8.08.2014

a violência feminina

Na verdade, não tenho nenhum exemplo de casamento feliz à minha volta. Digo isto com alguma segurança desde que percebi que, para a maior parte das pessoas, a felicidade num casamento vem sempre temperada com alguma resignação. A F. não foi excepção.

- O meu casamento foi bom! - disse ela.

Nessa altura já estava na fase de arrumar todos os livros que tirara das suas inúmeras e preenchidas prateleiras para me ler, a espaços, uma frase escolhida de cada um. Eu estava impressionado com a sua capacidade para memorizar frases chave de romances e, admito, ainda mais por ser capaz de as encontrar com relativa facilidade.

- Quer dizer... não foi mau. - continuou.

E eu ri-me, não por achar piada à frase mas porque não sabia como reagir. Aquela verdade deixava-me nervoso porque ia de encontro ao que eu acabara de concluir nos meus trinta e cinco anos de vida: um casamento bom é um casamento que não é mau.
A F. ia organizando os livros por autores. As frases todas que me lera estavam preenchidas de vida. De Amor, de ódio, de viagens, lágrimas e abraços. Talvez em silêncio tenhamos tirado mais ou menos a mesma conclusão. Os nossos casamentos, por pouco maus que pudessem ter sido, tinham-nos tirado essa vida que ela acabara de resgatar daquelas páginas soltas.
Assim que a mesa ficou desimpedida, desapareceu por um minuto ou dois e voltou com uma garrafa de uísque e dois copos. Ela própria nos serviu, sem me perguntar se eu queria beber ou se preferia puro ou com gelo. Dei o primeiro gole apenas para lhe mostrar que estava de acordo com tudo. Depois cruzei as mãos e foi a primeira vez que a olhei olhos nos olhos. Reparei que era das mulheres mais bonitas que eu já tinha visto.
Enquanto o seus cabelos pretos lhe banhavam os ombros como uma suave maré cheia, fui percebendo a forma como o seu ex-marido se apaixonara perdidamente por ela muitos anos antes. Provavelmente, eu estava a viver exactamente as mesmas sensações que ele. O ar começava a entrar e sair dos meus pulmões com alguma dificuldade e não encontrava as palavras certas para lhe responder a nada. Acabei por dar um gole sôfrego no uísque e tentar concentrar-me no que ela dizia.

- As mulheres têm uma violência dentro delas que os homens não são capazes de perceber.
- Ahn?! - estava assustado.
- Durante anos observei a lenta degradação do meu casamento na expectativa de que o meu marido se apercebesse do mesmo que eu. Queria que ele chegasse à conclusão que o nosso Amor não merecia acabar assim, como um velho que se vai encolhendo até morrer...
- E ele apercebeu-se?
- Claro que não. Todos os dias saía de casa para trabalhar e voltava como se tudo estivesse normal, mesmo naquelas fases em que passávamos dois meses sem sexo. E eu todos os dias ia tendo cada vez mais pena dele...
- É essa violência que dizes que só as mulheres é que têm?
- Sim, exactamente. Observei-o durante anos como se ele fosse um rato de laboratório, porque era isso que ele era de facto. Até que um dia me cansei de o estudar e pus fim àquilo tudo com o divórcio.

Depois disto ela calou-se e senti os seus olhos, pesados, sobre mim. Naquele preciso momento o rato de laboratório era eu, que passara dum desejo enorme de a levar para a cama para uma estranha sensação de incapacidade total para fazer fosse o que fosse. 
Imaginei-me, também eu, a ser o objecto de pena da minha companheira de vários anos. A sair todos os dias e a voltar para casa debaixo do seu olhar estudioso, mesmo quando passávamos dois meses sem sexo. Imaginei-a a questionar-se sobre o meu comportamento mecânico e diário, como se fosse possível assim fugir à desilusão da própria vida.
Com o terceiro gole acabei o uísque e, sem pedir licença, servi-me de outro. O copo da F. ainda estava cheio.
Acabara de me aperceber que eu próprio, sem ser capaz de o perceber, sentira essa violência feminina durante anos, como se um chicote silencioso todos os dias me abrisse mais uma ferida invisível na pele. A normalidade da vida passara a ser uma merda e eu adaptara-me cobardemente a ela. Mesmo assim, apesar de tudo, tinha sido ela a salvar-me, essa violência feminina.
A F. ainda me olhava em silêncio, com um sorriso que indicava ser capaz de ler os meus pensamentos.

- Vamos para a cama? - perguntou.
- Sim.

13 comentários:

Maria Varredora Pau de Vassoura disse...

Adorei o texto...
Compreendo quando se pode chamar violência a algo que nos é proibido só porque sim.

Se ela tivesse outra justificação não seria tão violento.

Mas... também poderia ter sido ele a incutir essa "violência"!

Maria Mundo disse...

Ora então Olá!
Como não podia deixar de ser, já me ri com o teu dizer: "Naquele preciso momento o rato de laboratório era eu..." Pois... isso acontece aos melhores. :)

Gosto mesmo desse teu humor sério! Sabes olhar o óbvio com humor e isso é ótimo.
Neste momento pergunto-me se o que nos relatas são mesmo bocados da tua vida, ou meros devaneios da mente, por vezes tão próprios de quem tua imaginação fértil e gosto pela escrita. Isto porque estarmos a falar sobre algo que experienciamos é bem diferente do estarmos a falar de algo meramente a um nível intelectual, ou mental, como lhe quiseres chamar.
Independentemente da natureza deste teu "desabafo", será que podias falar-me sobre o que entendes por violência feminina?
Até lá fica com a minha violência feminina expressa neste meu voto:
Have a nice day!

ps: neste momento deves estar a pensar: "Lá me vem esta com estrangeirismos!"
Sorry, manias de maria :)
Ah, mas isto cá entre nós, há pouco "ouvi" um comentário teu em que utilizavas a palavra "nerd" (lerdo em inglês). Por isso, também estás apanhado por este vírus. Acontece aos melhores :)

nikita disse...

muito bom, passei só para dizer que adorei este post, fantástico!
bjs

Hathor disse...

Vou guardar este pequeno texto num cantinho especial para mim.. acho que não podia ser mais verdade.
Sejo um dialogo real ou apenas a tua percepção... está muito bem escrito e muito muito claro.

redonda disse...

Penso que as mulheres e os homens não são assim tão diferentes, no mau, como naquela violência que esta Ela acredita ser só das mulheres e no bom. E já encontrei casais mesmo felizes após muitos anos juntos (embora não seja fácil).
um beijinho e uma boa semana
Gábi

Bagaço Amarelo disse...

Maria Varredora Pau de Vassoura, podia... podia... :)

maria mundo, mas ola que nerd já é um neologismo. :)

nikita, obrigado. :)

hathor, obrigado. :)

redonda, percebo. mas não ser fácil quer dizer alguma coisa. beijinho. :)

PM disse...

Correndo o risco de ser superficial, acho que tudo está bem quando acaba bem. Pelo menos a história tem um final feliz! ;)

AC disse...

li-te com atenção e quase com devoção. Este texto está maravilhoso, relata exactamente aquilo que vejo nos casamentos à minha volta, as pessoas acomodam-se e vão se deixando estar, deixando a vida passar à espera que um dia algo mude... é triste, e para mim assustador.

Há muito pouco tempo um amigo definiu o casamento dele nesta frase, vivo uma felicidade infeliz... e com isto acho que fica tudo dito..

Gostei muito deste teu texto. Posso roubar? Gostava muito de o publicar lá no meu estaminé.

É sempre tão bom regressar aqui:))
Beijo

Bagaço Amarelo disse...

pm, obrigado. :)

ac, roubar podes sempre. agradeço. :)

Anónimo disse...

Este blog morreu?? :/

Bagaço Amarelo disse...

anónimo, não. esteve a dormir... :)

piri disse...

Só me ocorre dizer que o texto está mesmo muito bom.
Fez-me pensar em algumas coisas...

Bagaço Amarelo disse...

piri, obrigado. :)