6.16.2016

nuvens

Não, não é só dinheiro. Às vezes nem dinheiro é. É o choque, é o Amor, é a vida. Enfim, é o sangue que nos corre nas veias. É por tudo isso que um dia se fecha a porta de casa com duas voltas à chave e não se olha para trás. Para não morrer antes que a morte chegue. E sim, há muito sofrimento à mistura que se pode beber num cocktail de lágrimas, sorrisos e abraços. Também há muita saudade, muita hesitação e, acima de tudo, muito coração.
Os lugares são importantes, porra. Por isso mudar de lugar pode sê-lo ainda mais. Relativiza-nos tudo, estar noutro sítio, menos o Amor que temos por um filho, por uma mãe ou por um irmão. Partimos de novo do ponto do ponto zero e caminhamos pela rua como quem acabou de nascer outra vez. Sabemos que tudo o que nos rodeia é novo, menos as nuvens. Talvez essas tenham passado pelo nosso país de origem e alguém de quem gostamos as tenha visto. É uma ligação qualquer, daquelas que não entendemos mas que sabemos que está lá. E choramos e rimos Rimos e choramos.
A primeira sensação é a de desamparo. Estamos sozinhos no que para nós é o fim do mundo e damos um novo significado às palavras fome e frio. Sobretudo à palavra Amor. Arrendamos uma casa velha num bairro degradado, dormimos no chão duas semanas e depois improvisamos uma cama com tábuas velhas. Com o primeiro salário compramos um fervedor de água e um bico de um fogão. De repente, uma lata de feijão e meio chouriço cozido é a melhor refeição que tivemos na vida. Sorrimos de novo, enquanto lemos pela enésima vez o único livro em português que trouxemos de casa. Adormecemos com ele sobre o peito, os pés nos velhos tacos de madeira e a cabeça numa esponja. Enroscamo-nos com o vazio e contamos segredos à noite infinita. Está tudo bem, dizemos.
Durante o dia somos mendigos, não de uma moeda nem de um bocado de pão. Apenas de bondade. Um sorriso que apareça, por exemplo, e ajude a curar um velho Amor que ainda sangra. A bondade, como todos sabem, não se pede de mão estendida. Tem que vir com dignidade. Então estendemos as palavras. Falamos com todos os que nos querem ouvir, mesmo que não nos percebam bem, até um sábado à tarde em que alguém nos devolve o sorriso e nos dá a mão. Então tudo é novo. Menos as nuvens, claro.
Depois há a violência, aquela que é inerente à própria condição de respirar. Estar vivo significa sofrer quase sempre, menos quando temos Amor. Ainda assim é tão bom. É o melhor que nos pode acontecer, estarmos vivos e podermos fazer alguma coisa por nós, nem que seja olhar para a merda duma nuvem e ver nela, com saudade, a única coisa que nos resta do passado. É quando digo isto a alguém e esse alguém me responde com um abraço que, apesar de não estar em casa, sei que estou novamente em casa.

12 comentários:

Flash disse...

Que lado de dentro tao elegante. Animo!, sao experiencias que nos fazem bem mais fortes. Quando regressar vera o que antes era belo, mais belo ainda. Boa sorte, cruze-se com a bondade dia sim dia também. :)

São Rosas disse...

Como diz um amigo meu, "abre aço!"

Bagaço Amarelo disse...

flash, não conto voltar tão cedo. mas sim, conto voltar. :)

são rosas, outro. :)

Maria disse...

Há algum tempo alguém que partiu mas sem retorno escreveu-me :

" Os homens... enfiam-se nos rápidos, mas nem sequer sabem o que procuram. Vão e vêm e dão voltas....
Não vale a pena.... Os olhos são cegos. É preciso procurar com o coração".

Beijo-o, Maria

Maria disse...

" os homens. ....enfiam-se nos rápidos, mas nem sequer sabem onque procuram. Vão e vêm e dão voltas....Não vale a pena.
....mas os olhos são cegos. É preciso procurar com o coração. ..."

duasfridas disse...

Daqui deste lado do Atlântico acompanho com alguma angústia os novos lances desses fragmentos da sua história. Sinto pelo que parece uma solidão injusta; torço para que fique bem, se possível, feliz.
Aquele Abraço,
Helê

Bagaço Amarelo disse...

maria, obrigado. :)

duasfridas, eu estou bem. :)

Miss Seren disse...

Casa é o sítio onde vamos sendo felizes. E quando precisamos de dar duas voltas à chave podemos equacionar pegar fogo a tudo. Para nos obrigar-mos a construir uma casa nova, mas harmoniosa e com melhores alicerces. Beijo

pequeno caso serio disse...

Sei do que falas. Cálculo que seja tudo isso que o meu irmão tenha sentido quando fechou a sua porta com duas voltas.Quatro anos volvidos , ainda não voltou. Por cá as nuvens continuam as mesmas : levam e trazem saudades.
Que tudo te corra pelo melhor e que nunca percas a chave da tua casa ;)

Bagaço Amarelo disse...

misse seren, beijo. :)

pequeno caso sério, pois... é quase sempre por aí. beijinho. :)

Claudia Sousa Dias disse...

Um beijo, querido amigo!

Bagaço Amarelo disse...

claudia sousa dias, beijinho. :)