passar a olhar para os homens como seres que comem de faca e garfo, não fazem barulho a beber chá e nunca têm gases e, no final de contas, o desabafo pavloviano está lá na mesma.
Boa sorte, ou melhor, uma sorte assim assim.

11.13.2013

conversa 2049

Ela - Raios lá para os homens que não sabem engatar uma mulher!
Eu - Que homem é que não sabe engatar uma mulher?
Ela - Nenhum homem sabe. A verdade é essa.
Eu - É?
Ela - É. A maior parte pensa que com um carro de luxo, um ramo de flores e um jantar à luz das velas consegue o que quer...
Eu - E não consegue?
Ela - Claro que não. Não é isso que uma mulher procura num homem...
Eu - Então é o quê?! Pode vir a dar jeito...
Ela - Competição.
Eu - Competição?! Não atingi...
Ela - Lá está. Também nunca percebeste nada do assunto.
Eu - Então explica-me, por favor.
Ela - Um gajo tem que trazer concorrência com ele, que é para dar pica. Tem que ter outra gaja interessada nele, percebes?
Eu - Mais ou menos...
Ela - Qual é a mulher que se vai meter com um gajo a quem ninguém liga?! Se houver outra mulher no jogo, a coisa torna-se muito mais interessante.

11.12.2013

respostas a perguntas inexistentes (265)

o edifício

Era estudante e estava sentado num muro à espera dum colega meu, na cidade do Porto. À minha frente uma série de prédios, relativamente recentes, pareciam alinhados para admirar a Lua cheia que surgira por trás deles. Nas ruas não havia quase nenhum movimento pedonal, mas sobravam automóveis para dar e vender. 
Enquanto os prédios olhavam para a Lua, eu olhava para eles. As luzes interiores davam sinais de vida a um ritmo lento e, das janelas mais baixas, era possível ouvir alguns sons domésticos. As famílias que ali moravam começavam a jantar e eu, sozinho, continuava à espera que o meu colega chegasse. Dei-me conta de que, instintivamente, imaginara a vida de todas aquelas pessoas duma forma estereotipada. Para mim, todas as famílias que ali moravam eram compostas por um casal heterossexual e um ou dois filhos, com a mulher de avental e o marido a chegar a casa um pouco depois dela, já com a janta na mesa. Todos discutiam temas banais, como a política de panfleto ou um jogo de futebol qualquer. 
O meu colega acabou por não aparecer e eu, sem perceber exactamente como, fiquei ali até os edifícios se confundirem com o céu escuro e cada uma das minhas famílias estereotipadas adormecer. A verdade é que não dei pelo tempo a passar.
Na noite seguinte saí com alguns amigos e fui a um bar perto da Ribeira que eu gostava muito. Era calmo o suficiente para se poder ter uma conversa e movimentado quanto baste para não nos sentirmos isolados do mundo. Quando me virei para o balcão, para pedir a segunda cerveja, uma mulher que estava noutra mesa levantou-se e veio ter comigo. Perguntou-me se tinha sido eu a passar a noite anterior inteira sentado num muro que dava para a janela dela. Que sim, respondi, e expliquei-lhe a história toda.
Também ela me tinha visto da mesma forma estereotipada. Estando eu ali, toda a noite sozinho em frente a um edifício, só podia estar apaixonado por alguém que não me ligava nenhuma. Estaria numa de sofrimento, à espera que um milagre se desse e a minha paixão viesse à janela.

- Estava só à espera dum colega que não apareceu... - disse.

Eu e a Ana ficámos amigos. Provavelmente, e digo isto sem certezas, vivemos uma amizade tão intensa quanto incomum. Sei que sempre que entrei na casa dela, durante os anos em que fomos próximos, pensei em como a minha percepção da vida naquele edifício tinha sido errada. Quanto mais não seja, a Ana mostrou-me isso. Agradeço-lhe.

11.11.2013

conversa 2048

(na casa dela)

Eu - Compraste um peixinho vermelho...
Ela - Comprei. Sempre me faz companhia, agora que vivo sozinha. Gostas?
Eu - Para ser sincero não. Peixinhos vermelhos em aquários redondos sempre me fizeram impressão.
Ela - Porquê?
Eu - Porque são atrofiantes. Não acredito que um peixinho, ali naquela coisa minúscula, possa ser feliz.
Ela - Os peixinhos vermelhos não são felizes nem são tristes. Não têm essa capacidade.
Eu - Não?!
Ela - Não. Limitam-se a comer quando lhes dão comida. De resto, não são seres pensantes.
Eu - Então que raio de companhia é que o peixe te faz?
Ela - Lembra-me o meu marido.

11.09.2013

conversa 2047

Eu - Queres vir até minha casa beber um copo de vinho?
Ela - Isso é uma tentativa de engate?
Eu - Não.
Ela - Então não vou.
Eu - Não me digas que se fosse para eu te tentar engatar já ias.
Ela - Claro que ia, só que ia para não me deixar engatar.

11.08.2013

conversa 2046

Ela - Eu, que detesto homens ciumentos, logo tinha que ir dar com um...
Eu - O teu marido é ciumento?
Ela - Nem imaginas. Parece muito calminho mas depois, em casa, faz cada cena de vez em quando.
Eu - Espero que nunca tenha feito nenhuma cena por minha causa.
Ela - Por tua causa nunca fez, mas faz por causa dos meus amigos que eu acho giros.
Eu - Ah!