9.16.2015

respostas a perguntas inexistentes (336)

O Amor é uma civilização

O Amor não é só sexo, dizem. Pois não, mas quem nunca ganhou tesão enquanto andava de autocarro e se lembrou da namorada não sabe o que é o Amor. Até porque nunca teve que se sentar num banco desse autocarro e olhar pela janela à procura de coisas tristes, a ver se a saudade amolecia um pouco e lhe permitia sair na paragem programada sem dar muito mau aspecto.
Por falar em paragem programada, o Amor é a única coisa na vida em que ela não existe. É o tesão total e contínuo, a não ser que deixe de o ser. É por isso que saindo dele, a paragem é sempre errada e não sabemos onde estamos nem quem vamos encontrar. Talvez um amigo que goste de comer umas bifanas com mostarda, talvez uma amiga que nos convide para dormir num abraço prolongado, talvez uma meretriz envelhecida por uma só noite. De facto, talvez eu não saiba perder-me por aí, à procura de nada, e tente voltar a casa, nem que seja a pé e demore uma eternidade.
Estou sempre apaixonado pela mesma mulher porque não sei mudar de Amor. Aliás, de Amor não se muda. Se se mudasse, não era Amor. Era um pequeno flirt. Mudar de Amor é como uma mudança civilizacional. É a História da Mesopotâmia e a vontade de querer ficar com a necessidade de partir.
Acho que é por isso que há tantos homens estúpidos com as mulheres. Os homens vivem oitenta anos em média e não percebem que o Amor é uma civilização secular. Nunca percebi a inteligência que leva um homem a intrometer-se na vida de uma mulher com um piropo brejeiro. O que é que ele espera em troca? Não pode esperar nada. Ela é uma civilização de quinhentos anos e ele uma moda esquecida.
E eu espero pela civilização toda. Se não for uma, por outra. Depois do caos.
Amo sempre, até que a civilização nos separe.

9.15.2015

pensamentos catatónicos (333)

Tenho esta estranha sensação de que o Amor se transformou numa coisa banal do mundo. Como outra coisa qualquer, quero eu dizer. E isso é estranho, porque eu sempre dividi o Amor e o mundo. O mundo era o sítio onde eu me podia apaixonar e Amar, o Amor era o que me permitia esquecer o mundo.
Agora apaixonamo-nos como compramos um automóvel. Calculamos a relação entre o benefício e o custo e optamos ou não por nos apaixonarmos. Se possível, apaixonamo-nos pouco. Não vá o Diabo tecê-las e pregar-nos a rasteira de sermos deixados.
O Amor passou a ser uma quantidade numa receita de culinária. Quanto baste, por favor, e olhe que não gosto da comida muito temperada. Encaixarmo-nos um no outro passou a ter a ver com o estrato social e económico de cada um, quando dantes tinha a ver com o primeiro abraço.
O que mudou foi a utilidade. Dantes o Amor era inútil, agora é estrategicamente útil, porque a vida deixou de ser o que ela é de facto. A inutilidade do Amor é o doce sabor duma maçã e a beleza fugitiva de um copo de vinho. Não comemos dinheiro nem nos embebedamos com ele. Com o Amor sim... até ver.


9.14.2015

respostas a perguntas inexistentes (335)

quatro minutos!

Quem tem dificuldades em apaixonar-se a sério deve apaixonar-se a brincar todos os dias desta vida. E eu apaixono-me. Tenho Amores platónicos de quatro minutos, enquanto tomo o café, espero o sinal verde para peões numa passadeira qualquer ou compro tomates na loja da avenida.
Os Amores nunca devem ser de duração média. Que durem quase uma vida ou que durem um momento. É nesses que há certeza sobre aquilo que são. Os outros são os Amores mais ou menos, os pântanos desta vida em que nos metemos e não sabemos sair.
Hoje apaixonei-me a sério por uma mulher. Eram seis e trinta e dois da tarde quando a vi brincar com os dedos, como se tocasse piano num instrumento invisível, cujos sons lhe saíam desafinados pela boca. Plim, plim plim! Morena, despenteada e sorridente, trocámos os olhares de quem entende a loucura mútua. Depois tornámos a sorrir.
Durante quatro minutos vivemos um Amor impossível e eu esqueci-me da vida, esta que adio um bocadinho todos os dias até não ter mais dias para adiar. Depois ela foi-se embora da pastelaria e disse-me adeus. O nosso Amor de quatro minutos terminou ali.
Obrigado. Será uma das mulheres desta vida que adio.

9.13.2015

respostas a perguntas inexistentes (334)

A maior barreira do Amor é nós Amarmos alguém. Quando Amamos alguém que nos Ama também, a nossa percepção é a de que somos Amados da mesma maneira que Amamos. Só que isso nunca é verdade, porque somos todos pessoas bem diferentes. O Amor tira-nos a capacidade de abstracção necessária para entendermos que Amamos uma pessoa que nos Ama duma forma forte, mas totalmente diferente. Nem mais nem menos, mas diferente.
Depois vêm os problemas todos, porque duas pessoas que se Amam muito de forma diferente geram incompreensão. Apesar de se amarem, sublinho. A minha utopia é todos percebermos que o Amor se faz da incompreensão mútua e não da obediência.
Somos todos tão diferentes, que o que somos é sempre um profundo segredo para o outro. Eu sei que é difícil conviver com a incerteza de um segredo, mas se o formos contando ao ouvido de quem Amamos durante uma vida inteira, talvez se dê um Amor qualquer.
É assim que os segredos são bons, contados ao ouvido de um Amor.

9.12.2015

conversa 2158

Ela - Fiz-te um pudim daqueles que eu sei que gostas...
Eu - De pão?
Ela - Sim... o que comeste na última vez que vieste jantar comigo...
Eu - Que fixe! Obrigado. Posso ir hoje aí a tua casa?
Ela - Sim... mas o pudim não está cá.
Eu - Onde é que está?
Ela - Bem... tive que o comer porque apareceram cá uns amigos...
Eu - Então porque é que é me disseste que me fizeste um pudim?
Ela - Porque fiz mesmo. Era para saberes que me lembro de ti.

9.11.2015

conversa 2157

Ela - Não me sinto apaixonada, mas sinto que estou a apaixonar-me. Espero que ele espere por mim...
Eu - Ele está apaixonado por ti?
Ela - Diz que sim.
Eu - Boa sorte. Espero que te corra bem.
Ela - Eu demoro é muito tempo a apaixonar-me. Preciso de tempo. Ao contrário de ti, por exemplo.
Eu - Sim, eu apaixono-me em menos de um minuto. Só que também preciso de muito tempo para me apaixonar em menos de um minuto.
Ela - Bem... no fim vai dar tudo ao mesmo.
Eu - Se calhar.
Ela - A única coisa é que quem já está apaixonado tem que esperar por quem se vai apaixonando.
Eu (suspiro)
Ela - Bebe mais um copo.

respostas a perguntas inexistentes (333)

Um dia acordamos e o mundo mudou. Apesar de tudo continua na mesma. É mais ou menos assim, a estúpida sensação de que um Amor nos escapa por entre as mãos.
Uma amiga telefona-me e pergunta-me se eu estou bem. Não sei bem responder, porque apesar de não estar, acabei de ficar assim que vi o nome dela no ecrã do telemóvel. Penso um bocado.

- Sim, estou! - respondo.

"Estar" é o verbo mais importante desta vida, mais importante até do que o verbo "ser". O que nós somos é sempre ultrapassado por aquilo que estamos. É por isso que o que somos é sempre mentira e o que estamos é sempre verdade.
Quando dizemos que alguém é simpático, é porque o conhecemos num momento em que estava simpático. Todos nós, com excepção dos funcionários das casas de fast food (que têm sempre que estar simpáticos ou são despedidos) estamos simpáticos às vezes e antipáticos outras.
É como estar bem ou estar mal. É até como não estar coisa nenhuma.
O Amor e a Amizade também não são aquilo que são, mas sim aquilo que estão. É por isso que dizemos que estamos apaixonados e não que somos apaixonados por alguém. Quando falamos de Amor, foge-nos a boca para a verdade.
O Amor está sempre alguma coisa, mas nunca é nada. Digo-o eu, que estou apaixonado às vezes por quem não me é nada.

9.10.2015

coisas que fascinam (189)

Quando damos por nós a sofrer por Amor, raramente conseguimos perceber o que isso tem de bom, Mas tem tudo do melhor, principalmente se já passámos a fase da vida chamada adolescência, em que todos sofremos por Amor porque nem sequer sabemos o que isso é.
Sofrer por Amor depois dos quarenta quer dizer que o Amor ainda tem muito para nos dar. Talvez um beijo numa praia em pleno inverno, um abraço despido no chuveiro lá de casa ou uma queca nos bancos traseiros duma Renault 4L. Tudo isso acreditando que o que se sente é para sempre, mesmo que dure apenas cinco minutos.
Sofre-se por Amor apenas quando se acredita que ele tem muito para dar mas, nesse preciso momento da vida, não está a dar porra nenhuma. É o sacana a gozar connosco, é verdade, mas só o faz porque sabe que ainda não caímos no cinzentismo de não esperar nada dele. Ele é o Amor, o cinzentismo é a morte lenta de quem já não se lembra do que é sofrer por ele.
É que quem já não sofre por Amor também não tira partido dele, e a vida torna-se um constante e ligeiro encolher de ombros.

9.09.2015

conversa 2156

(na minha casa)

Ela - Gostas muito de animais...
Eu - Eu?! Porque é que dizes isso?
Ela - Tens tantos em casa...
Eu - Eu não tenho animais...
Ela - Moscas na cozinha, já lhes perdi a conta.

coisas que fascinam (188)

Pois é!

Quando o Amor nos corre mal, o mundo passa a ser uma tortura constante. O motivo é óbvio: quando o Amor nos corre bem o mundo é uma partilha e, todo ele, vale o dobro por isso mesmo. Ao não partilharmos o mundo, ele não vale nada a não ser dor.
Apaixonados, tiramos todo o prazer em partilhar cada pormenor, seja ele o manequim na montra dum pronto-a-vestir, uma música que passa na rádio ou uma sobremesa barata num restaurante ainda mais barato.
De repente, tudo aquilo que experimentamos, mesmo o que é bom, passa a sofrer do efeito bumerangue. O que nos dá prazer é lançado ao ar e ninguém agarra. No meu caso, volta para mim e atinge-me no estômago com força.
Até chego a pensar que o Amor não serve para muito mais do que para partilhar o mundo, mais até do que para uma boa queca ou poder entrar numa discoteca foleira de fim de semana. Serve para olharmos para uma coisa feia qualquer e dizermos "olha que feio!" e o outro responder "pois é".  Assim, até o que é feio se partilha e sabe bem.
Pois é.

9.08.2015

respostas a perguntas inexistentes (332)

Há um oceano entre todas as pessoas que se Amam que é o facto de acreditarem que se Amam mesmo. Às vezes parece que é verdade e sabe bem. Óptimo. O Amor é isso: pensarmos que Amamos mais do que precisamos de ser Amados.
O problema é que quando o Amor nos falha é porque, de certa maneira, deixámos de ser Amados. Não porque deixámos de Amar, embora com o tempo uma coisa leve sempre à outra. Ser ou não Amado é a variável mais importante.
Simplificar o Amor a este ponto é sempre um absurdo, eu sei. Ainda assim, se não o simplificamos também não o explicamos . Não o explicando também não o entendemos. No fundo, o Amor só se entende no reino do absurdo.
É assim que atravessamos esse Oceano que nos separa algumas vezes e experimentamos o Amor, explicando-nos da forma mais simples que conseguimos.

9.07.2015

conversa 2155

(na rua)

Ela - Estás fixe?
Eu - Vou estando... e tu?
Ela - Eu também... sei lá.
Eu (silêncio)
Ela (silêncio)
Eu (silêncio)
Ela (silêncio)
Eu (silêncio)
Ela (silêncio)
Eu (silêncio)
Ela (silêncio)
Ela - Não temos nada para dizer um ao outro, pois não?
Eu - Parece que não.
Ela - Então fica a saber que devias fazer as sobrancelhas.

respostas a perguntas inexistentes (331)

A não ser que não saibamos sonhar, o Amor nunca faz falta.

Um Amor nunca nos faz falta, ao contrário do que se possa pensar. A razão é simples, mas quase ninguém a entende por um motivo ainda mais simples: quase ninguém sabe Amar porque quase ninguém sabe sonhar.
Nenhum Amor nasce para colmatar uma falta, porque o Amor é muito maior do que a própria vida. Na vida, ou vivemos e está tudo como há-de ir, ou vivemos e Amamos e está tudo como num sonho.
Nunca nos apaixonamos para que o nosso dia-a-dia continue o mesmo, mas com um Amor. Apaixonamo-nos para que a vida seja outra e a lógica existencialista se desvaneça um pouco no nosso dia-a-dia. Só quando estamos apaixonados é que nos apercebemos que há qualquer coisa que precede o corpo. Não é a alma, é o Amor.
Quando não estamos apaixonados ou o nosso Amor nos mandou à merda, tornamo-nos existencialistas de novo e olhamos para o nosso corpo como a essência da vida. Não é mau. É o nosso corpo que faz Amor mesmo que não Amemos ninguém. O que não deixa de ser irónico.
É por isso que cada vez que o nosso corpo se envolve com outro podemos acordar de duas maneiras: ou na vida ou depois dum sonho. Se acordamos na vida, na vida estamos. Se estamos num sonho, que acordemos o mais tarde possível. 
É isso a que chamamos Amor, até um dia acordarmos. A não ser que não saibamos sonhar.

9.05.2015

conversa 2154

Ela - Estás a pedir-me que vá para a cama contigo só uma noite?
Eu - Não estou a pedir, estou a propor. Isso é uma coisa que não se pede...
Ela - Bem... posso responder depois de beber um uísque?
Eu - Pensava que não bebias...
Ela - Não... por isso mesmo.
Eu - Por isso mesmo?!
Ela - Pode ser que caia para o lado e nem tenha que te responder.

9.04.2015

respostas a perguntas inexistentes (330)

o décimo sexo

Amanheço com o dia. O que me distingue dele é que ainda não dormi.
Na montra duma loja chinesa, dois manequins femininos olham para mim com ar desconfiado. Estão vestidos de cores garridas e com quilos a mais de bijutaria barata. Perguntam-se porque é que, a esta hora da manhã, percorro sozinho as ruas da cidade com uma cerveja numa mão e um pão com um rissol de camarão na outra. Porque sim.
"Porque sim" é a resposta a quase tudo na minha vida neste momento, a não ser quando tenho que responder "porque não". Tenho quarenta e quatro anos e, tecnicamente, a vida nunca me correu tão mal. No entanto, acho que nunca estive tão bem. Percebo o que se passa comigo, o que me está a acontecer e o que devo fazer. Preciso de tempo e de alguma força. Os manequins chineses não merecem resposta. Avanço.
Acho que foram manequins assim que tentei engatar uma ou duas vezes, numa noite qualquer em que bebi mas não comi rissóis. É a busca do primeiro sexo, o sexo que se tem como se se jogasse computador, em busca de pontos até chegar o "game over" e ficar a olhar para um tecto branco sem palavras no corpo que queiram sair pela boca húmida da saliva alheia.
Talvez eu prefira o décimo sexo, aquele que não existe sem o décimo primeiro e por aí adiante. Aquele que deixou de ser uma reunião de tupperwares e passou a ser um vício, porque um corpo e uma presença alheia podem ser um vício quando se Ama. Quando se chega ao décimo sexo talvez se chegue ao infinito. Nunca se sabe, a não ser que não se chegue. É como a utopia.
Nas reuniões de tupperwares demonstramos que o produto é bom, funciona e merece ser comprado. No décimo sexo não demonstramos nada. Injectamo-nos de Amor nas veias e temos uma trip em que o tecto deixa de ser branco. É por isso que é o melhor, o décimo e a partir daí. Pelo menos até deixar de o ser.
O meu rissol não tem camarão mas tem muito creme. A minha cerveja não tem engate mas tem espuma. Consumo esta manhã como se consome qualquer outra coisa numa sociedade que já se chamou de consumo imediato, mas que agora se consumiu a ela mesma e parece perto de um fim qualquer. Já me apaixonei tantas vezes, talvez me apaixone mais uma um dia destes. Ou isso, ou terei o primeiro sexo dez vezes e por aí adiante.
Porque sim. Ou porque não.

9.03.2015

coisas que fascinam (187)

As mulheres, infelizmente, têm os homens em baixa consideração. Pensam que os homens só se apaixonam pela beleza ou, em casos de menor condescendência, pensam que é por aí que tudo começa. É por isso que a maior parte delas, apesar de não se apaixonar pela beleza, quer ser bonita.
Os homens não têm a mesma necessidade de parecerem bonitos porque têm as mulheres em melhor conta do que elas os têm a eles. Eles sabem que elas os vêm como um todo e, se não forem assim tão bonitos, não faz mal. Talvez elas descubram qualquer coisa neles de que gostem (eles nunca sabem o que é).
A grande vantagem dos homens é que passam menos tempo em frente ao espelho, a grande desvantagem é que são considerados umas bestas por quase todas as mulheres, antes de qualquer outra coisa.
Uma das mulheres por quem me apaixonei nesta vida disse-me, uns dias depois de darmos as mãos e o corpo pela primeira vez, que "nem sequer estava muito arranjada no dia em que nos conhecemos" (sic). E eu, que me tinha apaixonado loucamente por uma noite inteira de sorrisos e conversa, pensei por que raio me estaria ela a dizer aquilo. Nunca cheguei a perceber.
Eu apaixono-me por tudo. É por isso que não me apaixono por quase ninguém. O tudo existe tão pouco, mesmo quando a mulher é bonita, que eu espero sempre que ela não comece por aí...
Depois do Amor, a mulher é sempre bonita...

9.02.2015

respostas a perguntas inexistentes (329)

um caroço de pêssego

Era Verão quando eu fazia isto. Viajava com os meus pais pelo país e de vez em quando parávamos para comer qualquer coisa. A minha mãe levava sempre fruta, protegida em tupperwares redondos, que distribuía por cada um dos filhos. Lembro-me de um pêssego em particular, creio que perto de Coruche. Comi-o e depois atirei o caroço o mais longe possível, para um imenso terreno com água que se estendia em frente aos meus olhos até à linha do horizonte.
Para mim, se eu passasse ali uns anos depois, seria natural ver um pessegueiro. Algum tempo antes, na escola primária, tinha colocado um feijão em algodão branco e percebido o que é uma semente. Não sei quantas vezes atirei caroços para lugar nenhum à espera que pudessem crescer, mas sei que foram muitas. Talvez mil.
Uma vez disse isto à Joana, enquanto comíamos nêsperas no parque. Acho que ela se riu de mim e, muito provavelmente, foi a primeira mulher a chamar-me idiota neste mundo. Mas não o disse, apenas pensou. Depois atirou o caroço da nêspera dela para perto do meu e disse que ali iam crescer duas árvores.
Claro que nunca cresceram, mas cresceu em mim uma memória indestrutível. Sempre que passo por aquele lugar lembro-me dela e desse curto momento. É o que nos acontece quando Amamos alguém: coleccionamos momentos que ficam para sempre. A montra duma loja, um cartaz numa parede, um beijo num muro... nada se apaga antes de nos apagarmos nós mesmos.

9.01.2015

respostas a perguntas inexistentes (328)

As pessoas que usam relógio de pulso são umas românticas. Eu gosto delas, embora eu não use. Insistem que a melhor forma de saber que horas são é levar o pulso em direcção aos olhos e, assim, negam a civilização. Negam o telemóvel que todos temos no bolso e o acesso constante à internet. Negam o contador de tempo absurdo que a maior parte dos canais de televisão tem no canto superior esquerdo e de qualquer sistema operativo no canto inferior direito. Negam até a prisão do tempo em que se transformou a própria vida, com horas marcadas para entrar e sair de tudo e mais alguma coisa. Do emprego, do almoço, do jogo de futebol e do sono.
Nega-se a contagem constante do tempo, esse assassino de juventudes, para encostá-lo à parede e dizer-lhe violentamente que ele não interessa, que é apenas uma adereço como uma pulseira qualquer.
Quando temos um relógio no pulso é porque não damos por ele (o tempo) em mais lado nenhum, nem sequer no Amor que vamos vivendo da forma que sabemos ou, mais interessante ainda, da forma que não sabemos. Eu acho que às vezes o Amor me falha porque não uso relógio de pulso. Talvez quando usar um eu aprenda que tempo não faz um Amor.

8.31.2015

coisas que fascinam (186)

Por muito que custe, temos que nos render a uma das condições mais básicas e certeiras da vida: no Amor há um princípio e um fim. A mim custa-me muito perceber esta crueldade da Natureza, que foi quem nos fez assim. Talvez por isso me considere um inadaptado à vida, porque também sou um inadaptado ao Amor.
A explicação é simples. Não me apaixono facilmente, mas desapaixono-me mais dificilmente ainda. Nas mudanças abruptas devíamos conseguir chegar a um cruzamento e virar noventa graus. Pelo menos, devíamos ter evoluído por aí.
Eu não evoluí. Salto de estrada para percorrer outro caminho, sim, mas as minhas estradas são quase paralelas. Percorro-as afastando-me muito lentamente da estrada que sempre percorri no passado e, ingenuamente, dou-me à esperança de voltar ao percurso anterior.
O Amor interessa-me assim, lento. Quando me encontro num caminho sem saída possível, é porque já o percorri durante muitos quilómetros.

8.29.2015

coisas que fascinam (185)

Aquilo que nos une é o chão que pisamos. Estamos todos ligados à mesma pequenez que é este planeta. É também isso que nos separa, a possibilidade que temos de estar uns com os outros e não estarmos. Não é uma grave constatação, porque é óbvio que não queremos estar com algumas pessoas, mas é certamente um tira-teimas.
A aproximação física é um dos condimentos principais do Amor. Sem ela, estamos a comer um prato sem sal. Acho que consigo, com a devida e inerente margem de erro, perceber se duas pessoas vão estar muito mais tempo juntas. Depende da forma como se tocam quando estão próximas. Acima de tudo, depende do toque.
O nevoeiro que esta manhã cobriu a minha cidade de mistério dissolveu-se para me mostrar um beijo numa passadeira. Estavam ali, no meio duma rua deserta, a beijarem-se só porque sim. Como qualquer condutor que regressa do trabalho comecei por lhes chamar nomes. Ia buzinar e acender os máximos quando percebi que era um beijo.
Esperei talvez dez segundos. Deram as mãos, disseram-me adeus e desapareceram na imensa neblina.
Obrigado.

8.28.2015

utopia é a meta

A solidão nunca acontece quando estamos sozinhos, mas sim quando estamos sós. Estar sozinho é das melhores coisas da vida, estar só é uma das piores. Para estarmos sozinhos não pode haver ninguém perto de nós, para estarmos sós é preciso uma multidão. Uma cidade, por exemplo, onde habite quem nós Amamos e não nos quer ver.
Lembro-me de ser criança e de fazer sumos de laranja. Cortava as laranjas em dois e espremia cada metade para dentro de um copo. Fazia toda a força que tinha até sentir o meu corpo a tremer, pois não queria desperdiçar uma única gota. É o que eu ando a fazer agora ao mundo. Espremo-o com toda a força para não desperdiçar as pessoas que me são importantes. É uma sorte termos pessoas importantes na pequenez da nossa vida, até porque são elas que lhe dão alguma grandeza. Entre as poucas amizades a sério que tenho, a Odete é uma delas. O facto de ter como meta a utopia não me é um pormenor, claro. Aliás, é toda uma vida.
No blogue dela diz que eu lhe disse que é uma das pessoas que mais me influenciou na vida, e é verdade. Diria mais, os abraços da Odete influenciam-me todos os dias, mesmo quando não os tenho. Quando espremo a minha passagem pela política partidária, em que deixei de acreditar, sobra-me a Odete e o companheiro dela, por tudo o que me ensinou e me permitiu crescer, que é como quem diz que a política tem que ser um abraço sincero.
Quando me sinto só e me perco na cidade, entre faces petrificadas pelos dias sempre iguais e ombros embrutecidos sem destino, procuro a Odete. Ela está sempre lá, porque é de amigos que a vida é feita.
Visitem o blog dela... porque utopia é a meta. E porque eu a Amo.

8.27.2015

coisas que fascinam (184)

tenho jeito para não ter jeito

Fala-se muito da falta de jeito dos homens para engatar mulheres, algo que eu partilho lúcida e conscientemente. Do que ninguém fala é da falta de jeito das mulheres para engatar homens. A explicação é mais ou menos simples, na minha opinião: parte-se sempre do princípio que uma mulher é difícil e um homem é fácil, o que é mentira.
A mim parece-me, muito simplesmente, que temos uma enorme falta de jeito uns para os outros. É por isso que o Amor é raro. Quando temos jeito, o Amor dá-se. Basicamente, passamos a vida a experimentar faltas de jeito, as nossas e as alheias, até ao momento em que nos apaixonamos e parecemos as pessoas com mais jeito do Universo.
Eu não tenho jeitinho nenhum para me aproximar de mulheres. As vezes que o fiz foi porque o interesse superou essa inabilidade. O meu interesse e o interesse delas, claro. Esse interesse pode ser de uma noite ou de alguns anos, mas nunca de uma vida. A merda é essa.
Ainda assim, para a falta de jeito que tenho por me interessar por alguém a sério, sobra-me um jeito enorme para me apaixonar por mulheres que não existem, São aquelas que passam por mim na rua e cruzam um leve olhar comigo. Essas são aquilo que imagino, não são aquilo que são. Pelo menos para mim, claro.
Um dia cruzo-me com uma em que aquilo que imagino é aquilo que ela é e apaixono-me. Provavelmente, no dia em que a minha imaginação não for tida nem achada, o que é óptimo.

8.26.2015

conversa 2153

Ela - O que gosto mais em ti é que nunca me tentaste engatar.
Eu - Nunca?! Já tentei tantas vezes...
Ela - Então fui eu que nem reparei...
Eu (suspiro)
Ela - Deixa lá. Se calhar foi melhor assim...
Eu - Porquê?
Ela - Os homens não sabem engatar... ainda este fim de semana houve um palerma que me ofereceu um gin tónico e se ofereceu para me levar a casa.
Eu - Qual é o problema?
Ela - Queria-me comprar com um gin tónico?! Está maluco!
Eu - E não aceitaste?
Ela - Aceitei o gin tónico, claro. Depois mandei-o delicadamente embora.
Eu - Já te ofereci umas minis...
Ela - Pois já... deve ter sido por isso que nunca reparei que me querias engatar.

8.25.2015

pensamentos catatónicos (332)

Quando nos divorciamos, a sensação é a de que nos divorciámos do mundo, porque de facto é a um mundo que dizemos adeus. A única diferença para com o mundo verdadeiro, aquele que habitamos no terceiro planeta a contar do Sol, é que dele eu não gosto assim tanto. Abdicaria facilmente dele se pudesse viver noutro.
Do meu Amor não. 
Porque não tenho outro, dedico-me agora a esse mundo de que gosto menos. Faço pequenos jogos com ele e conto-lhe os meus segredos. Hoje apostei com ele, por exemplo, que era capaz de passar algumas passadeiras pisando só nos riscos brancos. Depois sentei-me em cima de um escorrega e assisti ao amanhecer da cidade. Percebi como o cheiro a erva fresca e matinal se foi transformando num pesado aroma de alcatrão e gasóleo queimado.
É ele, o mundo, a explicar-me que não é o melhor dos mundos.
Talvez um dia encontre outro.

8.22.2015

conversa 2152

Ela - Ficas melhor assim, com o cabelo comprido. Se fosse a ti não rapava mais...
Eu - Obrigado.
Ela - Obrigado porquê?! Os homens bonitos ficam sempre bem, de cabelo curto ou comprido. Tu é que só ficas bem de cabelo comprido...

8.21.2015

amanhecer

Vi o dia nascer mais uma vez. Precisei de o ver nascer vários dias seguidos para perceber que o Pôr do Sol é injustamente mais famoso do que o Amanhecer. Tudo se deve à estatística. Na maior parte da nossa vida estamos acordados quando o Sol se põe, mas estamos a dormir quando ele nasce.
A maior parte dos habitantes da Terra, quando dá pelo Sol de manhã, já ele nasceu. Já o Pôr do Sol é alvo de todas as atenções. Juntamo-nos na orla costeira, no alto duma montanha ou numa estrada infinita para assistir à sua lenta despedida.
É por isso que o Amanhecer sofre duma injustiça tão injusta como o Amor. Quando damos por ela, já estamos apaixonados. Acordámos assim e nem percebemos, pronto. Por outro lado, um Amor que se põe na linha do horizonte é sempre mais lento e escurecedor.
Às vezes acho que os Amores acabam porque somos incapazes de amanhecer frequentemente. E este texto era só para te dizer que amanheço contigo todos os dias antes de me deitar, mesmo que tu não estejas.


8.20.2015

conversa 2151

Ela - Já estive loucamente apaixonada por ti, mas nunca to disse.
Eu - Nunca o disseste, porquê?
Ela - Por causa da tua namorada... não era oportuno.
Eu - E estás a dizer agora, porquê?
Ela - Porque agora já não estou. É mais fácil...
Eu - Tem piada. Nunca me pareceu que estivesses apaixonada por mim, mesmo na altura em que estávamos juntos mais vezes...
Ela - Sou muito boa a disfarçar.
Eu - Durante quanto tempo é que isso foi?
Ela - Pelo menos uma semana.
Eu - Uma semana?! Isso não é nada!
Ela - O que é que tu querias?! Que eu andasse a sofrer por ti durante anos?!
Eu - Não, mas...
Ela - Estava a brincar, pá. Nunca estive nada apaixonada por ti. Estava só a ver como é que reagias...

8.19.2015

coisas que fascinam (183)

estado satélite a rondar a vida

Não sei quantas vezes, num café ou noutro sítio qualquer, me apetece meter conversa com uma mulher. Não estou a falar de engate, estou mesmo a falar sobre conversar. É que há mulheres que têm qualquer coisa que me dá vontade de as conhecer. Há quem lhe chame uma questão de pele, mas eu não. Não tem a ver com a pele, tem a ver com o que nos falta naquele momento. É isso, é uma questão de falta.
Claro que eu nunca meto conversa com ninguém ou, pelo menos, é mesmo muito raro. Sou tímido que chegue e, por isso, costumo ficar na expectativa que venham falar comigo. O que, convenhamos, também quase nunca acontece.
Aconteceu-me agora mesmo.
Tudo porque entrei numa pastelaria às oito da manhã e recusaram-se delicadamente a servir-me uma cerveja. Explicaram-me que só servem bebidas alcoólicas depois das onze, o que eu compreendi. Ainda assim, expliquei que no meu caso não eram oito da manhã. Vinha do trabalho e, antes de ir para casa dormir, apetecia-me beber um copo.
A senhora acabou por me deixar beber duas cervejas Sagres e comer uma empalhada. A mim e a uma mulher que também estava na minha situação e aproveitou a coisa para, também ela, beber um copo. Sentou-se na minha mesa e disse que precisava de falar com alguém que, como ela, ande ao contrário no mundo.
Naquele momento foi isso que nos uniu, o ritmo da vida. Todos os que entravam naquele espaço queriam ler o jornal durante um galão e uma torrada ou um café e uma nata. Só nós é que queríamos espairecer duma jornada de trabalho.
Gostei da expressão "ao contrário do mundo", porque é exactamente assim que me sinto. Não é que me sinta mal. É mais sentir-me numa órbita qualquer do que devia ser a vida, como um satélite que ronda um planeta mas nunca lhe toca. Quando é assim, se dois satélites se cruzam no espaço, porque não beberem uma cerveja juntos?
Despedimo-nos depois de trocarmos números de telefone, para um dia destes repetirmos uma cerveja matinal (o que provavelmente nunca vai acontecer). Ela foi-se embora e eu vim para casa. Acho que foi sempre assim que me apaixonei... no estado satélite a rondar a vida. Apenas hoje não aconteceu.

8.18.2015

conversa 2150

(no supermercado)

Ela - Então, estás bem?
Eu - Sim, vou andando. Às compras, não é?
Ela - No último jantar lá em casa, acho que o vinho tinha qualquer coisa...
Eu - Então?
Ela - Fiquei sem copos... vim comprar novos.
Eu - Sabes que agora há uns copos que parecem de vidro mas não se partem...
Ela - Credo! Não quero isso.
Eu - Porquê?
Ela - Então e como é eu faço quando o meu marido me chateia?

respostas a perguntas inexistentes (327)

Cruela

Acho que sou um conservador. Sempre precisei duma mulher, mas nunca precisei de duas. Falo de Amor, entenda-se. O Amor, para mim, foi sempre um lugar para dois. Um é de menos, três são demais.
Parece bonito, mas não é. Os homens que conseguem Amar várias mulheres ao mesmo tempo nunca são tão felizes como os que Amam só uma, mas também nunca são tão tristes. Têm a vantagem de não estarem sós quando lutam com a crueldade duma mulher.
As mulheres têm uma crueldade que é só delas e que utilizam somente com os homens conservadores. Chama-se silêncio e unilateralidade. 
Aprendi isso ainda novo, mas nunca aprendi a Amar mais do que uma mulher ao mesmo tempo. É um dos maiores erros de aprendizagem da minha vida. Sinto-me sempre um aprendiz no Amor. Sei pouco disto e, na verdade, cada vez sei menos.
Hoje disse isto a uma mulher que me abraça às vezes. Estava à espera que ela me respondesse que não, que as mulheres não têm essa crueldade. Pelo contrário, achou natural e respondeu-me da forma mais perigosa que eu podia imaginar. Os homens conservadores não têm que aprender a gostar mais do que uma mulher ao mesmo tempo, mas têm que aprender a não gostar de nenhuma de vez em quando. Foi o que ela disse e o que eu percebi.
Ainda bem que a seguir me abraçou.


8.17.2015

respostas a perguntas inexistentes (326)

Às vezes lembramo-nos duma pessoa por causa de uma coisa qualquer. Um sabor, por exemplo. Se eu estiver a comer pipocas, costumo lembrar-me duma mulher com quem fui ao cinema uma vez e que fez uma cena por causa delas. Ela queria comer pipocas doces durante o filme e eu opus-me timidamente. Zangou-se comigo e eu acabei por ceder. Foi a primeira e a última vez que fomos ao cinema.
Acabámos por perder os dois.
A melhor forma de nos lembrarmos de alguém é não saber porquê. São essas as pessoas mais importantes na nossa vida, de quem nos lembramos só porque sim. Quando não sabemos por que motivo nos lembramos de alguém, então é porque gostamos desse alguém desinteressadamente.
Tenho uma amiga de quem me lembro só porque sim, apesar de a ver muito pouco. Lembro-me dela quando estou a trabalhar, quando estou na praia ou a comprar a pão. Lembro-me dela nas mais variadas e improváveis ocasiões, porque ela própria é uma mulher improvável. Ainda bem. Gosto dela e hoje pude dizer-lho.
Quando se sentirem sós, procurem as pessoas que não têm que ir chamar no fundo da vossa memória, a propósito de um facto qualquer da vida, mas sim aquelas que surgem na primeira esquina duma lembrança qualquer, a sorrir e com vontade de vos abraçar.
Digo eu, sei lá.

8.15.2015

conversa 2149

Ela - Isto é muito estranho.
Eu - O quê?
Ela - Estar fechada contigo num carro às tantas da manhã...
Eu - Porquê?
Ela - Foi assim que comecei a namorar com o meu ex-marido. No carro dele às tantas da manhã...
Eu - Ah!
Ela - Se bem que contigo é diferente.
Eu - É diferente em quê?
Ela - O meu ex-marido tinha um carro grande e limpo que deu para termos sexo lá dentro. Tu tens um carro pequenino e, muito provavelmente, o mais porco que eu já vi na vida.
Eu - Isso deixa-te à vontade?
Ela - Sim... tenho a certeza que não me queres engatar. Se eu tivesse sexo contigo aqui ia escangalhar-me a rir.
Eu - Pois...
Ela - Alguma vez tiveste sexo neste carro?
Eu - Claro que não. Uma vez lutei com um frasco de azeitonas e a rolha de uma garrafa de vinho.
Ela - Estavas a tentar engatar alguém?
Eu - Sim, mas quando consegui abrir o frasco e abrir a garrafa ela já tinha adormecido.
Ela - Sabes o que é que eu gosto mais em ti?
Eu - Diz...
Ela - Mesmo quando estás triste, tens sempre uma piada para dizer...
Eu - Sinto-me lisonjeado. O problema é que isto não foi uma piada...


8.14.2015

respostas a perguntas inexistentes (325)

mulheres boas na cama

Já tive boas noites de sexo e más noites sexo, como toda a gente. Algumas das piores noites de sexo que tive foram das melhores. Algumas das melhores não foram assim tão boas. Sei que em todas as noites de sexo que tive, boas ou más, fui parte integrante da coisa.
Por falar em noites, também tenho sexo de dia. Não ter hora marcada para ter sexo é um dos princípios do mundo maravilhoso do sexo. A hora marcada, que é como quem diz sexo à noite, retira a espontaneidade da coisa. Digo "noites de sexo" por uma questão estatística e romântica. Gosto da noite, da Lua, das estrelas e de um copo de tinto (que só bebo à noite).
Nisto tudo, o que me preocupa são os homens que acreditam que as mulheres são boas ou más na cama. Quando um homem me diz que determinada mulher é boa ou má na cama, a única conclusão que tiro é que ele, pelo menos, é uma boa merda. Ainda não percebeu que o sexo a dois é uma coisa a dois. Por isso põe toda a responsabilidade nela. Ele é apenas um crítico e os críticos, como todos sabemos, são gajos que opinam sem fazer nadinha.
Às vezes parece-me  que os homens que dizem que as mulheres são boas ou más na cama só se deitaram, até à data, com a própria mão. Tecnicamente, a mão é sempre boa porque faz tudo o que um homem quer. Ainda assim, não é sexo que se recorde com o coração embrulhado em alegria e nostalgia. E é assim que eu recordo algum do sexo que tive, mesmo que tecnicamente não tenha correspondido à minha condição de primata.
Deitarmo-nos com a mão não é mau. Confundir a mão com uma mulher é que é péssimo. O que eu queria dizer às mulheres que conheci intimamente, se o pudesse fazer, é que nunca conheci uma má, a não ser as que não gostaram de mim. Mesmo que tenham sido boas, claro. Não há abraço nos lençóis como o de uma mulher (com excepção da Assunção Esteves).

8.13.2015

respostas a perguntas inexistentes (324)

Os homens são tristes porque têm medo da solidão. A solidão e a tristeza são sentimentos diferentes que até podem ser opostos. Mesmo assim, normalmente, a maior parte de nós prefere estar triste do que estar só. É por isso que existem casamentos que continuam para lá do Amor. Estar casado sem Amor é triste, mas não é estar só.
Os homens são mais assim por serem também mais simplórios. Não estando sós, a única coisa má que lhes pode acontecer é estarem tristes. Por isso é que aprenderam a espremer felicidade de palermices: um jogo de futebol, uma borracheira com um amigo ou um jogo de computador. Estas coisas simplórias combatem a tristeza. De forma ineficaz, é verdade, mas combatem.
As mulheres são mais incompetentes na busca da felicidade, talvez por serem mais verdadeiras. Não é qualquer merdice que as faz felizes, muito menos um jogo de futebol. É por isso que a aparente felicidade dos homens as confunde. Nalguns casos elas zangam-se com eles, noutros têm pena. O que elas nunca têm é compreensão com essa inteligente capacidade que os homens têm de ser estúpidos.
Perguntam-se como é que um gajo pode estar feliz quando a vida é triste.
Elas preferem a solidão à tristeza, porque combater a tristeza é mais difícil.
Eles preferem a tristeza à solidão, porque combater a tristeza é mais fácil.

8.12.2015

coisas que fascinam (182)

Às vezes é como, se no Amor, vivêssemos acima das nossas possibilidades. Somos uns gastadores, é o que é. Pegamos no Amor que temos e vivemos à grande e à francesa, sem pensar no dia de amanhã. Quando damos por ela, estamos a contar os trocos para conseguir viver o dia-a-dia. Um beijo aqui, uma carícia ali...
Como em tudo, fazemos um downgrade na vida, de forma a que o que temos nos chegue. É como ir a uma loja e não ter dinheiro para comprar o que se quer, na verdade. Se tivéssemos um bocadinho mais de Amor, abraçávamo-nos e ficávamos dois dias assim, abraçados. Mas não temos. Gastámos tudo no bom tempo.
Eu não gosto de viver com pouco. Na verdade, no Amor, gosto de ser um gastador sem vergonha. É por isso que ando aqui a juntar, pouco a pouco, Amor suficiente para o futuro. Quero gastá-lo todo, preferencialmente com a mulher com quem dei cabo duma razoável fortuna. Hoje acordei com a sensação que a minha conta à ordem está a crescer rapidamente.
A Economia é outra história...

conversa 2148

Ela - Há tanto tempo que não te via...
Eu - Estava com saudades tuas.
Ela - Como é que andas?
Eu - Na merda, mas tirando isso está tudo bem.
Ela - Só tu para dizeres que andas na merda a uma ex-namorada que não vias há anos...
Eu - Nunca te desiludi nesse aspecto.
Ela - Não... de facto não. Não me lembro de te ouvir dizer que estava tudo bem.
Eu - E tu, como andas?
Ela - Eu ando bem, tirando o que está mal.
Eu - Também nunca me desiludiste. Achas sempre que está tudo bem, mesmo quando não está.
Ela - Prefiro ver o copo meio cheio.
Eu - Eu prefiro vê-lo vazio, desde que seja eu a bebê-lo.
Ela - Achas que foi o facto de sermos tão diferentes que acabou com tudo entre nós?
Eu - Acho que foi o facto de sermos tão iguais...
Ela - Talvez... isso e o facto de gostares de música brega brasileira.
Eu - Isso era ultrapassável.
Ela - Não era nada.
Eu - Eu estava disposto a usar auscultadores.
Ela - Não chega.
Eu - És uma intolerante.
Ela - Pois sou... mas lembro-me de ti quase todos os dias.
Eu - Eu também me lembro de ti a cada momento.
Ela - A sério?!
Eu - Pensavas o quê?
Ela - Que não querias saber...
Eu - Bem, que se foda! Dá-me um abraço.
Ela - Era o que eu te ia pedir...

8.11.2015

pensamentos catatónicos (331)

Tenho quarenta e quatro anos e estou totalmente apaixonado. Se alguém me perguntasse neste momento quem eu sou, pouco mais saberia dizer. Ando um pouco triste também, embora me considere um homem feliz, precisamente pelo motivo que me põe triste. O Amor, sim.
Hoje tirei vinte minutos da minha vida só para mim. Encostei o meu carro na estrada e aventurei-me num pinhal. Abri a porta e desliguei o rádio para poder cheirar o forte aroma do silêncio. Foi uma forte de combate ao desAmor.
Quando nos sentimos sós, é como se o tempo custasse a passar mas não custasse a ter passado. É como se cada segundo durasse minutos a passar, mas depois de ter passado fosse tudo demasiado rápido. O tempo passa a uma velocidade estonteante, mas emperra quando passa por nós. É assim um Amor apagado, mesmo que esteja em vias de se acender.
Quando um Amor nos corre mal porque alguém se distanciou de nós, quem nós perdemos não é apenas esse alguém, mas sim quem nós pensávamos que esse alguém era. As outras pessoas são sempre, pelo menos em parte, resultado da nossa criatividade, incluindo no Amor. Isso vale para os dois lados, porque nós também somos o que os outros fazem de nós.
Amanhã vou tirar vinte minutos da minha vida só para um abraço, ainda não sei de quem. Sei que, seja quem for, será também um bocadinho do que eu preciso e desejo. Espero que eu possa ser o mesmo. É assim que às vezes se começa um Amor.

8.10.2015

respostas a perguntas inexistentes (323)

O maior adversário do Amor é o tempo que passa. Digo adversário para não lhe chamar inimigo, porque tento acreditar que o Amor não pode ter inimigos. Ainda assim, o tempo que passa é um perigo. Consegue pegar no maior dos Amores e encostá-lo a um lado sombrio da nossa vida.
O problema do tempo que passa é que não é decidido. Prefere fazer as coisas sorrateiramente para que ninguém dê por elas. Se pegasse num grande Amor e o destruísse de vez, era uma coisa. Agora assim, a morder pela calada, é outra. O que ele faz é traiçoeiro: atrai o Amor para a sombra tão lentamente que podemos passar anos sem perceber o que nos aconteceu.
Um dia, como noutro dia qualquer, abrimos a porta de casa rodando duas vezes a chave, damos doze passos até ao sofá da sala onde esperamos um abraço daqueles que compensa os dias maus que acontecem, mas o que recebemos é uma hesitação.
Acontece a todos, até porque o tempo passa também por todos. O que não acontece a todos é conseguir andar com o relógio para trás. Pegar nesse tempo que passou e Amá-lo como único que foi, virando-lhe a ampulheta como se vira um lençol.
Para quem não consegue, o tempo que passa será o melhor remédio. Para quem consegue também.

8.08.2015

conversa 2147

Eu - O teu namorado está porreiro?
Ela - Qual deles?

8.07.2015

pensamentos catatónicos (330)

Lembro-me do tempo em que me apaixonava e desapaixonava frequentemente. Era um tempo bom porque também era um tempo mau, o da minha juventude. Era bom à tarde e mau à noite, por exemplo, para voltar a ser bom na manhã seguinte.
O que o tempo das paixões espontâneas nos ensina, é a relativizar o que é bom e o que é mau. Nem o bom é tão bom assim, nem o mau é tão mau assim. Pelo menos quando falamos de Amor, claro. O truque passa por relativizarmos apenas quando estamos mal e sermos propositadamente ingénuos quando estamos bem.
Quando atingimos uma idade que eu não sei muito bem qual é, apaixonarmo-nos começa a ser cada vez mais difícil, até chegarmos à fase da vida em que nos custa acreditar que aconteceu. É quando nos vemos aos espelho e mesmo assim duvidamos que o nosso coração deixou de nos pertencer. A relativização do bom acaba, porque o que se passa é mesmo bom. É o absolutismo do Amor em detrimento da Relatividade.
Por outro lado, desapaixonarmo-nos também começa a ser cada vez mais difícil. Se gostarmos de alguém a sério se tornou quase um milagre, deixarmos de gostar desse alguém é um milagre maior. E eu, que ateu me confesso, não acredito em milagres.

conversa 2146

(no carro dela)

Eu - Viste a ultrapassagem que acabaste de fazer?
Ela - Claro que vi, vou a conduzir.
Eu - Risco contínuo e um sinal a proibir ultrapassagens não te dizem nada?
Ela - Sim, dizem que tenho que ter cuidado a ultrapassar...
Eu - É mais que não podes ultrapassar. Aquela zona é perigosíssima...
Ela - O camião à nossa frente ia tão devagar... perdi a paciência.
Eu - Mas não podes fazer isto. Podíamos ter morrido...
Ela - A responsabilidade era minha.
Eu - Mas eu também vou no carro...
Ela - A responsabilidade continuava a ser minha. São sempre as mulheres a responsabilizarem-se por tudo. Já estou habituada.
Eu - Mas eu não quero morrer por tua responsabilidade!
Ela - E não morreste, pois não?
Eu - Esquece. Não faças mais isso, por favor. Vai devagar.
Ela - Estás a insinuar que eu conduzo mal? Detesto quando os homens fazem isso.
Eu - Conduzes muito bem. Melhor do que eu, de certeza... mas não respeitas as mais elementares regras de segurança.
Ela - Tem calma, homem. Perdi a paciência com aquele camião, que ia mesmo muito devagarinho. Foi tudo.
Eu - Mas não podes perder a paciência assim...
Ela - Se aturasses o que eu aturo em casa, a tua paciência também estava esgotada.
Eu - O que é que aturas em casa assim tão mau?
Ela - O meu marido.
Eu - Desisto...
Ela - Olha outro camião. Vou ultrapassá-lo já.
Eu - Não faças isso.
Ela - Estava a brincar!

8.06.2015

respostas a perguntas inexistentes (322)

Não abandono as mulheres por quem me apaixonei um dia. Aqui e ali, quando estou sozinho, ainda lhes dou a mão, as abraço ou beijo prolongadamente. É tudo exactamente como já foi um dia. A única diferença é que elas já não estão lá.
É inútil tentar esquecer um Amor. Os Amores não ficam registados apenas no cérebro, mas sim em todo o corpo. Alguns até se gravam na paisagem que nunca vimos, num cheiro, numa cor ou numa música. Quando estamos sozinhos eles observam-nos. É por isso que nunca me sinto só.
A M não sabe, mas ainda hoje fez uma viagem comigo de carro. Nada de especial, foram apenas os trinta e cinco quilómetros que separam o meu trabalho da minha casa. Conversámos o caminho todo e quando estacionei ela pediu para encostar a cabeça ao meu ombro. Ficámos ali um bocado, em silêncio, a ver o Sol nascer por trás do esqueleto dum edifício que morreu prematuramente. Nunca ninguém chegou a habitá-lo.

- Se estivéssemos os dois juntos, achas que ainda gostavas de mim?
- Gosto de ti, mesmo sem estarmos juntos... - respondi.

O nosso Amor foi como o prédio à nossa frente. Começámos a construção mas nunca o chegámos a habitar. Foi o que eu lhe disse e ela riu-se. Chamou-me docemente palerma e eu apertei o abraço, como se a quisesse segurar para sempre.
Sempre que uma mulher me chama docemente palerma, considero-o um elogio. Aos palermas a sério, as mulheres nem sequer chamam nada. E a M, que foi um Amor que não o chegou a ser, chamou-mo tantas vezes que perdi a conta. O Amor com ela foi uma tentativa, vá. E do que me lembro é dela a tentar.
E eu, palerma, sem o perceber. O que lhe devo foi o que aprendi.

8.05.2015

os amigos e os outros

Tenho saudades dum amigo meu que, quando estava comigo, me matava as saudades que eu tinha dos outros. Os melhores amigos são assim, começam por não querer as nossas saudades só para eles. É por isso que é fácil ser amigo deles.
Nos dias como o de hoje, eu telefonava-lhe e falava do tempo, de futebol e dos lábios da Scarlet Johansson. Depois marcávamos um copo num café qualquer para falarmos de nós. Ele conheceu todas as mulheres por quem me apaixonei, mesmo aquelas que eu próprio não cheguei a conhecer muito bem. Eu, diz-me a presunção, terei com certeza conhecido as dele.
No dia a seguir a ter conhecido a minha actual companheira liguei-lhe. Estava a chover torrencialmente, o Porto estava à frente da liga nacional de futebol e a Scarlet Johanson tinha contracenado com os lábios da Rebecca Hall em Vicky Cristina Barcelona. Depois marcámos no Convívio às dez da noite.
Eu cheguei primeiro. Quando ele entrou, levantei-me e demos um abraço.

- Então, estás bem?
- Estou fodido! - respondi.
- O que é que se passa?
- Acho que estou apaixonado...

Ele riu-se. Virou-se para o empregado, nosso velho conhecido, e pediu dois uísques.

- Sem gelo, que este homem precisa de esquecer a vida... - brincou.

Brindámos.

- Como é que isso aconteceu?

Abanei os ombros.

- Acho que ia na vida, como se vai na rua às vezes, tropecei nela e caí. Quando me levantei já não era o mesmo. É sempre assim que nos apaixonamos, não é? A cair e a levantar.

Há sempre um amigo para saber mais da nossa vida do que sabem os outros. Sendo tecnicamente o mesmo, a um amigo dizemos que estamos apaixonados. A um outro dizemos, quando muito, que começámos uma relação. É por isso que um amigo nos mata as saudades que temos dos outros.

8.04.2015

conversa 2145

Ela - A minha filha adormeceu...
Eu - Pois...
Ela - Agora estamos por nossa conta. Vou abrir uma garrafa de vinho...
Eu - Okay!
Ela - Preferes Alentejo ou Bairrada?
Eu - Qualquer coisa...
Ela - Este é o momento em que bebemos um copo e, se tu não fosses tu, eu tentava levar-te para a cama.
Eu - Tentavas levar-me para a cama se eu não fosse eu?
Ela - Sim. Ando mesmo a precisar disso.
Eu - Qual é o problema de eu ser eu?
Ela - És meu amigo há vários anos...
Eu - Ah!
Ela - Já passou o prazo, percebes?!
Eu - Mais ou menos. Diz-me uma coisa: e se eu deixar de ser teu amigo, há alguma hipótese?
Ela - Não. Tarde demais.
Eu - Pronto! Era só para saber...
Ela - Não te preocupes, tenho aí mais vinho...

8.03.2015

respostas a perguntas inexistentes (321)

Parei em cima duma das pontes do canal do Côjo. O trânsito de moliceiros repletos de turistas era intenso, pelo menos para aquilo que, como aveirense, estou habituado a ver durante os meses mais frios. Dois rapazes com skates passaram por mim e, pelo canto do olho, tentaram perceber o que eu estava  fazer. Estava a filmar, tão simples quanto isso. A filmar sem nenhum objectivo concreto, mas apenas pelo gozo que filmar me dá. Viram a minha Gopro em cima dum pequeno relógio de cozinha, sorriram, e continuaram o seu caminho.
Para além dos turistas nos barcos, alguns transeuntes caminhavam calmamente nas margens do canal. Dali de cima, era como se todos estivessem num silêncio próprio de quem se encontra em paz. Duas mulheres de mãos dadas pararam alguns segundos para observar um grupo de patos que, na esperança de obter comida, se aproximou delas a furar esse silêncio. Reparei então como a minha mão já não segura a mão de ninguém há algumas semanas. Fechei o punho e abri-o novamente, coloquei a câmara na ponte e comecei a filmar.
Ando com uma estranha sensação de solidão, porque apesar de a sentir sou eu próprio que a alimento. Não me apetece estar com muitas pessoas em simultâneo. Na verdade, para ser sincero, nem sequer há muitas pessoas com quem me apeteça estar. Por isso mesmo é que sorri quando as duas mulheres passaram por mim, ainda de mãos dadas, e as ouvi discutir. Eram namoradas e estavam zangadas, mas mesmo assim davam as mãos.
A uma certa distância, tudo nos parece pacífico, mas quando nos aproximamos e percebemos os detalhes, percebemos também que a paz é uma utopia. Acho que tive este pensamento pela segunda vez na vida. A primeira vez foi em criança, quando vi uma fotografia do planeta Terra num Atlas. Era bonita, mas ali na rua onde eu vivia havia uma série de problemas que eu conhecia melhor do que os astronautas que tinham tirado aquela foto. Mais tarde vim a descobrir que o Amor também é assim: bonito por fora, eventualmente cruel nos seus detalhes.
De todas as pessoas que conheço, existe uma (ou três, vá lá) com quem me vai apetecendo estar. É uma amiga a quem nunca dou a mão, mas de quem recebo tudo o que há para receber duma amiga. Estava a pensar nela quando lhe ouvi a voz e, por um segundo, um detalhe nesse mundo que eu vi num Atlas há muitos anos atrás me pareceu perfeito.

- Como estás? - Perguntou.
- Mal. Bebes uma cerveja comigo?

Nessa tarde, ela foi o meu detalhe. É dos detalhes que nós dependemos, não da fotografia do Atlas. Talvez seja por isso que eu gosto de filmar.

8.02.2015

conversa 2144

Ela - A temperatura aqui em Aveiro é sempre tão baixa...
Eu - Eu gosto...
Ela - Devem estar uns vinte e três graus.
Eu - Pois... eu gosto.
Ela - Eu preciso de pelo menos vinte e sete.
Eu - Eu gosto.
Ela - É que, assim, quando se está à sombra fica logo muito frio.
Eu - Eu gosto...
Ela - Tu também gostas de tudo!
Eu - E tu não gostas de nada!
Ela - Tenho é níveis de exigência superiores aos teus.
Eu - Em quê?
Ela - Em tudo.
Eu - Se calhar é por isso que somos amigos. Eu sou amigo de qualquer coisa e tu só és amiga de pessoas especiais.
Ela - Estás quase a apanhar.

pensamentos catatónicos (329)

As mulheres têm-se como o elemento mais importante duma relação a dois. É, aliás, isso que existe em comum com os homens, que também as têm como tal. É esse equilíbrio que lhes permite serem emocionalmente injustas e tomarem decisões unilaterais sem possibilidade de recurso.
Se uma mulher pede algum tempo a um homem numa relação, é suposto ele perceber e esperar porque ela está com dúvidas existenciais. Se um homem pede algum tempo a uma mulher, ela não espera porque tem a certeza que ele anda com outra qualquer.
Por algum tempo, entenda-se exactamente o que é: o fim da relação com a possibilidade eventual de um reinício, um dia que haja vontade.
Se aprendi alguma coisa com a vida foi isso. Por um Amor não se espera, porque a espera significa que ele não existe. Não vale a pena esperar pela inexistência. Os Amores nunca recomeçam. Quando muito, podem começar do zero uma segunda vez se o alinhamento dos planetas o permitir.
 

8.01.2015

conversa 2143

Ela - Lembras-te da noite em que tentaste ir para a cama comigo? Foi tão engraçado...
Eu - Tenho uma ideia...
Ela - Tens uma ideia?! Só tens uma ideia da noite em que tentaste ir para a cama comigo?!
Eu - Foi há tanto tempo...
Ela - Nem sequer sabes há quanto tempo foi?!
Eu - Diz-me só se consegui ou não, por favor.
Ela - Claro que não, seu parvalhão.
Eu - Então querias que me lembrasse de quê?
Ela - De teres tentado...
Eu - E lembro... quer dizer, tenho uma ideia.
Ela - Foste para a cama assim com tanta gaja, que só tens uma ideia?
Eu - Não, não fui, mas tentar, lá isso tentei.
Ela - Percebes porque é que não foste, não percebes?
Eu - Percebo. Para as mulheres, uma tentativa já é digna de ficar na memória. Para um homem não.
Ela - Estás a chamar-me o quê?!
Eu - Nada. Estou só a dizer que a minha memória é muito má.

7.31.2015

conversa 2142

Eu - Estou a precisar de praia. Queres vir comigo este fim de semana?
Ela - Pode ser, se me explicares porque é que me estás a convidar...
Eu - Explicar o quê?
Ela - Porque é que me estás a convidar...
Eu - Tenho que te explicar porque é que te estou a convidar para ir à praia?!
Ela - Gosto de entender as coisas...
Eu - Para não ir sozinho, sei lá...
Ela - Pois, o problema é esse...
Eu - Qual?
Ela - O convite é razoável. A explicação é que é uma merda...

respostas a perguntas inexistentes (320)

como se alimenta um Amor

O Amor é um animal indomesticável. Todos sabemos disso e, às vezes, até agradecemos que ele seja assim. O problema é que ele só se alimenta de certezas, apesar de ser, ele próprio, uma incerteza.
Não tenho a certeza total do que digo. Sei que, no meu caso, foi assim que o alimentei toda a vida. Com certezas digo. Acordo de manhã, pego em todas as certezas que tenho e dou-lhas à boca. Até aqui tudo bem, não fosse ele às vezes perder a fome durante longos períodos de tempo ou, noutras ocasiões, morder-me à traição.
O Amor é um pouco assim, morde a mão que o alimenta.
Já tive um Amor, por exemplo, que só se alimentava dois ou três dias por semana. Nos outros dias preferia ficar em jejum. Dei-lhe um telefone para que ele me ligasse sempre que estivesse com fome, o que aconteceu durante alguns meses. Eu procurava os restos das minhas certezas para o alimentar, mas um dia deixou de me ligar. Fiquei sem ele e sem o telefone.
Por outro lado, tive outro que comia demais. Tinha tanta fome que um dia me mordeu os dedos. Fiquei a sangrar a acabei por abandoná-lo como se abandona outro animal qualquer. À sua sorte. Tive notícias dele algum tempo depois. Morreu.
Entre os dois tipos de Amor que já tive, no entanto, sempre preferi os esfomeados aos que entram em dieta constantemente. Mais vale uma ferida de vez em quando do que a solidão de um animal fugitivo. É por isso que às vezes pego nas certezas todas que tenho, cozinho-as como posso, e dou-as ao primeiro Amor que passa por mim.

7.30.2015

conversa 2141

Ela - Este fim de semana vens acampar comigo para qualquer sítio?
Eu - Deixa-me decidir na sexta. Ando a trabalhar muito e nem sei a quantas ando...
Ela - Estás à vontade.
Eu - Obrigado.
Ela - Estás à vontade para vires ou nunca mais falares comigo. Tu é que sabes.

índice ivariano no 12

Já passa das seis da manhã. Acabei de chegar a casa, depois de mais um turno de doze horas de trabalho numa fábrica nos arredores de Aveiro, e de encher um copo de vinho branco onde, depois de ter dado dois ou três goles, reparei que há um insecto a boiar.
Todas as noites, com excepção dos fins de semana, trabalho doze horas. Não me importo muito, para ser sincero. Faço-o, não para manter a minha vida num modo de sobrevivência, mas sim porque sigo um sonho de há muito tempo: o de poder fazer filmes.
Ainda antes do fim do ano conto ter uma empresa que me permita cumprir esse sonho. Até lá, tenho que comer qualquer coisa, pagar as contas e ter algum dinheiro para investir. É por isso que o faço, mesmo depois de ter investido num projecto empresarial que falhou e me deixou algumas dívidas.
Sei que é preciso ser forte, principalmente nos momentos em que a vida nos fragiliza, e eu sinto que estou num momento desses. Talvez por isso mesmo, numa altura em que o Amor me está a falhar e a deixar desamparado, seja capaz de me surpreender todos os dias com pequenos gestos de quem me conhece bem. Uma amiga investe o que pode num bolo que me oferece no dia em faço quarenta e quatro anos, atingindo oficialmente ameia idade; outra guarda a hora do café para me dar um abraço de meia hora à sombra duma história antiga; outra acorda às quatro da manhã e telefona-me para "colorir o meu turno na fábrica". 
Lembro-me duma altura estúpida da minha vida em que as mulheres eram, ou não, uma expectativa para mim. Os homens têm a mania de seguir essa estupidez. As mulheres são uma certeza, para o pior mas também para o melhor. É nisso que penso, agora que me vou deitar.
Já engoli o insecto que boiava no meu copo.
Entretanto, o índice ivariano, que reflecte o meu estado emocional/amoroso e estava no máximo há quase sete anos, desce para 12. Podem vê-lo no fim da barra do lado direito... 

7.29.2015

respostas a perguntas inexistentes (319)

um pardal qualquer

Não sei se já vos aconteceu ter uma fortíssima relação Amorosa de apenas alguns dias, mesmo tendo consciência desde o início que ela não ia durar muito. Ela era finlandesa e eu português. Ambos estávamos a fazer uma viagem sozinhos pela Europa e, depois de uma tarde estendidos num mar de relva a beber cerveja, decidimos que podíamos ficar juntos cinco dias. Era esse o curto limite do nosso Amor, que mesmo assim acabou prematuramente.
Acabou numa esplanada em Itália, no segundo dia, quando ela me contou que tinha um amigo em Helsínquia que tinha espatifado o automóvel a desviar-se de um pássaro pequenino que se atravessara à sua frente, na estrada. Num esforço de última hora para não o matar, travou a fundo e despistou-se contra umas árvores quaisquer. Ela riu-se.

- Que estúpido! - disse - despistar-se por causa de um pequeno pássaro...

Por qualquer motivo não gostei daquele riso. Pareceu-me  malévolo e, vindo de uma mulher tão bonita, ainda pior. Dei um gole na minha cerveja, que me lembro de estar a beber devagar por ser cara, e expliquei-lhe que ela tinha tecnicamente razão, mas demonstrava uma falta de entendimento emocional do seu próprio amigo.
Para mim, o mais provável é que ele não tenha pensado na equação que compara um pássaro ao valor de um automóvel, mas sim agido por impulso. Ao aperceber-se que ia matar o pássaro, travou a fundo sem pensar em mais nada. Por azar despistou-se. O riso dela era inadequado.

- E isso é bonito... - insisti - pode querer dizer que o teu amigo tem um fundo bom...

Eu sabia que, ao emitir a minha opinião, estava a pôr em risco cinco dias inesquecíveis. Por isso mesmo, assim que vi o olhar dela arrependi-me imediatamente, mas era tarde demais. Acusou-me de usar pouco o meu cérebro e de ver a vida como se fosse um filme. Levantou-se e partiu sem se despedir. Fiquei um bocado triste. Afinal de contas, por causa de uma espécie de pardal perdido na Finlândia, a muitos quilómetros de distância, não tive sexo nessas férias. 
Por coincidência, acabei por reencontrá-la mais tarde e, apesar de apenas termos conversado, permiti-me dizer-lhe que o nosso Amor tinha acabado cedo demais e de forma abrupta. Para meu espanto, ela respondeu-me com o que considero ter sido uma resposta equilibrada entre a razão e a emoção.

- Um Amor só pode acabar tarde demais ou cedo demais. Nunca acaba no momento certo. Se acabar, então não era Amor.

7.28.2015

conversa 2140

Ela - Adorei aquele filme que me emprestaste.
Eu - Qual foi? Já nem me lembro...
Ela - Também não me lembro do nome...
Eu - E do realizador?
Ela - Não sei...
Eu - E a história?
Ela - Também não me lembro...
Eu - Adoraste mesmo?
Ela - Para ser sincera, ainda nem o vi.

pensamentos catatónicos (328)

Hoje apeteceu-me aproximar-me de ti e, mesmo sabendo que não me conheces de lado nenhum, pedir-te que me abraçasses e fingisses Amar-me. Não era muito tempo. Talvez apenas um minuto ou dois. Podia ser mesmo no sítio em que te vi, com os edifícios decrépitos de um bairro social ao fundo. 
Eras a mulher ideal para o fazer, basicamente porque não te conheço de lado nenhum. Eu talvez até te Ame, mas não tenho a certeza. É tão bom quando isso me acontece, não ter a certeza de um Amor mas ter a certeza da vontade de um abraço. 
O Amor é um bocado hipócrita às vezes, sabes? O sexo, pelo menos é sempre honesto. É por isso que também é mais ansioso e apressado. Não perde tempo com rodriguinhos. Tem a desvantagem de não se deixar enganar. É por isso que o Amor é giro. Se me tivesses abraçado hoje, eu podia fingir que te Amava e depois partíamos para a honestidade do sexo.
Não aconteceu. Se acontecer um dias destes, não te esqueças de fingir que me Amas.

7.27.2015

conversa 2139

Ela - Parabéns!
Eu - Obrigado.
Ela - Não pareces nada ter quarenta e quatro anos.
Eu - Obrigado.
Ela - Pareces ter mais.
Eu - Mais?! Pensei que me ias dizer que pareço mais novo...
Ela - Só quando falas, às vezes, é que pareces bastante mais novo.
Eu - Tens alguma simpática para me dizer?
Ela - Sim, já disse. Parabéns!

7.26.2015

Um dia, quando tudo tiver passado

Tenho um amigo com exactamente mais trinta anos do que eu, ou seja, faz amanhã setenta e quatro anos. Só é meu amigo por causa disso mesmo. Uma vez, numa conversa banal, descobrimos que tínhamos nascido no mesmo dia e à mesma hora, apenas com trinta anos de diferença. A partir daí, cada vez que nos cruzávamos, ele dizia-me num tom de brincadeira: "Boa colheita, ahn?! A do nosso dia". Foi um passo até começarmos a tomar café de vez em quando e falar sobre a vida.
Gosto dele, primeiro porque o acho parecido comigo, segundo porque as nossas conversas são desprendidas de um passado em comum. O que nós fazemos, basicamente, é dividir uma mesa de café de vez em quando e falar mais do mundo do que de nós.
Talvez por isso, tenha sido o primeiro a saber que a minha vida já teve momentos melhores. Foi um desabafo com quem eu sabia que não ia fazer juízos pessoais sobre mim, mas sim dizer qualquer coisa mais generalista. Talvez até pagar-me o café e dar-me uma pancada no ombro, o que se veio a confirmar.
Expliquei-lhe que o meu Amor já teve dias melhores, apesar de eu estar ainda totalmente apaixonado e que a minha vida profissional está um caos, apesar de eu ter um caminho que pode vir a dar frutos muito em breve. Das minhas finanças, prefiro nem falar. Mexi devagar, com a colher, um café no qual não tinha posto açúcar, à espera de qualquer coisa, fosse o que fosse, que me pudesse fazer sentir melhor.
Ele dobrou o jornal que tinha nas mãos e pousou-o sobre as pernas. Pediu-me para olhar para ele de frente e, pela primeira vez, pareceu-me o homem mais sério do mundo.

- Um dia, quando tudo tiver passado, não te arrependas da vida que tiveste!

Tornou a abrir o jornal e eu encostei-me para trás na cadeira do café.

- Boa colheita, ahn?! A do nosso dia...

7.24.2015

respostas a perguntas inexistentes (318)

Estavam dois copos em cima da mesa, ambos já bastante babados por lábios cansados, sabe-se lá de terem falado muito ou de terem bebido demais. Provavelmente as duas coisas. Ainda assim o Fred dividiu irmãmente o que restava da última garrafa de vinho, alinhando-os lado a lado e igualando as quantidades como se estivesse num laboratório. Queria continuar a conversa.
Conversar era um hábito que perdera com o casamento. Uma vida a dois, preenchida por quatro filhos, afastara-o do mundo que conhecera alguns anos antes, mas que agora lhe parecia longínquo. Um mundo de conversas com amigos e de copos babados, de alguns abraços e de olhares soltos para mulheres desconhecidas.
Adormeceu à mesa.
A mulher dele tinha sido a minha primeira namorada. Éramos então dois adolescentes, cujo Amor parecia impossível de terminar um dia e cuja vida se adivinhava dinâmica e feliz. Sem sobressaltos, sem zangas, sem filhos. Sobretudo sem adormecermos à mesa derrotados pelo cansaço.
Creio que durou um mês, esse sonho.
O Fred ressonava. Acordei-o com o cuidado de um pai que acorda um filho, dei-lhe um cobertor e mandei-o para o sofá da sala. 
Fechei a luz, ouvi-o ressonar e telefonei à Laura.

- O teu marido dorme cá hoje!

Do outro lado ouvi o silêncio mais pesado que se pode ouvir. Passou-me tudo pela cabeça, incluindo a certeza que ela tinha de que estivéramos a beber até um de nós adormecer. Talvez estivesse desconfortável pelo leque de possibilidades temáticas que dois homens que dormiram com a mesma mulher podem ter. Talvez até já nem se lembrasse de mim.

- Laura?!

O silêncio continuou mais um pouco, mas desta vez com uma respiração libertadora.

- Que saudades que eu tenho duma noitada assim! - disse ela.
- Compreendo!
- Lembras-te de nós? - Insistiu.
- Lembro. Claro que lembro.

E o silêncio tornou-se mais leve.

conversa 2138

Ela - Este fim de semana vou para a minha casa da aldeia. Se quiseres libertar um bocado o stress, estás à vontade para vir também...
Eu - Se calhar até nem é má ideia, por acaso. Estou a precisar de desanuviar...
Ela - Óptimo. Traz a tua mala de ferramentas, que eu comprei umas tomadas eléctricas e uns interruptores novos, muito lindos, e não tinha quem mos trocasse...

7.23.2015

pensamentos catatónicos (327)

Lembro-me duma despedida em particular. A da Sónia. Depois de um abraço prolongado, caminhei em passo apressado na direcção oposta a ela, de forma a que ela perdesse o mais rapidamente possível o ângulo de visão. Sabia que ela me observava, mas nunca me virei para trás. Era como se a despedida só acabasse efectivamente ali, naquele momento em que me deixasse de ver.
A ânsia para terminar a despedida foi maior do que a vontade de a ver uma última vez.
Como é que um homem pode conseguir desapaixonar-se durante uma caminhada de trinta ou quarenta metros? Não pode. Normalmente apaixonamo-nos num segundo, desapaixonamo-nos num ano.
Nunca acreditei em rápidas e limpas despedidas de um Amor. Depois de virar a esquina e de deixar de ser visto, os meus passos tornaram-se fracos e inconsequentes. Foi como se o meu corpo contrariasse em ditadura a minha vontade. Parei no conforto da cegueira. Imaginei-a ainda à porta, com as mãos a ampararem-se uma à outra, ainda a olhar para o vazio que eu tinha deixado para trás.
Recuei alguns metros até à esquina, só para a espreitar secretamente, mas afinal ela já não estava lá. A porta estava fechada e a casa envolvida num manto de silêncio.
Normalmente apaixonamo-nos num segundo, desapaixonamo-nos num ano. Durante esse ano, convém estarmos apenas connosco.

7.22.2015

coisas que fascinam (181)

Aguarela

Às vezes dou por mim cinzento, que é mais ou menos o mesmo que dizer triste. Tenho andado assim e, não acreditando em coincidências, estes dias de Verão  parecem concordar comigo no tom com que se vestem.
Tenho um truque muito simples para este dias. Lembro-me constantemente de como a tristeza tem a mania de se alternar com a felicidade, o que me permite pintá-los parcialmente com uma outra cor qualquer. Apesar do cinzentismo, o meu fim de tarde foi uma espécie de aguarela em que um ténue brilho verde desafiou os tons mais escuros.
Reparo então naquilo que o enorme tamanho do Amor costuma fazer parecer mais pequeno. Um abraço, por exemplo, e dou-me conta de que sei porque é que o mundo ainda não acabou. As pessoas abraçam-se mesmo em dias cinzentos.
Um abraço é sempre mágico. Nem que seja apenas por um momento, consegue transformar o maior do crentes monoteístas num existencialista convicto. Naquele momento, é a existência que interessa e se celebra, a enorme e improvável sorte de, na imensidão espacial e temporal do Cosmos, podermos ter um momento em que somos genuinamente abraçados.
Apercebemo-nos de que a vida nos faz falta, de que os amigos e amigas nos fazem falta, de que um copo de vinho branco nos faz falta, de que, enfim, a vida toda nos faz falta, incluindo aquela que é cinzenta, porque nos faz falta o toque dos outros.
Eu, ateu e agnóstico convicto, sou crente na aguarela de um abraço, do toque duma mão, do Amor físico e do beijo. E porque hoje um abraço me salvou, queria dedicar estas linhas a uma amiga que me salva sempre que eu sei que ela existe.

7.21.2015

conversa 2137

Ela - O que é que andas a ler neste momento?
Eu - Nada.
Ela - Nada?! Não tens nenhum livro na mesa de cabeceira?
Eu - Não tenho mesa de cabeceira.
Ela - Como é que consegues?
Eu - É fácil. Basta não ter.
Ela - Como é que consegues andar sem ler?
Eu - É fácil. Basta não ler.
Ela - Não se consegue falar contigo...
Eu - Também é fácil. Basta falar...
Ela - Ui! Depois telefono-te, está bem? Tchau!

não quero saber!

Quero escrever sobre o Amor, mas é como se não me chegasse a coragem para o fazer. Cansa-me a merda do Amor calculado, porque também me cansa a vida programada. E por aqui, talvez não exista uma única mulher que possa gostar de mim a sério. Mesmo a sério, digo eu.
Ou se calhar existe só uma. Sei lá.
Passamos a vida a abdicar da vida em nome da vida, sem percebermos que estamos a abdicar de nós mesmos, incluindo do nosso Amor, em nome duma outra coisa que nos permite respirar, mas não nos permite viver.
Já não nos apaixonamos por ninguém, mas sim pelo que alguém representa, mesmo que isso represente o nosso fim. Então que se foda! Digo eu.
Fiquem vocês com a merda do Vosso sucesso, da merda a que chamam pragmatismo e empreendedorismo. Privatizem-se à Economia e ao pouco tempo que têm para viver para além de um trabalho humilhante e que vos toma até os cinco minutos de pausa ao almoço. Fiquem com isso tudo, mas não me levem com vocês. Até podem ficar com os fins de semana que só servem para recuperar da vida merdosa e fria que têm. Só para vocês. Eu estou noutra, ou então não estou.
Isto chama-se capitalismo. Não se chama Amor... e eu não faço parte.

7.20.2015

coisas que fascinam (180)

Lembro-me de uma árvore.
Não imagino quantas, mas passei imensas horas debaixo dela, normalmente a escrever textos soltos nas páginas em branco dum caderno barato. Às vezes pegava numa folha outonal, caída no chão, e decalcava-lhe os contornos com a minha esferográfica roída numa das pontas. Nunca percebi porque é que o fazia, mas talvez esses desenhos toscos fossem a construção duma memória muito específica de que, na altura, eu precisava.
A M. sentava-se às vezes ao meu lado, nos dias em que a sorte me sorria, e ficava a falar comigo até à hora do último autocarro que a podia levar a casa. Ela não soube, mas apaixonei-me por ela nesse ano. Talvez ela se tenha apaixonado por mim na mesma altura e eu não saiba. Soube, pelo menos, que posso acreditar que sim.
O Amor tornou-se então, para mim, do tamanho dessa árvore. Entre as horas obrigatórias para almoçar e jantar em casa, as traseiras de um café onde ficava a ver os outros a jogar bilhar e um recreio de escola que sempre me pareceu território inóspito, foi ali que aprendi uma das melhores coisas que esta vida pode ter: um abraço.
Passei então a odiar os autocarros, cujo ruído singular dos travões passei a conhecer de cor. Os nossos braços desfaziam o laço em que se encontravam e ela saía a correr. Dizia sempre que a mãe a matava se ela perdesse o último transporte e eu ficava a vê-la ir, como se estivesse a caminhar para o fundo do mar.
O meu corpo ficava então órfão desse abraço de uma tarde.
Lembro-me duma árvore como me lembro de mim. Preso pela raiz ao vazio do fim dessas tardes onde aprendi que um Amor não vive sem o nó cego dum abraço.

7.16.2015

monopólio

No Amor, joga-se como no Monopólio, até porque se há Amor, o que se pretende é o monopólio do outro. Não da pessoa, mas precisamente do seu Amor.
Andamos por aí de mãos dadas, felizes como dois anjinhos, mas depois da casa Partida podemo-nos afastar de forma cruel. Às tantas esticamos a mão na Avenida Todi, em Setúbal, e ela já vai na Rua Augusta, em Lisboa.
O que é que queremos receber e o que é que estamos dispostos a dar? Quase nunca é o mesmo. É por isso que vamos vivendo de acordo com a sorte dos dados, à espera que de vez em quando os dois parem na mesma casa e tornem a fazer Amor. Na rua Ferreira Borges, em Coimbra, por exemplo.
É claro que a vida tem a mania de ser um problema para o Amor. Todos gostamos de passear por aí, de vez em quando, livres como passarinhos. E ainda bem, para que às vezes nos apeteça ir juntos para a casa Prisão.

7.15.2015

pensamentos catatónicos (326)

Eu não acredito no Amor. Acredito, no entanto, num Amor. Um qualquer, desde que seja um e não o.
Cansa-me um bocado ver o Amor constantemente comparado à pasta medicinal Couto (só os portugueses com mais de trinta e oito anos é que percebem isto). Anda na boca de toda a gente, mas não no coração.
Eu explico-me melhor. Às vezes parece-me que o Amor é estúpido. A normalidade é quem não sabe Amar fartar-se de dar lições sobre o Amor a quem sabe ou, pelo menos, a quem tenta realmente saber. Esse Amor é estúpido, sim. Mas, felizmente, resta-nos o paraíso de um Amor. Só um, aquela ilha.
Quem sabe Amar percebe que o Amor só pode ser esse, o um. E como o Amor só pode ser um, é preciso ir contra aquilo que a maioria pensa que é o Amor em geral, ou seja, uma boa bosta: "Não te separes!", "Vê se aguentas o que tens, pelo teu filho", "Olha que, se o deixas, não sei se arranjas outro...".
O Amor é conservador e aconselha sempre mal. Vai contra aquilo que é e deve ser um único Amor, uma água quente efervescente e não um lago tépido e sujo. Quando Amamos, o Amor não é nada importante. O que importa é quem Amamos de facto.
Amemos alguém com intensidade, por favor, e esqueçamos aquilo que o Amor dos que não Amam diz que deve ser. Amemos uma única pessoa, mesmo que essa pessoa seja outra no dia seguinte. Amemos alguém, menos o Amor.
Por favor.

7.14.2015

conversa 2136

Ela - Passei a manhã toda a experimentar biquínis e não comprei nenhum.
Eu - Fogo! Não havia um único que gostasses?!
Ela - Passei a manhã toda para concluir que estou gorda e que, antes de comprar um biquíni, tenho que entrar em dieta rigorosa.

7.13.2015

respostas a perguntas inexistentes (317)

Um homem leva o dedo à boca e depois às calças. Tenta tirar uma nódoa com a própria saliva enquanto segura um cigarro fumegante na outra mão. Está à porta de um café que costuma ter homens de meia idade a beber ao balcão e uma mulher mais nova a atender. Espreito lá para dentro e confirmo esse hábito.
Entro para tomar café. Sento-me numa mesa e abro as páginas de um jornal desportivo com vários dias. Não faz mal, não o vou ler. Vou só virar as páginas como quem faz outra coisa qualquer. Às vezes damos pela nossa vida assim, como se virássemos cada dia sem o ler.
O som de um televisor imperceptível disputa o ruído do café com os homens todos, que se exaltam e gesticulam enquanto falam de coisas banais como futebol ou a vida privada de alguém. Tenho a sensação, no entanto, que nenhum deles fala para quem olha, mas sim para a mulher. É por ela que eles querem ser ouvidos. Não uns pelos outros.
Compreendo-os. Há uma solidão em mim que é igual. É aquela que nenhum homem no mundo pode resolver. É preciso ser ouvido e compreendido por uma mulher, mesmo que se diga as maiores asneiras do mundo. Ela é que não compreende. Continua a arrumar copos e pratos como se não ouvisse ninguém.
É uma das coisas que o Amor nos deve dar sempre: uma resposta a uma banalidade. As respostas a coisas banais são a forma mais eficaz de matar a solidão. Isso e o sexo. São dois condimentos essenciais da vida. Quando um Amor não dá para isso, então não dá. É quando se começa a levantar a voz e a tentar tirar nódoas com a própria saliva, sempre perante alguém que arruma copos sem nos ouvir.
Levanto-me. Aproximo-me do balcão para pagar o café e a mulher, que estava de costas, vira-se e vem ter comigo. Pergunta-me se quero número de contribuinte na factura. Que não, respondo. Ela dá-me o troco e o talão. Saio.
É assim, às vezes não ouvimos os outros, mesmo sabendo que eles estão lá. Lembro-me de já ter sentido isso. Pego no telefone e ligo à minha companheira de vida. Preciso de a ouvir por dois segundos que sejam. Ela atende. Sorrio. É essa a importância duma banalidade.

7.10.2015

conversa 2135

(depois de a abraçar)

Ela - Tens que ter cuidado quando me abraças.
Eu - O teu marido é ciumento?
Ela - Não é isso. Ias-me partindo as costelas.

Não!

Para eu gostar de alguém, não basta que esse alguém goste de mim, embora essa seja uma condição sine qua non. A minha exigência é que esse alguém goste de pessoas em geral. Eu, para além de mim, ou até antes de mim, sou uma pessoa.
Lembro-me duma tarde qualquer em Lisboa, com muito calor e a cidade tão deserta quanto eu. O meu divórcio tinha sido pouco tempo antes. Talvez por isso os navios que cruzavam o Tejo me parecessem todos à deriva, como se tivessem ido ali parar apenas porque sim, sem a pressa de quem tem uma origem e um destino. Como eu.
E depois ela apareceu e perguntou-me se eu era eu.

- Sim!

Demos dois beijos e eu perguntei-me, em silêncio, se naquele dia ainda nos íamos beijar de outra forma. Não sei se ela se perguntou o mesmo. Nunca sei essas coisas, mas tendo em conta o que é um blind date é sempre legítimo pensar que sim. O meu pensamento dedutivo é que falha muito. Ela era bonita. Muito bonita.
Sentámo-nos numa esplanada qualquer e tentámos arrumar a vida, eu a minha e ela a dela, para a explicarmos como se nos estivéssemos a vender um ao outro. É sempre assim, depois com alguns sorrisos à mistura e duas ou três piadas fracas que mesmo assim fazem rir. Bebemos três cervejas cada um e depois beijámo-nos. Foi mais rápido do que eu esperava. Andar à deriva dá nisto, acidentes ocasionais num imenso mar de solidão. Ela quis saber se comigo era sempre assim.

- Não!

Depois foi o empregado do restaurante. Falador, tratou-nos como se fossemos casados há muitos anos e elogiou-nos por isso. Entrámos no jogo dele, sempre com sorrisos matreiros escondidos. Mal sabia ele que nos tínhamos conhecido nessa mesma tarde e que os nossos corpos ainda não se tinham tocado numa cama. Ofereceu-nos uma ginja no fim e perguntou-nos se tínhamos filhos.

- Sim! - disse ela.
- Não! - disse eu ao mesmo tempo.

Fomos descobertos.
Deixámos o dinheiro em cima da mesa, junto a uma conta feita na toalha de papel cheia de manchas de vinho, e saímos. Lá fora as pessoas passavam por nós, contornando o nosso primeiro abraço prolongado. Lembro-me de perceber que nunca sabemos que abraço estamos a ver, se o primeiro duma vida, se o da despedida, se um casual para impedir lágrimas. Os abraços são tão importantes...
E ela quis saber se eu queria atalhar a noite e ir já para casa dela.

- Sim!

E na noite um corpo outra vez. Um cheiro a mulher e aqueles toques que alternam entre o bruto e o suave, como o champanhe. Lisboa do lado de fora da casa dela e eu infiltrado ali, como um amante clandestino. Chamei-lhe Amor e ela deixou. Adormecemos.
Não há melhor acordar do que aquele que é simultâneo e se ri de tudo. Tornámos a arrumar a vida, não para nos vendermos mas sim para nos comprarmos.

- No próximo fim de semana, se puder ser, vais tu ter comigo... - disse eu sem calcular a abrangência do que dizia.
- Para quê?
- Para conheceres a minha vida. Os meus bares, a minha casa, os meus amigos...
- Não quero conhecer nada do teu passado. Só me interessas a partir daqui. Pode ser?

No tecto do quarto dela estava um animal qualquer com antenas e muitas patas. Talvez fosse um receptor de som escondido, um produto da tecnologia para que Lisboa espiasse a nossa conversa. Imaginei uma cidade inteira à espera da minha resposta.

- Não!

7.09.2015

conversa 2134

Ela - Fui ao ginecologista hoje e ele ficou a olhar para mim de boca aberta.
Eu - Mas porquê?
Ela - Perguntou-me se eu sou sexualmente activa...
Eu - E?
Ela - E eu perguntei-lhe se o o facto de ter sexo comigo mesma conta.

7.08.2015

pensamentos catatónicos (325)

Afastemo-nos

Quando nos acostumamos a um Amor e eles nos começa a parecer banal, a melhor coisa que temos a fazer é afastarmo-nos por um momento, para sentirmos a falta que ele nos faz.
É que quando se Ama alguém, o melhor que nos pode acontecer é sentir saudades desse alguém de vez em quando, para não cairmos no erro de pensar que é dispensável. O maior erro que se pode cometer no Amor é perceber a sua importância apenas quando ele já não está.
Quando isso nos acontece, zangarmo-nos com o Amor sem ele nos ter feito nada de especial, acabamos a fazer as pazes com as piores coisas que esta vida tem. O comando do televisor, por exemplo, para passar os canais num zapping que se quer tão rápido e insípido quanto a própria vida.
Por outro lado, se nos afastamos e a saudade não vem, ficamos esclarecidos sobre a falta que esse Amor não nos faz. Vejamos televisão então, porque certamente conseguiremos parar no melhor filme ou na melhor série. 
Afastarmo-nos por um momento é o barómetro do que somos. Também do que não somos. Afastemo-nos todos por um momento e, assim que voltarmos, ou não, aos braços de quem Amamos, o mundo estará melhor.

7.07.2015

conversa 2133

Ela - Fui para a cama com um gajo há três dias e ainda estou à espera que ele me telefone.
Eu - Queres muito que ele te telefone?
Ela - Por acaso, quero.
Eu - Já lhe telefonaste tu?
Ela - Não tenho coragem.
Eu - Porquê?
Ela - Logo no primeiro dia, eram para aí umas três da tarde, mandei-lhe uma mensagem a dizer que os homens são todos uma vergonha. Levam uma gaja para a cama e depois não dizem nada...
Eu - Hum...
Ela - Achas que o espantei?
Eu - Sei lá. A mim espantavas-me de certeza.
Ela - Opá! Estava ansiosa... Ele foi tão encantador. Fez-me o pequeno-almoço e tudo...
Eu - Fez-te o pequeno-almoço?
Ela - Sim, porquê?
Eu - É bom sinal. Eu só faço o pequeno-almoço se gosto muito da pessoa com quem passei a noite.
Ela - Fixe. Mas então porque é que ele ainda não disse nada?
Eu - Se calhar espantaste-o...

7.06.2015

pensamentos catatónicos (324)

Os homens são tão parvos.

Às vezes dou-lhe um sinal de que preciso de mais. Não sei do que é que eu preciso de mais, mas sei que deve vir dela. Talvez a mão naquele momento, talvez uma palavra. Sei lá do que preciso. E ela ri-se. Diz-me que sou inseguro e eu endireito as costas imediatamente. Depois penso: os homens são tão parvos.
Penso-o para me salvar de mim, claro. Se formos todos parvos, talvez eu tenha desculpa por sê-lo também. Resigno-me a essa gigantesca condição de parvoíce intrínseca ao género masculino e desculpo-me.
Só se pode querer uma de duas coisas, diz ela sem falar: ou segurança ou Amor. As duas não se dão juntas. Ou se Ama e se é inseguro, ou se é seguro e não se Ama. E agora?
Agora dou-lhe razão. Ela afasta-se para ir pontapear uma bola que fugiu de um pequeno campo de jogos no parque onde passeamos. Vejo-a correr e distanciar-se à mesma velocidade que o mundo todo se distancia de mim. Depois pega na bola e envia-a com um sorriso por cima da rede que enjaula um grupo de homens suados. Alguns agradecem-lhe e acenam.
Não sinto os pés, não sinto as mãos, não sinto nada. Sinto-me à deriva no espaço cósmico sem lhe conseguir chegar, como se aquele pequeno movimento fosse um adeus para sempre.
Depois ela regressa, devolve-me a mão, a vida e o chão que piso. Continua a falar e a sorrir como se não tivesse acabado de provocar um pequeno cataclismo em mim. Como se não se passasse nada. E então penso: os homens são tão parvos.
Sorrio. Desculpo a minha parvoíce com todos os outros homens do mundo.

conversa 2132

Ela - Inscrevi-me num site de dating. Desde que estou divorciada é a primeira vez que me sinto disponível.
Eu - Acho muito bem. Para mim é mais uma forma de conhecer pessoas...
Ela - O problema é que, pelo menos até agora, só me apareceram homens desinteressantes.
Eu - Desinteressantes?! Com quantos é que já te encontraste?
Ela - Nenhum.
Eu - Nenhum? Como é que decides que uma pessoa com quem nem sequer falaste é desinteressante?
Ela - Pelo perfil.
Eu - O perfil pode ser uma grande tanga. Sabes isso, não sabes?
Ela - O perfil escrito, sim, sei. Mas se não me aparece um gajo com um metro e setenta no mínimo, uns peitorais razoáveis e dois palminhos de cara, nem sequer vou tomar café...

7.05.2015

Consegues ser mais promíscuo do que um miúdo de dez anos?

Os homossexuais, bissexuais e transexuais não são, por definição, tarados sexuais que só pensam em sexo com vestimentas alegóricas, próprias do Carnaval do Rio de Janeiro. São pessoas que Amam, se apaixonam e sofrem de Amor como outra pessoa qualquer.
Estou a dizer isto por um motivo muito simples: quem assiste a uma marcha qualquer sobre o Orgulho LGBT pode pensar que sim, e é por isso que eu não dou muito crédito a essas marchas. Aceito-as, mas acho-as estúpidas porque têm um efeito contrário ao que teoricamente pretendem, ou seja, a aceitação generalizada de todas as orientações sexuais.
Vejo reportagens fotográficas e vídeo das várias marchas que recentemente se realizaram um pouco por todo o mundo (algumas, infelizmente, com intervenção policial injustificada) e vem-me à mente um programa de televisão que se poderia chamar "Consegues ser mais promíscuo do que um miúdo de dez anos?".
A promiscuidade não é exclusiva de quem não é heterossexual, mas as manifestações parecem querer fazer parecer que sim. Provavelmente, nunca ninguém ali falou com um putanheiro a sério, bom chefe de família, bebedor de Teobar e presente todos os fins de semana nos jogos do Benfica.
Por isso repito: os homossexuais, bissexuais e transexuais são pessoas que Amam, se apaixonam e sofrem de Amor como outra pessoa qualquer. 

7.04.2015

É tudo normal na ponta de um cigarro.

É tudo normal na ponta de um cigarro. Ela dá mais uma passa e diz que vai deixar de fumar assim que arranjar coragem. Fico a vê-la por um instante. Talvez seja o cigarro a fumá-la a ela, não sei bem. As mãos tremem-lhe e a pele está mais velha do que o tempo que já viveu. Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.
Uma vez, há muitos anos, estivemos apaixonados. Éramos novos e durante três dias acreditámos que ia ser para sempre. Não foi. Ao terceiro dia ela recusou-se a beijar-me e mergulhou no rio a sorrir. Lembro-me da disponibilidade da água para afogar toda a tristeza. A dela e a minha. Era a água, a mesma que agora está aprisionada dentro duma garrafa de plástico ao lado do cinzeiro usado, à espera que uma moeda de um euro a liberte. Penso no presidente da Nestlé a afirmar que os seres humanos não devem ter direito à água. O que seria de mim nessa tarde sem acesso à água? Não sei. Teria sede da vida. Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.

-  Lembras-te de nós?

 E ela abana afirmativamente a cabeça. O queixo trémulo e o cigarro a fumá-la já quase no filtro. 

-Ainda tenho a flor que me deste, seca, entre as páginas de um livro qualquer...

 Era amarela. É do que me lembro. Resgatei-a duma fenda no alcatrão da estrada e dei-lha. Senti-me um herói. A qualquer momento, o pneu dum automóvel ia esmagá-la para sempre. Assim não. Perdura no tempo entre as palavras dum livro que eu não sei qual é, mas sei que existe. É suficiente. É dum tempo em que as sementes cresciam de forma aleatória por aí, sem a Monsanto e sem o gene suicida, à espera duma morte natural. Até no chão impermeabilizado que ligava as cidades. A minha e a dela. O que seria de nós, de mim e dela, sem uma morte natural? Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.

-  Somos tão estúpidos quando somos jovens! - E acende outro cigarro.
- Somos... - Concordo sem perceber porquê.

 De toda a estupidez que já vivi, a dela foi a mais curta e feliz. O que nos sobrou de três dias foi uma vida inteira. Sem uma Economia medonha a esmagar-nos a esperança, sem uma dívida que ninguém sabe bem de onde veio, sem um governo a aniquilar uma população inteira e a perpetuar o cadáver de um jogador de futebol. Éramos só nós, a gostar imensamente da vida e de um rio por três dias. Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.
Ela é bonita. Ainda, digo eu. Às vezes olha-me de lado, como se tivesse medo de enfrentar o passado, e eu percebo porque é que gostei dela. Era bonita, sorria, mergulhava na água e guardava as flores silvestres que eu lhe dava. Para sempre, diz ela, como se isso existisse. E o cigarro a fumá-la.
Ao vê-la a ela vejo um mundo inteiro que acabou, onde todos perdemos a mais óbvia das coisas: o direito a ser feliz por três dias. Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.

7.02.2015

respostas a perguntas inexistentes (316)

o Amor por decreto

Todos desconfiamos, desde sempre, da capacidade que temos de Amar para sempre a mesma pessoa. Por isso é que inventámos o casamento, para nos obrigar a fingir que Amamos alguém mesmo quando esse Amor já acabou. 
Talvez a igreja católica romana tenha sido a primeira a perceber isto. De tal forma que nos diz que mentir é feio e depois nos põe num altar a prometer que vamos Amar para sempre o mesmo. Enfim, cria-nos uma armadilha da qual é difícil sair.
Torna-se proibido Amar para além do casamento e, ainda mais importante, torna-se impossível a felicidade.
Embora desconfiado, eu acredito que posso Amar para sempre a mesma pessoa, desde que ninguém me obrigue a fazê-lo. Se me sentir obrigado, nem que seja por uma questão de libertação pessoal, tentarei Amar outra. Libertar-me-ei das amarras do Amor por decreto.
É esse o grande erro da nossa civilização: o Amor por decreto. Torna-nos tristes, controláveis, zangados.

7.01.2015

respostas a perguntas inexistentes (315)

Vem do zero

Detesto quando isto me acontece. Faltar-me a voz. Não é bem a voz, mas sim as palavras. Todo o léxico e a semântica dele possível. Mas acontece, especialmente quando tenho tudo para dizer.
É que quando não tenho nada sai-me sempre qualquer coisa. Aliás, é quando me sai mais depressa. Não ter nada para dizer é uma das situações mais confortáveis que podemos ter. É o desfrute total, criar seja o que for a partir do zero.
O Amor é uma coisa parecida. Sempre que nos apaixonamos, essa paixão já foi igual a coisa nenhuma. Às vezes até nos apaixonamos por quem não conhecíamos alguns segundos antes. O que não era nada passa a ser tudo.
Cada vez que nos beijamos, que damos as mãos, que temos sexo, que encostamos a cabeça no ombro do outro, que sentimos saudades, que sentimos ciúmes, que dividimos um chocolate ou ar que se respira, podemos ter a certeza que fizemos tudo a partir do nada.
É por isso que o Amor não se explica. Vem do zero.