12.19.2013

coisas que fascinam (164)

coisas estranhas nos dias normais

Acontecem coisas estranhas nos dias normais. Nenhuma dessas coisas é igual a outra, mas nunca damos por elas porque acontecem regularmente. É isso que as torna iguais, apesar de diferentes. Uma vez por outra, muito raramente, numa dessas coisas surge um pequeno rasgo de Amor, assim como um passageiro desconhecido que sai do comboio num apeadeiro qualquer à procura de aventura.

Numa estação do metro do Porto, num dia em que o céu se assemelhava a uma cinzenta aguarela infantil, uma mulher dividiu o guarda-chuva dela comigo. Ficou ali a segurá-lo, protegendo-me da água que ia caindo, como se isso fosse a coisa mais natural deste mundo. Mas não era. A normalidade depende da estatística e eu não via mais ninguém a dividir o guarda-chuva com um estranho. Esse dia foi hoje.
Ela não disse nada. Nem sequer uma palavra. Eu só disse uma. Obrigado. Depois vi-a sair em Campanhã e entrar no comboio para Braga, enquanto eu me dirigia para a linha seis onde me esperava o comboio para Aveiro. Provavelmente nunca mais a vejo. De certeza que nunca mais a esqueço.

É no comboio que escrevo estas linhas. Sentei-me à frente dum casal. Ele dormia com a cabeça pousada no ombro dela, enquanto ela olhava pela janela como se analisasse ao pormenor uma pintura qualquer. Os nossos olhares encontraram-se por uma pequena fracção de segundo, como se fossem duas borboletas num voo tonto, para logo a seguir pousarem em pontos distantes.
Ela acabou por sair na estação de Esmoriz. Primeiro afastou-lhe cuidadosamente a cabeça e pousou-a para trás, como se estivesse a mudar de sítio uma frágil peça de louça. Depois levantou-se e saiu em silêncio enquanto ele lhe pediu desculpa, ainda estremunhado. Afinal não eram um casal. Não se conheciam de lado nenhum, mas ele adormecera no ombro dela e ela deixara-se estar ali, tão quieta como uma fêmea leoa que protege uma cria de cordeiro.

Acontecem coisas estranhas nos dias normais. Uma das coisas mais estranhas que me acontece a mim é quase nunca dar por elas. Se desse, se eu fosse capaz de reparar todos os dias nas mulheres que têm a coragem de salvar o dia de um homem, tenho a certeza que os meus dias seriam diferentes. Mais estranhos e mais normais. Certamente melhores.

12 comentários:

Portuguese Girl With American Dreams disse...

são estas pequenas coisas que fazem o nosso dia. Belas palavras as que escreveste e belos corações essas pessoas também tinham.

Um ótimo dia para ti!

Bagaço Amarelo disse...

Portuguese Girl With American Dreams, obrigado. bom dia para ti. :)

mosKa disse...

Os instantes que marcam a eternidade.

Bagaço Amarelo disse...

moska, :)

Anónimo disse...

Olha, olha! Boas noticias.
Fiquei bem disposto por saber destes pequenos gestos de bondade. :-)
Só é pena estranharmos quando acontecem. MAs felizmente acontecem.
Ah, não sei se é lamechas, mas um feliz Natal.
EJSantos

Bagaço Amarelo disse...

ejsantos, bom Natal. :)

Maria Eva disse...

E acredita que para estas mulheres o dia também vai correr bem melhor. Quem faz o bem de forma natural sente-se recompensado só por tê-lo feito. :)

mundoameuspés disse...

São os pequenos gestos que fazem toda a diferença!

Bagaço Amarelo disse...

maria eva, obrigado. :)

mundoameuspés, às vezes sim. :)

Olívia Ferrari disse...

Deixar um estranho dormir ao meu ombro, realmente penso que seria um bocadinho estranho mesmo para mim...mas dividir o guarda -chuva seria algo bem normal!! Com uma pequena diferença... eu com cereteza teria iniciado uma conversa:!!
Será que eu falo demais?? Ou falo muito??

Olívia Ferrari disse...

Deixar um estranho dormir ao meu ombro, penso que seria um bocadinho estranho, até mesmo para mim...mas dividir o guarda-chuva acho bastante normal e que com certeza eu faria!! Com uma pequena diferença: teria iniciado uma conversa :)
Será que eu falo muito? ou demais??!! :)

Bagaço Amarelo disse...

Olívia Ferrari, não me parece que o exemplo sirva para concluir que alguém fala demais. :)