só para eu poder entrar
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A Minha Mãe E Um Saco De Tempo
Perdi a conta às más notícias que dei à minha mãe durante a minha vida. Dei algumas boas também, mas por qualquer motivo sinto que dei mais más do que boas. Uma delas foi que tinha perdido o emprego e estava sem dinheiro. Dessa vez, como em todas as outras, a primeira resposta da minha mãe foi sorrir e dizer que tudo tem solução.
A minha mãe não sabe, mas nesses momentos ensinou-me sempre que um sorriso pode salvar uma vida. É que uma vida inteira pode ter milhões e milhões de segundos, mas tem que se salvar em cada um que passa.
Foi também assim que aprendi a parar no tempo, esse monstro invisível que me estava a matar. Foi o tempo de estudar, o tempo de casar, o tempo de constituir família, o tempo de ter um emprego tão bom quanto o dos outros, o tempo de ter um carro e o tempo de ter uma casa. Foram vários tempos com tempo para tudo menos para viver.
E então parei e meti esse tempo todo num saco.
Andei por aí. Do que me lembro é de ter lido um livro no topo duma montanha, de ter ouvido uma música numa praia e de me ter apaixonado num jardim. Às vezes com dinheiro, outras vezes sem, mas sempre com o tempo todo só para mim. Ainda hoje vivo assim, com os outros a viverem mais depressa do que eu, e lembro-me sempre da minha mãe a sorrir e a dizer que tudo tem solução.
Talvez não haja outro truque nesta vida do que viver sem pressas, mas a pressa de viver não nos deixa percebê-lo. Digo-o eu agora, que quando espreito o saco do meu tempo passado reparo naquilo que não reparei quando o vivi.
Foi a minha mãe que mo ensinou.
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Às vezes, muitas vezes, dou por mim a convidar o meu passado para um copo. Tristezas profundas transformaram-se entretanto em sorrisos patetas e a felicidade transformou-se quase sempre em nostalgia.
Alguns dos melhores Amores que tive nunca o chegaram a ser. Foram, por assim dizer, meios amores. Não porque não pudessem ter sido algo mais, mas apenas porque não aconteceu.
Quando um meio Amor nunca chega a ser muito mais do que isso, tendemos a pensar que algo falhou, mas hoje, nesse copo de vinho que partilhei com o meu passado, dei-me conta que não.
É que um meio Amor não é Amar pela metade. Talvez seja apenas Amar mais depressa e, portanto, em menos tempo. Quando acreditamos que a durabilidade é a principal qualidade de um Amor, arriscamo-nos a tentar esticar o que não é esticável.
Não é que isto seja importante. É apenas uma forma de me explicar a mim como os meios Amores foram inteiros.
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(por skype, com uma amiga portuguesa)
Ela - Vê se levas o meu marido uns dias aí para Inglaterra...
Eu - Ele está a precisar de sair de Portugal?
Ela - Sei lá!
Eu - Então queres que ele venha porquê?
Ela - Sou eu que preciso que ele saia de Portugal por uns tempos.
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O último carro que passou era branco. Não sei a marca. Sei que antes de atravessar a estrada que dá para o maior supermercado da cidade, olhei para o lado direito num movimento que me é, de certa forma, pensado. Ainda não me habituei totalmente ao sentido do tráfego na Inglaterra e o meu primeiro impulso é sempre olhar para o lado esquerdo. O meu segundo movimento pensado seria, caso pudesse, atravessar a passadeira mesmo com o vermelho aceso. Chovia a cântaros.
O carro branco que passou era conduzido por uma mulher. Os nossos olhares cruzaram-se por uma fracção de segundo. Depois o motor tossiu e ela acelerou até desaparecer na curva seguinte.
No fim nada. Só a memória fresca dos olhos negros que tinham acabado de me tocar como se fossem vento frio. A cidade ficou deserta, mas mesmo assim os semáforos continuavam a alternar as luzes vermelhas e verdes num gesto mecânico, repetitivo e ausente. Talvez, durante uma parte da minha vida, eu tenha vivido assim, da mesma forma, repetindo gestos diariamente só porque sim. Talvez tenha sido um olhar fugaz como este a despertar-me para a vida e a fazer-me mudar.
Nunca fui muito influenciado por grandes discursos, sermões ou histórias. Já alguns olhares, abraços ou beijos foram capazes de alterar totalmente o sentido minha vida. É como se, de repente, o voo de uma borboleta pudesse alterar o percurso e o destino de um navio com um leve golpe de asas. É isso um beijo, por exemplo.
Andei por aí. Abriguei-me em alguns Amores do tamanho de um casarão até ser expulso. Digo-o assim, porque é sempre a sensação que nasce com o fim duma paixão, a de se ser um sem-abrigo. Depois a realidade transforma-se lentamente em memórias líquidas e incertas e nós andamos por aí até acabarmos no cruzamento deserto duma pequena cidade inglesa. Os semáforos funcionam sem motivo aparente, como quase todo o mundo, mas um olhar furtivo acordou-nos e faz-nos perceber o bom que é estar vivo.
Está a chover.
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É quase pornográfico, isto que eu vou dizer, mas em certa medida um bar é como um banco. Num banco depositamos o nosso dinheiro, num bar depositamos a nossa vida. E agora que disse isto, sem dúvida que um bar é muito mais importante do que um banco qualquer.
E então decobri o meu banco preferido pouco tempo depois de chegar a este país. Chama-se Elite e fica numa esquina esquecida dum bairro em Mladost. É frequentado maioritariamente por pessoas de idade avançada que nunca souberam parar de beber, basicamente porque também nunca souberam como parar de viver. Esse é um dos problemas da vida, disse-me uma vez um velhote a tentar manter-se em pé com a ajuda do balcão. O que fazer da vida quando a idade no corpo fugiu à juventude da alma? E riu-se. Depois brindou comigo e calou-se, como se o silêncio fosse quem o melhor podia compreender naquele momento. E então pus-lhe a mão no ombro, porque também eu o compreendia.
O primeiro depósito que fiz foi sobre a saudade, essa palavra tão portuguesa e tão minha. A dona abriu conta em meu nome e ouviu-me a falar sobre a minha filha, a minha mãe e alguns amigos. Como é que vai pagar? Perguntou-me ela. Bebendo um uísque, respondi. E pagámos a meias, com um copo de Bushmills cada um.
Talvez seja difícil explicar a fininha lâminha de dor que corta continuamente a alma de quem decidiu emigrar, mas isso não é importante. Também há coisas boas, tão boas que não precisamos de juros pelos depósitos que vamos fazendo aqui e ali. Uma delas chama-se descoberta. Partimos do zero e vamo-nos descobrindo a nós mesmos à medida que fazemos novos amigos. É como se tivéssemos feito um reset à vida e nascido de novo. Podemos caminhar na avenida mais movimentada da cidade sem sermos reconhecidos por ninguém, parar para procurar a Lua entre o topo dos edifícios e inspirar fundo para absorver tudo duma vez. É o tempo à nossa disposição. Totalmente.
E então sentei-me sozinho na esplanada do banco. Do outro lado da rua, alguns homens bêbados urinavam entre os contentores do lixo, observados pelos velhos e grandes edifícios que ameaçavam ruir a qualquer momento. Um homem caiu no meio da rua e corri para o ajudar a levantar-se. Com a ajuda de mais alguns transeuntes, sentei-o numa cadeira. Quando voltei ao meu lugar a S. encostou a cabeça no meu ombro. Perdi o contacto visual com ela, mas sentia os seus cabelos longos a beijar-me o queixo.
Não lhe disse nada. Tal como numa bebedeira, o silêncio era quem melhor me podia compreender. É assim que se vive, depositando os dias num ou noutro copo até alguém encostar a cabeça no nosso ombro. Tão fácil... e eu nunca o tinha percebido.
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Faz-se sempre um balanço da vida quando se encontra um amigo de longa data que já não se vê há muito tempo. Trabalhas em quê? Acabaste o curso? Casaste? Tens filhos? Bem, quando encontrei o J. a minha vida estava uma desgraça. Tinha perdido o emprego e a minha namorada tinha-me dado um pontapé no rabo sem explicações. Os meus luxos resumiam-se a uma cerveja de vez em quando no café, ao mesmo tempo que via um jogo de futebol sem qualquer tipo de entusiasmo. Talvez por isso ele tenha começado por vincar como a vida lhe corria bem.
Eram duas equipas alemãs a jogar na emissão da Sporttv, uma amarela e uma azul. Sem saber porquê, enquanto o ouvia, torcia pela equipa amarela. A mão dele mexia numa chave electrónica dum Audi A4 como se fosse um reco-reco a tentar chamar a atenção. Trabalhava num banco, tinha um filho bom na escola e em desporto, tinha feito a Universidade sem qualquer hesitação e, cereja em cima do bolo, tinha encontrado e casado com a mulher da vida dele. O meu silêncio era incapaz de manter em segredo a minha vida, mas não havia muito a fazer.
Depois a equipa azul marcou um golo. Um homem só no balcão festejou-o e o telemóvel topo de gama do J, tocou. O toque era uma música qualquer de rock dos anos setenta da qual não me consegui lembrar do nome. Nem da banda nem do tema.
- É a minha mulher. O que é que a gaja quer agora? - Perguntou.
A minha cerveja estava no fim, mas eu não tinha dinheiro para outra. Fiquei a ouvi-lo falar com a mulher enquanto os amarelos tentavam empatar desesperadamente. Talvez fosse um jogo importante. Está bem, meu Amor. Encontrei um amigo do liceu. Está tudo bem. Sim, eu compro. Vai tu buscar o miúdo, podes? Amo-te. E depois suspirou. Olhei para os olhos dele. Neles, a falta de brilho era um reflexo perfeito dos meus. E então perguntei-me em silêncio: "E quando acaba o Amor?".
Aquele "Amo-te" tinha-lhe morrido nos lábios como uma onda do mar que não chega sequer à praia. A mulher da vida dele, em menos de um minuto, tinha-se transformado numa gaja que só o estava a chatear. E então foi a minha vez de falar.
- Não sei o que é que se passa comigo. Não consigo manter um emprego nem uma relação. Em pouco tempo, canso-me das minhas namoradas ou elas se cansam de mim. Acaba tudo e atravesso desertos até me apaixonar outra vez e acreditar que vai ser para sempre. Depois sou feliz durante algum tempo, até acabar o Amor.
Não falei do meu desemprego nem do meu carro que já devia ter ido à inspecção há mais de dois meses, mas eu não tinha dinheiro para lhe trocar o cano de escape e por isso andava a tentar evitar a polícia.
Sorri-lhe. Os amarelos marcaram um golo, mas o mesmo foi anulado pelo árbitro.
Ele guardou a chave do Audi A4 no bolso, pagou a conta toda e foi-se embora com um "tchau" tão convincente como o "Amo-te" que tinha dito à mulher da vida dele uns minutos antes. Pude pedir outra cerveja e acabei de ver o jogo sozinho. Os amarelos perderam.
- E quando acaba o Amor?
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Subo as longas escadas rolantes da estação de metro do Levski Stadium, quieto e em fila indiana, engolido pelo emaranhado novelo de silêncio dos passageiros. À minha frente, uma mulher leva uma mochila às costas com a imagem duma banda qualquer de metal. São quatro homens com a face pintada de branco, os lábios e os olhos de negro e, por fim, um sorriso largo a lembrar-me o do Joker. Por causa do desnível dos degraus, essa imagem está mesmo à frente dos meus olhos.
No topo da escada está um polícia, com o habitual fato de macaco azul que os polícias búlgaros usam. Também sorri, mas não tanto, para cada uma das pessoas que a escada vai cuspindo. Sei que, de um momento para o outro, vai chamar alguém à sorte e pedir a documentação. Uma vez, há alguns meses atrás, calhou-me a mim. Fitou o meu cartão de cidadão português e o visa búlgaro durante mais tempo do que o necessário. Depois pôs um olhar inquisidor e disse: "Portugalsko...". Eu assenti com a cabeça e ele devolveu-me tudo para a mão. Hoje não. Será a vez de outro.
Assim que as grandes portas de vidro da estação se abrem, uma sirene e um aviso mecânico de que a cidade vai ser bombardeada enchem o espaço. Por um segundo acredito, mas depois percebo que a cidade continua a respirar como de costume, sem acreditar que vêm aí bombardeiros. Um homem percebe o meu susto e acalma-me dizendo que é apenas um teste. Ainda bem. Se eu morresse hoje, os últimos sorrisos que tinha visto seriam o de uma banda de metal e o de um polícia inquisidor.
Respiro fundo e enfrento de novo a cidade. O nosso ritmo cardíaco é agora igual. Caminho pelas suas ruas à mesma velocidade que ela caminha por mim. Uma mulher refugiada disputa alguns pedaços de pão com uma dezena de pombos. Não sei como é o pão foi ali parar, muito menos os pombos, mas imagino o percurso dela. Talvez a Turquia, talvez o mares Mediterrâneo e Egeu num barco improvisado. Sei lá...
Sei que um grupo de ciganos toca guitarra e dança no meio do passeio. A maior parte das pessoas contorna-o mantendo pelo menos dois metros de distância. Quase todos os passageiros dos eléctricos que passam olham com curiosidade, como se estivessem a olhar para animais numa jaula sem perceberem que são eles mesmos que estão enjaulados. Há um homem branco, de idade avançada, que atira a mala para o chão e se põe a dançar com eles. Tenta manter-se na vertical com apenas um dos pés, o que consegue dificilmente. Uma cigana que tem vários cigarros na mão aproxima-se e pede-me mais um. Que não fumo, respondo. Ela aperta-me a bochecha e diz qualquer coisa incompreensível. Regressa ao grupo e entrega todos os cigarros a um homem que olha para mim e me agradece num gesto. Pensa que fui que lhos dei.
Enjaulo-me num desses eléctricos também. Uma mulher sem pernas pede-me ajuda com a cadeira de rodas. É pesada como a vida, pelo menos custa-me bastante colocá-la dentro do vagão. A mulher sobe fazendo dos joelhos os pés. Como será ver o mundo àquela altura? Não sei, mas sei que ela me devolve o melhor sorriso do dia. Apenas uma paragem depois, ajudo-a a sair.
Eu não queria sair já aqui. Na verdade, nem sei muito bem onde queria sair. Só o fiz para ajudar a tirar a cadeira de rodas do eléctrico. Volto para trás. Tudo o que posso e devo fazer hoje, já que não morri debaixo de nenhum bombardeamento, é oferecer uma refeição quente a quem anda a disputar comida com pombos.
Encontro a mulher. Encostou-se a um canto de mão estendida. Percebo que ela ainda nem sequer sabe pedir. Tem vergonha e faltam-lhe as forças. Todos os meus problemas se diluem num vazio incompreensível.
Esta cidade é louca. É por isso que estou apaixonado por ela. Até um dia estoirar. Até um dia...
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E então vou de pé.
É que nunca me sento quando viajo de metro à hora de ponta, mesmo que na estação onde eu normalmente entro ainda costume haver alguns lugares livres. Sei que é uma questão de tempo, pouco, até que pessoas mais velhas do que eu invadam o espaço e o preencham como se fosse um ovo.
E então vou de pé.
A minha mão agarrou-se a um varão horizontal como se a minha vida dependesse disso. A vida não, mas o equilíbrio do corpo sim. Toda a força que faço está concentrada nos meus dedos para contrariar a aceleração e a desaceleração da carruagem.
E então vou de pé.
Ali dentro todos os olhares se escondem, a maior parte deles no ecrã de um telemóvel ou num livro. Os outros, aqueles que não têm um esconderijo próprio, colam-se a coisas tão absurdas como os próprios pés ou o vazio. Se fosse possível desenhar uma recta a partir de cada um desses olhares, tenho a certeza que nenhuma delas tocava noutra. É estranho, todos os olhares irem dar a um infinito dentro de uma carruagem de metro que me parece tão finita.
E então vou de pé e pergunto-me se a vida é só isto: uma viagem matinal para um trabalho que permite a toda a gente viver uma vida de que, pelo menos neste momento, parece não gostar muito. Pergunto-me se a vida é um homem cujo olhar se derreteu na palma da própria mão, uma mulher que encostou a cabeça a um vidro trémulo ou esta voz repetitiva a anunciar cada estação que se aproxima.
E então vou de pé. A vida é só isto?
Sou um explorador numa densa e quieta floresta de braços e pernas. Silenciosa também. Sem bússola, os meus olhos percorrem-na como se fossem uma afiada catana. Descobrem um outro olhar, também perdido, que talvez se pergunte o mesmo. Diz-me adeus. Respondo com um sorriso. É uma mulher a quem pedi ajuda uma vez quando estava totalmente perdido num dos bairros da cidade.
E então vou de pé. Já sei que a vida não é só isto.
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A cidade
Vivo nos subúrbios de Sófia, onde os velhos edifícios me lembram as torres de caixotes de papelão que eu fazia quando era criança. Parece que se vão desmoronar a qualquer momento, mas uma força qualquer sobrenatural faz com que se mantenham em pé desde o período em que o país era comunista. O tempo que passou por eles passou também por mim, e revejo as cidades que eu construía na casa dos meus pais nessa infância que teima em não me dizer adeus.
Hoje de manhã, quando saía para o trabalho, cruzei-me com uma vizinha que me sorriu timidamente e me cumprimentou em português. Ensinei-a a dizer "Bom Dia" há alguns meses, mas depois disso nunca mais a vi. Até hoje, claro. Ainda se lembrava da nossa pequena conversa de apresentação e permitiu-me ouvir a minha língua materna logo pela manhã. Respondi-lhe em búlgaro, agradecido.
É claro que podemos ver a cidade como uma série de caixotes amontoados, em esforço para se manterem em pé. Podemos ver-lhe as igrejas, os jardins e o intenso trânsito de automóveis normalmente velhos e ruidosos, mas nunca a conhecemos mesmo enquanto não nos cruzarmos com um vizinho de manhã na escada do nosso prédio. Era essa a maior curiosidade da minha infância: como seriam as pessoas das cidades improvisadas por mim.
O tempo trouxe-me também o Amor de uma mulher. Depois de outra e mais outra. Aprendi, felizmente, pouco sobre essa matéria, mas o suficiente para saber que ele é como uma cidade. O que nunca percebi é se devemos procurá-lo a ele ou se é melhor que ele nos encontre a nós, por acaso, numa esquina e numa hora ao acaso. Falo ainda do Amor, claro.
Às vezes, muitas vezes, sou só eu e a cidade. É com ela que falo sobre isso enquanto caminho só. Os eléctricos mastigam o alcatrão da estrada velha, as pessoas caminham como se fossem formigas assustadas e os automóveis roncam como animais enfurecidos. A minha vizinha afasta-se e diz-me adeus com a mão esquerda, enquanto com a outra segura um saco térmico com o que suponho ser o almoço. Nunca senti falta desta cidade antes de a conhecer. E no Amor?
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deserto
Tomo um café logo pela manhã numa bomba de gasolina. É estranho, este prazer de sentir os primeiros aromas da Primavera misturados com o cheiro a alcatrão e a petróleo. Uma mulher bonita acabou de passar por mim, depois de pagar o seu abastecimento, e partiu num velho desportivo vermelho deixando atrás de si uma pequena nuvem de poluição. Ia em passo apressado, como se toda a vida dependesse da sua capacidade de chegar a tempo ao seu destino. Se eu pudesse dizer-lhe alguma coisa, era que a vida continuou depois dela partir. Mas não posso.
O que aconteceu então foi que um funcionário deixou cair um tabuleiro com copos e canecas de café que se desfizeram em cacos num barulho ensurcedor. Por um momento todos os presentes olharam por breves segundos para o local da explosão e logo voltaram aos seus pensamentos e pequenas acções. Eu também. A minha pequena acção foi terminar de comer uma fatia de banitsa com abóbora e agora o meu pensamento navega pelos desertos do meu passado.
De certa forma, todos encontramos desertos nas nossas vidas, sejam eles de trabalho, de alegria, de afeto ou de outra coisa qualquer. Quase todos os meus desertos foram de Amor e deram em longas viagens pelas áridas dunas de areia que se formam em nós quando a nossa palma da mão também se sente deserta. Penso numa dessas viagens e nas fotografias que fiz. De certa forma, vim dar aqui, a este país e a esta estação de serviço.
Todos os Amores têm sabor. Podem ser doces ou amargos, verdes ou maduros, insossos ou apurados. Só lhes sentimos o sabor se soubermos fazer cada um desses desertos a que a vida nos obriga ou, pelo menos, é nisso que acredito.
A banitsa soube-me bem. Tinha abóbora, queijo branco e, claro, massa folhada.
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Talvez duas mulheres que dividiam uma música na estação de metro de Musagenitsa tenha sido o que vi hoje de mais bonito. Uma delas segurava um telemóvel de onde saía um par de auscultadores. Um deles estava no ouvido esquerdo duma delas, o outro no direito da outra. Sorriam. Não ouvi a música, mas imaginei que era a Ayo a cantar.
Vinham na minha direcção, no meio de um mar de gente que acabara de sair do mesmo metro que elas. Algumas das pessoas faziam um ar zangado porque as duas andavam mais devagar e atrapalhavam o movimento normal dos passageiros que entravam e saíam da estação naquela hora de ponta. Um homem deu-lhes um encontrão com o ombro e uma mulher gritou-lhes qualquer coisa em búlgaro.
Eu parei e a multidão passou por mim como lama viva. Aconteceu-me o mesmo. Levei um encontrão e tenho a sensação que alguém me disse alguma coisa desagradável do tipo "mexe-te!". Quando, finalmente, todos já se tinham ido embora, percebi que elas eram as únicas que sorriam. Então sorri também. Estava sozinho no cais.
Não sei quando é que a normalidade dos dias se torna tão cinzenta que acaba por ser agressiva para quem tem o bonito gesto de dividir uma música, mas senti-me bem por perceber que lhe escapei. A essa normalidade cinzenta, digo.
Estou aqui longe, entre uma dor e uma alegria constantes. É duro, mas é vida mesmo. E em vez de dar encontrões em mulheres que sorriem, sorrio-lhes também.
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Quando era criança tinha uma pista com um comboio a que chamava Foguete. Chamava-lhe assim porque era esse o nome do comboio em que o meu pai regressava a Aveiro e, portanto, a casa sempre que a vida militar lhe permitia fazê-lo. O meu pai sempre foi bom, mas pouco dado à demonstração de sentimentos. Talvez por isso fossem esses os únicos momentos em que sentia o seu abraço e o via chorar, mesmo que sem lágrimas.
Chegava, chamava-me filho, abraçava-me e ia pendurar o casaco castanho axadrezado no armário do quarto.
No entanto, quanto partia de novo nunca se manifestava. Fazia as malas e despedia-se como se fosse apenas ao outro lado da rua comprar cigarros. Eu ficava no meu quarto a dar voltas à triste miniatura do Foguete. Lembro-me que ele me fazia falta e de pensar que ele sofria mais quando chegava do que quando partia, ou seja, gostava mais de partir do que chegar.
Para mim, criança, a tristeza era ainda uma coisa a preto e branco. As pessoas choravam se estavam mal e não choravam se estavam bem. Ponto final.
Foi preciso crescer, tornar-me adulto e partir para a Bulgária para o entender. Quando me despedi da minha filha também chorei sem lágrimas. Apenas por dentro. Aliás, até sorri. É quando partimos que precisamos de ser fortes e é quando regressamos que podemos fraquejar. Foi assim que aprendi que o choro não é óbvio. Podemos chorar quando estamos felizes e não o fazer quando estamos tristes.
Passou-se meio ano de Sófia, a cidade com nome de mulher a que passei a chamar minha. Fiz amigos, criei uma rede social, todavia sem lhe perceber os segredos. É incrível o poder de síntese da memória. Um dia que deixe esta cidade, não é da catedral Alexander Nevsky que me vou lembrar. Nem da montanha, nem dos edifícios. É da felicidade e da tristeza que caminham comigo pelas ruas da urbe e que nunca me deixam estar ausente de mim mesmo.
É assim, aliás, que me lembro da minha vida, independentemente dos lugares onde estive. As pessoas são como as cidades. Têm ruas e avenidas, jardins e subúrbios, cantos escondidos e um céu onde passam aviões. Vale a pena caminhá-las e conhecê-las.
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a sombra de um abraço
Existem histórias de Amor e da falta dele, histórias de vitória e de derrota, histórias de esperança e de desesperança. De certa forma, existem histórias de tudo, cada uma com vários momentos mais ou menos importantes. Esta é uma história ao contrário porque só tem um momento: o do primeiro abraço que dei na Bulgária. Na verdade, talvez nem seja bem uma história. É mais uma marca que me ficou no corpo como uma impressão digital, mas sobretudo na alma como um doce que se prolonga no tempo.
Numa das mesas do café estava um homem que não fumara um cigarro. Esquecera-se de o fazer e o tempo fizera-o por ele, deixando um longo e frágil pau de cinza preso entre os seus dedos. O seu olhar também estava preso na janela do bar. Do outro lado passavam sombras irrequietas e a luz do Sol colara-se ao vidro como o olhar curioso duma criança. Apesar disso, pareceu-me que o olhar dele ia mais longe, talvez para o infinito, como se tivesse posto debaixo da língua um pequeno selo de LSD e agora pudesse mesmo ver a criança de luz que nos espreitava.
As sombras das pessoas apressadas sempre me pareceram loucas. Se eu fosse uma sombra, não ia acompanhar alguém que corre na cidade por ter pressa de chegar a mais um dia ou momento efémero. Compreendo as sombras que vão para a cama com os seus donos, que fazem Amor com eles e que os acompanham preguiçosas deitadas na relva de um jardim. Nunca aceitei a fidelidade canina que faz uma sombra seguir um tipo stressado para o emprego, por exemplo.
Foi com este pensamento que ela chegou e se sentou à minha frente sem me beijar. Na Bulgária, uma mulher e um homem não se beijam se não se conhecerem muito bem. Por isso limitámo-nos a cruzar olhares e a dizer olá. Tive a breve sensação, no entanto, que a sombra dela me acariciou. Soube-me bem. Entretanto olhei para o homem na outra mesa do bar. O pau de cinza ainda lá estava.
Não percebi o que ela me estava a dizer. Os olhos dela eram negros como um poço sem fundo e eu mergulhei neles. Tentava tocar esse fundo com a ponta dos meus dedos, mas não conseguia. Era a solidão a empurrar-me para baixo e a voz dela abstracta à superfície. Quando finalmente me senti a afogar, esbracejei rapidamente para voltar à superfície. Respirei sôfrego e a voz dela penetrou-me como um gigante a penetrar uma virgem. Sangrei da alma, talvez por a voz vir acompanhada de um sorriso constante.
- Estás a gostar da Bulgária?
O que é que eu ira responder a uma mulher de quem não fazia a mínima ideia de nada, para além da profundidade dos seus olhos? Nada. Era uma pergunta de circunstância e eu não me sentia pronto para retórica e banalidades. Mudei de assunto.
- A clientela deste bar é só pedintes e pessoas sem-abrigo, não é? - Perguntei, enquanto olhava para o cigarro queimado pela terceira vez.
- É, por isso é que achei estranho quereres encontrar-te aqui com uma mulher que conheceste na internet...
- Senti-me bem quando aqui entrei a primeira vez. Também sou um pedinte, de certa forma...
- Por isso é que imigraste?
- Não. Primeiro imigrei para aqui, depois transformei-me num pedinte. Ainda não abracei uma mulher desde que cheguei...
Finalmente a cinza caiu como o galho duma árvore apodrecida. O homem acordou do que me pareceu ser uma espécie de hipnotismo, pousou a cabeça nos seus braços sobre a mesa e adormeceu de novo. A S. levantou-se e contornou a mesa num percurso de cinco segundos que me pareceram meia-hora. Abraçou-me e eu morri.
Quando ressuscitei ainda estava nos braços dela. Tenho esta sensação de que pedir, ser sem abrigo ou marginal numa cidade é muito mais do que precisar de comer. É também, talvez antes de tudo, precisar da sombra de um abraço.
Eu avisei que isto não era uma história. Era apenas um momento.
Ainda vou a este bar de vez em quando, ainda vejo a cinza a queimar lentamente nos cigarros dos pedintes, ainda me perco na profundidade do poço de solidão em que mergulhei antes desse dia. Sobretudo, ainda mantenho o esse abraço como um hábito regular.
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A esta hora da noite a cidade parece abandonada. Caminho com a sensação de que todos os habitantes fugiram por causa duma súbita ameaça qualquer de que eu não me apercebi. Só ficaram as sombras. Há uma fininha lâmina de frio no ar a tocar-me as bochechas e sinto os meus sapatos a quererem deslizar nas pedras pequenas do passeio. Sinto-me frágil, tanto pelo desequilíbrio iminente como pelo eco dos meus passos ao fundo da rua.
Quando finalmente chego ao local combinado com um amigo croata que fiz uns dias antes, a lua surge cheia no céu. Veio espreitar, claro. Está curiosa com o facto de eu estar em frente a um bar de engate onde o sexo se paga a cada meia-hora. O porteiro é tão grande que me parece estar trilhado na porta. O seu corpo ocupa literalmente toda a entrada. Se fosse o guarda-redes duma baliza, eu não saberia por onde tentar meter a bola.
Recebo uma mensagem do Branimir a dizer que já está lá dentro. Não esperou por mim por causa do frio. O porteiro olha desconfiado para mim. Por cima dele, escritas em letras latinas pintadas por um fraco néon vermelho, as palavras "NON STOP". Não sei se isso quer dizer que o bar nunca fecha ou que o sexo nunca pára. A piada é estúpida. Ainda bem que a pensei mas não a disse a ninguém.
Afinal o porteiro não estava trilhado. Afasta-se e deixa-me passar.
O ambiente é escuro. Distingo nas paredes algumas pinturas eróticas e reparo que a maior parte das mesas estão vazias. Algumas delas estão em pequenos cúbiculos que se podem isolar facilmente com uma cortina preta. São iguais a algumas cabinas para experimentar roupa em lojas de pronto-a-vestir. Enquanto me interrogo como é que alguém consegue ter sexo ali dentro vejo alguém a acenar-me. É o Branimir. Está ao balcão e tem a mão esquerda no rabo duma mulher sentada ao lado esquerdo dele. Vou ter com ele o mais devagar possível para ter tempo de decidir o que devo fazer.
A música pára. Um som horrível e agudo que me lembra um ovni avariado fere-me os ouvidos. Do outro lado do balcão uma mulher dá uma pancada num leitor de cds e volto a ouvir os Duran Duran. O meu mais recente amigo cumprimenta-me e apresenta-me à mesma mulher que acabara de esmurrar a aparelhagem. É a dona. Diz-lhe que eu posso fazer tudo o que quiser e ele paga. No dia anterior ganhei-lhe uma aposta que eu próprio não levara a sério. Pensei ser apenas uma piada, mas quando o Manchester United chegou ao fim do jogo empatado com o Stoke ele mandou vir mais duas cervejas e prometeu-me a noite da minha vida.
- Nunca pensei que o Mourinho não ganhasse este jogo! - disse
- Nem eu. Na verdade só disse que não ia ganhar por dizer. Podia ter dito outra coisa qualquer...
Ele riu-se.
Pois bem. Pelos vistos a noite da minha vida é neste bar de miúdas, enquanto ele mantém a mão no rabo duma mulher com metade do tamanho dele e eu não faço a mínima ideia de como me hei-de comportar. A boa notícia é que há uma prateleira cheia de garrafas com marcas de uísque, algumas das quais nunca ouvi falar.
- Quais são os teus gostos? - Pergunta a dona.
- Bushmills, mas acho que hoje vou beber Hakushu. Nunca ouvi falar em Hakushu antes.
- Falo de mulheres... quais são os teus gostos?
Raios. Nunca na vida me tinham feito uma pergunta tão absurda. Sei lá quais são os meus gostos por mulheres. Só costumo gostar daquelas com quem consigo ter longas conversas e, mesmo intimamente, só me envolvi com mulheres depois de as conhecer e de ter gostado de partilhar algum tempo a falar seja do que for.
- Gosto de mulheres da Mongólia.
Na verdade, às vezes digo coisas só porque sim. Não sei bem porque é que me saem, mas sei que até ao momento nunca tinha pensado sequer em mulheres da Mongólia. Disse-o exactamente com a mesma certeza que tinha dito um dia antes ao meu amigo croata, durante o almoço, que o Manchester não ia ganhar. Quando digo coisas absurdas, penso sempre que ninguém me vai levar a sério, mas às vezes levam.
Estou a dar o segundo ou terceiro gole no uísque japonês quando uma mulher de olhos em bico me abraça e beija na face.
- Olá. Sou da Mongólia. De onde é que tu és?
É bastante baixa e muito bonita. O sorriso chega-lhe de orelha a orelha e puxa-me o braço como se me quisesse tirar dali.
- Sou de Portugal, duma terra chamada Cova da Piedade.
Mais uma vez digo uma coisa absurda, não sei bem porquê. Explico-lhe o que quer dizer Cova da Piedade, mas ela não parece nada interessada no assunto. Senta-me numa mesa daqueles cubículos pequenos e fecha o cortinado. Senta-se ao meu colo e beija-me a boca. Com jeito, afasto-a um pouco e sento-a ao meu lado. Dou mais um gole no uísque japonês. Não sei muito bem como, mas ela também tem uma bebida qualquer na mesa. Não vi ninguém trazê-la, mas o facto é que está ali.
- Quanto tempo é suposto estares aqui comigo? - Pergunto.
Os olhos dela abrem como se fossem ameijoas. São pretos, profundos e bonitos, mas também inquisitivos.
- Até meia-hora... meia-hora está bem.
- Okay. Eu não vou ter sexo contigo porque não me apetece. És muito bonita, mas eu nunca faço isto, percebes?
- Sim...
- Podemos ficar aqui meia-hora a falar?
- Sim...
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Ivar C
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(no skype)
Eu - A Sandra veio cá ver-me à Bulgária.
Ela - Eu sei. Vi fotografias.
Eu - Ela pôs fotografias no facebook? Nem reparei.
Ela - Não, não pôs. Mandou-me para o mail uma série de fotografias de gajos giros e, por engano, as tuas vinham lá no meio.
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Ivar C
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