3.02.2017

respostas a perguntas inexistentes (375)

deserto

Tomo um café logo pela manhã numa bomba de gasolina. É estranho, este prazer de sentir os primeiros aromas da Primavera misturados com o cheiro a alcatrão e a petróleo. Uma mulher bonita acabou de passar por mim, depois de pagar o seu abastecimento, e partiu num velho desportivo vermelho deixando atrás de si uma pequena nuvem de poluição. Ia em passo apressado, como se toda a vida dependesse da sua capacidade de chegar a tempo ao seu destino. Se eu pudesse dizer-lhe alguma coisa, era que a vida continuou depois dela partir. Mas não posso.
O que aconteceu então foi que um funcionário deixou cair um tabuleiro com copos e canecas de café que se desfizeram em cacos num barulho ensurcedor. Por um momento todos os presentes olharam por breves segundos para o local da explosão e logo voltaram aos seus pensamentos e pequenas acções. Eu também. A minha pequena acção foi terminar de comer uma fatia de banitsa com abóbora e agora o meu pensamento navega pelos desertos do meu passado.
De certa forma, todos encontramos desertos nas nossas vidas, sejam eles de trabalho, de alegria, de afeto ou de outra coisa qualquer. Quase todos os meus desertos foram de Amor e deram em longas viagens pelas áridas dunas de areia que se formam em nós quando a nossa palma da mão também se sente deserta. Penso numa dessas viagens e nas fotografias que fiz. De certa forma, vim dar aqui, a este país e a esta estação de serviço.
Todos os Amores têm sabor. Podem ser doces ou amargos, verdes ou maduros, insossos ou apurados. Só lhes sentimos o sabor se soubermos fazer cada um desses desertos a que a vida nos obriga ou, pelo menos, é nisso que acredito.
A banitsa soube-me bem. Tinha abóbora, queijo branco e, claro, massa folhada.


8 comentários:

Janita disse...

Afinal, chegou a emigrar?
Andou um tempo afastado, mas, felizmente, ei-lo regressado. Sempre com boas prosas, pensamentos cheios de emoções e narrativas do seu quotidiano. Sabe? Triste mesmo foi constatar que não houve por parte de ninguém presente, ao tombar do tabuleiro e dos cacos espalhados pelo chão, uma voz que se levantasse e perguntasse ao empregado se precisava de uma mão...
Agora compreendi porque esta rubrica tem o nome de 'respostas a perguntas inexistentes'.
A vida é, às vezes, um deserto árido...

Um abraço, gostei de voltar a estar aqui. :)

Matilda disse...

A maioria (e porque não todos?) de todos os meus desertos também foram de amor.

Bagaço Amarelo disse...

Janita, obrigato. Estou na Bulgária há 11 meses. :)

Matilda, bem compreensível. :)

Maria Eu disse...

Há desertos que é preciso atravessarmos para que os pequenos oásis nos saibam melhor.

Beijos, Ivar :)

redonda disse...

E agora fiquei com vontade de comer uma banitsa...
(sentia falta de passar por aqui)

um beijinho

Bagaço Amarelo disse...

Maria Eu, pois... é por aí. beijos, maria. :)

Redonda, basta visitares-me. :)

Janita disse...

Está na Bulgária? Ah...um país lindo! :)

Desejo-lhe muita sorte e toda a felicidade do mundo! :)

Um abraço. :)

Bagaço Amarelo disse...

Janita, obrigado. :)