8.18.2015

conversa 2150

(no supermercado)

Ela - Então, estás bem?
Eu - Sim, vou andando. Às compras, não é?
Ela - No último jantar lá em casa, acho que o vinho tinha qualquer coisa...
Eu - Então?
Ela - Fiquei sem copos... vim comprar novos.
Eu - Sabes que agora há uns copos que parecem de vidro mas não se partem...
Ela - Credo! Não quero isso.
Eu - Porquê?
Ela - Então e como é eu faço quando o meu marido me chateia?

respostas a perguntas inexistentes (327)

Cruela

Acho que sou um conservador. Sempre precisei duma mulher, mas nunca precisei de duas. Falo de Amor, entenda-se. O Amor, para mim, foi sempre um lugar para dois. Um é de menos, três são demais.
Parece bonito, mas não é. Os homens que conseguem Amar várias mulheres ao mesmo tempo nunca são tão felizes como os que Amam só uma, mas também nunca são tão tristes. Têm a vantagem de não estarem sós quando lutam com a crueldade duma mulher.
As mulheres têm uma crueldade que é só delas e que utilizam somente com os homens conservadores. Chama-se silêncio e unilateralidade. 
Aprendi isso ainda novo, mas nunca aprendi a Amar mais do que uma mulher ao mesmo tempo. É um dos maiores erros de aprendizagem da minha vida. Sinto-me sempre um aprendiz no Amor. Sei pouco disto e, na verdade, cada vez sei menos.
Hoje disse isto a uma mulher que me abraça às vezes. Estava à espera que ela me respondesse que não, que as mulheres não têm essa crueldade. Pelo contrário, achou natural e respondeu-me da forma mais perigosa que eu podia imaginar. Os homens conservadores não têm que aprender a gostar mais do que uma mulher ao mesmo tempo, mas têm que aprender a não gostar de nenhuma de vez em quando. Foi o que ela disse e o que eu percebi.
Ainda bem que a seguir me abraçou.


8.17.2015

respostas a perguntas inexistentes (326)

Às vezes lembramo-nos duma pessoa por causa de uma coisa qualquer. Um sabor, por exemplo. Se eu estiver a comer pipocas, costumo lembrar-me duma mulher com quem fui ao cinema uma vez e que fez uma cena por causa delas. Ela queria comer pipocas doces durante o filme e eu opus-me timidamente. Zangou-se comigo e eu acabei por ceder. Foi a primeira e a última vez que fomos ao cinema.
Acabámos por perder os dois.
A melhor forma de nos lembrarmos de alguém é não saber porquê. São essas as pessoas mais importantes na nossa vida, de quem nos lembramos só porque sim. Quando não sabemos por que motivo nos lembramos de alguém, então é porque gostamos desse alguém desinteressadamente.
Tenho uma amiga de quem me lembro só porque sim, apesar de a ver muito pouco. Lembro-me dela quando estou a trabalhar, quando estou na praia ou a comprar a pão. Lembro-me dela nas mais variadas e improváveis ocasiões, porque ela própria é uma mulher improvável. Ainda bem. Gosto dela e hoje pude dizer-lho.
Quando se sentirem sós, procurem as pessoas que não têm que ir chamar no fundo da vossa memória, a propósito de um facto qualquer da vida, mas sim aquelas que surgem na primeira esquina duma lembrança qualquer, a sorrir e com vontade de vos abraçar.
Digo eu, sei lá.

8.15.2015

conversa 2149

Ela - Isto é muito estranho.
Eu - O quê?
Ela - Estar fechada contigo num carro às tantas da manhã...
Eu - Porquê?
Ela - Foi assim que comecei a namorar com o meu ex-marido. No carro dele às tantas da manhã...
Eu - Ah!
Ela - Se bem que contigo é diferente.
Eu - É diferente em quê?
Ela - O meu ex-marido tinha um carro grande e limpo que deu para termos sexo lá dentro. Tu tens um carro pequenino e, muito provavelmente, o mais porco que eu já vi na vida.
Eu - Isso deixa-te à vontade?
Ela - Sim... tenho a certeza que não me queres engatar. Se eu tivesse sexo contigo aqui ia escangalhar-me a rir.
Eu - Pois...
Ela - Alguma vez tiveste sexo neste carro?
Eu - Claro que não. Uma vez lutei com um frasco de azeitonas e a rolha de uma garrafa de vinho.
Ela - Estavas a tentar engatar alguém?
Eu - Sim, mas quando consegui abrir o frasco e abrir a garrafa ela já tinha adormecido.
Ela - Sabes o que é que eu gosto mais em ti?
Eu - Diz...
Ela - Mesmo quando estás triste, tens sempre uma piada para dizer...
Eu - Sinto-me lisonjeado. O problema é que isto não foi uma piada...


8.14.2015

respostas a perguntas inexistentes (325)

mulheres boas na cama

Já tive boas noites de sexo e más noites sexo, como toda a gente. Algumas das piores noites de sexo que tive foram das melhores. Algumas das melhores não foram assim tão boas. Sei que em todas as noites de sexo que tive, boas ou más, fui parte integrante da coisa.
Por falar em noites, também tenho sexo de dia. Não ter hora marcada para ter sexo é um dos princípios do mundo maravilhoso do sexo. A hora marcada, que é como quem diz sexo à noite, retira a espontaneidade da coisa. Digo "noites de sexo" por uma questão estatística e romântica. Gosto da noite, da Lua, das estrelas e de um copo de tinto (que só bebo à noite).
Nisto tudo, o que me preocupa são os homens que acreditam que as mulheres são boas ou más na cama. Quando um homem me diz que determinada mulher é boa ou má na cama, a única conclusão que tiro é que ele, pelo menos, é uma boa merda. Ainda não percebeu que o sexo a dois é uma coisa a dois. Por isso põe toda a responsabilidade nela. Ele é apenas um crítico e os críticos, como todos sabemos, são gajos que opinam sem fazer nadinha.
Às vezes parece-me  que os homens que dizem que as mulheres são boas ou más na cama só se deitaram, até à data, com a própria mão. Tecnicamente, a mão é sempre boa porque faz tudo o que um homem quer. Ainda assim, não é sexo que se recorde com o coração embrulhado em alegria e nostalgia. E é assim que eu recordo algum do sexo que tive, mesmo que tecnicamente não tenha correspondido à minha condição de primata.
Deitarmo-nos com a mão não é mau. Confundir a mão com uma mulher é que é péssimo. O que eu queria dizer às mulheres que conheci intimamente, se o pudesse fazer, é que nunca conheci uma má, a não ser as que não gostaram de mim. Mesmo que tenham sido boas, claro. Não há abraço nos lençóis como o de uma mulher (com excepção da Assunção Esteves).

8.13.2015

respostas a perguntas inexistentes (324)

Os homens são tristes porque têm medo da solidão. A solidão e a tristeza são sentimentos diferentes que até podem ser opostos. Mesmo assim, normalmente, a maior parte de nós prefere estar triste do que estar só. É por isso que existem casamentos que continuam para lá do Amor. Estar casado sem Amor é triste, mas não é estar só.
Os homens são mais assim por serem também mais simplórios. Não estando sós, a única coisa má que lhes pode acontecer é estarem tristes. Por isso é que aprenderam a espremer felicidade de palermices: um jogo de futebol, uma borracheira com um amigo ou um jogo de computador. Estas coisas simplórias combatem a tristeza. De forma ineficaz, é verdade, mas combatem.
As mulheres são mais incompetentes na busca da felicidade, talvez por serem mais verdadeiras. Não é qualquer merdice que as faz felizes, muito menos um jogo de futebol. É por isso que a aparente felicidade dos homens as confunde. Nalguns casos elas zangam-se com eles, noutros têm pena. O que elas nunca têm é compreensão com essa inteligente capacidade que os homens têm de ser estúpidos.
Perguntam-se como é que um gajo pode estar feliz quando a vida é triste.
Elas preferem a solidão à tristeza, porque combater a tristeza é mais difícil.
Eles preferem a tristeza à solidão, porque combater a tristeza é mais fácil.

8.12.2015

coisas que fascinam (182)

Às vezes é como, se no Amor, vivêssemos acima das nossas possibilidades. Somos uns gastadores, é o que é. Pegamos no Amor que temos e vivemos à grande e à francesa, sem pensar no dia de amanhã. Quando damos por ela, estamos a contar os trocos para conseguir viver o dia-a-dia. Um beijo aqui, uma carícia ali...
Como em tudo, fazemos um downgrade na vida, de forma a que o que temos nos chegue. É como ir a uma loja e não ter dinheiro para comprar o que se quer, na verdade. Se tivéssemos um bocadinho mais de Amor, abraçávamo-nos e ficávamos dois dias assim, abraçados. Mas não temos. Gastámos tudo no bom tempo.
Eu não gosto de viver com pouco. Na verdade, no Amor, gosto de ser um gastador sem vergonha. É por isso que ando aqui a juntar, pouco a pouco, Amor suficiente para o futuro. Quero gastá-lo todo, preferencialmente com a mulher com quem dei cabo duma razoável fortuna. Hoje acordei com a sensação que a minha conta à ordem está a crescer rapidamente.
A Economia é outra história...

conversa 2148

Ela - Há tanto tempo que não te via...
Eu - Estava com saudades tuas.
Ela - Como é que andas?
Eu - Na merda, mas tirando isso está tudo bem.
Ela - Só tu para dizeres que andas na merda a uma ex-namorada que não vias há anos...
Eu - Nunca te desiludi nesse aspecto.
Ela - Não... de facto não. Não me lembro de te ouvir dizer que estava tudo bem.
Eu - E tu, como andas?
Ela - Eu ando bem, tirando o que está mal.
Eu - Também nunca me desiludiste. Achas sempre que está tudo bem, mesmo quando não está.
Ela - Prefiro ver o copo meio cheio.
Eu - Eu prefiro vê-lo vazio, desde que seja eu a bebê-lo.
Ela - Achas que foi o facto de sermos tão diferentes que acabou com tudo entre nós?
Eu - Acho que foi o facto de sermos tão iguais...
Ela - Talvez... isso e o facto de gostares de música brega brasileira.
Eu - Isso era ultrapassável.
Ela - Não era nada.
Eu - Eu estava disposto a usar auscultadores.
Ela - Não chega.
Eu - És uma intolerante.
Ela - Pois sou... mas lembro-me de ti quase todos os dias.
Eu - Eu também me lembro de ti a cada momento.
Ela - A sério?!
Eu - Pensavas o quê?
Ela - Que não querias saber...
Eu - Bem, que se foda! Dá-me um abraço.
Ela - Era o que eu te ia pedir...

8.11.2015

pensamentos catatónicos (331)

Tenho quarenta e quatro anos e estou totalmente apaixonado. Se alguém me perguntasse neste momento quem eu sou, pouco mais saberia dizer. Ando um pouco triste também, embora me considere um homem feliz, precisamente pelo motivo que me põe triste. O Amor, sim.
Hoje tirei vinte minutos da minha vida só para mim. Encostei o meu carro na estrada e aventurei-me num pinhal. Abri a porta e desliguei o rádio para poder cheirar o forte aroma do silêncio. Foi uma forte de combate ao desAmor.
Quando nos sentimos sós, é como se o tempo custasse a passar mas não custasse a ter passado. É como se cada segundo durasse minutos a passar, mas depois de ter passado fosse tudo demasiado rápido. O tempo passa a uma velocidade estonteante, mas emperra quando passa por nós. É assim um Amor apagado, mesmo que esteja em vias de se acender.
Quando um Amor nos corre mal porque alguém se distanciou de nós, quem nós perdemos não é apenas esse alguém, mas sim quem nós pensávamos que esse alguém era. As outras pessoas são sempre, pelo menos em parte, resultado da nossa criatividade, incluindo no Amor. Isso vale para os dois lados, porque nós também somos o que os outros fazem de nós.
Amanhã vou tirar vinte minutos da minha vida só para um abraço, ainda não sei de quem. Sei que, seja quem for, será também um bocadinho do que eu preciso e desejo. Espero que eu possa ser o mesmo. É assim que às vezes se começa um Amor.

8.10.2015

respostas a perguntas inexistentes (323)

O maior adversário do Amor é o tempo que passa. Digo adversário para não lhe chamar inimigo, porque tento acreditar que o Amor não pode ter inimigos. Ainda assim, o tempo que passa é um perigo. Consegue pegar no maior dos Amores e encostá-lo a um lado sombrio da nossa vida.
O problema do tempo que passa é que não é decidido. Prefere fazer as coisas sorrateiramente para que ninguém dê por elas. Se pegasse num grande Amor e o destruísse de vez, era uma coisa. Agora assim, a morder pela calada, é outra. O que ele faz é traiçoeiro: atrai o Amor para a sombra tão lentamente que podemos passar anos sem perceber o que nos aconteceu.
Um dia, como noutro dia qualquer, abrimos a porta de casa rodando duas vezes a chave, damos doze passos até ao sofá da sala onde esperamos um abraço daqueles que compensa os dias maus que acontecem, mas o que recebemos é uma hesitação.
Acontece a todos, até porque o tempo passa também por todos. O que não acontece a todos é conseguir andar com o relógio para trás. Pegar nesse tempo que passou e Amá-lo como único que foi, virando-lhe a ampulheta como se vira um lençol.
Para quem não consegue, o tempo que passa será o melhor remédio. Para quem consegue também.

8.08.2015

conversa 2147

Eu - O teu namorado está porreiro?
Ela - Qual deles?

8.07.2015

pensamentos catatónicos (330)

Lembro-me do tempo em que me apaixonava e desapaixonava frequentemente. Era um tempo bom porque também era um tempo mau, o da minha juventude. Era bom à tarde e mau à noite, por exemplo, para voltar a ser bom na manhã seguinte.
O que o tempo das paixões espontâneas nos ensina, é a relativizar o que é bom e o que é mau. Nem o bom é tão bom assim, nem o mau é tão mau assim. Pelo menos quando falamos de Amor, claro. O truque passa por relativizarmos apenas quando estamos mal e sermos propositadamente ingénuos quando estamos bem.
Quando atingimos uma idade que eu não sei muito bem qual é, apaixonarmo-nos começa a ser cada vez mais difícil, até chegarmos à fase da vida em que nos custa acreditar que aconteceu. É quando nos vemos aos espelho e mesmo assim duvidamos que o nosso coração deixou de nos pertencer. A relativização do bom acaba, porque o que se passa é mesmo bom. É o absolutismo do Amor em detrimento da Relatividade.
Por outro lado, desapaixonarmo-nos também começa a ser cada vez mais difícil. Se gostarmos de alguém a sério se tornou quase um milagre, deixarmos de gostar desse alguém é um milagre maior. E eu, que ateu me confesso, não acredito em milagres.

conversa 2146

(no carro dela)

Eu - Viste a ultrapassagem que acabaste de fazer?
Ela - Claro que vi, vou a conduzir.
Eu - Risco contínuo e um sinal a proibir ultrapassagens não te dizem nada?
Ela - Sim, dizem que tenho que ter cuidado a ultrapassar...
Eu - É mais que não podes ultrapassar. Aquela zona é perigosíssima...
Ela - O camião à nossa frente ia tão devagar... perdi a paciência.
Eu - Mas não podes fazer isto. Podíamos ter morrido...
Ela - A responsabilidade era minha.
Eu - Mas eu também vou no carro...
Ela - A responsabilidade continuava a ser minha. São sempre as mulheres a responsabilizarem-se por tudo. Já estou habituada.
Eu - Mas eu não quero morrer por tua responsabilidade!
Ela - E não morreste, pois não?
Eu - Esquece. Não faças mais isso, por favor. Vai devagar.
Ela - Estás a insinuar que eu conduzo mal? Detesto quando os homens fazem isso.
Eu - Conduzes muito bem. Melhor do que eu, de certeza... mas não respeitas as mais elementares regras de segurança.
Ela - Tem calma, homem. Perdi a paciência com aquele camião, que ia mesmo muito devagarinho. Foi tudo.
Eu - Mas não podes perder a paciência assim...
Ela - Se aturasses o que eu aturo em casa, a tua paciência também estava esgotada.
Eu - O que é que aturas em casa assim tão mau?
Ela - O meu marido.
Eu - Desisto...
Ela - Olha outro camião. Vou ultrapassá-lo já.
Eu - Não faças isso.
Ela - Estava a brincar!

8.06.2015

respostas a perguntas inexistentes (322)

Não abandono as mulheres por quem me apaixonei um dia. Aqui e ali, quando estou sozinho, ainda lhes dou a mão, as abraço ou beijo prolongadamente. É tudo exactamente como já foi um dia. A única diferença é que elas já não estão lá.
É inútil tentar esquecer um Amor. Os Amores não ficam registados apenas no cérebro, mas sim em todo o corpo. Alguns até se gravam na paisagem que nunca vimos, num cheiro, numa cor ou numa música. Quando estamos sozinhos eles observam-nos. É por isso que nunca me sinto só.
A M não sabe, mas ainda hoje fez uma viagem comigo de carro. Nada de especial, foram apenas os trinta e cinco quilómetros que separam o meu trabalho da minha casa. Conversámos o caminho todo e quando estacionei ela pediu para encostar a cabeça ao meu ombro. Ficámos ali um bocado, em silêncio, a ver o Sol nascer por trás do esqueleto dum edifício que morreu prematuramente. Nunca ninguém chegou a habitá-lo.

- Se estivéssemos os dois juntos, achas que ainda gostavas de mim?
- Gosto de ti, mesmo sem estarmos juntos... - respondi.

O nosso Amor foi como o prédio à nossa frente. Começámos a construção mas nunca o chegámos a habitar. Foi o que eu lhe disse e ela riu-se. Chamou-me docemente palerma e eu apertei o abraço, como se a quisesse segurar para sempre.
Sempre que uma mulher me chama docemente palerma, considero-o um elogio. Aos palermas a sério, as mulheres nem sequer chamam nada. E a M, que foi um Amor que não o chegou a ser, chamou-mo tantas vezes que perdi a conta. O Amor com ela foi uma tentativa, vá. E do que me lembro é dela a tentar.
E eu, palerma, sem o perceber. O que lhe devo foi o que aprendi.

8.05.2015

os amigos e os outros

Tenho saudades dum amigo meu que, quando estava comigo, me matava as saudades que eu tinha dos outros. Os melhores amigos são assim, começam por não querer as nossas saudades só para eles. É por isso que é fácil ser amigo deles.
Nos dias como o de hoje, eu telefonava-lhe e falava do tempo, de futebol e dos lábios da Scarlet Johansson. Depois marcávamos um copo num café qualquer para falarmos de nós. Ele conheceu todas as mulheres por quem me apaixonei, mesmo aquelas que eu próprio não cheguei a conhecer muito bem. Eu, diz-me a presunção, terei com certeza conhecido as dele.
No dia a seguir a ter conhecido a minha actual companheira liguei-lhe. Estava a chover torrencialmente, o Porto estava à frente da liga nacional de futebol e a Scarlet Johanson tinha contracenado com os lábios da Rebecca Hall em Vicky Cristina Barcelona. Depois marcámos no Convívio às dez da noite.
Eu cheguei primeiro. Quando ele entrou, levantei-me e demos um abraço.

- Então, estás bem?
- Estou fodido! - respondi.
- O que é que se passa?
- Acho que estou apaixonado...

Ele riu-se. Virou-se para o empregado, nosso velho conhecido, e pediu dois uísques.

- Sem gelo, que este homem precisa de esquecer a vida... - brincou.

Brindámos.

- Como é que isso aconteceu?

Abanei os ombros.

- Acho que ia na vida, como se vai na rua às vezes, tropecei nela e caí. Quando me levantei já não era o mesmo. É sempre assim que nos apaixonamos, não é? A cair e a levantar.

Há sempre um amigo para saber mais da nossa vida do que sabem os outros. Sendo tecnicamente o mesmo, a um amigo dizemos que estamos apaixonados. A um outro dizemos, quando muito, que começámos uma relação. É por isso que um amigo nos mata as saudades que temos dos outros.

8.04.2015

conversa 2145

Ela - A minha filha adormeceu...
Eu - Pois...
Ela - Agora estamos por nossa conta. Vou abrir uma garrafa de vinho...
Eu - Okay!
Ela - Preferes Alentejo ou Bairrada?
Eu - Qualquer coisa...
Ela - Este é o momento em que bebemos um copo e, se tu não fosses tu, eu tentava levar-te para a cama.
Eu - Tentavas levar-me para a cama se eu não fosse eu?
Ela - Sim. Ando mesmo a precisar disso.
Eu - Qual é o problema de eu ser eu?
Ela - És meu amigo há vários anos...
Eu - Ah!
Ela - Já passou o prazo, percebes?!
Eu - Mais ou menos. Diz-me uma coisa: e se eu deixar de ser teu amigo, há alguma hipótese?
Ela - Não. Tarde demais.
Eu - Pronto! Era só para saber...
Ela - Não te preocupes, tenho aí mais vinho...

8.03.2015

respostas a perguntas inexistentes (321)

Parei em cima duma das pontes do canal do Côjo. O trânsito de moliceiros repletos de turistas era intenso, pelo menos para aquilo que, como aveirense, estou habituado a ver durante os meses mais frios. Dois rapazes com skates passaram por mim e, pelo canto do olho, tentaram perceber o que eu estava  fazer. Estava a filmar, tão simples quanto isso. A filmar sem nenhum objectivo concreto, mas apenas pelo gozo que filmar me dá. Viram a minha Gopro em cima dum pequeno relógio de cozinha, sorriram, e continuaram o seu caminho.
Para além dos turistas nos barcos, alguns transeuntes caminhavam calmamente nas margens do canal. Dali de cima, era como se todos estivessem num silêncio próprio de quem se encontra em paz. Duas mulheres de mãos dadas pararam alguns segundos para observar um grupo de patos que, na esperança de obter comida, se aproximou delas a furar esse silêncio. Reparei então como a minha mão já não segura a mão de ninguém há algumas semanas. Fechei o punho e abri-o novamente, coloquei a câmara na ponte e comecei a filmar.
Ando com uma estranha sensação de solidão, porque apesar de a sentir sou eu próprio que a alimento. Não me apetece estar com muitas pessoas em simultâneo. Na verdade, para ser sincero, nem sequer há muitas pessoas com quem me apeteça estar. Por isso mesmo é que sorri quando as duas mulheres passaram por mim, ainda de mãos dadas, e as ouvi discutir. Eram namoradas e estavam zangadas, mas mesmo assim davam as mãos.
A uma certa distância, tudo nos parece pacífico, mas quando nos aproximamos e percebemos os detalhes, percebemos também que a paz é uma utopia. Acho que tive este pensamento pela segunda vez na vida. A primeira vez foi em criança, quando vi uma fotografia do planeta Terra num Atlas. Era bonita, mas ali na rua onde eu vivia havia uma série de problemas que eu conhecia melhor do que os astronautas que tinham tirado aquela foto. Mais tarde vim a descobrir que o Amor também é assim: bonito por fora, eventualmente cruel nos seus detalhes.
De todas as pessoas que conheço, existe uma (ou três, vá lá) com quem me vai apetecendo estar. É uma amiga a quem nunca dou a mão, mas de quem recebo tudo o que há para receber duma amiga. Estava a pensar nela quando lhe ouvi a voz e, por um segundo, um detalhe nesse mundo que eu vi num Atlas há muitos anos atrás me pareceu perfeito.

- Como estás? - Perguntou.
- Mal. Bebes uma cerveja comigo?

Nessa tarde, ela foi o meu detalhe. É dos detalhes que nós dependemos, não da fotografia do Atlas. Talvez seja por isso que eu gosto de filmar.

8.02.2015

conversa 2144

Ela - A temperatura aqui em Aveiro é sempre tão baixa...
Eu - Eu gosto...
Ela - Devem estar uns vinte e três graus.
Eu - Pois... eu gosto.
Ela - Eu preciso de pelo menos vinte e sete.
Eu - Eu gosto.
Ela - É que, assim, quando se está à sombra fica logo muito frio.
Eu - Eu gosto...
Ela - Tu também gostas de tudo!
Eu - E tu não gostas de nada!
Ela - Tenho é níveis de exigência superiores aos teus.
Eu - Em quê?
Ela - Em tudo.
Eu - Se calhar é por isso que somos amigos. Eu sou amigo de qualquer coisa e tu só és amiga de pessoas especiais.
Ela - Estás quase a apanhar.

pensamentos catatónicos (329)

As mulheres têm-se como o elemento mais importante duma relação a dois. É, aliás, isso que existe em comum com os homens, que também as têm como tal. É esse equilíbrio que lhes permite serem emocionalmente injustas e tomarem decisões unilaterais sem possibilidade de recurso.
Se uma mulher pede algum tempo a um homem numa relação, é suposto ele perceber e esperar porque ela está com dúvidas existenciais. Se um homem pede algum tempo a uma mulher, ela não espera porque tem a certeza que ele anda com outra qualquer.
Por algum tempo, entenda-se exactamente o que é: o fim da relação com a possibilidade eventual de um reinício, um dia que haja vontade.
Se aprendi alguma coisa com a vida foi isso. Por um Amor não se espera, porque a espera significa que ele não existe. Não vale a pena esperar pela inexistência. Os Amores nunca recomeçam. Quando muito, podem começar do zero uma segunda vez se o alinhamento dos planetas o permitir.
 

8.01.2015

conversa 2143

Ela - Lembras-te da noite em que tentaste ir para a cama comigo? Foi tão engraçado...
Eu - Tenho uma ideia...
Ela - Tens uma ideia?! Só tens uma ideia da noite em que tentaste ir para a cama comigo?!
Eu - Foi há tanto tempo...
Ela - Nem sequer sabes há quanto tempo foi?!
Eu - Diz-me só se consegui ou não, por favor.
Ela - Claro que não, seu parvalhão.
Eu - Então querias que me lembrasse de quê?
Ela - De teres tentado...
Eu - E lembro... quer dizer, tenho uma ideia.
Ela - Foste para a cama assim com tanta gaja, que só tens uma ideia?
Eu - Não, não fui, mas tentar, lá isso tentei.
Ela - Percebes porque é que não foste, não percebes?
Eu - Percebo. Para as mulheres, uma tentativa já é digna de ficar na memória. Para um homem não.
Ela - Estás a chamar-me o quê?!
Eu - Nada. Estou só a dizer que a minha memória é muito má.

7.31.2015

conversa 2142

Eu - Estou a precisar de praia. Queres vir comigo este fim de semana?
Ela - Pode ser, se me explicares porque é que me estás a convidar...
Eu - Explicar o quê?
Ela - Porque é que me estás a convidar...
Eu - Tenho que te explicar porque é que te estou a convidar para ir à praia?!
Ela - Gosto de entender as coisas...
Eu - Para não ir sozinho, sei lá...
Ela - Pois, o problema é esse...
Eu - Qual?
Ela - O convite é razoável. A explicação é que é uma merda...

respostas a perguntas inexistentes (320)

como se alimenta um Amor

O Amor é um animal indomesticável. Todos sabemos disso e, às vezes, até agradecemos que ele seja assim. O problema é que ele só se alimenta de certezas, apesar de ser, ele próprio, uma incerteza.
Não tenho a certeza total do que digo. Sei que, no meu caso, foi assim que o alimentei toda a vida. Com certezas digo. Acordo de manhã, pego em todas as certezas que tenho e dou-lhas à boca. Até aqui tudo bem, não fosse ele às vezes perder a fome durante longos períodos de tempo ou, noutras ocasiões, morder-me à traição.
O Amor é um pouco assim, morde a mão que o alimenta.
Já tive um Amor, por exemplo, que só se alimentava dois ou três dias por semana. Nos outros dias preferia ficar em jejum. Dei-lhe um telefone para que ele me ligasse sempre que estivesse com fome, o que aconteceu durante alguns meses. Eu procurava os restos das minhas certezas para o alimentar, mas um dia deixou de me ligar. Fiquei sem ele e sem o telefone.
Por outro lado, tive outro que comia demais. Tinha tanta fome que um dia me mordeu os dedos. Fiquei a sangrar a acabei por abandoná-lo como se abandona outro animal qualquer. À sua sorte. Tive notícias dele algum tempo depois. Morreu.
Entre os dois tipos de Amor que já tive, no entanto, sempre preferi os esfomeados aos que entram em dieta constantemente. Mais vale uma ferida de vez em quando do que a solidão de um animal fugitivo. É por isso que às vezes pego nas certezas todas que tenho, cozinho-as como posso, e dou-as ao primeiro Amor que passa por mim.

7.30.2015

conversa 2141

Ela - Este fim de semana vens acampar comigo para qualquer sítio?
Eu - Deixa-me decidir na sexta. Ando a trabalhar muito e nem sei a quantas ando...
Ela - Estás à vontade.
Eu - Obrigado.
Ela - Estás à vontade para vires ou nunca mais falares comigo. Tu é que sabes.

índice ivariano no 12

Já passa das seis da manhã. Acabei de chegar a casa, depois de mais um turno de doze horas de trabalho numa fábrica nos arredores de Aveiro, e de encher um copo de vinho branco onde, depois de ter dado dois ou três goles, reparei que há um insecto a boiar.
Todas as noites, com excepção dos fins de semana, trabalho doze horas. Não me importo muito, para ser sincero. Faço-o, não para manter a minha vida num modo de sobrevivência, mas sim porque sigo um sonho de há muito tempo: o de poder fazer filmes.
Ainda antes do fim do ano conto ter uma empresa que me permita cumprir esse sonho. Até lá, tenho que comer qualquer coisa, pagar as contas e ter algum dinheiro para investir. É por isso que o faço, mesmo depois de ter investido num projecto empresarial que falhou e me deixou algumas dívidas.
Sei que é preciso ser forte, principalmente nos momentos em que a vida nos fragiliza, e eu sinto que estou num momento desses. Talvez por isso mesmo, numa altura em que o Amor me está a falhar e a deixar desamparado, seja capaz de me surpreender todos os dias com pequenos gestos de quem me conhece bem. Uma amiga investe o que pode num bolo que me oferece no dia em faço quarenta e quatro anos, atingindo oficialmente ameia idade; outra guarda a hora do café para me dar um abraço de meia hora à sombra duma história antiga; outra acorda às quatro da manhã e telefona-me para "colorir o meu turno na fábrica". 
Lembro-me duma altura estúpida da minha vida em que as mulheres eram, ou não, uma expectativa para mim. Os homens têm a mania de seguir essa estupidez. As mulheres são uma certeza, para o pior mas também para o melhor. É nisso que penso, agora que me vou deitar.
Já engoli o insecto que boiava no meu copo.
Entretanto, o índice ivariano, que reflecte o meu estado emocional/amoroso e estava no máximo há quase sete anos, desce para 12. Podem vê-lo no fim da barra do lado direito... 

7.29.2015

respostas a perguntas inexistentes (319)

um pardal qualquer

Não sei se já vos aconteceu ter uma fortíssima relação Amorosa de apenas alguns dias, mesmo tendo consciência desde o início que ela não ia durar muito. Ela era finlandesa e eu português. Ambos estávamos a fazer uma viagem sozinhos pela Europa e, depois de uma tarde estendidos num mar de relva a beber cerveja, decidimos que podíamos ficar juntos cinco dias. Era esse o curto limite do nosso Amor, que mesmo assim acabou prematuramente.
Acabou numa esplanada em Itália, no segundo dia, quando ela me contou que tinha um amigo em Helsínquia que tinha espatifado o automóvel a desviar-se de um pássaro pequenino que se atravessara à sua frente, na estrada. Num esforço de última hora para não o matar, travou a fundo e despistou-se contra umas árvores quaisquer. Ela riu-se.

- Que estúpido! - disse - despistar-se por causa de um pequeno pássaro...

Por qualquer motivo não gostei daquele riso. Pareceu-me  malévolo e, vindo de uma mulher tão bonita, ainda pior. Dei um gole na minha cerveja, que me lembro de estar a beber devagar por ser cara, e expliquei-lhe que ela tinha tecnicamente razão, mas demonstrava uma falta de entendimento emocional do seu próprio amigo.
Para mim, o mais provável é que ele não tenha pensado na equação que compara um pássaro ao valor de um automóvel, mas sim agido por impulso. Ao aperceber-se que ia matar o pássaro, travou a fundo sem pensar em mais nada. Por azar despistou-se. O riso dela era inadequado.

- E isso é bonito... - insisti - pode querer dizer que o teu amigo tem um fundo bom...

Eu sabia que, ao emitir a minha opinião, estava a pôr em risco cinco dias inesquecíveis. Por isso mesmo, assim que vi o olhar dela arrependi-me imediatamente, mas era tarde demais. Acusou-me de usar pouco o meu cérebro e de ver a vida como se fosse um filme. Levantou-se e partiu sem se despedir. Fiquei um bocado triste. Afinal de contas, por causa de uma espécie de pardal perdido na Finlândia, a muitos quilómetros de distância, não tive sexo nessas férias. 
Por coincidência, acabei por reencontrá-la mais tarde e, apesar de apenas termos conversado, permiti-me dizer-lhe que o nosso Amor tinha acabado cedo demais e de forma abrupta. Para meu espanto, ela respondeu-me com o que considero ter sido uma resposta equilibrada entre a razão e a emoção.

- Um Amor só pode acabar tarde demais ou cedo demais. Nunca acaba no momento certo. Se acabar, então não era Amor.

7.28.2015

conversa 2140

Ela - Adorei aquele filme que me emprestaste.
Eu - Qual foi? Já nem me lembro...
Ela - Também não me lembro do nome...
Eu - E do realizador?
Ela - Não sei...
Eu - E a história?
Ela - Também não me lembro...
Eu - Adoraste mesmo?
Ela - Para ser sincera, ainda nem o vi.

pensamentos catatónicos (328)

Hoje apeteceu-me aproximar-me de ti e, mesmo sabendo que não me conheces de lado nenhum, pedir-te que me abraçasses e fingisses Amar-me. Não era muito tempo. Talvez apenas um minuto ou dois. Podia ser mesmo no sítio em que te vi, com os edifícios decrépitos de um bairro social ao fundo. 
Eras a mulher ideal para o fazer, basicamente porque não te conheço de lado nenhum. Eu talvez até te Ame, mas não tenho a certeza. É tão bom quando isso me acontece, não ter a certeza de um Amor mas ter a certeza da vontade de um abraço. 
O Amor é um bocado hipócrita às vezes, sabes? O sexo, pelo menos é sempre honesto. É por isso que também é mais ansioso e apressado. Não perde tempo com rodriguinhos. Tem a desvantagem de não se deixar enganar. É por isso que o Amor é giro. Se me tivesses abraçado hoje, eu podia fingir que te Amava e depois partíamos para a honestidade do sexo.
Não aconteceu. Se acontecer um dias destes, não te esqueças de fingir que me Amas.

7.27.2015

conversa 2139

Ela - Parabéns!
Eu - Obrigado.
Ela - Não pareces nada ter quarenta e quatro anos.
Eu - Obrigado.
Ela - Pareces ter mais.
Eu - Mais?! Pensei que me ias dizer que pareço mais novo...
Ela - Só quando falas, às vezes, é que pareces bastante mais novo.
Eu - Tens alguma simpática para me dizer?
Ela - Sim, já disse. Parabéns!

7.26.2015

Um dia, quando tudo tiver passado

Tenho um amigo com exactamente mais trinta anos do que eu, ou seja, faz amanhã setenta e quatro anos. Só é meu amigo por causa disso mesmo. Uma vez, numa conversa banal, descobrimos que tínhamos nascido no mesmo dia e à mesma hora, apenas com trinta anos de diferença. A partir daí, cada vez que nos cruzávamos, ele dizia-me num tom de brincadeira: "Boa colheita, ahn?! A do nosso dia". Foi um passo até começarmos a tomar café de vez em quando e falar sobre a vida.
Gosto dele, primeiro porque o acho parecido comigo, segundo porque as nossas conversas são desprendidas de um passado em comum. O que nós fazemos, basicamente, é dividir uma mesa de café de vez em quando e falar mais do mundo do que de nós.
Talvez por isso, tenha sido o primeiro a saber que a minha vida já teve momentos melhores. Foi um desabafo com quem eu sabia que não ia fazer juízos pessoais sobre mim, mas sim dizer qualquer coisa mais generalista. Talvez até pagar-me o café e dar-me uma pancada no ombro, o que se veio a confirmar.
Expliquei-lhe que o meu Amor já teve dias melhores, apesar de eu estar ainda totalmente apaixonado e que a minha vida profissional está um caos, apesar de eu ter um caminho que pode vir a dar frutos muito em breve. Das minhas finanças, prefiro nem falar. Mexi devagar, com a colher, um café no qual não tinha posto açúcar, à espera de qualquer coisa, fosse o que fosse, que me pudesse fazer sentir melhor.
Ele dobrou o jornal que tinha nas mãos e pousou-o sobre as pernas. Pediu-me para olhar para ele de frente e, pela primeira vez, pareceu-me o homem mais sério do mundo.

- Um dia, quando tudo tiver passado, não te arrependas da vida que tiveste!

Tornou a abrir o jornal e eu encostei-me para trás na cadeira do café.

- Boa colheita, ahn?! A do nosso dia...

7.24.2015

respostas a perguntas inexistentes (318)

Estavam dois copos em cima da mesa, ambos já bastante babados por lábios cansados, sabe-se lá de terem falado muito ou de terem bebido demais. Provavelmente as duas coisas. Ainda assim o Fred dividiu irmãmente o que restava da última garrafa de vinho, alinhando-os lado a lado e igualando as quantidades como se estivesse num laboratório. Queria continuar a conversa.
Conversar era um hábito que perdera com o casamento. Uma vida a dois, preenchida por quatro filhos, afastara-o do mundo que conhecera alguns anos antes, mas que agora lhe parecia longínquo. Um mundo de conversas com amigos e de copos babados, de alguns abraços e de olhares soltos para mulheres desconhecidas.
Adormeceu à mesa.
A mulher dele tinha sido a minha primeira namorada. Éramos então dois adolescentes, cujo Amor parecia impossível de terminar um dia e cuja vida se adivinhava dinâmica e feliz. Sem sobressaltos, sem zangas, sem filhos. Sobretudo sem adormecermos à mesa derrotados pelo cansaço.
Creio que durou um mês, esse sonho.
O Fred ressonava. Acordei-o com o cuidado de um pai que acorda um filho, dei-lhe um cobertor e mandei-o para o sofá da sala. 
Fechei a luz, ouvi-o ressonar e telefonei à Laura.

- O teu marido dorme cá hoje!

Do outro lado ouvi o silêncio mais pesado que se pode ouvir. Passou-me tudo pela cabeça, incluindo a certeza que ela tinha de que estivéramos a beber até um de nós adormecer. Talvez estivesse desconfortável pelo leque de possibilidades temáticas que dois homens que dormiram com a mesma mulher podem ter. Talvez até já nem se lembrasse de mim.

- Laura?!

O silêncio continuou mais um pouco, mas desta vez com uma respiração libertadora.

- Que saudades que eu tenho duma noitada assim! - disse ela.
- Compreendo!
- Lembras-te de nós? - Insistiu.
- Lembro. Claro que lembro.

E o silêncio tornou-se mais leve.

conversa 2138

Ela - Este fim de semana vou para a minha casa da aldeia. Se quiseres libertar um bocado o stress, estás à vontade para vir também...
Eu - Se calhar até nem é má ideia, por acaso. Estou a precisar de desanuviar...
Ela - Óptimo. Traz a tua mala de ferramentas, que eu comprei umas tomadas eléctricas e uns interruptores novos, muito lindos, e não tinha quem mos trocasse...

7.23.2015

pensamentos catatónicos (327)

Lembro-me duma despedida em particular. A da Sónia. Depois de um abraço prolongado, caminhei em passo apressado na direcção oposta a ela, de forma a que ela perdesse o mais rapidamente possível o ângulo de visão. Sabia que ela me observava, mas nunca me virei para trás. Era como se a despedida só acabasse efectivamente ali, naquele momento em que me deixasse de ver.
A ânsia para terminar a despedida foi maior do que a vontade de a ver uma última vez.
Como é que um homem pode conseguir desapaixonar-se durante uma caminhada de trinta ou quarenta metros? Não pode. Normalmente apaixonamo-nos num segundo, desapaixonamo-nos num ano.
Nunca acreditei em rápidas e limpas despedidas de um Amor. Depois de virar a esquina e de deixar de ser visto, os meus passos tornaram-se fracos e inconsequentes. Foi como se o meu corpo contrariasse em ditadura a minha vontade. Parei no conforto da cegueira. Imaginei-a ainda à porta, com as mãos a ampararem-se uma à outra, ainda a olhar para o vazio que eu tinha deixado para trás.
Recuei alguns metros até à esquina, só para a espreitar secretamente, mas afinal ela já não estava lá. A porta estava fechada e a casa envolvida num manto de silêncio.
Normalmente apaixonamo-nos num segundo, desapaixonamo-nos num ano. Durante esse ano, convém estarmos apenas connosco.

7.22.2015

coisas que fascinam (181)

Aguarela

Às vezes dou por mim cinzento, que é mais ou menos o mesmo que dizer triste. Tenho andado assim e, não acreditando em coincidências, estes dias de Verão  parecem concordar comigo no tom com que se vestem.
Tenho um truque muito simples para este dias. Lembro-me constantemente de como a tristeza tem a mania de se alternar com a felicidade, o que me permite pintá-los parcialmente com uma outra cor qualquer. Apesar do cinzentismo, o meu fim de tarde foi uma espécie de aguarela em que um ténue brilho verde desafiou os tons mais escuros.
Reparo então naquilo que o enorme tamanho do Amor costuma fazer parecer mais pequeno. Um abraço, por exemplo, e dou-me conta de que sei porque é que o mundo ainda não acabou. As pessoas abraçam-se mesmo em dias cinzentos.
Um abraço é sempre mágico. Nem que seja apenas por um momento, consegue transformar o maior do crentes monoteístas num existencialista convicto. Naquele momento, é a existência que interessa e se celebra, a enorme e improvável sorte de, na imensidão espacial e temporal do Cosmos, podermos ter um momento em que somos genuinamente abraçados.
Apercebemo-nos de que a vida nos faz falta, de que os amigos e amigas nos fazem falta, de que um copo de vinho branco nos faz falta, de que, enfim, a vida toda nos faz falta, incluindo aquela que é cinzenta, porque nos faz falta o toque dos outros.
Eu, ateu e agnóstico convicto, sou crente na aguarela de um abraço, do toque duma mão, do Amor físico e do beijo. E porque hoje um abraço me salvou, queria dedicar estas linhas a uma amiga que me salva sempre que eu sei que ela existe.

7.21.2015

conversa 2137

Ela - O que é que andas a ler neste momento?
Eu - Nada.
Ela - Nada?! Não tens nenhum livro na mesa de cabeceira?
Eu - Não tenho mesa de cabeceira.
Ela - Como é que consegues?
Eu - É fácil. Basta não ter.
Ela - Como é que consegues andar sem ler?
Eu - É fácil. Basta não ler.
Ela - Não se consegue falar contigo...
Eu - Também é fácil. Basta falar...
Ela - Ui! Depois telefono-te, está bem? Tchau!

não quero saber!

Quero escrever sobre o Amor, mas é como se não me chegasse a coragem para o fazer. Cansa-me a merda do Amor calculado, porque também me cansa a vida programada. E por aqui, talvez não exista uma única mulher que possa gostar de mim a sério. Mesmo a sério, digo eu.
Ou se calhar existe só uma. Sei lá.
Passamos a vida a abdicar da vida em nome da vida, sem percebermos que estamos a abdicar de nós mesmos, incluindo do nosso Amor, em nome duma outra coisa que nos permite respirar, mas não nos permite viver.
Já não nos apaixonamos por ninguém, mas sim pelo que alguém representa, mesmo que isso represente o nosso fim. Então que se foda! Digo eu.
Fiquem vocês com a merda do Vosso sucesso, da merda a que chamam pragmatismo e empreendedorismo. Privatizem-se à Economia e ao pouco tempo que têm para viver para além de um trabalho humilhante e que vos toma até os cinco minutos de pausa ao almoço. Fiquem com isso tudo, mas não me levem com vocês. Até podem ficar com os fins de semana que só servem para recuperar da vida merdosa e fria que têm. Só para vocês. Eu estou noutra, ou então não estou.
Isto chama-se capitalismo. Não se chama Amor... e eu não faço parte.

7.20.2015

coisas que fascinam (180)

Lembro-me de uma árvore.
Não imagino quantas, mas passei imensas horas debaixo dela, normalmente a escrever textos soltos nas páginas em branco dum caderno barato. Às vezes pegava numa folha outonal, caída no chão, e decalcava-lhe os contornos com a minha esferográfica roída numa das pontas. Nunca percebi porque é que o fazia, mas talvez esses desenhos toscos fossem a construção duma memória muito específica de que, na altura, eu precisava.
A M. sentava-se às vezes ao meu lado, nos dias em que a sorte me sorria, e ficava a falar comigo até à hora do último autocarro que a podia levar a casa. Ela não soube, mas apaixonei-me por ela nesse ano. Talvez ela se tenha apaixonado por mim na mesma altura e eu não saiba. Soube, pelo menos, que posso acreditar que sim.
O Amor tornou-se então, para mim, do tamanho dessa árvore. Entre as horas obrigatórias para almoçar e jantar em casa, as traseiras de um café onde ficava a ver os outros a jogar bilhar e um recreio de escola que sempre me pareceu território inóspito, foi ali que aprendi uma das melhores coisas que esta vida pode ter: um abraço.
Passei então a odiar os autocarros, cujo ruído singular dos travões passei a conhecer de cor. Os nossos braços desfaziam o laço em que se encontravam e ela saía a correr. Dizia sempre que a mãe a matava se ela perdesse o último transporte e eu ficava a vê-la ir, como se estivesse a caminhar para o fundo do mar.
O meu corpo ficava então órfão desse abraço de uma tarde.
Lembro-me duma árvore como me lembro de mim. Preso pela raiz ao vazio do fim dessas tardes onde aprendi que um Amor não vive sem o nó cego dum abraço.

7.16.2015

monopólio

No Amor, joga-se como no Monopólio, até porque se há Amor, o que se pretende é o monopólio do outro. Não da pessoa, mas precisamente do seu Amor.
Andamos por aí de mãos dadas, felizes como dois anjinhos, mas depois da casa Partida podemo-nos afastar de forma cruel. Às tantas esticamos a mão na Avenida Todi, em Setúbal, e ela já vai na Rua Augusta, em Lisboa.
O que é que queremos receber e o que é que estamos dispostos a dar? Quase nunca é o mesmo. É por isso que vamos vivendo de acordo com a sorte dos dados, à espera que de vez em quando os dois parem na mesma casa e tornem a fazer Amor. Na rua Ferreira Borges, em Coimbra, por exemplo.
É claro que a vida tem a mania de ser um problema para o Amor. Todos gostamos de passear por aí, de vez em quando, livres como passarinhos. E ainda bem, para que às vezes nos apeteça ir juntos para a casa Prisão.

7.15.2015

pensamentos catatónicos (326)

Eu não acredito no Amor. Acredito, no entanto, num Amor. Um qualquer, desde que seja um e não o.
Cansa-me um bocado ver o Amor constantemente comparado à pasta medicinal Couto (só os portugueses com mais de trinta e oito anos é que percebem isto). Anda na boca de toda a gente, mas não no coração.
Eu explico-me melhor. Às vezes parece-me que o Amor é estúpido. A normalidade é quem não sabe Amar fartar-se de dar lições sobre o Amor a quem sabe ou, pelo menos, a quem tenta realmente saber. Esse Amor é estúpido, sim. Mas, felizmente, resta-nos o paraíso de um Amor. Só um, aquela ilha.
Quem sabe Amar percebe que o Amor só pode ser esse, o um. E como o Amor só pode ser um, é preciso ir contra aquilo que a maioria pensa que é o Amor em geral, ou seja, uma boa bosta: "Não te separes!", "Vê se aguentas o que tens, pelo teu filho", "Olha que, se o deixas, não sei se arranjas outro...".
O Amor é conservador e aconselha sempre mal. Vai contra aquilo que é e deve ser um único Amor, uma água quente efervescente e não um lago tépido e sujo. Quando Amamos, o Amor não é nada importante. O que importa é quem Amamos de facto.
Amemos alguém com intensidade, por favor, e esqueçamos aquilo que o Amor dos que não Amam diz que deve ser. Amemos uma única pessoa, mesmo que essa pessoa seja outra no dia seguinte. Amemos alguém, menos o Amor.
Por favor.

7.14.2015

conversa 2136

Ela - Passei a manhã toda a experimentar biquínis e não comprei nenhum.
Eu - Fogo! Não havia um único que gostasses?!
Ela - Passei a manhã toda para concluir que estou gorda e que, antes de comprar um biquíni, tenho que entrar em dieta rigorosa.

7.13.2015

respostas a perguntas inexistentes (317)

Um homem leva o dedo à boca e depois às calças. Tenta tirar uma nódoa com a própria saliva enquanto segura um cigarro fumegante na outra mão. Está à porta de um café que costuma ter homens de meia idade a beber ao balcão e uma mulher mais nova a atender. Espreito lá para dentro e confirmo esse hábito.
Entro para tomar café. Sento-me numa mesa e abro as páginas de um jornal desportivo com vários dias. Não faz mal, não o vou ler. Vou só virar as páginas como quem faz outra coisa qualquer. Às vezes damos pela nossa vida assim, como se virássemos cada dia sem o ler.
O som de um televisor imperceptível disputa o ruído do café com os homens todos, que se exaltam e gesticulam enquanto falam de coisas banais como futebol ou a vida privada de alguém. Tenho a sensação, no entanto, que nenhum deles fala para quem olha, mas sim para a mulher. É por ela que eles querem ser ouvidos. Não uns pelos outros.
Compreendo-os. Há uma solidão em mim que é igual. É aquela que nenhum homem no mundo pode resolver. É preciso ser ouvido e compreendido por uma mulher, mesmo que se diga as maiores asneiras do mundo. Ela é que não compreende. Continua a arrumar copos e pratos como se não ouvisse ninguém.
É uma das coisas que o Amor nos deve dar sempre: uma resposta a uma banalidade. As respostas a coisas banais são a forma mais eficaz de matar a solidão. Isso e o sexo. São dois condimentos essenciais da vida. Quando um Amor não dá para isso, então não dá. É quando se começa a levantar a voz e a tentar tirar nódoas com a própria saliva, sempre perante alguém que arruma copos sem nos ouvir.
Levanto-me. Aproximo-me do balcão para pagar o café e a mulher, que estava de costas, vira-se e vem ter comigo. Pergunta-me se quero número de contribuinte na factura. Que não, respondo. Ela dá-me o troco e o talão. Saio.
É assim, às vezes não ouvimos os outros, mesmo sabendo que eles estão lá. Lembro-me de já ter sentido isso. Pego no telefone e ligo à minha companheira de vida. Preciso de a ouvir por dois segundos que sejam. Ela atende. Sorrio. É essa a importância duma banalidade.

7.10.2015

conversa 2135

(depois de a abraçar)

Ela - Tens que ter cuidado quando me abraças.
Eu - O teu marido é ciumento?
Ela - Não é isso. Ias-me partindo as costelas.

Não!

Para eu gostar de alguém, não basta que esse alguém goste de mim, embora essa seja uma condição sine qua non. A minha exigência é que esse alguém goste de pessoas em geral. Eu, para além de mim, ou até antes de mim, sou uma pessoa.
Lembro-me duma tarde qualquer em Lisboa, com muito calor e a cidade tão deserta quanto eu. O meu divórcio tinha sido pouco tempo antes. Talvez por isso os navios que cruzavam o Tejo me parecessem todos à deriva, como se tivessem ido ali parar apenas porque sim, sem a pressa de quem tem uma origem e um destino. Como eu.
E depois ela apareceu e perguntou-me se eu era eu.

- Sim!

Demos dois beijos e eu perguntei-me, em silêncio, se naquele dia ainda nos íamos beijar de outra forma. Não sei se ela se perguntou o mesmo. Nunca sei essas coisas, mas tendo em conta o que é um blind date é sempre legítimo pensar que sim. O meu pensamento dedutivo é que falha muito. Ela era bonita. Muito bonita.
Sentámo-nos numa esplanada qualquer e tentámos arrumar a vida, eu a minha e ela a dela, para a explicarmos como se nos estivéssemos a vender um ao outro. É sempre assim, depois com alguns sorrisos à mistura e duas ou três piadas fracas que mesmo assim fazem rir. Bebemos três cervejas cada um e depois beijámo-nos. Foi mais rápido do que eu esperava. Andar à deriva dá nisto, acidentes ocasionais num imenso mar de solidão. Ela quis saber se comigo era sempre assim.

- Não!

Depois foi o empregado do restaurante. Falador, tratou-nos como se fossemos casados há muitos anos e elogiou-nos por isso. Entrámos no jogo dele, sempre com sorrisos matreiros escondidos. Mal sabia ele que nos tínhamos conhecido nessa mesma tarde e que os nossos corpos ainda não se tinham tocado numa cama. Ofereceu-nos uma ginja no fim e perguntou-nos se tínhamos filhos.

- Sim! - disse ela.
- Não! - disse eu ao mesmo tempo.

Fomos descobertos.
Deixámos o dinheiro em cima da mesa, junto a uma conta feita na toalha de papel cheia de manchas de vinho, e saímos. Lá fora as pessoas passavam por nós, contornando o nosso primeiro abraço prolongado. Lembro-me de perceber que nunca sabemos que abraço estamos a ver, se o primeiro duma vida, se o da despedida, se um casual para impedir lágrimas. Os abraços são tão importantes...
E ela quis saber se eu queria atalhar a noite e ir já para casa dela.

- Sim!

E na noite um corpo outra vez. Um cheiro a mulher e aqueles toques que alternam entre o bruto e o suave, como o champanhe. Lisboa do lado de fora da casa dela e eu infiltrado ali, como um amante clandestino. Chamei-lhe Amor e ela deixou. Adormecemos.
Não há melhor acordar do que aquele que é simultâneo e se ri de tudo. Tornámos a arrumar a vida, não para nos vendermos mas sim para nos comprarmos.

- No próximo fim de semana, se puder ser, vais tu ter comigo... - disse eu sem calcular a abrangência do que dizia.
- Para quê?
- Para conheceres a minha vida. Os meus bares, a minha casa, os meus amigos...
- Não quero conhecer nada do teu passado. Só me interessas a partir daqui. Pode ser?

No tecto do quarto dela estava um animal qualquer com antenas e muitas patas. Talvez fosse um receptor de som escondido, um produto da tecnologia para que Lisboa espiasse a nossa conversa. Imaginei uma cidade inteira à espera da minha resposta.

- Não!

7.09.2015

conversa 2134

Ela - Fui ao ginecologista hoje e ele ficou a olhar para mim de boca aberta.
Eu - Mas porquê?
Ela - Perguntou-me se eu sou sexualmente activa...
Eu - E?
Ela - E eu perguntei-lhe se o o facto de ter sexo comigo mesma conta.

7.08.2015

pensamentos catatónicos (325)

Afastemo-nos

Quando nos acostumamos a um Amor e eles nos começa a parecer banal, a melhor coisa que temos a fazer é afastarmo-nos por um momento, para sentirmos a falta que ele nos faz.
É que quando se Ama alguém, o melhor que nos pode acontecer é sentir saudades desse alguém de vez em quando, para não cairmos no erro de pensar que é dispensável. O maior erro que se pode cometer no Amor é perceber a sua importância apenas quando ele já não está.
Quando isso nos acontece, zangarmo-nos com o Amor sem ele nos ter feito nada de especial, acabamos a fazer as pazes com as piores coisas que esta vida tem. O comando do televisor, por exemplo, para passar os canais num zapping que se quer tão rápido e insípido quanto a própria vida.
Por outro lado, se nos afastamos e a saudade não vem, ficamos esclarecidos sobre a falta que esse Amor não nos faz. Vejamos televisão então, porque certamente conseguiremos parar no melhor filme ou na melhor série. 
Afastarmo-nos por um momento é o barómetro do que somos. Também do que não somos. Afastemo-nos todos por um momento e, assim que voltarmos, ou não, aos braços de quem Amamos, o mundo estará melhor.

7.07.2015

conversa 2133

Ela - Fui para a cama com um gajo há três dias e ainda estou à espera que ele me telefone.
Eu - Queres muito que ele te telefone?
Ela - Por acaso, quero.
Eu - Já lhe telefonaste tu?
Ela - Não tenho coragem.
Eu - Porquê?
Ela - Logo no primeiro dia, eram para aí umas três da tarde, mandei-lhe uma mensagem a dizer que os homens são todos uma vergonha. Levam uma gaja para a cama e depois não dizem nada...
Eu - Hum...
Ela - Achas que o espantei?
Eu - Sei lá. A mim espantavas-me de certeza.
Ela - Opá! Estava ansiosa... Ele foi tão encantador. Fez-me o pequeno-almoço e tudo...
Eu - Fez-te o pequeno-almoço?
Ela - Sim, porquê?
Eu - É bom sinal. Eu só faço o pequeno-almoço se gosto muito da pessoa com quem passei a noite.
Ela - Fixe. Mas então porque é que ele ainda não disse nada?
Eu - Se calhar espantaste-o...

7.06.2015

pensamentos catatónicos (324)

Os homens são tão parvos.

Às vezes dou-lhe um sinal de que preciso de mais. Não sei do que é que eu preciso de mais, mas sei que deve vir dela. Talvez a mão naquele momento, talvez uma palavra. Sei lá do que preciso. E ela ri-se. Diz-me que sou inseguro e eu endireito as costas imediatamente. Depois penso: os homens são tão parvos.
Penso-o para me salvar de mim, claro. Se formos todos parvos, talvez eu tenha desculpa por sê-lo também. Resigno-me a essa gigantesca condição de parvoíce intrínseca ao género masculino e desculpo-me.
Só se pode querer uma de duas coisas, diz ela sem falar: ou segurança ou Amor. As duas não se dão juntas. Ou se Ama e se é inseguro, ou se é seguro e não se Ama. E agora?
Agora dou-lhe razão. Ela afasta-se para ir pontapear uma bola que fugiu de um pequeno campo de jogos no parque onde passeamos. Vejo-a correr e distanciar-se à mesma velocidade que o mundo todo se distancia de mim. Depois pega na bola e envia-a com um sorriso por cima da rede que enjaula um grupo de homens suados. Alguns agradecem-lhe e acenam.
Não sinto os pés, não sinto as mãos, não sinto nada. Sinto-me à deriva no espaço cósmico sem lhe conseguir chegar, como se aquele pequeno movimento fosse um adeus para sempre.
Depois ela regressa, devolve-me a mão, a vida e o chão que piso. Continua a falar e a sorrir como se não tivesse acabado de provocar um pequeno cataclismo em mim. Como se não se passasse nada. E então penso: os homens são tão parvos.
Sorrio. Desculpo a minha parvoíce com todos os outros homens do mundo.

conversa 2132

Ela - Inscrevi-me num site de dating. Desde que estou divorciada é a primeira vez que me sinto disponível.
Eu - Acho muito bem. Para mim é mais uma forma de conhecer pessoas...
Ela - O problema é que, pelo menos até agora, só me apareceram homens desinteressantes.
Eu - Desinteressantes?! Com quantos é que já te encontraste?
Ela - Nenhum.
Eu - Nenhum? Como é que decides que uma pessoa com quem nem sequer falaste é desinteressante?
Ela - Pelo perfil.
Eu - O perfil pode ser uma grande tanga. Sabes isso, não sabes?
Ela - O perfil escrito, sim, sei. Mas se não me aparece um gajo com um metro e setenta no mínimo, uns peitorais razoáveis e dois palminhos de cara, nem sequer vou tomar café...

7.05.2015

Consegues ser mais promíscuo do que um miúdo de dez anos?

Os homossexuais, bissexuais e transexuais não são, por definição, tarados sexuais que só pensam em sexo com vestimentas alegóricas, próprias do Carnaval do Rio de Janeiro. São pessoas que Amam, se apaixonam e sofrem de Amor como outra pessoa qualquer.
Estou a dizer isto por um motivo muito simples: quem assiste a uma marcha qualquer sobre o Orgulho LGBT pode pensar que sim, e é por isso que eu não dou muito crédito a essas marchas. Aceito-as, mas acho-as estúpidas porque têm um efeito contrário ao que teoricamente pretendem, ou seja, a aceitação generalizada de todas as orientações sexuais.
Vejo reportagens fotográficas e vídeo das várias marchas que recentemente se realizaram um pouco por todo o mundo (algumas, infelizmente, com intervenção policial injustificada) e vem-me à mente um programa de televisão que se poderia chamar "Consegues ser mais promíscuo do que um miúdo de dez anos?".
A promiscuidade não é exclusiva de quem não é heterossexual, mas as manifestações parecem querer fazer parecer que sim. Provavelmente, nunca ninguém ali falou com um putanheiro a sério, bom chefe de família, bebedor de Teobar e presente todos os fins de semana nos jogos do Benfica.
Por isso repito: os homossexuais, bissexuais e transexuais são pessoas que Amam, se apaixonam e sofrem de Amor como outra pessoa qualquer. 

7.04.2015

É tudo normal na ponta de um cigarro.

É tudo normal na ponta de um cigarro. Ela dá mais uma passa e diz que vai deixar de fumar assim que arranjar coragem. Fico a vê-la por um instante. Talvez seja o cigarro a fumá-la a ela, não sei bem. As mãos tremem-lhe e a pele está mais velha do que o tempo que já viveu. Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.
Uma vez, há muitos anos, estivemos apaixonados. Éramos novos e durante três dias acreditámos que ia ser para sempre. Não foi. Ao terceiro dia ela recusou-se a beijar-me e mergulhou no rio a sorrir. Lembro-me da disponibilidade da água para afogar toda a tristeza. A dela e a minha. Era a água, a mesma que agora está aprisionada dentro duma garrafa de plástico ao lado do cinzeiro usado, à espera que uma moeda de um euro a liberte. Penso no presidente da Nestlé a afirmar que os seres humanos não devem ter direito à água. O que seria de mim nessa tarde sem acesso à água? Não sei. Teria sede da vida. Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.

-  Lembras-te de nós?

 E ela abana afirmativamente a cabeça. O queixo trémulo e o cigarro a fumá-la já quase no filtro. 

-Ainda tenho a flor que me deste, seca, entre as páginas de um livro qualquer...

 Era amarela. É do que me lembro. Resgatei-a duma fenda no alcatrão da estrada e dei-lha. Senti-me um herói. A qualquer momento, o pneu dum automóvel ia esmagá-la para sempre. Assim não. Perdura no tempo entre as palavras dum livro que eu não sei qual é, mas sei que existe. É suficiente. É dum tempo em que as sementes cresciam de forma aleatória por aí, sem a Monsanto e sem o gene suicida, à espera duma morte natural. Até no chão impermeabilizado que ligava as cidades. A minha e a dela. O que seria de nós, de mim e dela, sem uma morte natural? Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.

-  Somos tão estúpidos quando somos jovens! - E acende outro cigarro.
- Somos... - Concordo sem perceber porquê.

 De toda a estupidez que já vivi, a dela foi a mais curta e feliz. O que nos sobrou de três dias foi uma vida inteira. Sem uma Economia medonha a esmagar-nos a esperança, sem uma dívida que ninguém sabe bem de onde veio, sem um governo a aniquilar uma população inteira e a perpetuar o cadáver de um jogador de futebol. Éramos só nós, a gostar imensamente da vida e de um rio por três dias. Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.
Ela é bonita. Ainda, digo eu. Às vezes olha-me de lado, como se tivesse medo de enfrentar o passado, e eu percebo porque é que gostei dela. Era bonita, sorria, mergulhava na água e guardava as flores silvestres que eu lhe dava. Para sempre, diz ela, como se isso existisse. E o cigarro a fumá-la.
Ao vê-la a ela vejo um mundo inteiro que acabou, onde todos perdemos a mais óbvia das coisas: o direito a ser feliz por três dias. Não faz mal. É tudo normal na ponta de um cigarro.

7.02.2015

respostas a perguntas inexistentes (316)

o Amor por decreto

Todos desconfiamos, desde sempre, da capacidade que temos de Amar para sempre a mesma pessoa. Por isso é que inventámos o casamento, para nos obrigar a fingir que Amamos alguém mesmo quando esse Amor já acabou. 
Talvez a igreja católica romana tenha sido a primeira a perceber isto. De tal forma que nos diz que mentir é feio e depois nos põe num altar a prometer que vamos Amar para sempre o mesmo. Enfim, cria-nos uma armadilha da qual é difícil sair.
Torna-se proibido Amar para além do casamento e, ainda mais importante, torna-se impossível a felicidade.
Embora desconfiado, eu acredito que posso Amar para sempre a mesma pessoa, desde que ninguém me obrigue a fazê-lo. Se me sentir obrigado, nem que seja por uma questão de libertação pessoal, tentarei Amar outra. Libertar-me-ei das amarras do Amor por decreto.
É esse o grande erro da nossa civilização: o Amor por decreto. Torna-nos tristes, controláveis, zangados.

7.01.2015

respostas a perguntas inexistentes (315)

Vem do zero

Detesto quando isto me acontece. Faltar-me a voz. Não é bem a voz, mas sim as palavras. Todo o léxico e a semântica dele possível. Mas acontece, especialmente quando tenho tudo para dizer.
É que quando não tenho nada sai-me sempre qualquer coisa. Aliás, é quando me sai mais depressa. Não ter nada para dizer é uma das situações mais confortáveis que podemos ter. É o desfrute total, criar seja o que for a partir do zero.
O Amor é uma coisa parecida. Sempre que nos apaixonamos, essa paixão já foi igual a coisa nenhuma. Às vezes até nos apaixonamos por quem não conhecíamos alguns segundos antes. O que não era nada passa a ser tudo.
Cada vez que nos beijamos, que damos as mãos, que temos sexo, que encostamos a cabeça no ombro do outro, que sentimos saudades, que sentimos ciúmes, que dividimos um chocolate ou ar que se respira, podemos ter a certeza que fizemos tudo a partir do nada.
É por isso que o Amor não se explica. Vem do zero.


6.30.2015

conversa 2131

Ela - Tive um sonho erótico contigo.
Eu - Tiveste?! Fixe!
Ela - Não foi assim tão fixe. Na verdade, acordar foi um alívio.

6.29.2015

conversa 2130

Ela - Sempre acusei o meu marido de ser demasiado ciumento.
Eu - E é?
Ela - Era. Agora já não é.
Eu - Então já não o acusas...
Ela - Não... agora acuso-o de não ter ciúmes nenhuns.
Eu - É um bocado estranho.
Ela - Não é nada. Os ciúmes excessivos atrofiavam-me a vida completamente. Não podia falar com homem nenhum que ele pensava logo que havia um clima qualquer de engate.
Eu (risos)
Ela - Agora nunca demonstra ciúmes. Acho que já não gosta de mim...
Eu - Então... queres que ele seja ciumento ou não?
Ela - Quero um meio termo, pá.

devíamos ter tido sexo!

Lembro-me dela a ver as letras de romances intermináveis. Não sabia ler, mas virava as páginas uma a uma como se percebesse o sentido de cada página, de cada frase, de cada palavra. Talvez percebesse mesmo, porque no silêncio deve existir um sentido qualquer.
Uma vez levantei a voz para simular o roncar do motor de um pequeno carro de rali que os meus pais me tinham oferecido no Natal e ela pediu-me silêncio. Encostou o dedo indicador aos lábios e depois apontou para o livro aberto nas próprias pernas.

- Chiu...

Nunca conheci o pai da Susana. Na verdade, creio que nunca existiu. Talvez tenha morrido quando ela era ainda bebé, talvez tenha emigrado. Não sei. Sei que um dia perguntei-lhe por ele e ela limitou-se a abanar os ombros.

- Não está cá!

Restava a mãe, a senhora que lia livros sem saber ler, enquanto nós fazíamos corridas com miniaturas de automóveis numa sala alcatifada a vermelho. A Susana não tinha bonecas nem cozinhas de brincar, mas tinha um grande balde de blocos de construção e outro com muitos carrinhos. Eram brinquedos tipicamente masculinos, o que ainda me fazia estranhar mais a ausência de um pai, mas talvez tenha sido por isso que ficámos tão amigos. Pelos brinquedos e pela ausência do pai.

- A tua mãe assustava-me um bocado!

E a Susana sorriu. Muitos anos depois reconheci-a, primeiro pelos gestos, depois pela fisionomia. Estava a ler um romance qualquer na mesma posição da mãe, que fechou para me abraçar deixando o dedo indicador a marcar a página.
Bebemos alguma cerveja juntos, onde as nossas memórias de infância flutuaram vindas bem do fundo. Depois percorremos a cidade de mãos dadas, na expectativa de afogar essas recordações e de ver nascer um presente ou um futuro em nós, o que não aconteceu. O abraço com que nos despedimos foi um pouco menos intenso do que aquele com que nos reencontráramos nessa mesma tarde. A nossa amizade morria assim, tão devagar quanto possível, entre duas cidades e dois abraços diferentes. 
Esta semana, vinte anos depois desse segundo encontro, tomámos um café entre essas duas cidades. Ela apareceu com um livro que podia ser o mesmo da segunda vez e o mesmo que a mãe lia quando éramos crianças. Contei-lhe a nossa própria história, mais ou menos como contei até ao parágrafo anterior.

- Devíamos ter tido sexo!

Sorriu.

6.28.2015

respostas a perguntas inexistentes (314)

Lembro-me frequentemente da mulher que Amei mais tempo nesta vida. Depois de um Amor chegar ao fim, as lágrimas vão-se dissipando como uma tempestade que se afasta para lá da linha do horizonte e ficam apenas as lembranças boas. Às vezes, por exemplo, um simples abraço.
Sei que nos tornamos em algo diferente daquilo que nascemos. Uma quantidade quase infinita de acontecimentos vai-nos moldando a vida durante a vida, como um oleiro faz uma peça de barro, e no fim é isso que nós somos: uma peça de barro que nunca está terminada.
Os Amores que vivi contribuíram todos, definitivamente, para essa peça tortuosa que vou sendo. Esse Amor de que me lembro tantas vezes, sei eu a importância que teve. Muita, como todos os Amores têm. É essa a maior herança de qualquer história de Amor, a forma como nos esculpe.
É por isso que não há histórias de Amor pouco importantes. Quando Amamos alguém, em tudo o que fazemos, mas tudo mesmo, devemos ter a noção de que estamos a tornar definitivamente uma pessoa melhor... ou pior.
Os Amores que acabaram nunca são apenas passado. Metamorfosearam-se também naquilo que somos e tornaram-se, por isso, presente.

6.26.2015

é de manhã que se começa o dia!

Há uma razão para o sexo ser melhor aos quarenta do que aos vinte. As mulheres têm esta capacidade de, muito pacientemente, irem ensinando os homens a fazê-lo. Ensinam-lhes, essencialmente, que o sexo é diferente de arrumar carrinhos de compras nos hipermercados. Não é preciso bater no fundo várias vezes como se não houvesse amanhã.
Numa vida a dois, um dos problemas de acordar depois da mulher é que quando se acorda ela já não está na cama. Acordou antes, com bastante energia e vontade de aproveitar o Sol de Verão. Até já foi à rua tomar o pequeno-almoço e comprar pão enquanto ele ressonava mais um bocado.
Um dos problemas de acordar antes da mulher é não conseguir aproveitar a manhã, mesmo que se acorde com a genica toda. Por opção, fica-se à espera que ela acorde também. Afinal de contas, não há melhor despertar do que aquele que vem com sexo. 
Esta tendência parte do facto de ambos precisarem de certezas no Amor, mas as mulheres encontrarem-nas mais facilmente do que eles. Enfim, elas usam mais o cérebro. Um beijo, uma palavra ou uma mão dada são certezas para uma mulher. Para um homem, certeza, certeza é a caminha.
A quantidade de vezes que um homem acorda depois da mulher e ela volta para a cama para andar às cambalhotas, assim como a quantidade de vezes que um homem acorda antes e não espera muito tempo para que ela se envolva nos braços dele, indicia saúde no Amor.
Afinam de contas, é de manhã que se começa o dia!

6.25.2015

conversa 2129

(em casa dela)

Eu - Está tudo bem contigo? Pareces esquisita...
Ela - Não, obviamente que não está tudo bem comigo.
Eu - O que é que se passa?
Ela - Desculpa. Não me apetece mesmo falar disso agora. Preciso ficar sozinha...
Eu - Tudo bem, também só passei para te entregar os livros. Vou indo. Se precisares de alguma coisa, telefona.
Ela - Vais-te embora?! Vês-me assim e vais-te embora?!
Eu - Não disseste que querias ficar sozinha?
Ela - Disse, mas é claro que preciso desabafar com alguém...
Eu - Como é que ias desabafar com alguém ficando sozinha?
Ela - Não percebes mesmo nada...
Eu - Pois não...
Ela - Eu preciso ficar sozinha, a não ser que alguém insista para ficar comigo. Senão vou ficar com a sensação que me está a fazer um favor.
Eu - Hum...
Ela - Agora estragaste tudo. Podes ir...
Eu - Pronto. Tchau, então.
Ela - E vais mesmo embora?!
Eu - Não sei. O que é que queres que eu faça?
Ela - Quero que fiques comigo sem eu ter que te pedir. É pedir muito?
Eu - Está bem, mas então não me mandes embora.
Ela - Deixa lá. Vai mas é embora. Às vezes é mesmo melhor ficar sozinha.

6.24.2015

respostas a perguntas inexistentes (313)

Existe a pessoa que Amamos. Depois existem as pessoas que nos apetece Amar. O que mais distingue uma coisa da outra é sabermos que só podemos Amar uma pessoa de cada vez. O Amor é um espaço onde não cabem três.
É também por aqui que se distingue um primeiro Amor de um segundo. A primeira vez que nos apaixonamos, não acreditamos que vão existir pessoas que nos apetece Amar para além da pessoa que já Amamos. Quando nos apercebemos que afinal não é assim, às vezes ficamos desiludidos com o Amor para não ficarmos desiludidos connosco.
A segunda vez que nos apaixonamos é diferente. Já sabemos que aquela pessoa é uma escolha entre todas as pessoas que nos apetece Amar. É isso que torna o segundo Amor mais consistente do que o primeiro. O primeiro Amor é uma certeza, o segundo é uma escolha. As escolhas costumam ser mais certas do que as certezas.
Não estou a dizer que os segundos Amores não acabam. Claro que podem acabar, até porque as nossas escolhas erram tanto quanto nós próprios. Até um terceiro, um quarto ou um quinto Amor pode acabar. Não interessa. Sabemos que se acaba não foi o Amor que falhou. Fomos nós.
O Amor nunca falha. É por isso que vale sempre a pena tentar.

6.23.2015

lixo

Aveiro, dia muito quente e as árvores vestidas de cor. Fazem-me confusão.
A minha tendência é vestir-me quando tenho frio e despir-me quando tenho calor. No Verão quente as árvores vestem-se, no Inverno frio despem-se. A natureza é irónica.
Acabei de me analisar, a mim e ao que visto, no reflexo da montra duma pastelaria venezuelana. Sou grande e corpulento, mais do que gostaria. Encolhi a barriga uma série de vezes para gostar mais de mim, até perceber que algumas pessoas lá dentro me olhavam entre sorrisos e curiosidade. Afastei-me.
O Verão é um segredo.
No passeio há garrafas de vinho e de cerveja vazias, espalhadas um pouco por toda a parte. Uma mulher varre da rua esses despojos do dia anterior, pacientemente, colocando-os num carrinho verde onde se dá a mais bela das mortes. A do lixo. É o lixo que me faz lembrar que a vida não é só isto, um passeio solitário por ruas desertas.
Apetecia-me dar a mão a uma mulher. Aliás, percebo agora porque é que as pessoas que se Amam dão as mãos. É para se encherem. As mãos são as mangueiras da vida quando nos sentimos vazios. E eu estou vazio.
Amar é difícil por causa da saudade permanente. Há uns dias, num passeio semelhante, disse-me que conheço mulheres mais fáceis de Amar do que aquela que Amo. Depois respondi-me. A facilidade no Amor significa sempre Amar menos.
Não quero. O Amor intenso é sempre difícil. Tem que o ser para ser Amor.
Dou um pontapé numa lata de cerveja vazia que acorda, com um ruído estridente, o silêncio sepulcral da manhã. Foi sem querer. A mulher que ainda varre o dia anterior olha para mim. Apanho a lata e dou-lha.

- Bom dia! - diz ela.
- Bom dia! - respondo.

 E de repente sou outro.

6.22.2015

pensamentos catatónicos (323)

Da dificuldade de género

Há mulheres que pensam que os homens são fáceis. Pensam que basta estalar os dedos para levar um para a cama. São parvas, até porque aquilo em que acreditam é a mais pura das verdades. A única excepção à regra são elas mesmas.
Os homens são fáceis, a não ser que sejam tratados como tal.
Há homens que pensam que as mulheres são difíceis. Pensam que é preciso este mundo e o outro para levar uma para a cama. São parvos, até porque aquilo em que acreditam é a mais pura das verdades. A única excepção à regra são eles mesmos.
As mulheres são difíceis, a não ser que sejam tratadas como tal.
A delícia da sedução pode passar por aí: um homem fácil a  mostrar-se difícil e uma mulher difícil a tentar ser fácil. Nesse caso, ele dar-lhe-á este mundo e o outro até ela estalar os dedos.
O Amor é tão difícil, não é?

6.20.2015

respostas a perguntas inexistentes (312)

Nunca percebi a necessidade de esquecer um Amor que terminou. Se for pelo sofrimento, então o melhor é mesmo lembrá-lo, dele e dos bons momentos que teve. Esquecer um Amor é pegar numa parte importante da vida e mandá-la directamente para o lixo.
Se nos esquecêssemos de tudo o que já deixou de existir, as nossas cidades não tinham estátuas nem grafítis a embelezar as ruas. Um passado Amoroso embeleza-nos a nós. Esses momentos de felicidade que vivemos  são as estátuas e grafítis da nossa vida, que a nossa memória pode e deve admirar sempre que dá um passeio pelo passado.
As melhores cidades são aquelas que têm um passado bem vivido, com monumentos que nos deixam imaginar um bocadinho do que ali já se viveu. As pessoas também.

6.18.2015

conversa 2128

Ele - Já não gosto da minha mulher, mas não lho posso dizer. Todos os dias de manhã me despeço dela com um beijo e digo-lhe que a Amo, mas é mentira...
Eu - Não lho podes dizer, porquê?
Ele - Acho que ela põe logo fim ao nosso casamento.
Eu - Se já não gostas dela, qual é o problema?
Ele - Não sei muito bem. Não gosto dela, mas também não me quero separar.
Eu - Hum... okay... não sei que te diga.
Ele - Acho que é, principalmente, porque não a consigo imaginar com outro.
Eu - Se se separarem, o mais certo é que ela tenha outro e tu outra. Isso é normal...
Ele - Pois, mas enquanto eu não tiver outra, não quero que ela tenha outro. O melhor é eu arranjar outra primeiro e depois digo-lhe.

preconceituoso australopiteco e homossexual não assumido

Sou heterossexual. Sempre fui. Não tenho nenhum orgulho nisso. É apenas o que sou, resultado duma equação que envolve biologia, cultura e uma vida inteira. Fruto do que sou, são sempre mulheres que me fazem rir ou chorar de Amor e é por isso que, numa tentativa de me reconhecer ao espelho, às vezes mais séria, outras vezes menos, fiz um blogue chamado "Não Compreendo As Mulheres.
Estava triste, quando o criei, por causa duma mulher. Neste momento estou feliz por causa de outra. O futuro não sei como será. Tento não pensar nele.
Só estou a escrever isto porque recebi um comentário anónimo que, entre outras coisas, me chama um "preconceituoso australopiteco e homossexual não assumido" (sic).
Já que falo nisto, não sou homossexual nem, se o fosse, teria um orgulho muito especial por sê-lo. Também não teria vergonha. A orientação sexual de cada um é apenas uma característica que não determina nada de importante. Fico à espera, apenas, que um dia destes as pessoas deixem de pensar nisso como um bicho de sete cabeças e consigam ter uma vida sexual e amorosa sem macaquinhos na cabeça. A não ser, claro, que os macacos na cabeça façam parte dum fetiche qualquer.

6.17.2015

coisas que fascinam (179)

Um dia casámos

A primeira mulher que me declarou Amor partilhava, às vezes, um baloiço comigo. Disse-me que gostava de mim, deu-me a mão e levou-me para um dos bancos do recreio da escola onde me disse que um dia íamos casar. Eu aceitei imediatamente. Éramos apenas crianças e pouco sabíamos do que viria a ser o Amor quando crescêssemos. Talvez, por isso, tenha sido a declaração de Amor mais genuína que alguém me fez na vida.
Nunca casámos.
É verdade que eu não sabia nada de Amor ou de paixão. Muito menos de sexo. Tudo o que aprendi veio depois desse primeiro estranho suspiro. Aprendi tanto, mas tanto, que hoje posso dizer claramente que sei ainda menos. Menos do que nada, portanto. O Amor sempre teve essa condicionante de se esconder com a sabedoria.
Com os anos, esse primeiro suspiro apagou-se e deu origem a outros, não mais fortes mas, pelo menos, bastante diferentes. A segunda declaração de Amor da minha vida partiu de mim e não dela. Coincidência ou não, era uma rapariga fisicamente parecida com a primeira. Do alto dos meus doze anos repeti a única receita que conhecia e disse-lhe que um dia íamos casar. Ela riu-se, pôs a língua de fora e saiu a correr.
Nunca casámos.
Talvez tenha sido a primeira conclusão que tirei sobre homens e mulheres. Quando uma mulher declara Amor, é uma ordem; quando um homem declara Amor, é um pedido. Conclusão que, diga-se de passagem, veio a revelar-se verdade.
Aprendi a não fazer declarações de Amor.
Estar apaixonado passou a ser pouco mais do que esse suspiro inconsequente que herdei de menino, um suspiro capaz de se transformar no mais forte dos ventos, mas que guardei sempre para mim como se guarda um tesouro. E foi assim que passei a adolescência apaixonado em segredo, dividido entre cartas de Amor que nunca foram lidas e respostas imaginadas que nunca foram escritas. Às vezes via-lhe os cabelos a dançar nos ombros e acreditava que era com o vento da minha respiração. Foi o mais perto que estive de declarar Amor, pela terceira vez, àquela que nem dava pela minha existência.
Um dia, muito mais tarde, casámos.

6.16.2015

Ainda me Amas?

Chegou o dia em que duvidei do Amor, até porque tudo parecia estar bem.
Acho que começou no espelho do elevador, logo de manhã, onde me vi mais gordo, mais cansado e mais feio. Perguntei-me a mim mesmo se ainda me Amavas, mas sacudi rapidamente a resposta que eu não queria ouvir do pensamento, exactamente como um cão expulsa a água do corpo depois de se molhar. Abanei a cabeça num gesto rápido.
Não tenho culpa se pouco tempo depois, enquanto esperava que o semáforo para peões mudasse para verde, uma mulher ao meu lado repetisse várias vezes seguidas que o marido dela era um inútil. Estava a falar ao telefone e ia dizendo: "Deixa lá! O meu marido é um inútil". "Será que ainda me Amas?", perguntei-me.
Era já noite quando me lembrei das nossas férias na Argélia. Os cafés da cidade só tinham homens e algumas, poucas, mulheres conversavam em segredo nas portas e varandas dos prédios. Durante alguns minutos espreitei pela janela do maior café da avenida, onde todos acompanhavam um jogo de futebol qualquer. Ninguém parecia preocupado com o Amor, muito menos com a falta dele.
À noite fui ter contigo.

- Ainda me Amas?

Não me respondeste. Fodemos, depois ligaste a televisão e viste meio episódio da novela. Ainda bem. Se me tivesses respondido que sim era porque já não me Amavas. 
Adormeci ao teu lado.

6.15.2015

dos Amores antigos

Todas as coisas antigas, a que às vezes até gostamos de chamar vintage, já foram simplesmente velhas. A antiguidade é a boa nova de que nada precisa de acabar na sua própria velhice, nem sequer o Amor.
Pensei nisso hoje, quando vi dois turistas nórdicos a fotografar umas casas de pescadores no bairro da Beira-Mar. São casas pequenas, revestidas de azulejos cuja cor se foi apagando com o sopro do tempo. São casas que despertam a curiosidade de quem passa por elas, pelo que aparentam ter sido e albergado. Lembro-me delas desde sempre. Eram apenas casas velhas que, apenas por dedução, eu sei que já foram novas.
Uma relação entre duas pessoas também passa de nova a velha, às vezes mais depressa do que elas mesmas. Envelhece assim que o tempo lhe tira a cor e o que se observa são apenas gestos gastos e usados. É o Amor que pode transformar uma relação velha numa Paixão vintage.
Fiquemos assim: existem desAmores velhos e Amores antigos. É nestes últimos que, tal como a uma casa qualquer, todos os dias olhamos para quem está ao nosso lado e suspiramos de espanto.

6.12.2015

um adeus para sempre

É verdade que o Amor é uma disciplina como outra qualquer em que se aprende com a vida. É a vida que nos diz que o Amor não chega ou, como eu prefiro dizer, que o Amor não é só gostar e estar apaixonado. É muito mais do que isso, pelo menos quando pretendemos entrar no frágil equilíbrio das cedências e exigências.
Que espaço devemos dar a quem Amamos e que espaço devemos exigir para nós e para ambos? Não sei. Sei que, numa relação, só muito raramente duas pessoas estão de acordo nesta matéria, matéria essa que se vai aprendendo quase sempre tarde demais.
Lembro-me duma mulher a quem todos os dias eu não dizia nada. Sei muito bem que há muitas mulheres a quem nunca digo nada, mas esta era por opção. Sentávamo-nos todas as manhãs num café do Porto, frente a frente, a tomar o pequeno-almoço. Trocávamos olhares, sorrisos, às vezes até cheiros e compreensão. Nunca trocávamos palavras, nem sequer a que tem o nosso nome ou deseja um bom dia ao outro.
Obviamente apaixonei-me por ela, porque o mistério é sempre apaixonante. Obviamente passei a conhecer-lhe pequenos gestos e vícios. A forma como lia o jornal de trás para a frente, para no fim o dobrar em dois sempre com a capa para dentro, como se quisesse esconder as vergonhas do mundo que tinha acabado de ler. Bebia sempre um galão num daqueles copos que vêm dentro duma armação metálica e comia meia torrada com pouca manteiga. Às vezes, e esse gesto surpreendia-me sempre, penteava-se no reflexo dum espelho ferrugento. Surpreendia-me, porque parecia-me sempre renovada quando o fazia, como se tivesse acabado de beber um pouco de água da Fonte da Juventude.
Por falar em Fonte da Juventude, teria provavelmente mais uns vinte anos do que eu, ou seja, mais ou menos a idade a idade que eu tenho agora. Vivi naquela relação matinal e silenciosa durante alguns meses e passei a pensar nela como parte da minha vida. Se num ou noutro momento ela se atrasava e não aparecia, eu tornava-me ansioso e triste. Sofria.
Nunca soube o nome dela, nem ela o meu, mas senti-lhe os lábios no dia em que ela se levantou e me disse que era a última vez que nos víamos. Beijou-me. Ia atravessar o Atlântico de regresso a casa. Só aí é que eu soube que era brasileira, apesar do seu português europeu. Despediu-se no seu jeito tímido de todos os empregados e, já na porta, tornou a dizer-me adeus.
Um adeus para sempre.

P.S.: Este fim de semana é o WFC - Out Of Love

6.11.2015

conversa 2127

Ela - A minha vida sexual é muito melhor agora, que estou divorciada, do que quando era casada.
Eu - Não digas isso ao teu ex-marido.
Ela - Já disse.
Eu - Disseste?
Ela - Claro. Foi a primeira coisa que lhe disse. Ainda nem tinha levado nenhum gajo para a cama e já lhe tinha dito.
Eu - A que propósito?
Ela - Para lhe baixar a auto-estima, claro.
Eu - E acreditas que lhe baixaste mesmo a auto-estima?
Ela - Tenho a certeza. Os homens são tão totós que até dá dó.
Eu - Totós?!
Ela - Sim. Levas um gajo para cama e no fim dizes-lhe que ele foi o melhor de sempre. A auto-estima dele sobe em flecha imediatamente. O contrário também acontece...
Eu - Se ele acreditar...
Ela - Acredita sempre, por isso é que digo que os homens são uns totós. Uma mulher diz-lhes que eles são os melhores na cama e eles acreditam... (risos)
Eu - Mas mentes muitas vezes?
Ela - Minto sempre. Quando digo a um homem que ele foi o melhor na cama é sempre por pena. Normalmente é porque até é um gajo simpático e esforçado mas... pronto, coitado. Não dá mais...
Eu - As mulheres são todas assim?
Ela - Acredito que há muitas assim. Já alguma te disse que foste o melhor na cama?
Eu - Pois... euh... nem sei bem...
Ela - És um totó!


P.S.: Este fim de semana é o Out Of Love na Pensão Amor, em Lisboa...

6.09.2015

respostas a perguntas inexistentes (311)

A morte lenta do Amor

Quando um Amor acaba é sempre triste, mas a maior tristeza não é o seu fim. É a sua morte lenta. O Amor devia morrer como se morria no velho Oeste, com um tiro na nuca e um cadáver no chão. Mas não. Tem a mania de morrer como um náufrago num dia de Verão. Desaparece lentamente numa praia qualquer e esperam-se dias, às vezes meses ou anos, para que o mar devolva o corpo já em decomposição.
É a morte lenta do Amor, aquela em que vida perde o sabor e não há tempero que lhe valha. Acontece no exacto momento em que deixamos de conseguir imaginar a vida sem o outro. A vida não merece isso, o outro também não. E o sexo torna-se um hábito gasto e mecânico tanto quanto outro momento qualquer.
O que um primeiro grande Amor nos ensina é a preservar o segundo, se conseguirmos perceber que o que falhou não foi o outro. Foi tudo, principalmente o dia-a-dia. Se todos o sabemos, porque é que nunca o dizemos? Não sei.
Sei que vivo a maior parte do meu tempo sozinho e que neste momento me dou ao luxo de estar numa sala desarrumada só por mim. Tenho as calças de ganga que trago a uso atiradas num dos sofás, uma pilha de livros que já li espalhada pelo chão e um copo de vinho vazio em cima duma cadeira que precisa de ser colada.
Daqui a nada pego no copo e vou à cozinha enchê-lo. Daqui a uns dias pego na minha saudade e vou a casa da minha companheira beijá-la. Vivo sempre com saudades dela e quero manter-me assim, saudoso. É a mesma saudade que tenho de encher o copo, porque o Amor que tenho por ela me embriaga da melhor maneira. Sem ressaca.
O que um primeiro grande Amor nos ensina é a preservar o segundo, repito. Sei que quando a saudade morre, o Amor morre a seguir. Mantenhamos a saudade para manter o Amor. Se todos vivêssemos bêbados, o mundo era melhor.


6.08.2015

que não me faças sofrer por ti

É um alívio saber que um grande Amor de hoje pode ser apenas uma vã lembrança amanhã, mas é um alívio ainda maior percebermos que às vezes pensamos que um Amor é grande quando, de facto, não é.
Os grandes Amores são aqueles que se vivem, não aqueles que apenas se querem viver. Quando sofremos por um Amor que nunca o chegou a ser, aproveitemos a dor, que será tão passageira quanto não foi esse Amor.
Quando sofremos por um Amor vivido, aproveitemos essa espécie de Amor que nos faz sofrer sem ter razão para isso.
Eu, agora que disse isto, peço-te que não me faças sofrer por ti.

wfc.pt

6.05.2015

coisas que fascinam (178)

A mulher errada

No Amor nunca encontramos a pessoa certa. Apaixonamo-nos sempre pela pessoa errada. O Amor não é muito mais do que uma sucessão de erros até que, errantes, nos maravilhamos com o maior dos erros: outra pessoa qualquer. Ainda bem. 
Quando ouço um homem dizer que não se separa porque encontrou a mulher certa, nunca acredito. Logo a seguir vem uma enxurrada de adjectivos e características que justificam que aquela é mesmo a mulher certa. Ela é trabalhadora, ela é corajosa, ela é isto e aquilo. O Amor nunca se deu com tanto calculismo e, normalmente, não estamos a tentar convencer mais ninguém senão a nós mesmos.
O Amor dá-se no erro. Ao virar duma esquina, numa reunião de trabalho ou numa noite de copos, quando gritamos em silêncio que estamos apaixonados e o coração substitui o cérebro no comando do corpo. O Amor dá-se quando erramos uma vez e nos apetece continuar a errar, cada vez com mais intensidade e profundidade. 
Eu sei que tu és o maior do erros. Vem comigo para casa que eu quero-te toda. Assim, errante!



6.04.2015

conversa 2126

Ela - Pela primeira vez na minha vida acho que preciso de um amante.
Eu - Então?!
Ela - A minha relação anda tremida e acho que um amante até podia ajudar a salvá-la...
Eu - E porque é que queres salvar uma relação tremida?
Ela - Tenho três filhos.
Eu - Ah! De qualquer forma não te posso ajudar. Estou apaixonado...
Ela - Também não queria a tua ajuda. Já te disse uma vez que tenho a sensação que darias um bom marido e um péssimo amante.
Eu - Não considero isso um elogio.
Ela - Não é.

wfc

6.03.2015

respostas a perguntas inexistentes (310)

Do toque da mulher

O toque da mulher que se Ama é um sopro num balão, sendo que o balão somos nós, os tocados. Ficamos cheios de qualquer coisa que não sabemos muito bem o que é, mas que nos torna mais leves, às vezes com capacidade de esvoaçar.
Entre dois toques vamos esvaziando rumo ao estado murcho que nos torna intocados tristes. As mulheres sabem, mas fingem não saber, que os homens são assim. Jogam com eles o jogo do toque como se joga com um brinquedo qualquer.
Uma mão dada enche-nos o suficiente para alguns minutos, um beijo para algumas horas e o sexo todo para alguns dias. É o sexo todo que almejamos quando nos dão a mão, como um balão que precisa de vários sopros seguidos, cada vez mais fortes.
Estes sopros estão para nós como a respiração boca-a-boca para alguém que está quase a morrer. Salvem-nos a vida, por favor. A morrer, que seja por rebentar e não por ficar murcho.
Nenhuma mulher devia dizer adeus ao homem que a Ama sem lhe dar um abraço também; nenhuma mulher devia despachar o homem que a Ama com um "vai-te, vai-te que eu estou com pressa", sem um beijo na boca em que o tempo não conte; nenhuma mulher devia virar costas a um homem sem um "apalpanço" no rabo ou uma língua húmida na face. 
O toque da mulher que se Ama é o princípio da vida. O contrário é a morte.


6.02.2015

respostas a perguntas inexistentes (309)

Da inteligência que o faz ser estúpido

A mulher sabe que a beleza acaba. Pensa nisso todas as manhãs, quando se vê ao espelho da casa de banho e repara que está com os cabelos desgrenhados e com uma ou outra ruga. Às vezes até uma branca. Penteia-se durante alguns minutos e o pensamento dela centra-se no tempo que passa.
O homem também acorda, coça os tomates e, quando a vê pentear-se, o pensamento centra-se sempre na presente beleza dela. É boa. O futuro não interessa.
Neste aspecto, o homem sempre teve a inteligência de ser mais estúpido do que a mulher. O Amor é quase só isso, aquele momento em que a mulher se penteia semi-nua em frente ao espelho, com um ar tão sério que só pode estar a pensar no almoço.
Esta estupidez inteligente é, aliás, a sorte do homem, que não tem que ser bonito para que a mulher se apaixone por ele. A mulher sabe que o Amor tem que ser muito maior do que esse pequeno pormenor da beleza ou da feiura. Já com ela, a exigência é maior por a exigência ser menor. O homem só a quer bonita, então ela penteia os seus cabelos desgrenhados todas as manhãs, lutando contra o tempo. Ele não.
É por isso que o homem é melhor amante e a mulher é melhor a Amar. Não é grave, as coisas equilibram-se no exacto momento em que a mulher se afasta por uns momentos e ele fica com vontade de abraçar o vento. É com a ausência dela que ele a percebe e que ela lhe ensina que o Amor se prolonga para além do que se vê.
Um homem também pode perder a inteligência que o faz ser estúpido.

6.01.2015

coisas que fascinam (177)

O Amor Colibri

Nunca tinha tido um Amor como este, capaz de se alimentar de pequenas fracções de tempo. De um segundo, por exemplo. Chamo-lhe o Amor Colibri, desde que soube que o colibri bate as asas setenta vezes por segundo quando se alimenta duma flor qualquer. É a dedicação inteira a apenas um momento.
Uma pequena fracção de tempo não significa uma pequena fracção de Amor. Muito pelo contrário. Num segundo apenas, por exemplo, um terramoto pode destruir uma cidade e levar tudo com ele. É o que me acontece no segundo em que ela me dá a mão. Vou todo com ela.
Já tinha experimentado o Amor do tempo inteiro, aquele em que a mão se dá mesmo quando está cansada de se dar. É o Amor do tempo todo que o tempo tem. Não sei se é melhor ou pior. Sei que um dia cheguei a casa e ele, o Amor, tinha partido e eu só dei por ela muito tempo depois.
O truque do Amor Colibri é que das pequenas fracções de tempo também se faz o tempo todo. Os colibris alimentam-se de quinze em quinze minutos e ingerem diariamente trinta vezes o seu peso. Impressionante, para quem já passou dias inteiros a comer sem comer nada.


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