1.20.2017

coisas que fascinam (214)

Talvez duas mulheres que dividiam uma música na estação de metro de Musagenitsa tenha sido o que vi hoje de mais bonito. Uma delas segurava um telemóvel de onde saía um par de auscultadores. Um deles estava no ouvido esquerdo duma delas, o outro no direito da outra. Sorriam. Não ouvi a música, mas imaginei que era a Ayo a cantar.
Vinham na minha direcção, no meio de um mar de gente que acabara de sair do mesmo metro que elas. Algumas das pessoas faziam um ar zangado porque as duas andavam mais devagar e atrapalhavam o movimento normal dos passageiros que entravam e saíam da estação naquela hora de ponta. Um homem deu-lhes um encontrão com o ombro e uma mulher gritou-lhes qualquer coisa em búlgaro.
Eu parei e a multidão passou por mim como lama viva. Aconteceu-me o mesmo. Levei um encontrão e tenho a sensação que alguém me disse alguma coisa desagradável do tipo "mexe-te!". Quando, finalmente, todos já se tinham ido embora, percebi que elas eram as únicas que sorriam. Então sorri também. Estava sozinho no cais.
Não sei quando é que a normalidade dos dias se torna tão cinzenta que acaba por ser agressiva para quem tem o bonito gesto de dividir uma música, mas senti-me bem por perceber que lhe escapei. A essa normalidade cinzenta, digo.
Estou aqui longe, entre uma dor e uma alegria constantes. É duro, mas é vida mesmo. E em vez de dar encontrões em mulheres que sorriem, sorrio-lhes também.

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