8.18.2013

não é só pelos touros

é por todos nós

Já lá vou ao episódio triste (mais um) da tourada de Viana do Castelo. Primeiro regresso trinta anos atrás, à minha Aveiro de criança e aos copos de gasosa Uprel que eu bebia por vinte e cinco tostões na genuína tasca do senhor Seabra, a uns vinte metros da fonte dos Amores.
Nessa tasca misturavam-se as crianças que bebiam Uprel e os adultos que bebiam vinho. Demasiado vinho, diga-se de passagem. Tanto, que mais tarde ou mais cedo as palavras começavam a sair da boca sem controle nenhum, sempre em direcção à filha desse homem que ainda teimo em chamar de senhor.
Um desses homens era conhecido por ter assassinado a mulher à pancada, numa lenta e longa tortura que hoje em dia já tem nome e algum enquadramento jurídico. Chama-se Violência Doméstica e é um crime público.
Era um fim de tarde e eu refrescava-me com esse milagre de água açucarada e gaseificada quando alguns homens, a custo, se levantaram para irem jantar. Um deles, tão inclinado como a torre de Pizza, também se ergueu, mas recusou-se a dar os primeiros passos.

- Eu só vou para casa quando me apetecer, que não tenho mulher em casa que mande em mim. A essa cabra, já a matei há anos!

É verdade que esse homem me assustava. Apenas o senhor Seabra me acalmou um pouco nesse momento, quando se aproximou dele e o expulsou do estabelecimento. Lá fora, ainda o ouvi praguejar.

- Oh! Seabra, se quiseres também mato a tua!

Gerou-se alguma confusão. Aquele tipo, que se orgulhava de ter assassinado uma mulher, estava de orgulho ferido e não aceitava ser expulso de lugar nenhum. Alguém tentava pôr água na fervura e pedia calma. Eu aproveitei uma abertura e fugi. Voltei a esta história uns dias depois, quando percebi que a maior parte desse grupo de clientes estava proibida de entrar na taberna pelo próprio senhor Seabra.

- Não é pela mulher. É por todos nós! - ouvi-o explicar a uns quantos clientes curiosos.

Esta foi uma das histórias de violência da minha vida, da qual nunca mais me esqueci. Outra delas passou-se ontem e vi-a apenas através do ecrã da televisão da casa duma amiga. Uma mulher ainda jovem, que se manifestava contra a organização duma tourada, era arrastada pela polícia. Alguns manifestantes, indignados, manifestavam-se a alguma distância.
Lembrei-me da frase do senhor Seabra, há mais de trinta anos atrás. É que não é só pelos touros e pelo sofrimento animal, embora o seja principalmente. É também por todos nós. A tourada não é uma tradição, não é um espectáculo cultural. Não é nada, a não ser um acto de violência que nos envergonha a todos pelo simples facto de existir. É um retrocesso civilizacional e uma amostra do quão animalesca pode ser a nossa espécie. A humana.
Agradeço a essa jovem arrastada e a todos os outros manifestantes de Viana do Castelo. Não só pelos animais, mas também por todos nós. Obrigado.

14 comentários:

EJSantos disse...

Olá Ivar.
Sim, tinha razão o Sr Seabra. E tu também tens razão.
A família da minha mulher são aficionados (à minha mulher lá vou mostrando o que é a tourada; trabalho paciente, mas que vai dando resultados). Eles já tentaram levar-me a uma tourada. Falharam e ficaram a saber que quando digo não, é não.
Agora andam com a mania que um dia, quando crescer, vão levar o meu filho às touradas. Vou lhes lembrar que quando digo não, é não.
E tens razão. É por todos nós.
Um abraço
EJSantos
PS: Sabes qual é a modalidade que pratico. Odeio violência gratuita.

Y2000k disse...

Grande texto! Eu fui educado pelos meus pais a gostar de tourada e até cheguei a ir ver quando era mais novo com eles, mas hoje em dia sou totalmente contra, como é que ainda é possível nos dias de hoje.

Bagaço Amarelo disse...

ejsantos, eu fui a uma tourada quando era criança também. chegou-me! sei qual é a modalidade que praticas, sim. eu já andei por lá, mas com uma enorme falta de jeito para a coisa. conheci muito boa gente lá. :)

y2000k, também não entendo esta persistência num acto tão bárbaro. não vou morrer sem ver, pelo menos, o fim do dinheiro público a subsidiar isto. :)

Anónimo disse...

É que não percebo, não percebo mesmo, qual o prazer em ver o animal a ser torturado! Nunca fui, mas na tv via, quando era pequena. Descendente de ribatejanos, achava normal. Até que veio a tv a cores, e vi o sangue, e percebi o sofrimento do bicho mas nunca percebi o entusiasmo dos humanos. Ainda não percebo.

Fatyly disse...

Como sempre mais um texto magnífico. Mas discordo de uma coisa, infelizmente as touradas fazem parte da cultura do povo português e mudar mentalidades demora séculos! Nunca gostei e nunca assisti a nenhuma, nem pela tv e muito menos às pegas de forcados.

Portanto sou contra e ontem também vi essa manifestação e achas que com "essas touradas" conseguem alguma coisa? É que lá está o que eu digo...luta-se por uma causa e para isso é preciso levar as forças de segurança até ao extremo? Afinal havia tourada lá dentro e cá fora...desculpa, mas a "guarda" na volta até era contra, mas estava a cumprir uma missão...

Só não percebo uma coisa: em Viana foram proibidas há uns anos e agora retiraram essa proibição?

Se um dia o mundo é dos "touros" gostaria de ver esses "aficionados" a levarem com farpas no lombo!

ARRE..não sei se me fiz entender.

Bagaço Amarelo disse...

anónima, ninguém percebe, a não ser através duma psicopatia colectiva. :)

fatyly, fizeste-te entender, sim. a polícia a cumprir missões pode agredir sem ser agredida? :)

Conto de Fadas disse...

Sou de Viana e é uma prática que me mete nojo. É o meu único comentário.

Fatyly disse...

Bagaço, Claro que não e tudo tem limites e que terão feito e dito...é que ver pela tv é uma coisa, e ao vivo é outra. Não estou a defender nenhuma parte, precisaria de lá estar para ver...defeitos do que foi o meu ofício perto de 40 anos:)

Bagaço Amarelo disse...

conto de fadas, boa. :)

fatyly, as pessoas deviam ter o direito total à manifestação. é a minha opinião. :)

Fatyly disse...

Claro que sim, não é isso que ponho em questão...e exemplifico melhor: na AR o que os manifestantes fizeram contra a polícia? Eles aguentaram duas horas...já imaginaste se aguentarias tanto desaforo? é isso "direito total"?

e não acredito que no caso das touradas tudo tivesse sido pacífico e que se mantiveram no perimetro de segurança imposto. Manifestar o desagrado, gritar, etc. não é atirar com grades, vandalizar etc e tal...

e se eu estiver errada, desculpa pá!

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, um polícia competente, e eu sei que há polícias competentes, é alguém que aguenta provocações ao limite. neste caso concreto, nem me parece que isso tenha acontecido. :)

Miguel disse...

Gosto deste blog e partilho de grande parte das opiniões e textos aqui colocados.

Mas desta vez parece-me que o texto está um pouco desajustado.

Na minha opinião a questão das touradas é simples de resolver. Quem gosta das touradas vai assistir, quem não gosta não vai.

Agora quando os que não gostam tentam impedir os restantes de ir assistir, com atitudes mais ou menos violentas, já me parece que estamos a deturpar o princípio da liberdade.

No limite temos que defender os direitos dos touros, mas investir com toda a força contra os polícias. Esses sim têm de aguentar todas as provações até ao limite.

Peço desculpa pelo desabafo, mas começo a ficar saturado desta sociedade do politicamente correcto.

Bagaço Amarelo disse...

miguel, o politicamente correto, e que tem destruído este país aos poucos, é precisamente esse princípio do "Quem gosta das touradas vai assistir, quem não gosta não vai". Eu acho é que precisamos de cidadãos intervenientes. Se não os houvesse, as coisas más como as touradas não mudavam nunca. :)

Luciana Leal disse...

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