7.02.2016

olhos

Quando partimos para outro país choramos sempre. Às vezes não em lágrimas, mas quase sempre em silêncio. No princípio o truque é reparar em tudo o que acontece à nossa volta: na criança que vai ao nosso lado no autocarro a abraçar uma boneca, na hospedeira do avião que nos pergunta se queremos mais um copo de vinho ou no polícia de fronteira que nos pede a identificação a sorrir. E nós também sorrimos. Sorrimos com tudo aquilo em que reparamos porque estamos órfãos do resto. E o resto é o mundo.
Ao contrário do que se possa pensar, não se chora por tristeza. Chora-se pelo choque do que a vida é e nunca foi tanto: uma mudança. Sentimo-nos vivos pela primeira vez e isso confunde-nos. E quando não há nada em que reparar perguntamo-nos onde é que estivemos até agora. O que é que andámos cobardemente a fazer na nossa vidinha do dia-a-dia. E encontramos uma resposta escrita no tempo, que não queremos ler mas sabemos que está lá. A adiar a vida. Foi isso. Procuramos algumas moedas no bolso das calças e bebemos um café na máquina automatica de um aeroporto. Olhamos para os outros e perguntamo-nos quem são, de onde vêm e para onde vão. O mundo é para conhecer.
Depois damos por nós verdadeiramente sozinhos. Sem conseguir ler os letreiros das lojas nem os jornais dos quiosques, sem ter o amigo do costume para falar de futebol ou de cinema, sem o calor da família e sem que alguém saiba o nosso nome. Mergulhámos no meio da indiferença e percebemos que não é o mundo que vamos conhecer, mas sim nós mesmos.
A felicidade esgravata-se nessa indiferença da mesma forma que se plantam sementes num terreno árido. Marcam-se encontros através da internet, sentamo-nos sozinhos no balcão de um café e metemos conversa com quem passa, caminhamos quilómetros seguidos pela cidade e delineamos estratégias no fundo de um copo de uísque. Faz-se um amigo num dia, uma amiga noutro, e nada nos que se seguem.
As primeiras pessoas que conhecemos são exactamente como nós. Vieram de algum sítio distante e andam no mesmo exercício de se conhecerem melhor. À procura sabe-se lá do quê e para quê. Brindamos com cerveja ao futuro, mas nesse momento é o passado que nos vem à memória. Os brindes que fizemos e os abraços que demos e que já não existem.  Vem-nos à memória e aos olhos. E tornamos a reparar em coisas pequenas para disfarçar.
Os dias alternam entre o frio e o quente. Nunca estão mornos e isso deve ser bom. Arranjamos um tecto que não é muito mais do que apenas isso mesmo e lavamos a cara várias vezes por dia com água fria. Procuramo-nos por trás da ferrugem do espelho, antes de saírmos de casa todas as manhãs, e esculpimos a face para que ela não mude. Temos seis ou sete números de telefone para convidar alguém para uma cerveja e essa foi a maior conquista que se fez até ao momento.
Depois há uma mulher, porque tem que haver sempre uma mulher para que a vida seja vida. É o quarto número da nossa pequena lista e mandamos-lhe uma mensagem ansiosa por um café a dois. Talvez ela apareça, talvez não. Se aparecer, talvez a coisa se repita, talvez não. Se se repetir, talvez se transforme em água e se dilua também ela nos nos nossos olhos.


 

10 comentários:

Fatyly disse...

Tal e qual Bagaço e eu sei bem de cor e salteado o que é partirmos, sobretudo a mais dolorosa, a fuga de uma guerra civil. Saí da minha terra, aterrei em Portugal sem nunca ter cá estado e pouco depois Brasil. Quase três anos passado e volto de novo a Portugal. Fui burra em ter confiado e dar uma nova chance a...e não ter seguido para o meu berço.

Custa?, claro que sim e ainda hoje e na miséria política a que temos sido sujeitos...obrigam a uma nova emigração em massa.

Boa sorte rapaz e aguenta-te que o tempo é o melhor dos remédios.

Beijinhos e um abraço de muita força

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, um outro abraço e um beijinho sincero. :)

São Rosas disse...

Chiça, Bagacito... um dia destes ainda crio um grupo de intervenção para te ir buscar... ou, pelo menos, para ir beber uma cerveja contigo.

Bagaço Amarelo disse...

são rosas, a cerveja aprovo... :)

Flash disse...

Descreve tao bem o que se sente.
A segunda parte dessa experiencia completa-se quando regressar e perceber que nao pertence ai mas também ja nao pertence aqui. Esses pequenos novos nadas do dia a dia ai, se um dia ficar longe, ganham outra dimensão; transformam-se em novas saudades. Fica-se do mundo, vive-se uma certa despersonalizacao que em alguns momentos causa dor. Mas uma dor fininha, como quando nos morre uma crença que nos fazia mais fortes mas mais tontos. Eu choro menos agora, aceito com mais facilidade, nao existem zonas de conforto fora do hoje. O mundo deixou de ser tao grande porque se calhar descobrimos que somos mesmo pequeninos.
Crescer dói, mas sabe bem poder crescer. Beijinhos e sorrisos, vai tudo correr bem.

São Rosas disse...

Também eu :O)

C disse...

O passado está escrito mas o futuro não. O passado dá-nos algum conforto mas o futuro traz toda a esperança. Um brinde a ti! beijos

Bagaço Amarelo disse...

flash, pois... tenho pensado nessa direcção. Obrigado pelo testemunho. :)

são rosas, aqui a cerveja é melhor do que aí e mais barata. :)

c, beijo. obrigado. :)

pequeno caso serio disse...

Parece que leio um pensamento "familiar".
Soube muito bem ler o teu testemunho . Obrigada.
Quem cá fica também chora... muitas vezes num silêncio ensurdecedor por não conseguirmos dividir uma dor que é só nossa.
Desejo que a água seque. A tua e já agora, a minha também.

Bagaço Amarelo disse...

pequeno caso serio, chorar não é sempre mau. às vezes é sinal de que estamos vivos. :) beijinho