10.03.2013

pensamentos catatónicos (300)

Tenho uma cómoda no meu quarto que foi feita pelo meu avô. Sempre que a vejo, por um curto momento que seja, lembro-me dele. "Olha a cómoda do meu avô", penso. Nela tenho seis gavetas, três mais pequenas e três grandes, e reservo uma destas para guardar tudo o que não cabe em mais sítio nenhum. Ali estão fotografias, cartas, postais, canetas e as coisas mais estranhas que se pode imaginar. Muitos objectos que não têm interesse nenhum, a não ser para mim, porque num determinado momento da minha vida foram importantes. Sempre que os vejo lembro-me desses momentos, tal como a cómoda me lembra o meu avô.
É o caso duma joaninha de corda, por exemplo, que a Raquel me ofereceu quando passámos em frente a uma velha loja de brinquedos na República Checa. Estávamos tão felizes nesse dia, que experimentámos imediatamente o brinquedo no passeio, perante o olhar espantado dos transeuntes que se desviavam daquele insecto metálico que rodopiava no chão. Lembro-me de olhar para a Raquel e de pensar como o mundo se dividia entre nós e todos os outros habitantes do mundo. Depois ri-me. É desse momento que a joaninha me lembra.
Agora mesmo acabei de ler a primeira carta que a minha filha escreveu ao Pai Natal, quando ainda acreditava nele. Emocionei-me. Não pedia nada para ela, mas sim para mim, assim, como "poderes" em vez de "puderes"

Venho dizer que o meu pai queria uma PSP, sabes  eu não sei se podes dar. Se poderes agradecia, eu queria que o meu pai tivesse uma prenda de Natal mesmo que não seja uma PSP. Beijinho

Os objectos têm esta mania estúpida de me fazer viajar no tempo. É por isso que os guardo, seja uma pedra que encontro no caminho ou uma máquina de escrever antiga; um simples lápis de carvão ou um copo de vidro comum.

Sei que um dia qualquer, quando eu morrer, alguém vai tratar de pôr tudo no lixo, mas aí já terão cumprido a sua função de manter a minha vida para além do presente, este presente que deixa de o ser assim que o é. É só por isso que estou a escrever este pequeno texto. Acabei de ir lá fora pôr o lixo orgânico no contentor, onde uma mulher estava encostada sem dizer nada, como se ela própria tivesse sido ali depositada por alguém, como que à espera que outro reparasse nela e ainda a aproveitasse.

- Precisa de alguma coisa? Está bem? - Perguntei.

Ela acordou, como se tivesse acabado de sair dum sono secular. Aos seus pés tinha um saco cheio de objectos que podiam muito bem ser os da minha gaveta. Um pouco de tudo, como se fosse possível embalar uma vida num saco. Abriu-o, pegou num ou dois e meteu-os no bolso, depois atirou o resto para a reciclagem.

- Ele morreu! - disse.

Fiquei a vê-la afastar-se. Compreendo-a.

12 comentários:

nos"entas!!!! ( e feliz) disse...

è talvez das coisas mais dolorosas de se fazer....
eliminar...as lembranças, deitar fora algo de alguem importante que se perdeu...é como perder 2 vezes....
beijinhos

Bagaço Amarelo disse...

nos"entas!!!! ( e feliz), passa por aí, sim. beijinho. :)

Teresa Costa disse...

Também guardo e convivo diariamente com inúmeros objetos que só são interessantes porque me lembram de algo, de alguém, de algum momento.
Para mim, são como fazer-me acompanhar daqueles de quem nunca me quis separar.
Outros são forma de manter vivo um passado que, por um motivo ou por outro, não quero deixar morrer.
Felizmente não sei realmente o que é ver morrer alguém de quem goste muito, mas há objetos da minha avó que terão sempre um brilho especial :) Gostei do texto :)

Pipoca dos Saltos Altos disse...

Às vezes não fomos colocados mó lixo mas fomos derperdiçados. Estou a falar da senhora. Quanto aos objectos, sou apegada aos que me fazem sorrir pelas lembranças :)

Bagaço Amarelo disse...

teresa costa, obrigado. :)

pipoca dos saltos altos, obrigado. :)

Anónimo disse...

Irra Bagaço, já me puseste com lágrimas nos olhos....

Anónimo disse...

"- Ele morreu! - disse"

Porra. Que murro no estomago...

EJSantos

Bagaço Amarelo disse...

anónimo, não era para isso. :)

ejsantos, é só mais um. :)

Fatyly disse...

A realidade de muita gente e que compreendo e aceito. Em nova eu era quase semelhante. Depois a vida pregou-me tantas rasteiras, mas tantas onde perdi tudo ou quase tudo, excepto o bem mais precioso A VIDA e fez de mim ainda mais forte interiormente...que deixei de ser agarrada a tudo isso que eu chamo de tralha da qual a maior parte só nos faz deitar abaixo.
Mas ao ler e com este desfecho inesperado, lembrei-me da minha mãe que constantemente me questiona que quando morrer o que é que eu vou fazer "ao seu mundo de tralha:)". Respondo logo: nada. Nada? Não queres nada do que tenho? Não, o que eu quero é apenas e tão só a mãe e para não ver a sua cara tão triste arremato...o resto fica tudinho para os meus irmãos.

Gostei imenso!

Bagaço Amarelo disse...

fatyly, obrigado. :>)

Paulo Saltão disse...

Texto muito bom, Ivar. :-]

Bagaço Amarelo disse...

paulo saltão, um abraço. :)