7.23.2013

respostas a perguntas inexistentes (258)

Nessa altura trabalhava numa fábrica de cerâmica, a alimentar durante oito horas seguidas a linha de produção com placas em bruto que alguns minutos mais tarde seriam já azulejos. O salário ainda era pior do que o trabalho, por isso não tinha outro remédio senão assumir esse tempo como uma subtracção à minha vida. Era como se aquelas oito horas diárias não fizessem parte dos dias. Para tal arranjava múltiplas e variadas formas de me abstrair durante o expediente.
O trabalho consistia em manobrar uma máquina cujos comandos se assemelhavam ao volante duma mota. Esse volante estava pendurado no tecto e, com aquilo que seriam os travões, abria e fechava uma boca capaz de segurar centenas de azulejos duma só vez. Eram esses azulejos que eu ia buscar a uma palete e depois largava sobre duas borrachas em constante movimento que os faziam cair, um a um, num circuito que os limpava, texturizava e envidraçava. No fundo era como se estivesse a conduzir oito horas seguidas, mas sem sair do mesmo sítio, sem luz natural e sem paisagens edificantes.
Quando saía da fábrica estava sempre tão cansado que tudo o que eu queria era beber umas cervejas com uns amigos, comer qualquer coisa e depois ir para casa dormir. Comecei a ter uma enorme vontade de escrever, mas as forças que me restavam depois de tudo não me permitiam fazer muito mais do as palavras cruzadas do jornal do café que eu frequentava. Por isso acabei por arranjar um método alternativo. Andava sempre no bolso com um pequeno caderno e uma esferográfica e, quando me vinha uma ideia qualquer à cabeça, fosse ela a base de um argumento ou apenas uma metáfora solta, apontava-a nesse caderno. Interrompia o trabalho por cinco ou dez segundos, escrevia o que queria e voltava a fechá-lo.
Foi assim que conheci a Margarida. Um dia o supervisor reparou no que eu fazia e confiscou-me o caderno como uma prova de que eu não cumpria totalmente com o meu contrato de trabalho. Ameaçou-me com despedimento e entregou-o, junto com uma queixa escrita, no departamento de pessoal. O supervisor era um tipo estranho de quem eu não gostava ali, naquele ambiente hostil e desconfortável, mas também não gostaria em nenhum outro local do mundo. Nem que o conhecesse numa ilha tropical durante umas férias de Verão.
Alguns dias depois ele passou por mim e, tugindo, informou-me que eu tinha que ir ao tal departamento de pessoal prestar informações.

- A doutora Margarida chamou-te! - disse.

Subi umas escadas curvas com a sensação que ia ser presente a um tribunal Inquisidor. Lá em cima inspirei e expirei profundamente três vezes seguidas e decidi, antes de entrar, que à mínima falta de respeito pela minha pessoa esticaria o dedo do meio e virava costas àquele sítio para sempre.
Como as minhas mãos estavam cheias de óleo, entrei ainda na casa de banho e lavei-as. Penteei o cabelo com a ponta dos dedos e, finalmente, dei por mim a bater à porta da tal Doutora Margarida, mulher de quem já tinha ouvido falar mas nunca tinha visto nem para assinar contrato, pois era sempre uma intermediária sua que falava comigo.
Para meu espanto era bonita. Nunca esperei que uma mulher de quem, na generalidade, os trabalhadores falavam tão mal pudesse ser tão bonita. Tinha o cabelo apanhado e uma camisa branca parcialmente aberta num decote generoso. Usava um lenço avermelhado e tinha um sinal no queixo que combinava com os seus grandes olhos castanhos claros. Além disso, a sua face transmitia, acima de tudo, alguma generosidade.

O meu livro estava em cima da secretária dela, junto a umas folhas que eu não sabia se tinham a ver com o meu processo. Ela perguntou-me, antes de qualquer outra coisa, se o livro era meu.

- O livro é meu! - respondi.

Ela sorriu, admitiu que o tinha lido todo, do princípio ao fim, e perguntou-me porque é que eu escrevia aquelas coisas todas durante o trabalho.

- Não é durante o trabalho, é durante a vida. Faço anotações em qualquer sítio ou altura porque gosto de escrever e de me sentir vivo. Apesar de não me sentir muito vivo quando estou na produção, faço os possíveis...

Ela tornou a sorrir e perguntou-me a que horas é que eu saía. Como o meu turno acabava uma hora depois do dela, convidou-me para jantar lá em casa. Lembro-me que fez carne guisada com batatas e ervilhas e serviu-me um bom vinho. Depois do jantar levantou-se e desapareceu dentro dum quarto que apenas tinha estantes e livros. Quando regressou trazia uma série de cadernos iguais ao meu, com anotações feitas por ela.

- Faço exactamente o mesmo que tu, sabes? A diferença é que eu estou sentada numa secretária e ninguém dá por ela.

Passei a noite a visitar esses cadernos dela. A partir desse dia ficámos amigos durante muito tempo, apesar de eu ter pedido demissão pouco tempo depois. A Margarida tinha mais doze anos do que eu e nunca quis envolver-se comigo para além dessa amizade. Era um problema para ela, essa diferença de idade, embora me tenha dito várias vezes que tinha pena de não ser da minha faixa etária.
Um dia encontrou um homem por quem se apaixonou perdidamente e nunca mais nos tornámos a ver. Ontem vi-a numa pastelaria e reconheci-a. Cumprimentei-a à distância com um sorriso que ela devolveu. Ao sair abraçou o marido, olhou para trás e cochichou-lhe qualquer coisa. Eu não sei o que foi, mas abri o meu caderno e escrevi este texto.

2 comentários:

Anónimo disse...

Muito bom.
Adorei.
EJSantos

Bagaço Amarelo disse...

ejsantos, obrigado. :)