2.20.2013

cartuchos

Existe alguma incompatibilidade entre o céu e a estrada. No céu, que parece pintado do mesmo tom de azul até à linha do horizonte, não há uma única nuvem; a Nacional 109, por outro lado, está repleta de automóveis. É como se lá em cima houvesse mais espaço para respirar do que cá em baixo, pensa Irina enquanto o taxista desliga a ignição dum Mercedes Benz 240. Ela percebe que o motor do automóvel adormeceu, mas não quer entrar em conversa com o condutor até que a música chegue ao fim. Está a passar Be My Babe, dos Ronettes, e ela ouve cada nota com os olhos postos lá em cima, na vida.
Depois a música chega ao fim.

- Não creio que o trânsito retome a marcha tão cedo! - diz o taxista que, pelos vistos, também estava à espera que a música acabasse.

Irina continua sem vontade de falar. Contempla o interior do automóvel, provavelmente construído nos anos sessenta, passando os olhos pelos luxuosos estofos de pele que ainda reluzem como novos. Depois olha para o painel de instrumentos e repara que não conhece o sistema de reprodução de som que agora já está a tocar Walking In The Rain.

- Que é isso que estou a ouvir? - Pergunta.
- Ronettes.
- Estou a perguntar pelo aparelho.
- É um leitor de cartuchos. O primeiro que veio para Portugal, logo em 1964, ano em que foram fabricados os primeiros... - o taxista é, nitidamente, alguém muito orgulhoso do seu próprio carro.
- Bonito! - Ela gostava de ter alguma coisa para dizer, mas a verdade é que não lhe surge nada.

Ouvem-se algumas buzinas desesperadas. Em alguns automóveis, os passageiros e condutores já abriram as portas para poderem esticar as pernas. Um pouco mais à frente, a uns três carros de intervalo, uma mulher abriu uma melancia e distribui pedaços por uma série de crianças. Mesmo ao lado, um homem de barba e óculos escuros devora cigarros que vai mordendo nervosamente. Irina pergunta-se quantas pessoas daquela enorme fila de automóveis já terão reparado no céu azul. Talvez nenhuma, responde em silêncio.
Nunca tinha falado com um taxista antes. Para além de serem raras as vezes em que entra num táxi, nunca lhe deu para dar confiança aos condutores, dada a sua primeira experiência uns anos antes. Um homem de meia idade e com um cheiro a suor azedo tentou levá-la para um hotel. Não forçou nada fisicamente, mas a parte verbal foi suficiente para a deixar desgastada. No entanto, este parece-lhe diferente. É mais velho, mas não é bem por isso. Alguém que tem um carro daqueles tão cuidado e que ainda ouve música em cartuchos não pode ser má pessoa. 

- Está com muita pressa? - Pergunta ele.
- Nem sei...

Na verdade, ela não sabe mesmo que pressa tem. É Domingo, zangou-se com o marido, saiu de casa e apanhou um táxi que ia a passar. Pediu para ir para o primeiro sítio que se lembrou, nos subúrbios da cidade, e agora está ali presa no trânsito, provavelmente por causa dum acidente qualquer. Foram uma série de impulsos sucessivos que a levaram a estar ali agora, mas sente-se recompensada por ter aprendido o que é um cartucho e ter experimentado a audição de um, ainda por cima num automóvel daqueles. Por impulso também, decide confiar pela primeira vez num taxista e conta-lhe a história.
Repara agora que ele tem um pescoço razoavelmente gordo, que começa a pingar algumas gotas de suor. Os seus olhares trocam-se pela primeira vez, mas através do velho espelho retrovisor.

- Se não está com pressa para ir a lado nenhum, só tem duas alternativas - afirma ele.
- Quais?
- Ou passa grande parte da tarde aqui comigo a ouvir música dos anos sessenta, ou sai e volta para trás a pé. No segundo caso, só lhe cobro a viagem até aqui.

Existe alguma incompatibilidade entre o céu e a estrada. O céu parece fresco e vigilante; o alcatrão quente da estrada, por seu lado, parece derreter a cada passo duma mulher que caminha entre centenas de automóveis parados. Ela não sabem bem porquê, mas cada vez que avista um Peugeot 405 branco examina com atenção a face do condutor. Pode ser o seu companheiro.

9 comentários:

Paulo Freitas disse...

Ainda cheguei a usar um leitor desses. As cassetes rodavam sem fim e o leitor emitia um ruido abafado cada vez que a cabeça de leitura mudava de faixa... Lembro-me de ouvir a Lena D'Água/Salada de Frutas - Olha o Robot que era coisa moderníssima no longinquo ano de 1981... altura ainda em cartucho :)

Paulo Freitas disse...

Ainda cheguei a usar um leitor desses. As cassetes rodavam sem fim e o leitor emitia um ruido abafado cada vez que a cabeça de leitura mudava de faixa... Lembro-me de ouvir a Lena D'Água/Salada de Frutas - Olha o Robot que era coisa moderníssima no longinquo ano de 1981... altura ainda em cartucho :)

João de Matos disse...

Os velhos cartuchos, que ainda, me lembra de ouvir em velhas (agora) Renault 4. Boa história...

João disse...

Qual a relação entre o Mercedes Benz 2405 e o Peugeot 405 Branco

Bagaço Amarelo disse...

paulo freitas, dava tudo para ter um leitor desses agora. :)

joão de matos, Tive uma Renault 4 também, e não imaginas as saudades... :)

joão, nenhuma. :)

Cris disse...

Bonita história :)

Bagaço Amarelo disse...

cris, obrigado. :)

Fatyly disse...

Um história tão comum mas que a descreves de uma forma genial. Gostei!

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, obrigado. :)