9.16.2015
9.15.2015
pensamentos catatónicos (333)
Agora apaixonamo-nos como compramos um automóvel. Calculamos a relação entre o benefício e o custo e optamos ou não por nos apaixonarmos. Se possível, apaixonamo-nos pouco. Não vá o Diabo tecê-las e pregar-nos a rasteira de sermos deixados.
O Amor passou a ser uma quantidade numa receita de culinária. Quanto baste, por favor, e olhe que não gosto da comida muito temperada. Encaixarmo-nos um no outro passou a ter a ver com o estrato social e económico de cada um, quando dantes tinha a ver com o primeiro abraço.
O que mudou foi a utilidade. Dantes o Amor era inútil, agora é estrategicamente útil, porque a vida deixou de ser o que ela é de facto. A inutilidade do Amor é o doce sabor duma maçã e a beleza fugitiva de um copo de vinho. Não comemos dinheiro nem nos embebedamos com ele. Com o Amor sim... até ver.
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9.14.2015
respostas a perguntas inexistentes (335)
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9.13.2015
respostas a perguntas inexistentes (334)
Depois vêm os problemas todos, porque duas pessoas que se Amam muito de forma diferente geram incompreensão. Apesar de se amarem, sublinho. A minha utopia é todos percebermos que o Amor se faz da incompreensão mútua e não da obediência.
Somos todos tão diferentes, que o que somos é sempre um profundo segredo para o outro. Eu sei que é difícil conviver com a incerteza de um segredo, mas se o formos contando ao ouvido de quem Amamos durante uma vida inteira, talvez se dê um Amor qualquer.
É assim que os segredos são bons, contados ao ouvido de um Amor.
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9.12.2015
conversa 2158
Eu - De pão?
Ela - Sim... o que comeste na última vez que vieste jantar comigo...
Eu - Que fixe! Obrigado. Posso ir hoje aí a tua casa?
Ela - Sim... mas o pudim não está cá.
Eu - Onde é que está?
Ela - Bem... tive que o comer porque apareceram cá uns amigos...
Eu - Então porque é que é me disseste que me fizeste um pudim?
Ela - Porque fiz mesmo. Era para saberes que me lembro de ti.
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9.11.2015
conversa 2157
Eu - Ele está apaixonado por ti?
Ela - Diz que sim.
Eu - Boa sorte. Espero que te corra bem.
Ela - Eu demoro é muito tempo a apaixonar-me. Preciso de tempo. Ao contrário de ti, por exemplo.
Eu - Sim, eu apaixono-me em menos de um minuto. Só que também preciso de muito tempo para me apaixonar em menos de um minuto.
Ela - Bem... no fim vai dar tudo ao mesmo.
Eu - Se calhar.
Ela - A única coisa é que quem já está apaixonado tem que esperar por quem se vai apaixonando.
Eu (suspiro)
Ela - Bebe mais um copo.
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respostas a perguntas inexistentes (333)
Uma amiga telefona-me e pergunta-me se eu estou bem. Não sei bem responder, porque apesar de não estar, acabei de ficar assim que vi o nome dela no ecrã do telemóvel. Penso um bocado.
- Sim, estou! - respondo.
"Estar" é o verbo mais importante desta vida, mais importante até do que o verbo "ser". O que nós somos é sempre ultrapassado por aquilo que estamos. É por isso que o que somos é sempre mentira e o que estamos é sempre verdade.
Quando dizemos que alguém é simpático, é porque o conhecemos num momento em que estava simpático. Todos nós, com excepção dos funcionários das casas de fast food (que têm sempre que estar simpáticos ou são despedidos) estamos simpáticos às vezes e antipáticos outras.
É como estar bem ou estar mal. É até como não estar coisa nenhuma.
O Amor e a Amizade também não são aquilo que são, mas sim aquilo que estão. É por isso que dizemos que estamos apaixonados e não que somos apaixonados por alguém. Quando falamos de Amor, foge-nos a boca para a verdade.
O Amor está sempre alguma coisa, mas nunca é nada. Digo-o eu, que estou apaixonado às vezes por quem não me é nada.
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9.10.2015
coisas que fascinam (189)
Sofrer por Amor depois dos quarenta quer dizer que o Amor ainda tem muito para nos dar. Talvez um beijo numa praia em pleno inverno, um abraço despido no chuveiro lá de casa ou uma queca nos bancos traseiros duma Renault 4L. Tudo isso acreditando que o que se sente é para sempre, mesmo que dure apenas cinco minutos.
Sofre-se por Amor apenas quando se acredita que ele tem muito para dar mas, nesse preciso momento da vida, não está a dar porra nenhuma. É o sacana a gozar connosco, é verdade, mas só o faz porque sabe que ainda não caímos no cinzentismo de não esperar nada dele. Ele é o Amor, o cinzentismo é a morte lenta de quem já não se lembra do que é sofrer por ele.
É que quem já não sofre por Amor também não tira partido dele, e a vida torna-se um constante e ligeiro encolher de ombros.
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9.09.2015
conversa 2156
Ela - Gostas muito de animais...
Eu - Eu?! Porque é que dizes isso?
Ela - Tens tantos em casa...
Eu - Eu não tenho animais...
Ela - Moscas na cozinha, já lhes perdi a conta.
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coisas que fascinam (188)
Quando o Amor nos corre mal, o mundo passa a ser uma tortura constante. O motivo é óbvio: quando o Amor nos corre bem o mundo é uma partilha e, todo ele, vale o dobro por isso mesmo. Ao não partilharmos o mundo, ele não vale nada a não ser dor.
Apaixonados, tiramos todo o prazer em partilhar cada pormenor, seja ele o manequim na montra dum pronto-a-vestir, uma música que passa na rádio ou uma sobremesa barata num restaurante ainda mais barato.
De repente, tudo aquilo que experimentamos, mesmo o que é bom, passa a sofrer do efeito bumerangue. O que nos dá prazer é lançado ao ar e ninguém agarra. No meu caso, volta para mim e atinge-me no estômago com força.
Até chego a pensar que o Amor não serve para muito mais do que para partilhar o mundo, mais até do que para uma boa queca ou poder entrar numa discoteca foleira de fim de semana. Serve para olharmos para uma coisa feia qualquer e dizermos "olha que feio!" e o outro responder "pois é". Assim, até o que é feio se partilha e sabe bem.
Pois é.
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9.08.2015
respostas a perguntas inexistentes (332)
O problema é que quando o Amor nos falha é porque, de certa maneira, deixámos de ser Amados. Não porque deixámos de Amar, embora com o tempo uma coisa leve sempre à outra. Ser ou não Amado é a variável mais importante.
Simplificar o Amor a este ponto é sempre um absurdo, eu sei. Ainda assim, se não o simplificamos também não o explicamos . Não o explicando também não o entendemos. No fundo, o Amor só se entende no reino do absurdo.
É assim que atravessamos esse Oceano que nos separa algumas vezes e experimentamos o Amor, explicando-nos da forma mais simples que conseguimos.
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9.07.2015
conversa 2155
Ela - Estás fixe?
Eu - Vou estando... e tu?
Ela - Eu também... sei lá.
Eu (silêncio)
Ela (silêncio)
Eu (silêncio)
Ela (silêncio)
Eu (silêncio)
Ela (silêncio)
Eu (silêncio)
Ela (silêncio)
Ela - Não temos nada para dizer um ao outro, pois não?
Eu - Parece que não.
Ela - Então fica a saber que devias fazer as sobrancelhas.
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9.05.2015
conversa 2154
Eu - Não estou a pedir, estou a propor. Isso é uma coisa que não se pede...
Ela - Bem... posso responder depois de beber um uísque?
Eu - Pensava que não bebias...
Ela - Não... por isso mesmo.
Eu - Por isso mesmo?!
Ela - Pode ser que caia para o lado e nem tenha que te responder.
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9.04.2015
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9.03.2015
coisas que fascinam (187)
Os homens não têm a mesma necessidade de parecerem bonitos porque têm as mulheres em melhor conta do que elas os têm a eles. Eles sabem que elas os vêm como um todo e, se não forem assim tão bonitos, não faz mal. Talvez elas descubram qualquer coisa neles de que gostem (eles nunca sabem o que é).
A grande vantagem dos homens é que passam menos tempo em frente ao espelho, a grande desvantagem é que são considerados umas bestas por quase todas as mulheres, antes de qualquer outra coisa.
Uma das mulheres por quem me apaixonei nesta vida disse-me, uns dias depois de darmos as mãos e o corpo pela primeira vez, que "nem sequer estava muito arranjada no dia em que nos conhecemos" (sic). E eu, que me tinha apaixonado loucamente por uma noite inteira de sorrisos e conversa, pensei por que raio me estaria ela a dizer aquilo. Nunca cheguei a perceber.
Eu apaixono-me por tudo. É por isso que não me apaixono por quase ninguém. O tudo existe tão pouco, mesmo quando a mulher é bonita, que eu espero sempre que ela não comece por aí...
Depois do Amor, a mulher é sempre bonita...
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9.02.2015
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9.01.2015
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8.31.2015
coisas que fascinam (186)
A explicação é simples. Não me apaixono facilmente, mas desapaixono-me mais dificilmente ainda. Nas mudanças abruptas devíamos conseguir chegar a um cruzamento e virar noventa graus. Pelo menos, devíamos ter evoluído por aí.
Eu não evoluí. Salto de estrada para percorrer outro caminho, sim, mas as minhas estradas são quase paralelas. Percorro-as afastando-me muito lentamente da estrada que sempre percorri no passado e, ingenuamente, dou-me à esperança de voltar ao percurso anterior.
O Amor interessa-me assim, lento. Quando me encontro num caminho sem saída possível, é porque já o percorri durante muitos quilómetros.
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8.29.2015
coisas que fascinam (185)
A aproximação física é um dos condimentos principais do Amor. Sem ela, estamos a comer um prato sem sal. Acho que consigo, com a devida e inerente margem de erro, perceber se duas pessoas vão estar muito mais tempo juntas. Depende da forma como se tocam quando estão próximas. Acima de tudo, depende do toque.
O nevoeiro que esta manhã cobriu a minha cidade de mistério dissolveu-se para me mostrar um beijo numa passadeira. Estavam ali, no meio duma rua deserta, a beijarem-se só porque sim. Como qualquer condutor que regressa do trabalho comecei por lhes chamar nomes. Ia buzinar e acender os máximos quando percebi que era um beijo.
Esperei talvez dez segundos. Deram as mãos, disseram-me adeus e desapareceram na imensa neblina.
Obrigado.
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8.28.2015
utopia é a meta
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8.27.2015
coisas que fascinam (184)
Fala-se muito da falta de jeito dos homens para engatar mulheres, algo que eu partilho lúcida e conscientemente. Do que ninguém fala é da falta de jeito das mulheres para engatar homens. A explicação é mais ou menos simples, na minha opinião: parte-se sempre do princípio que uma mulher é difícil e um homem é fácil, o que é mentira.
A mim parece-me, muito simplesmente, que temos uma enorme falta de jeito uns para os outros. É por isso que o Amor é raro. Quando temos jeito, o Amor dá-se. Basicamente, passamos a vida a experimentar faltas de jeito, as nossas e as alheias, até ao momento em que nos apaixonamos e parecemos as pessoas com mais jeito do Universo.
Eu não tenho jeitinho nenhum para me aproximar de mulheres. As vezes que o fiz foi porque o interesse superou essa inabilidade. O meu interesse e o interesse delas, claro. Esse interesse pode ser de uma noite ou de alguns anos, mas nunca de uma vida. A merda é essa.
Ainda assim, para a falta de jeito que tenho por me interessar por alguém a sério, sobra-me um jeito enorme para me apaixonar por mulheres que não existem, São aquelas que passam por mim na rua e cruzam um leve olhar comigo. Essas são aquilo que imagino, não são aquilo que são. Pelo menos para mim, claro.
Um dia cruzo-me com uma em que aquilo que imagino é aquilo que ela é e apaixono-me. Provavelmente, no dia em que a minha imaginação não for tida nem achada, o que é óptimo.
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8.26.2015
conversa 2153
Eu - Nunca?! Já tentei tantas vezes...
Ela - Então fui eu que nem reparei...
Eu (suspiro)
Ela - Deixa lá. Se calhar foi melhor assim...
Eu - Porquê?
Ela - Os homens não sabem engatar... ainda este fim de semana houve um palerma que me ofereceu um gin tónico e se ofereceu para me levar a casa.
Eu - Qual é o problema?
Ela - Queria-me comprar com um gin tónico?! Está maluco!
Eu - E não aceitaste?
Ela - Aceitei o gin tónico, claro. Depois mandei-o delicadamente embora.
Eu - Já te ofereci umas minis...
Ela - Pois já... deve ter sido por isso que nunca reparei que me querias engatar.
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8.25.2015
pensamentos catatónicos (332)
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8.22.2015
conversa 2152
Eu - Obrigado.
Ela - Obrigado porquê?! Os homens bonitos ficam sempre bem, de cabelo curto ou comprido. Tu é que só ficas bem de cabelo comprido...
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8.21.2015
amanhecer
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Etiquetas: mensagens por telemóvel que não envio por serem foleiras mas que queria enviar na mesma
8.20.2015
conversa 2151
Eu - Nunca o disseste, porquê?
Ela - Por causa da tua namorada... não era oportuno.
Eu - E estás a dizer agora, porquê?
Ela - Porque agora já não estou. É mais fácil...
Eu - Tem piada. Nunca me pareceu que estivesses apaixonada por mim, mesmo na altura em que estávamos juntos mais vezes...
Ela - Sou muito boa a disfarçar.
Eu - Durante quanto tempo é que isso foi?
Ela - Pelo menos uma semana.
Eu - Uma semana?! Isso não é nada!
Ela - O que é que tu querias?! Que eu andasse a sofrer por ti durante anos?!
Eu - Não, mas...
Ela - Estava a brincar, pá. Nunca estive nada apaixonada por ti. Estava só a ver como é que reagias...
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8.19.2015
coisas que fascinam (183)
Não sei quantas vezes, num café ou noutro sítio qualquer, me apetece meter conversa com uma mulher. Não estou a falar de engate, estou mesmo a falar sobre conversar. É que há mulheres que têm qualquer coisa que me dá vontade de as conhecer. Há quem lhe chame uma questão de pele, mas eu não. Não tem a ver com a pele, tem a ver com o que nos falta naquele momento. É isso, é uma questão de falta.
Claro que eu nunca meto conversa com ninguém ou, pelo menos, é mesmo muito raro. Sou tímido que chegue e, por isso, costumo ficar na expectativa que venham falar comigo. O que, convenhamos, também quase nunca acontece.
Aconteceu-me agora mesmo.
Tudo porque entrei numa pastelaria às oito da manhã e recusaram-se delicadamente a servir-me uma cerveja. Explicaram-me que só servem bebidas alcoólicas depois das onze, o que eu compreendi. Ainda assim, expliquei que no meu caso não eram oito da manhã. Vinha do trabalho e, antes de ir para casa dormir, apetecia-me beber um copo.
A senhora acabou por me deixar beber duas cervejas Sagres e comer uma empalhada. A mim e a uma mulher que também estava na minha situação e aproveitou a coisa para, também ela, beber um copo. Sentou-se na minha mesa e disse que precisava de falar com alguém que, como ela, ande ao contrário no mundo.
Naquele momento foi isso que nos uniu, o ritmo da vida. Todos os que entravam naquele espaço queriam ler o jornal durante um galão e uma torrada ou um café e uma nata. Só nós é que queríamos espairecer duma jornada de trabalho.
Gostei da expressão "ao contrário do mundo", porque é exactamente assim que me sinto. Não é que me sinta mal. É mais sentir-me numa órbita qualquer do que devia ser a vida, como um satélite que ronda um planeta mas nunca lhe toca. Quando é assim, se dois satélites se cruzam no espaço, porque não beberem uma cerveja juntos?
Despedimo-nos depois de trocarmos números de telefone, para um dia destes repetirmos uma cerveja matinal (o que provavelmente nunca vai acontecer). Ela foi-se embora e eu vim para casa. Acho que foi sempre assim que me apaixonei... no estado satélite a rondar a vida. Apenas hoje não aconteceu.
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8.18.2015
conversa 2150
Ela - Então, estás bem?
Eu - Sim, vou andando. Às compras, não é?
Ela - No último jantar lá em casa, acho que o vinho tinha qualquer coisa...
Eu - Então?
Ela - Fiquei sem copos... vim comprar novos.
Eu - Sabes que agora há uns copos que parecem de vidro mas não se partem...
Ela - Credo! Não quero isso.
Eu - Porquê?
Ela - Então e como é eu faço quando o meu marido me chateia?
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8.17.2015
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Acabámos por perder os dois.
A melhor forma de nos lembrarmos de alguém é não saber porquê. São essas as pessoas mais importantes na nossa vida, de quem nos lembramos só porque sim. Quando não sabemos por que motivo nos lembramos de alguém, então é porque gostamos desse alguém desinteressadamente.
Tenho uma amiga de quem me lembro só porque sim, apesar de a ver muito pouco. Lembro-me dela quando estou a trabalhar, quando estou na praia ou a comprar a pão. Lembro-me dela nas mais variadas e improváveis ocasiões, porque ela própria é uma mulher improvável. Ainda bem. Gosto dela e hoje pude dizer-lho.
Quando se sentirem sós, procurem as pessoas que não têm que ir chamar no fundo da vossa memória, a propósito de um facto qualquer da vida, mas sim aquelas que surgem na primeira esquina duma lembrança qualquer, a sorrir e com vontade de vos abraçar.
Digo eu, sei lá.
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8.15.2015
conversa 2149
Eu - O quê?
Ela - Estar fechada contigo num carro às tantas da manhã...
Eu - Porquê?
Ela - Foi assim que comecei a namorar com o meu ex-marido. No carro dele às tantas da manhã...
Eu - Ah!
Ela - Se bem que contigo é diferente.
Eu - É diferente em quê?
Ela - O meu ex-marido tinha um carro grande e limpo que deu para termos sexo lá dentro. Tu tens um carro pequenino e, muito provavelmente, o mais porco que eu já vi na vida.
Eu - Isso deixa-te à vontade?
Ela - Sim... tenho a certeza que não me queres engatar. Se eu tivesse sexo contigo aqui ia escangalhar-me a rir.
Eu - Pois...
Ela - Alguma vez tiveste sexo neste carro?
Eu - Claro que não. Uma vez lutei com um frasco de azeitonas e a rolha de uma garrafa de vinho.
Ela - Estavas a tentar engatar alguém?
Eu - Sim, mas quando consegui abrir o frasco e abrir a garrafa ela já tinha adormecido.
Ela - Sabes o que é que eu gosto mais em ti?
Eu - Diz...
Ela - Mesmo quando estás triste, tens sempre uma piada para dizer...
Eu - Sinto-me lisonjeado. O problema é que isto não foi uma piada...
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8.14.2015
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Já tive boas noites de sexo e más noites sexo, como toda a gente. Algumas das piores noites de sexo que tive foram das melhores. Algumas das melhores não foram assim tão boas. Sei que em todas as noites de sexo que tive, boas ou más, fui parte integrante da coisa.
Por falar em noites, também tenho sexo de dia. Não ter hora marcada para ter sexo é um dos princípios do mundo maravilhoso do sexo. A hora marcada, que é como quem diz sexo à noite, retira a espontaneidade da coisa. Digo "noites de sexo" por uma questão estatística e romântica. Gosto da noite, da Lua, das estrelas e de um copo de tinto (que só bebo à noite).
Nisto tudo, o que me preocupa são os homens que acreditam que as mulheres são boas ou más na cama. Quando um homem me diz que determinada mulher é boa ou má na cama, a única conclusão que tiro é que ele, pelo menos, é uma boa merda. Ainda não percebeu que o sexo a dois é uma coisa a dois. Por isso põe toda a responsabilidade nela. Ele é apenas um crítico e os críticos, como todos sabemos, são gajos que opinam sem fazer nadinha.
Às vezes parece-me que os homens que dizem que as mulheres são boas ou más na cama só se deitaram, até à data, com a própria mão. Tecnicamente, a mão é sempre boa porque faz tudo o que um homem quer. Ainda assim, não é sexo que se recorde com o coração embrulhado em alegria e nostalgia. E é assim que eu recordo algum do sexo que tive, mesmo que tecnicamente não tenha correspondido à minha condição de primata.
Deitarmo-nos com a mão não é mau. Confundir a mão com uma mulher é que é péssimo. O que eu queria dizer às mulheres que conheci intimamente, se o pudesse fazer, é que nunca conheci uma má, a não ser as que não gostaram de mim. Mesmo que tenham sido boas, claro. Não há abraço nos lençóis como o de uma mulher (com excepção da Assunção Esteves).
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8.13.2015
respostas a perguntas inexistentes (324)
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8.12.2015
coisas que fascinam (182)
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conversa 2148
Eu - Estava com saudades tuas.
Ela - Como é que andas?
Eu - Na merda, mas tirando isso está tudo bem.
Ela - Só tu para dizeres que andas na merda a uma ex-namorada que não vias há anos...
Eu - Nunca te desiludi nesse aspecto.
Ela - Não... de facto não. Não me lembro de te ouvir dizer que estava tudo bem.
Eu - E tu, como andas?
Ela - Eu ando bem, tirando o que está mal.
Eu - Também nunca me desiludiste. Achas sempre que está tudo bem, mesmo quando não está.
Ela - Prefiro ver o copo meio cheio.
Eu - Eu prefiro vê-lo vazio, desde que seja eu a bebê-lo.
Ela - Achas que foi o facto de sermos tão diferentes que acabou com tudo entre nós?
Eu - Acho que foi o facto de sermos tão iguais...
Ela - Talvez... isso e o facto de gostares de música brega brasileira.
Eu - Isso era ultrapassável.
Ela - Não era nada.
Eu - Eu estava disposto a usar auscultadores.
Ela - Não chega.
Eu - És uma intolerante.
Ela - Pois sou... mas lembro-me de ti quase todos os dias.
Eu - Eu também me lembro de ti a cada momento.
Ela - A sério?!
Eu - Pensavas o quê?
Ela - Que não querias saber...
Eu - Bem, que se foda! Dá-me um abraço.
Ela - Era o que eu te ia pedir...
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8.11.2015
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8.10.2015
respostas a perguntas inexistentes (323)
O problema do tempo que passa é que não é decidido. Prefere fazer as coisas sorrateiramente para que ninguém dê por elas. Se pegasse num grande Amor e o destruísse de vez, era uma coisa. Agora assim, a morder pela calada, é outra. O que ele faz é traiçoeiro: atrai o Amor para a sombra tão lentamente que podemos passar anos sem perceber o que nos aconteceu.
Um dia, como noutro dia qualquer, abrimos a porta de casa rodando duas vezes a chave, damos doze passos até ao sofá da sala onde esperamos um abraço daqueles que compensa os dias maus que acontecem, mas o que recebemos é uma hesitação.
Acontece a todos, até porque o tempo passa também por todos. O que não acontece a todos é conseguir andar com o relógio para trás. Pegar nesse tempo que passou e Amá-lo como único que foi, virando-lhe a ampulheta como se vira um lençol.
Para quem não consegue, o tempo que passa será o melhor remédio. Para quem consegue também.
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8.08.2015
conversa 2147
Ela - Qual deles?
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8.07.2015
pensamentos catatónicos (330)
O que o tempo das paixões espontâneas nos ensina, é a relativizar o que é bom e o que é mau. Nem o bom é tão bom assim, nem o mau é tão mau assim. Pelo menos quando falamos de Amor, claro. O truque passa por relativizarmos apenas quando estamos mal e sermos propositadamente ingénuos quando estamos bem.
Quando atingimos uma idade que eu não sei muito bem qual é, apaixonarmo-nos começa a ser cada vez mais difícil, até chegarmos à fase da vida em que nos custa acreditar que aconteceu. É quando nos vemos aos espelho e mesmo assim duvidamos que o nosso coração deixou de nos pertencer. A relativização do bom acaba, porque o que se passa é mesmo bom. É o absolutismo do Amor em detrimento da Relatividade.
Por outro lado, desapaixonarmo-nos também começa a ser cada vez mais difícil. Se gostarmos de alguém a sério se tornou quase um milagre, deixarmos de gostar desse alguém é um milagre maior. E eu, que ateu me confesso, não acredito em milagres.
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conversa 2146
Eu - Viste a ultrapassagem que acabaste de fazer?
Ela - Claro que vi, vou a conduzir.
Eu - Risco contínuo e um sinal a proibir ultrapassagens não te dizem nada?
Ela - Sim, dizem que tenho que ter cuidado a ultrapassar...
Eu - É mais que não podes ultrapassar. Aquela zona é perigosíssima...
Ela - O camião à nossa frente ia tão devagar... perdi a paciência.
Eu - Mas não podes fazer isto. Podíamos ter morrido...
Ela - A responsabilidade era minha.
Eu - Mas eu também vou no carro...
Ela - A responsabilidade continuava a ser minha. São sempre as mulheres a responsabilizarem-se por tudo. Já estou habituada.
Eu - Mas eu não quero morrer por tua responsabilidade!
Ela - E não morreste, pois não?
Eu - Esquece. Não faças mais isso, por favor. Vai devagar.
Ela - Estás a insinuar que eu conduzo mal? Detesto quando os homens fazem isso.
Eu - Conduzes muito bem. Melhor do que eu, de certeza... mas não respeitas as mais elementares regras de segurança.
Ela - Tem calma, homem. Perdi a paciência com aquele camião, que ia mesmo muito devagarinho. Foi tudo.
Eu - Mas não podes perder a paciência assim...
Ela - Se aturasses o que eu aturo em casa, a tua paciência também estava esgotada.
Eu - O que é que aturas em casa assim tão mau?
Ela - O meu marido.
Eu - Desisto...
Ela - Olha outro camião. Vou ultrapassá-lo já.
Eu - Não faças isso.
Ela - Estava a brincar!
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8.06.2015
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8.05.2015
os amigos e os outros
Eu cheguei primeiro. Quando ele entrou, levantei-me e demos um abraço.
- Então, estás bem?
- Estou fodido! - respondi.
- O que é que se passa?
- Acho que estou apaixonado...
Ele riu-se. Virou-se para o empregado, nosso velho conhecido, e pediu dois uísques.
- Sem gelo, que este homem precisa de esquecer a vida... - brincou.
Brindámos.
- Como é que isso aconteceu?
Abanei os ombros.
- Acho que ia na vida, como se vai na rua às vezes, tropecei nela e caí. Quando me levantei já não era o mesmo. É sempre assim que nos apaixonamos, não é? A cair e a levantar.
Há sempre um amigo para saber mais da nossa vida do que sabem os outros. Sendo tecnicamente o mesmo, a um amigo dizemos que estamos apaixonados. A um outro dizemos, quando muito, que começámos uma relação. É por isso que um amigo nos mata as saudades que temos dos outros.
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8.04.2015
conversa 2145
Eu - Pois...
Ela - Agora estamos por nossa conta. Vou abrir uma garrafa de vinho...
Eu - Okay!
Ela - Preferes Alentejo ou Bairrada?
Eu - Qualquer coisa...
Ela - Este é o momento em que bebemos um copo e, se tu não fosses tu, eu tentava levar-te para a cama.
Eu - Tentavas levar-me para a cama se eu não fosse eu?
Ela - Sim. Ando mesmo a precisar disso.
Eu - Qual é o problema de eu ser eu?
Ela - És meu amigo há vários anos...
Eu - Ah!
Ela - Já passou o prazo, percebes?!
Eu - Mais ou menos. Diz-me uma coisa: e se eu deixar de ser teu amigo, há alguma hipótese?
Ela - Não. Tarde demais.
Eu - Pronto! Era só para saber...
Ela - Não te preocupes, tenho aí mais vinho...
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8.03.2015
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8.02.2015
conversa 2144
Eu - Eu gosto...
Ela - Devem estar uns vinte e três graus.
Eu - Pois... eu gosto.
Ela - Eu preciso de pelo menos vinte e sete.
Eu - Eu gosto.
Ela - É que, assim, quando se está à sombra fica logo muito frio.
Eu - Eu gosto...
Ela - Tu também gostas de tudo!
Eu - E tu não gostas de nada!
Ela - Tenho é níveis de exigência superiores aos teus.
Eu - Em quê?
Ela - Em tudo.
Eu - Se calhar é por isso que somos amigos. Eu sou amigo de qualquer coisa e tu só és amiga de pessoas especiais.
Ela - Estás quase a apanhar.
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8.01.2015
conversa 2143
Eu - Tenho uma ideia...
Ela - Tens uma ideia?! Só tens uma ideia da noite em que tentaste ir para a cama comigo?!
Eu - Foi há tanto tempo...
Ela - Nem sequer sabes há quanto tempo foi?!
Eu - Diz-me só se consegui ou não, por favor.
Ela - Claro que não, seu parvalhão.
Eu - Então querias que me lembrasse de quê?
Ela - De teres tentado...
Eu - E lembro... quer dizer, tenho uma ideia.
Ela - Foste para a cama assim com tanta gaja, que só tens uma ideia?
Eu - Não, não fui, mas tentar, lá isso tentei.
Ela - Percebes porque é que não foste, não percebes?
Eu - Percebo. Para as mulheres, uma tentativa já é digna de ficar na memória. Para um homem não.
Ela - Estás a chamar-me o quê?!
Eu - Nada. Estou só a dizer que a minha memória é muito má.
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7.31.2015
conversa 2142
Ela - Pode ser, se me explicares porque é que me estás a convidar...
Eu - Explicar o quê?
Ela - Porque é que me estás a convidar...
Eu - Tenho que te explicar porque é que te estou a convidar para ir à praia?!
Ela - Gosto de entender as coisas...
Eu - Para não ir sozinho, sei lá...
Ela - Pois, o problema é esse...
Eu - Qual?
Ela - O convite é razoável. A explicação é que é uma merda...
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7.30.2015
conversa 2141
Eu - Deixa-me decidir na sexta. Ando a trabalhar muito e nem sei a quantas ando...
Ela - Estás à vontade.
Eu - Obrigado.
Ela - Estás à vontade para vires ou nunca mais falares comigo. Tu é que sabes.
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7.29.2015
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7.28.2015
conversa 2140
Eu - Qual foi? Já nem me lembro...
Ela - Também não me lembro do nome...
Eu - E do realizador?
Ela - Não sei...
Eu - E a história?
Ela - Também não me lembro...
Eu - Adoraste mesmo?
Ela - Para ser sincera, ainda nem o vi.
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7.27.2015
conversa 2139
Eu - Obrigado.
Ela - Não pareces nada ter quarenta e quatro anos.
Eu - Obrigado.
Ela - Pareces ter mais.
Eu - Mais?! Pensei que me ias dizer que pareço mais novo...
Ela - Só quando falas, às vezes, é que pareces bastante mais novo.
Eu - Tens alguma simpática para me dizer?
Ela - Sim, já disse. Parabéns!
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7.26.2015
Um dia, quando tudo tiver passado
Gosto dele, primeiro porque o acho parecido comigo, segundo porque as nossas conversas são desprendidas de um passado em comum. O que nós fazemos, basicamente, é dividir uma mesa de café de vez em quando e falar mais do mundo do que de nós.
Talvez por isso, tenha sido o primeiro a saber que a minha vida já teve momentos melhores. Foi um desabafo com quem eu sabia que não ia fazer juízos pessoais sobre mim, mas sim dizer qualquer coisa mais generalista. Talvez até pagar-me o café e dar-me uma pancada no ombro, o que se veio a confirmar.
Expliquei-lhe que o meu Amor já teve dias melhores, apesar de eu estar ainda totalmente apaixonado e que a minha vida profissional está um caos, apesar de eu ter um caminho que pode vir a dar frutos muito em breve. Das minhas finanças, prefiro nem falar. Mexi devagar, com a colher, um café no qual não tinha posto açúcar, à espera de qualquer coisa, fosse o que fosse, que me pudesse fazer sentir melhor.
Ele dobrou o jornal que tinha nas mãos e pousou-o sobre as pernas. Pediu-me para olhar para ele de frente e, pela primeira vez, pareceu-me o homem mais sério do mundo.
- Um dia, quando tudo tiver passado, não te arrependas da vida que tiveste!
Tornou a abrir o jornal e eu encostei-me para trás na cadeira do café.
- Boa colheita, ahn?! A do nosso dia...
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7.24.2015
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conversa 2138
Eu - Se calhar até nem é má ideia, por acaso. Estou a precisar de desanuviar...
Ela - Óptimo. Traz a tua mala de ferramentas, que eu comprei umas tomadas eléctricas e uns interruptores novos, muito lindos, e não tinha quem mos trocasse...
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7.23.2015
pensamentos catatónicos (327)
A ânsia para terminar a despedida foi maior do que a vontade de a ver uma última vez.
Como é que um homem pode conseguir desapaixonar-se durante uma caminhada de trinta ou quarenta metros? Não pode. Normalmente apaixonamo-nos num segundo, desapaixonamo-nos num ano.
Nunca acreditei em rápidas e limpas despedidas de um Amor. Depois de virar a esquina e de deixar de ser visto, os meus passos tornaram-se fracos e inconsequentes. Foi como se o meu corpo contrariasse em ditadura a minha vontade. Parei no conforto da cegueira. Imaginei-a ainda à porta, com as mãos a ampararem-se uma à outra, ainda a olhar para o vazio que eu tinha deixado para trás.
Recuei alguns metros até à esquina, só para a espreitar secretamente, mas afinal ela já não estava lá. A porta estava fechada e a casa envolvida num manto de silêncio.
Normalmente apaixonamo-nos num segundo, desapaixonamo-nos num ano. Durante esse ano, convém estarmos apenas connosco.
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7.22.2015
coisas que fascinam (181)
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7.21.2015
conversa 2137
Eu - Nada.
Ela - Nada?! Não tens nenhum livro na mesa de cabeceira?
Eu - Não tenho mesa de cabeceira.
Ela - Como é que consegues?
Eu - É fácil. Basta não ter.
Ela - Como é que consegues andar sem ler?
Eu - É fácil. Basta não ler.
Ela - Não se consegue falar contigo...
Eu - Também é fácil. Basta falar...
Ela - Ui! Depois telefono-te, está bem? Tchau!
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não quero saber!
Ou se calhar existe só uma. Sei lá.
Passamos a vida a abdicar da vida em nome da vida, sem percebermos que estamos a abdicar de nós mesmos, incluindo do nosso Amor, em nome duma outra coisa que nos permite respirar, mas não nos permite viver.
Já não nos apaixonamos por ninguém, mas sim pelo que alguém representa, mesmo que isso represente o nosso fim. Então que se foda! Digo eu.
Fiquem vocês com a merda do Vosso sucesso, da merda a que chamam pragmatismo e empreendedorismo. Privatizem-se à Economia e ao pouco tempo que têm para viver para além de um trabalho humilhante e que vos toma até os cinco minutos de pausa ao almoço. Fiquem com isso tudo, mas não me levem com vocês. Até podem ficar com os fins de semana que só servem para recuperar da vida merdosa e fria que têm. Só para vocês. Eu estou noutra, ou então não estou.
Isto chama-se capitalismo. Não se chama Amor... e eu não faço parte.
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7.20.2015
coisas que fascinam (180)
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7.16.2015
monopólio
Andamos por aí de mãos dadas, felizes como dois anjinhos, mas depois da casa Partida podemo-nos afastar de forma cruel. Às tantas esticamos a mão na Avenida Todi, em Setúbal, e ela já vai na Rua Augusta, em Lisboa.
O que é que queremos receber e o que é que estamos dispostos a dar? Quase nunca é o mesmo. É por isso que vamos vivendo de acordo com a sorte dos dados, à espera que de vez em quando os dois parem na mesma casa e tornem a fazer Amor. Na rua Ferreira Borges, em Coimbra, por exemplo.
É claro que a vida tem a mania de ser um problema para o Amor. Todos gostamos de passear por aí, de vez em quando, livres como passarinhos. E ainda bem, para que às vezes nos apeteça ir juntos para a casa Prisão.
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7.15.2015
pensamentos catatónicos (326)
Cansa-me um bocado ver o Amor constantemente comparado à pasta medicinal Couto (só os portugueses com mais de trinta e oito anos é que percebem isto). Anda na boca de toda a gente, mas não no coração.
Eu explico-me melhor. Às vezes parece-me que o Amor é estúpido. A normalidade é quem não sabe Amar fartar-se de dar lições sobre o Amor a quem sabe ou, pelo menos, a quem tenta realmente saber. Esse Amor é estúpido, sim. Mas, felizmente, resta-nos o paraíso de um Amor. Só um, aquela ilha.
Quem sabe Amar percebe que o Amor só pode ser esse, o um. E como o Amor só pode ser um, é preciso ir contra aquilo que a maioria pensa que é o Amor em geral, ou seja, uma boa bosta: "Não te separes!", "Vê se aguentas o que tens, pelo teu filho", "Olha que, se o deixas, não sei se arranjas outro...".
O Amor é conservador e aconselha sempre mal. Vai contra aquilo que é e deve ser um único Amor, uma água quente efervescente e não um lago tépido e sujo. Quando Amamos, o Amor não é nada importante. O que importa é quem Amamos de facto.
Amemos alguém com intensidade, por favor, e esqueçamos aquilo que o Amor dos que não Amam diz que deve ser. Amemos uma única pessoa, mesmo que essa pessoa seja outra no dia seguinte. Amemos alguém, menos o Amor.
Por favor.
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7.14.2015
conversa 2136
Eu - Fogo! Não havia um único que gostasses?!
Ela - Passei a manhã toda para concluir que estou gorda e que, antes de comprar um biquíni, tenho que entrar em dieta rigorosa.
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7.13.2015
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Entro para tomar café. Sento-me numa mesa e abro as páginas de um jornal desportivo com vários dias. Não faz mal, não o vou ler. Vou só virar as páginas como quem faz outra coisa qualquer. Às vezes damos pela nossa vida assim, como se virássemos cada dia sem o ler.
O som de um televisor imperceptível disputa o ruído do café com os homens todos, que se exaltam e gesticulam enquanto falam de coisas banais como futebol ou a vida privada de alguém. Tenho a sensação, no entanto, que nenhum deles fala para quem olha, mas sim para a mulher. É por ela que eles querem ser ouvidos. Não uns pelos outros.
Compreendo-os. Há uma solidão em mim que é igual. É aquela que nenhum homem no mundo pode resolver. É preciso ser ouvido e compreendido por uma mulher, mesmo que se diga as maiores asneiras do mundo. Ela é que não compreende. Continua a arrumar copos e pratos como se não ouvisse ninguém.
É uma das coisas que o Amor nos deve dar sempre: uma resposta a uma banalidade. As respostas a coisas banais são a forma mais eficaz de matar a solidão. Isso e o sexo. São dois condimentos essenciais da vida. Quando um Amor não dá para isso, então não dá. É quando se começa a levantar a voz e a tentar tirar nódoas com a própria saliva, sempre perante alguém que arruma copos sem nos ouvir.
Levanto-me. Aproximo-me do balcão para pagar o café e a mulher, que estava de costas, vira-se e vem ter comigo. Pergunta-me se quero número de contribuinte na factura. Que não, respondo. Ela dá-me o troco e o talão. Saio.
É assim, às vezes não ouvimos os outros, mesmo sabendo que eles estão lá. Lembro-me de já ter sentido isso. Pego no telefone e ligo à minha companheira de vida. Preciso de a ouvir por dois segundos que sejam. Ela atende. Sorrio. É essa a importância duma banalidade.
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7.10.2015
conversa 2135
Ela - Tens que ter cuidado quando me abraças.
Eu - O teu marido é ciumento?
Ela - Não é isso. Ias-me partindo as costelas.
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Não!
Lembro-me duma tarde qualquer em Lisboa, com muito calor e a cidade tão deserta quanto eu. O meu divórcio tinha sido pouco tempo antes. Talvez por isso os navios que cruzavam o Tejo me parecessem todos à deriva, como se tivessem ido ali parar apenas porque sim, sem a pressa de quem tem uma origem e um destino. Como eu.
E depois ela apareceu e perguntou-me se eu era eu.
- Sim!
Demos dois beijos e eu perguntei-me, em silêncio, se naquele dia ainda nos íamos beijar de outra forma. Não sei se ela se perguntou o mesmo. Nunca sei essas coisas, mas tendo em conta o que é um blind date é sempre legítimo pensar que sim. O meu pensamento dedutivo é que falha muito. Ela era bonita. Muito bonita.
Sentámo-nos numa esplanada qualquer e tentámos arrumar a vida, eu a minha e ela a dela, para a explicarmos como se nos estivéssemos a vender um ao outro. É sempre assim, depois com alguns sorrisos à mistura e duas ou três piadas fracas que mesmo assim fazem rir. Bebemos três cervejas cada um e depois beijámo-nos. Foi mais rápido do que eu esperava. Andar à deriva dá nisto, acidentes ocasionais num imenso mar de solidão. Ela quis saber se comigo era sempre assim.
- Não!
Depois foi o empregado do restaurante. Falador, tratou-nos como se fossemos casados há muitos anos e elogiou-nos por isso. Entrámos no jogo dele, sempre com sorrisos matreiros escondidos. Mal sabia ele que nos tínhamos conhecido nessa mesma tarde e que os nossos corpos ainda não se tinham tocado numa cama. Ofereceu-nos uma ginja no fim e perguntou-nos se tínhamos filhos.
- Sim! - disse ela.
- Não! - disse eu ao mesmo tempo.
Fomos descobertos.
Deixámos o dinheiro em cima da mesa, junto a uma conta feita na toalha de papel cheia de manchas de vinho, e saímos. Lá fora as pessoas passavam por nós, contornando o nosso primeiro abraço prolongado. Lembro-me de perceber que nunca sabemos que abraço estamos a ver, se o primeiro duma vida, se o da despedida, se um casual para impedir lágrimas. Os abraços são tão importantes...
E ela quis saber se eu queria atalhar a noite e ir já para casa dela.
- Sim!
E na noite um corpo outra vez. Um cheiro a mulher e aqueles toques que alternam entre o bruto e o suave, como o champanhe. Lisboa do lado de fora da casa dela e eu infiltrado ali, como um amante clandestino. Chamei-lhe Amor e ela deixou. Adormecemos.
Não há melhor acordar do que aquele que é simultâneo e se ri de tudo. Tornámos a arrumar a vida, não para nos vendermos mas sim para nos comprarmos.
- No próximo fim de semana, se puder ser, vais tu ter comigo... - disse eu sem calcular a abrangência do que dizia.
- Para quê?
- Para conheceres a minha vida. Os meus bares, a minha casa, os meus amigos...
- Não quero conhecer nada do teu passado. Só me interessas a partir daqui. Pode ser?
No tecto do quarto dela estava um animal qualquer com antenas e muitas patas. Talvez fosse um receptor de som escondido, um produto da tecnologia para que Lisboa espiasse a nossa conversa. Imaginei uma cidade inteira à espera da minha resposta.
- Não!
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7.09.2015
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Eu - Mas porquê?
Ela - Perguntou-me se eu sou sexualmente activa...
Eu - E?
Ela - E eu perguntei-lhe se o o facto de ter sexo comigo mesma conta.
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7.08.2015
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7.07.2015
conversa 2133
Eu - Queres muito que ele te telefone?
Ela - Por acaso, quero.
Eu - Já lhe telefonaste tu?
Ela - Não tenho coragem.
Eu - Porquê?
Ela - Logo no primeiro dia, eram para aí umas três da tarde, mandei-lhe uma mensagem a dizer que os homens são todos uma vergonha. Levam uma gaja para a cama e depois não dizem nada...
Eu - Hum...
Ela - Achas que o espantei?
Eu - Sei lá. A mim espantavas-me de certeza.
Ela - Opá! Estava ansiosa... Ele foi tão encantador. Fez-me o pequeno-almoço e tudo...
Eu - Fez-te o pequeno-almoço?
Ela - Sim, porquê?
Eu - É bom sinal. Eu só faço o pequeno-almoço se gosto muito da pessoa com quem passei a noite.
Ela - Fixe. Mas então porque é que ele ainda não disse nada?
Eu - Se calhar espantaste-o...
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7.06.2015
pensamentos catatónicos (324)
Às vezes dou-lhe um sinal de que preciso de mais. Não sei do que é que eu preciso de mais, mas sei que deve vir dela. Talvez a mão naquele momento, talvez uma palavra. Sei lá do que preciso. E ela ri-se. Diz-me que sou inseguro e eu endireito as costas imediatamente. Depois penso: os homens são tão parvos.
Penso-o para me salvar de mim, claro. Se formos todos parvos, talvez eu tenha desculpa por sê-lo também. Resigno-me a essa gigantesca condição de parvoíce intrínseca ao género masculino e desculpo-me.
Só se pode querer uma de duas coisas, diz ela sem falar: ou segurança ou Amor. As duas não se dão juntas. Ou se Ama e se é inseguro, ou se é seguro e não se Ama. E agora?
Agora dou-lhe razão. Ela afasta-se para ir pontapear uma bola que fugiu de um pequeno campo de jogos no parque onde passeamos. Vejo-a correr e distanciar-se à mesma velocidade que o mundo todo se distancia de mim. Depois pega na bola e envia-a com um sorriso por cima da rede que enjaula um grupo de homens suados. Alguns agradecem-lhe e acenam.
Não sinto os pés, não sinto as mãos, não sinto nada. Sinto-me à deriva no espaço cósmico sem lhe conseguir chegar, como se aquele pequeno movimento fosse um adeus para sempre.
Depois ela regressa, devolve-me a mão, a vida e o chão que piso. Continua a falar e a sorrir como se não tivesse acabado de provocar um pequeno cataclismo em mim. Como se não se passasse nada. E então penso: os homens são tão parvos.
Sorrio. Desculpo a minha parvoíce com todos os outros homens do mundo.
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conversa 2132
Eu - Acho muito bem. Para mim é mais uma forma de conhecer pessoas...
Ela - O problema é que, pelo menos até agora, só me apareceram homens desinteressantes.
Eu - Desinteressantes?! Com quantos é que já te encontraste?
Ela - Nenhum.
Eu - Nenhum? Como é que decides que uma pessoa com quem nem sequer falaste é desinteressante?
Ela - Pelo perfil.
Eu - O perfil pode ser uma grande tanga. Sabes isso, não sabes?
Ela - O perfil escrito, sim, sei. Mas se não me aparece um gajo com um metro e setenta no mínimo, uns peitorais razoáveis e dois palminhos de cara, nem sequer vou tomar café...
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7.05.2015
Consegues ser mais promíscuo do que um miúdo de dez anos?
Estou a dizer isto por um motivo muito simples: quem assiste a uma marcha qualquer sobre o Orgulho LGBT pode pensar que sim, e é por isso que eu não dou muito crédito a essas marchas. Aceito-as, mas acho-as estúpidas porque têm um efeito contrário ao que teoricamente pretendem, ou seja, a aceitação generalizada de todas as orientações sexuais.
Vejo reportagens fotográficas e vídeo das várias marchas que recentemente se realizaram um pouco por todo o mundo (algumas, infelizmente, com intervenção policial injustificada) e vem-me à mente um programa de televisão que se poderia chamar "Consegues ser mais promíscuo do que um miúdo de dez anos?".
A promiscuidade não é exclusiva de quem não é heterossexual, mas as manifestações parecem querer fazer parecer que sim. Provavelmente, nunca ninguém ali falou com um putanheiro a sério, bom chefe de família, bebedor de Teobar e presente todos os fins de semana nos jogos do Benfica.
Por isso repito: os homossexuais, bissexuais e transexuais são pessoas que Amam, se apaixonam e sofrem de Amor como outra pessoa qualquer.
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7.04.2015
É tudo normal na ponta de um cigarro.
Uma vez, há muitos anos, estivemos apaixonados. Éramos novos e durante três dias acreditámos que ia ser para sempre. Não foi. Ao terceiro dia ela recusou-se a beijar-me e mergulhou no rio a sorrir. Lembro-me da disponibilidade da água para afogar toda a tristeza. A dela e a minha. Era a água, a mesma que agora está aprisionada dentro duma garrafa de plástico ao lado do cinzeiro usado, à espera que uma moeda de um euro a liberte. Penso no presidente da Nestlé a afirmar que os seres humanos não devem ter direito à água. O que seria de mim nessa tarde sem acesso à água? Não sei. Teria sede da vida. Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.
- Lembras-te de nós?
E ela abana afirmativamente a cabeça. O queixo trémulo e o cigarro a fumá-la já quase no filtro.
-Ainda tenho a flor que me deste, seca, entre as páginas de um livro qualquer...
Era amarela. É do que me lembro. Resgatei-a duma fenda no alcatrão da estrada e dei-lha. Senti-me um herói. A qualquer momento, o pneu dum automóvel ia esmagá-la para sempre. Assim não. Perdura no tempo entre as palavras dum livro que eu não sei qual é, mas sei que existe. É suficiente. É dum tempo em que as sementes cresciam de forma aleatória por aí, sem a Monsanto e sem o gene suicida, à espera duma morte natural. Até no chão impermeabilizado que ligava as cidades. A minha e a dela. O que seria de nós, de mim e dela, sem uma morte natural? Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.
- Somos tão estúpidos quando somos jovens! - E acende outro cigarro.
- Somos... - Concordo sem perceber porquê.
De toda a estupidez que já vivi, a dela foi a mais curta e feliz. O que nos sobrou de três dias foi uma vida inteira. Sem uma Economia medonha a esmagar-nos a esperança, sem uma dívida que ninguém sabe bem de onde veio, sem um governo a aniquilar uma população inteira e a perpetuar o cadáver de um jogador de futebol. Éramos só nós, a gostar imensamente da vida e de um rio por três dias. Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.
Ela é bonita. Ainda, digo eu. Às vezes olha-me de lado, como se tivesse medo de enfrentar o passado, e eu percebo porque é que gostei dela. Era bonita, sorria, mergulhava na água e guardava as flores silvestres que eu lhe dava. Para sempre, diz ela, como se isso existisse. E o cigarro a fumá-la.
Ao vê-la a ela vejo um mundo inteiro que acabou, onde todos perdemos a mais óbvia das coisas: o direito a ser feliz por três dias. Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.
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7.02.2015
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7.01.2015
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Detesto quando isto me acontece. Faltar-me a voz. Não é bem a voz, mas sim as palavras. Todo o léxico e a semântica dele possível. Mas acontece, especialmente quando tenho tudo para dizer.
É que quando não tenho nada sai-me sempre qualquer coisa. Aliás, é quando me sai mais depressa. Não ter nada para dizer é uma das situações mais confortáveis que podemos ter. É o desfrute total, criar seja o que for a partir do zero.
O Amor é uma coisa parecida. Sempre que nos apaixonamos, essa paixão já foi igual a coisa nenhuma. Às vezes até nos apaixonamos por quem não conhecíamos alguns segundos antes. O que não era nada passa a ser tudo.
Cada vez que nos beijamos, que damos as mãos, que temos sexo, que encostamos a cabeça no ombro do outro, que sentimos saudades, que sentimos ciúmes, que dividimos um chocolate ou ar que se respira, podemos ter a certeza que fizemos tudo a partir do nada.
É por isso que o Amor não se explica. Vem do zero.
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