12.29.2015

coisas que fascinam (199)

Aos dezanove anos escrevi a minha primeira história de Amor. Escrevi-a com o intuito de fazer um filme e, com excepção de algumas pessoas que me são muito próximas, nunca a mostrei a ninguém. Uma dessas pessoas é uma mulher por quem estive muito apaixonado e que acabou por ser a mãe da minha única filha. Separámo-nos dezasseis anos depois e hoje em dia, com quarenta e quatro anos, já perdi a conta às vezes que reescrevi a história. Ainda não fiz o filme.
Na verdade, cada mulher que fez parte da minha vida faz também parte da última versão da história. É por isso que a reescrevo. Se um dia, por acaso, eu conseguir mesmo passá-la para o ecrã, sei que nele poderei ver um pouco de todas as mulheres por quem me apaixonei. Saber isso traz-me de alguma forma uma sensação de alegria e também de angústia, porque naquelas páginas estão, ainda que de forma imperceptível para a maior parte dos potenciais leitores, tantos princípios como finais de Amores que sempre imaginei eternos.
Há algum tempo que não lhe pegava. Na verdade, tinha-a guardado numa pen de sessenta e quatro megabytes que comprei há sete anos e que estava cheia de pó numa gaveta onde guardo todo o tipo de recordações que não tenho coragem de ver de forma regular. Até hoje, dia em que a estive a ler porque, mais uma vez, preciso de lhe fazer alterações.
Das poucas coisas que aprendi com as diversas histórias de Amor que vivi, a mais importante é que a seguir a uma acaba sempre por vir outra. É assim que mantenho as forças para, em tempos estéreis, conseguir escrever sobre Amor.
Para além disso, e ao ler sobre os abraços que cada uma dessas mulheres me deu, percebi também que nenhuma mulher abraça da mesma forma. Sei, pelo menos, que o que um homem sente quando é abraçado por uma mulher nunca é igual ao que sente quando é abraçado por outra. Talvez seja assim que um homem se apaixona ou não. Através da singularidade de um abraço.
Se algum dia fizer o filme, quero que o último abraço, na última cena, pareça tão longo e tão curto como todos os abraços que recebi até hoje.

4 comentários:

Janita disse...

Também me senti fascinada por este relato de uma história de amor inacabada.
Dezanove anos é uma idade óptima para se começar a escrever. Seja uma história de amor, um romance de aventuras ou um policial.

Foi com essa idade que Jorge Amado escreveu o seu primeiro romance. De todos os que o escritor escreveu este é de longe aquele que mais gosto: "Capitães de Areia".

Como essa sua história está, e continuará a estar, inacabada, permito-me sugerir que, em vez de filme produza antes uma série televisiva. Assim, a cada novo amor acrescenta um episódio.
Parece-lhe bem?

O último parágrafo fez-me lembrar aquela cena, inesquecível, do filme "Casablanca"...O 'Bagaço', após o curto/longo abraço, poderia terminar assim: " We’ll always have O’Porto". :)

PS. Estou a brincar, mas faço questão de lhe dizer que aprecio muito os seus escritos. Verdade ou ficção, o que importa?
:)

Bagaço Amarelo disse...

Janita, sim, verdade ou ficção, o que importa? Às vezes mente-se para dizer a verdade, outras vezes engana-se com a própria verdade. Obrigado por me entender. :)

Claudia Sousa Dias disse...

Quero ver o filme. Junta-te ao Vicente Alves do Ó. Ou ao José Fonsecae Costa. E botem pa' quebrar.

Bagaço Amarelo disse...

Claudia sousa dias, eu tenho uma produtora... :-)