7.04.2016

creme Nívea

O taxista estava descalço, sentado no banco do condutor com as pernas fora do carro. Cada uma das suas meias esverdeadas a espreitar dos sapatos como se fossem cobras indianas encantadas com o som duma flauta mágica. Com os dedos das mãos limpava os dedos dos pés, tão concentrado que demorou a perceber a minha presença. Tossi, sem ter tosse para o fazer, e ele olhou para cima semicerrando os olhos como se eu fosse o Sol. Mandou-me entrar e calçou-se apressadamente.
O cheiro do creme Nivea que acabara de passar pela cara, para combater a secura da pele, lembrou-me uma praia portuguesa, uma mão dada à minha namorada e um abraço com a pele tostada. Lembrei-me dos seus cabelos negros misturados com areia e dela a pedir-me que levasse o guarda-sol  amarelo e o abrisse no sítio do costume. Que ingenuidade, sempre pensei que aquele aroma era da praia e afinal é apenas de um creme.
O pára-brisas do táxi amarelo enquadrava uma paisagem de edifícios envergonhados que contrasta com essa memória. Estão degradados e só se mantêm de pé porque é essa a dignidade que lhes resta, manterem-se de pé como velhos equilibrados na ponta de uma bengala, num esforço titânico de quem já passou pela vida toda. Ouvi qualquer coisa em búlgaro que não percebi, mas que supus ser a pergunta normal sobre para onde queria eu ir. Sorri, tirei o meu telemóvel do bolso e mostrei-lhe uma mensagem que recebera antes com a morada dela, em cirílico, e um convite em inglês para aparecer. Preparava-me para me deitar, apesar de serem oito da manhã, pois tinha feito direta a trabalhar.
Tenho que descansar, disse-lhe. Podes descansar comigo, respondeu. E eu tornei-me a vestir e saí de casa à procura de um táxi.
O carro arrancou devagar. No rádio fanhoso ouvia uma música qualquer de chalga que conheço mas da qual não sei o nome. Os edifícios observavam-me em silêncio, como se se perguntassem para onde é que eu ia àquela hora matinal de um Domingo. Tentei recordar-me do cheiro verdadeiro da praia, mas não consegui fugir da memória daquele abraço e do aroma intenso do creme Nivea. Parámos num semáforo, olhei pela janela e decidi falar com eles. Com os edifícios, digo.
É que o Amor não me passa nem quando me falta, disse-lhes.
Atiraram com as bengalas ao chão e disseram-me adeus. Todos eles, até àquele em que eu parei para mandar mais uma mensagem pelo telemóvel. Estou aqui à porta, escrevi. Ela desceu e abraçámo-nos. E de dois que éramos passámos a ser só um, mais um aroma qualquer a uma cidade que cada vez é mais minha.
Talvez daqui a uns anos me lembre deste abraço noutro táxi, noutra cidade, noutro Amor. Que o Amor nunca me passe nem quando me faltar, pensei. E subi.

17 comentários:

São Rosas disse...

Que bom saber que nunca faltas aos treinos :O)

Bagaço Amarelo disse...

são rosas, já faltei... e arrependi-me. :)

duasfridas disse...

"É que o Amor não me passa nem quando me falta".
Que frase! Que texto.
Parabéns, novamente.
Helê

São Rosas disse...

É aquele provérbio popular: "As que não se deram, já não se dão". :O)

Bagaço Amarelo disse...

duasfridas, obrigado. :)

são rosas, sem tirar nem pôr. :)

Isabel Pires disse...

Ívar, leio sempre com interesse e emoção os teus textos. E é sempre uma alegria ver que publicaste, mesmo quando falas de tristeza. Ou especialmente quando falas de melancolia e de tristeza.
Nem sempre comento. Limitações de tempo.

Esse olhar, agora vindo de tão longe, mostra-nos outra perspectiva. A forma como o descreves leva-nos a sair da zona de conforto e a colocar no lugar do outro. É necessário. Muito necessário.
Que o Amor não nos passe nem quando nos falta. E isto é difícil de conseguir.

Deixo-te um beijo

Bagaço Amarelo disse...

Isabel Pires, obrigado pela presença. Beijinho. :)

pequeno caso serio disse...

Os cheiros têm essa capacidade de nos transportar para lugares já "esquecidos". 99% das vezes é bom regressar . Tão bom que damos por nós a comprar "latas de nivea" para podermos viajar.
;)

Bagaço Amarelo disse...

pequeno caso serio, são estímulos... se bem que eu não esqueço nada. :)

São Rosas disse...

E este teu texto também teve de passar à frente dos outros.

Bagaço Amarelo disse...

são rosas, tipo... meteu uma cunha. :)

São Rosas disse...

Mas foi branqueada... com Nivea :O)

Bagaço Amarelo disse...

Sáo Rosas, lol. é a minha primeira vez. :)

São Rosas disse...

Vê-se mesmo que não és banqueiro... nem bancário :O)

Bagaço Amarelo disse...

São Rosas, sou um teso. não é mau. :)

São Rosas disse...

Tem as suas vantagens :O)

Bagaço Amarelo disse...

São Rosas, lol! :)