6.25.2015

conversa 2129

(em casa dela)

Eu - Está tudo bem contigo? Pareces esquisita...
Ela - Não, obviamente que não está tudo bem comigo.
Eu - O que é que se passa?
Ela - Desculpa. Não me apetece mesmo falar disso agora. Preciso ficar sozinha...
Eu - Tudo bem, também só passei para te entregar os livros. Vou indo. Se precisares de alguma coisa, telefona.
Ela - Vais-te embora?! Vês-me assim e vais-te embora?!
Eu - Não disseste que querias ficar sozinha?
Ela - Disse, mas é claro que preciso desabafar com alguém...
Eu - Como é que ias desabafar com alguém ficando sozinha?
Ela - Não percebes mesmo nada...
Eu - Pois não...
Ela - Eu preciso ficar sozinha, a não ser que alguém insista para ficar comigo. Senão vou ficar com a sensação que me está a fazer um favor.
Eu - Hum...
Ela - Agora estragaste tudo. Podes ir...
Eu - Pronto. Tchau, então.
Ela - E vais mesmo embora?!
Eu - Não sei. O que é que queres que eu faça?
Ela - Quero que fiques comigo sem eu ter que te pedir. É pedir muito?
Eu - Está bem, mas então não me mandes embora.
Ela - Deixa lá. Vai mas é embora. Às vezes é mesmo melhor ficar sozinha.

6.24.2015

respostas a perguntas inexistentes (313)

Existe a pessoa que Amamos. Depois existem as pessoas que nos apetece Amar. O que mais distingue uma coisa da outra é sabermos que só podemos Amar uma pessoa de cada vez. O Amor é um espaço onde não cabem três.
É também por aqui que se distingue um primeiro Amor de um segundo. A primeira vez que nos apaixonamos, não acreditamos que vão existir pessoas que nos apetece Amar para além da pessoa que já Amamos. Quando nos apercebemos que afinal não é assim, às vezes ficamos desiludidos com o Amor para não ficarmos desiludidos connosco.
A segunda vez que nos apaixonamos é diferente. Já sabemos que aquela pessoa é uma escolha entre todas as pessoas que nos apetece Amar. É isso que torna o segundo Amor mais consistente do que o primeiro. O primeiro Amor é uma certeza, o segundo é uma escolha. As escolhas costumam ser mais certas do que as certezas.
Não estou a dizer que os segundos Amores não acabam. Claro que podem acabar, até porque as nossas escolhas erram tanto quanto nós próprios. Até um terceiro, um quarto ou um quinto Amor pode acabar. Não interessa. Sabemos que se acaba não foi o Amor que falhou. Fomos nós.
O Amor nunca falha. É por isso que vale sempre a pena tentar.

6.23.2015

lixo

Aveiro, dia muito quente e as árvores vestidas de cor. Fazem-me confusão.
A minha tendência é vestir-me quando tenho frio e despir-me quando tenho calor. No Verão quente as árvores vestem-se, no Inverno frio despem-se. A natureza é irónica.
Acabei de me analisar, a mim e ao que visto, no reflexo da montra duma pastelaria venezuelana. Sou grande e corpulento, mais do que gostaria. Encolhi a barriga uma série de vezes para gostar mais de mim, até perceber que algumas pessoas lá dentro me olhavam entre sorrisos e curiosidade. Afastei-me.
O Verão é um segredo.
No passeio há garrafas de vinho e de cerveja vazias, espalhadas um pouco por toda a parte. Uma mulher varre da rua esses despojos do dia anterior, pacientemente, colocando-os num carrinho verde onde se dá a mais bela das mortes. A do lixo. É o lixo que me faz lembrar que a vida não é só isto, um passeio solitário por ruas desertas.
Apetecia-me dar a mão a uma mulher. Aliás, percebo agora porque é que as pessoas que se Amam dão as mãos. É para se encherem. As mãos são as mangueiras da vida quando nos sentimos vazios. E eu estou vazio.
Amar é difícil por causa da saudade permanente. Há uns dias, num passeio semelhante, disse-me que conheço mulheres mais fáceis de Amar do que aquela que Amo. Depois respondi-me. A facilidade no Amor significa sempre Amar menos.
Não quero. O Amor intenso é sempre difícil. Tem que o ser para ser Amor.
Dou um pontapé numa lata de cerveja vazia que acorda, com um ruído estridente, o silêncio sepulcral da manhã. Foi sem querer. A mulher que ainda varre o dia anterior olha para mim. Apanho a lata e dou-lha.

- Bom dia! - diz ela.
- Bom dia! - respondo.

 E de repente sou outro.

6.22.2015

pensamentos catatónicos (323)

Da dificuldade de género

Há mulheres que pensam que os homens são fáceis. Pensam que basta estalar os dedos para levar um para a cama. São parvas, até porque aquilo em que acreditam é a mais pura das verdades. A única excepção à regra são elas mesmas.
Os homens são fáceis, a não ser que sejam tratados como tal.
Há homens que pensam que as mulheres são difíceis. Pensam que é preciso este mundo e o outro para levar uma para a cama. São parvos, até porque aquilo em que acreditam é a mais pura das verdades. A única excepção à regra são eles mesmos.
As mulheres são difíceis, a não ser que sejam tratadas como tal.
A delícia da sedução pode passar por aí: um homem fácil a  mostrar-se difícil e uma mulher difícil a tentar ser fácil. Nesse caso, ele dar-lhe-á este mundo e o outro até ela estalar os dedos.
O Amor é tão difícil, não é?

6.20.2015

respostas a perguntas inexistentes (312)

Nunca percebi a necessidade de esquecer um Amor que terminou. Se for pelo sofrimento, então o melhor é mesmo lembrá-lo, dele e dos bons momentos que teve. Esquecer um Amor é pegar numa parte importante da vida e mandá-la directamente para o lixo.
Se nos esquecêssemos de tudo o que já deixou de existir, as nossas cidades não tinham estátuas nem grafítis a embelezar as ruas. Um passado Amoroso embeleza-nos a nós. Esses momentos de felicidade que vivemos  são as estátuas e grafítis da nossa vida, que a nossa memória pode e deve admirar sempre que dá um passeio pelo passado.
As melhores cidades são aquelas que têm um passado bem vivido, com monumentos que nos deixam imaginar um bocadinho do que ali já se viveu. As pessoas também.

6.18.2015

conversa 2128

Ele - Já não gosto da minha mulher, mas não lho posso dizer. Todos os dias de manhã me despeço dela com um beijo e digo-lhe que a Amo, mas é mentira...
Eu - Não lho podes dizer, porquê?
Ele - Acho que ela põe logo fim ao nosso casamento.
Eu - Se já não gostas dela, qual é o problema?
Ele - Não sei muito bem. Não gosto dela, mas também não me quero separar.
Eu - Hum... okay... não sei que te diga.
Ele - Acho que é, principalmente, porque não a consigo imaginar com outro.
Eu - Se se separarem, o mais certo é que ela tenha outro e tu outra. Isso é normal...
Ele - Pois, mas enquanto eu não tiver outra, não quero que ela tenha outro. O melhor é eu arranjar outra primeiro e depois digo-lhe.

preconceituoso australopiteco e homossexual não assumido

Sou heterossexual. Sempre fui. Não tenho nenhum orgulho nisso. É apenas o que sou, resultado duma equação que envolve biologia, cultura e uma vida inteira. Fruto do que sou, são sempre mulheres que me fazem rir ou chorar de Amor e é por isso que, numa tentativa de me reconhecer ao espelho, às vezes mais séria, outras vezes menos, fiz um blogue chamado "Não Compreendo As Mulheres.
Estava triste, quando o criei, por causa duma mulher. Neste momento estou feliz por causa de outra. O futuro não sei como será. Tento não pensar nele.
Só estou a escrever isto porque recebi um comentário anónimo que, entre outras coisas, me chama um "preconceituoso australopiteco e homossexual não assumido" (sic).
Já que falo nisto, não sou homossexual nem, se o fosse, teria um orgulho muito especial por sê-lo. Também não teria vergonha. A orientação sexual de cada um é apenas uma característica que não determina nada de importante. Fico à espera, apenas, que um dia destes as pessoas deixem de pensar nisso como um bicho de sete cabeças e consigam ter uma vida sexual e amorosa sem macaquinhos na cabeça. A não ser, claro, que os macacos na cabeça façam parte dum fetiche qualquer.

6.17.2015

coisas que fascinam (179)

Um dia casámos

A primeira mulher que me declarou Amor partilhava, às vezes, um baloiço comigo. Disse-me que gostava de mim, deu-me a mão e levou-me para um dos bancos do recreio da escola onde me disse que um dia íamos casar. Eu aceitei imediatamente. Éramos apenas crianças e pouco sabíamos do que viria a ser o Amor quando crescêssemos. Talvez, por isso, tenha sido a declaração de Amor mais genuína que alguém me fez na vida.
Nunca casámos.
É verdade que eu não sabia nada de Amor ou de paixão. Muito menos de sexo. Tudo o que aprendi veio depois desse primeiro estranho suspiro. Aprendi tanto, mas tanto, que hoje posso dizer claramente que sei ainda menos. Menos do que nada, portanto. O Amor sempre teve essa condicionante de se esconder com a sabedoria.
Com os anos, esse primeiro suspiro apagou-se e deu origem a outros, não mais fortes mas, pelo menos, bastante diferentes. A segunda declaração de Amor da minha vida partiu de mim e não dela. Coincidência ou não, era uma rapariga fisicamente parecida com a primeira. Do alto dos meus doze anos repeti a única receita que conhecia e disse-lhe que um dia íamos casar. Ela riu-se, pôs a língua de fora e saiu a correr.
Nunca casámos.
Talvez tenha sido a primeira conclusão que tirei sobre homens e mulheres. Quando uma mulher declara Amor, é uma ordem; quando um homem declara Amor, é um pedido. Conclusão que, diga-se de passagem, veio a revelar-se verdade.
Aprendi a não fazer declarações de Amor.
Estar apaixonado passou a ser pouco mais do que esse suspiro inconsequente que herdei de menino, um suspiro capaz de se transformar no mais forte dos ventos, mas que guardei sempre para mim como se guarda um tesouro. E foi assim que passei a adolescência apaixonado em segredo, dividido entre cartas de Amor que nunca foram lidas e respostas imaginadas que nunca foram escritas. Às vezes via-lhe os cabelos a dançar nos ombros e acreditava que era com o vento da minha respiração. Foi o mais perto que estive de declarar Amor, pela terceira vez, àquela que nem dava pela minha existência.
Um dia, muito mais tarde, casámos.

6.16.2015

Ainda me Amas?

Chegou o dia em que duvidei do Amor, até porque tudo parecia estar bem.
Acho que começou no espelho do elevador, logo de manhã, onde me vi mais gordo, mais cansado e mais feio. Perguntei-me a mim mesmo se ainda me Amavas, mas sacudi rapidamente a resposta que eu não queria ouvir do pensamento, exactamente como um cão expulsa a água do corpo depois de se molhar. Abanei a cabeça num gesto rápido.
Não tenho culpa se pouco tempo depois, enquanto esperava que o semáforo para peões mudasse para verde, uma mulher ao meu lado repetisse várias vezes seguidas que o marido dela era um inútil. Estava a falar ao telefone e ia dizendo: "Deixa lá! O meu marido é um inútil". "Será que ainda me Amas?", perguntei-me.
Era já noite quando me lembrei das nossas férias na Argélia. Os cafés da cidade só tinham homens e algumas, poucas, mulheres conversavam em segredo nas portas e varandas dos prédios. Durante alguns minutos espreitei pela janela do maior café da avenida, onde todos acompanhavam um jogo de futebol qualquer. Ninguém parecia preocupado com o Amor, muito menos com a falta dele.
À noite fui ter contigo.

- Ainda me Amas?

Não me respondeste. Fodemos, depois ligaste a televisão e viste meio episódio da novela. Ainda bem. Se me tivesses respondido que sim era porque já não me Amavas. 
Adormeci ao teu lado.

6.15.2015

dos Amores antigos

Todas as coisas antigas, a que às vezes até gostamos de chamar vintage, já foram simplesmente velhas. A antiguidade é a boa nova de que nada precisa de acabar na sua própria velhice, nem sequer o Amor.
Pensei nisso hoje, quando vi dois turistas nórdicos a fotografar umas casas de pescadores no bairro da Beira-Mar. São casas pequenas, revestidas de azulejos cuja cor se foi apagando com o sopro do tempo. São casas que despertam a curiosidade de quem passa por elas, pelo que aparentam ter sido e albergado. Lembro-me delas desde sempre. Eram apenas casas velhas que, apenas por dedução, eu sei que já foram novas.
Uma relação entre duas pessoas também passa de nova a velha, às vezes mais depressa do que elas mesmas. Envelhece assim que o tempo lhe tira a cor e o que se observa são apenas gestos gastos e usados. É o Amor que pode transformar uma relação velha numa Paixão vintage.
Fiquemos assim: existem desAmores velhos e Amores antigos. É nestes últimos que, tal como a uma casa qualquer, todos os dias olhamos para quem está ao nosso lado e suspiramos de espanto.

6.12.2015

um adeus para sempre

É verdade que o Amor é uma disciplina como outra qualquer em que se aprende com a vida. É a vida que nos diz que o Amor não chega ou, como eu prefiro dizer, que o Amor não é só gostar e estar apaixonado. É muito mais do que isso, pelo menos quando pretendemos entrar no frágil equilíbrio das cedências e exigências.
Que espaço devemos dar a quem Amamos e que espaço devemos exigir para nós e para ambos? Não sei. Sei que, numa relação, só muito raramente duas pessoas estão de acordo nesta matéria, matéria essa que se vai aprendendo quase sempre tarde demais.
Lembro-me duma mulher a quem todos os dias eu não dizia nada. Sei muito bem que há muitas mulheres a quem nunca digo nada, mas esta era por opção. Sentávamo-nos todas as manhãs num café do Porto, frente a frente, a tomar o pequeno-almoço. Trocávamos olhares, sorrisos, às vezes até cheiros e compreensão. Nunca trocávamos palavras, nem sequer a que tem o nosso nome ou deseja um bom dia ao outro.
Obviamente apaixonei-me por ela, porque o mistério é sempre apaixonante. Obviamente passei a conhecer-lhe pequenos gestos e vícios. A forma como lia o jornal de trás para a frente, para no fim o dobrar em dois sempre com a capa para dentro, como se quisesse esconder as vergonhas do mundo que tinha acabado de ler. Bebia sempre um galão num daqueles copos que vêm dentro duma armação metálica e comia meia torrada com pouca manteiga. Às vezes, e esse gesto surpreendia-me sempre, penteava-se no reflexo dum espelho ferrugento. Surpreendia-me, porque parecia-me sempre renovada quando o fazia, como se tivesse acabado de beber um pouco de água da Fonte da Juventude.
Por falar em Fonte da Juventude, teria provavelmente mais uns vinte anos do que eu, ou seja, mais ou menos a idade a idade que eu tenho agora. Vivi naquela relação matinal e silenciosa durante alguns meses e passei a pensar nela como parte da minha vida. Se num ou noutro momento ela se atrasava e não aparecia, eu tornava-me ansioso e triste. Sofria.
Nunca soube o nome dela, nem ela o meu, mas senti-lhe os lábios no dia em que ela se levantou e me disse que era a última vez que nos víamos. Beijou-me. Ia atravessar o Atlântico de regresso a casa. Só aí é que eu soube que era brasileira, apesar do seu português europeu. Despediu-se no seu jeito tímido de todos os empregados e, já na porta, tornou a dizer-me adeus.
Um adeus para sempre.

P.S.: Este fim de semana é o WFC - Out Of Love

6.11.2015

conversa 2127

Ela - A minha vida sexual é muito melhor agora, que estou divorciada, do que quando era casada.
Eu - Não digas isso ao teu ex-marido.
Ela - Já disse.
Eu - Disseste?
Ela - Claro. Foi a primeira coisa que lhe disse. Ainda nem tinha levado nenhum gajo para a cama e já lhe tinha dito.
Eu - A que propósito?
Ela - Para lhe baixar a auto-estima, claro.
Eu - E acreditas que lhe baixaste mesmo a auto-estima?
Ela - Tenho a certeza. Os homens são tão totós que até dá dó.
Eu - Totós?!
Ela - Sim. Levas um gajo para cama e no fim dizes-lhe que ele foi o melhor de sempre. A auto-estima dele sobe em flecha imediatamente. O contrário também acontece...
Eu - Se ele acreditar...
Ela - Acredita sempre, por isso é que digo que os homens são uns totós. Uma mulher diz-lhes que eles são os melhores na cama e eles acreditam... (risos)
Eu - Mas mentes muitas vezes?
Ela - Minto sempre. Quando digo a um homem que ele foi o melhor na cama é sempre por pena. Normalmente é porque até é um gajo simpático e esforçado mas... pronto, coitado. Não dá mais...
Eu - As mulheres são todas assim?
Ela - Acredito que há muitas assim. Já alguma te disse que foste o melhor na cama?
Eu - Pois... euh... nem sei bem...
Ela - És um totó!


P.S.: Este fim de semana é o Out Of Love na Pensão Amor, em Lisboa...

6.09.2015

respostas a perguntas inexistentes (311)

A morte lenta do Amor

Quando um Amor acaba é sempre triste, mas a maior tristeza não é o seu fim. É a sua morte lenta. O Amor devia morrer como se morria no velho Oeste, com um tiro na nuca e um cadáver no chão. Mas não. Tem a mania de morrer como um náufrago num dia de Verão. Desaparece lentamente numa praia qualquer e esperam-se dias, às vezes meses ou anos, para que o mar devolva o corpo já em decomposição.
É a morte lenta do Amor, aquela em que vida perde o sabor e não há tempero que lhe valha. Acontece no exacto momento em que deixamos de conseguir imaginar a vida sem o outro. A vida não merece isso, o outro também não. E o sexo torna-se um hábito gasto e mecânico tanto quanto outro momento qualquer.
O que um primeiro grande Amor nos ensina é a preservar o segundo, se conseguirmos perceber que o que falhou não foi o outro. Foi tudo, principalmente o dia-a-dia. Se todos o sabemos, porque é que nunca o dizemos? Não sei.
Sei que vivo a maior parte do meu tempo sozinho e que neste momento me dou ao luxo de estar numa sala desarrumada só por mim. Tenho as calças de ganga que trago a uso atiradas num dos sofás, uma pilha de livros que já li espalhada pelo chão e um copo de vinho vazio em cima duma cadeira que precisa de ser colada.
Daqui a nada pego no copo e vou à cozinha enchê-lo. Daqui a uns dias pego na minha saudade e vou a casa da minha companheira beijá-la. Vivo sempre com saudades dela e quero manter-me assim, saudoso. É a mesma saudade que tenho de encher o copo, porque o Amor que tenho por ela me embriaga da melhor maneira. Sem ressaca.
O que um primeiro grande Amor nos ensina é a preservar o segundo, repito. Sei que quando a saudade morre, o Amor morre a seguir. Mantenhamos a saudade para manter o Amor. Se todos vivêssemos bêbados, o mundo era melhor.


6.08.2015

que não me faças sofrer por ti

É um alívio saber que um grande Amor de hoje pode ser apenas uma vã lembrança amanhã, mas é um alívio ainda maior percebermos que às vezes pensamos que um Amor é grande quando, de facto, não é.
Os grandes Amores são aqueles que se vivem, não aqueles que apenas se querem viver. Quando sofremos por um Amor que nunca o chegou a ser, aproveitemos a dor, que será tão passageira quanto não foi esse Amor.
Quando sofremos por um Amor vivido, aproveitemos essa espécie de Amor que nos faz sofrer sem ter razão para isso.
Eu, agora que disse isto, peço-te que não me faças sofrer por ti.

wfc.pt

6.05.2015

coisas que fascinam (178)

A mulher errada

No Amor nunca encontramos a pessoa certa. Apaixonamo-nos sempre pela pessoa errada. O Amor não é muito mais do que uma sucessão de erros até que, errantes, nos maravilhamos com o maior dos erros: outra pessoa qualquer. Ainda bem. 
Quando ouço um homem dizer que não se separa porque encontrou a mulher certa, nunca acredito. Logo a seguir vem uma enxurrada de adjectivos e características que justificam que aquela é mesmo a mulher certa. Ela é trabalhadora, ela é corajosa, ela é isto e aquilo. O Amor nunca se deu com tanto calculismo e, normalmente, não estamos a tentar convencer mais ninguém senão a nós mesmos.
O Amor dá-se no erro. Ao virar duma esquina, numa reunião de trabalho ou numa noite de copos, quando gritamos em silêncio que estamos apaixonados e o coração substitui o cérebro no comando do corpo. O Amor dá-se quando erramos uma vez e nos apetece continuar a errar, cada vez com mais intensidade e profundidade. 
Eu sei que tu és o maior do erros. Vem comigo para casa que eu quero-te toda. Assim, errante!



6.04.2015

conversa 2126

Ela - Pela primeira vez na minha vida acho que preciso de um amante.
Eu - Então?!
Ela - A minha relação anda tremida e acho que um amante até podia ajudar a salvá-la...
Eu - E porque é que queres salvar uma relação tremida?
Ela - Tenho três filhos.
Eu - Ah! De qualquer forma não te posso ajudar. Estou apaixonado...
Ela - Também não queria a tua ajuda. Já te disse uma vez que tenho a sensação que darias um bom marido e um péssimo amante.
Eu - Não considero isso um elogio.
Ela - Não é.

wfc

6.03.2015

respostas a perguntas inexistentes (310)

Do toque da mulher

O toque da mulher que se Ama é um sopro num balão, sendo que o balão somos nós, os tocados. Ficamos cheios de qualquer coisa que não sabemos muito bem o que é, mas que nos torna mais leves, às vezes com capacidade de esvoaçar.
Entre dois toques vamos esvaziando rumo ao estado murcho que nos torna intocados tristes. As mulheres sabem, mas fingem não saber, que os homens são assim. Jogam com eles o jogo do toque como se joga com um brinquedo qualquer.
Uma mão dada enche-nos o suficiente para alguns minutos, um beijo para algumas horas e o sexo todo para alguns dias. É o sexo todo que almejamos quando nos dão a mão, como um balão que precisa de vários sopros seguidos, cada vez mais fortes.
Estes sopros estão para nós como a respiração boca-a-boca para alguém que está quase a morrer. Salvem-nos a vida, por favor. A morrer, que seja por rebentar e não por ficar murcho.
Nenhuma mulher devia dizer adeus ao homem que a Ama sem lhe dar um abraço também; nenhuma mulher devia despachar o homem que a Ama com um "vai-te, vai-te que eu estou com pressa", sem um beijo na boca em que o tempo não conte; nenhuma mulher devia virar costas a um homem sem um "apalpanço" no rabo ou uma língua húmida na face. 
O toque da mulher que se Ama é o princípio da vida. O contrário é a morte.


6.02.2015

respostas a perguntas inexistentes (309)

Da inteligência que o faz ser estúpido

A mulher sabe que a beleza acaba. Pensa nisso todas as manhãs, quando se vê ao espelho da casa de banho e repara que está com os cabelos desgrenhados e com uma ou outra ruga. Às vezes até uma branca. Penteia-se durante alguns minutos e o pensamento dela centra-se no tempo que passa.
O homem também acorda, coça os tomates e, quando a vê pentear-se, o pensamento centra-se sempre na presente beleza dela. É boa. O futuro não interessa.
Neste aspecto, o homem sempre teve a inteligência de ser mais estúpido do que a mulher. O Amor é quase só isso, aquele momento em que a mulher se penteia semi-nua em frente ao espelho, com um ar tão sério que só pode estar a pensar no almoço.
Esta estupidez inteligente é, aliás, a sorte do homem, que não tem que ser bonito para que a mulher se apaixone por ele. A mulher sabe que o Amor tem que ser muito maior do que esse pequeno pormenor da beleza ou da feiura. Já com ela, a exigência é maior por a exigência ser menor. O homem só a quer bonita, então ela penteia os seus cabelos desgrenhados todas as manhãs, lutando contra o tempo. Ele não.
É por isso que o homem é melhor amante e a mulher é melhor a Amar. Não é grave, as coisas equilibram-se no exacto momento em que a mulher se afasta por uns momentos e ele fica com vontade de abraçar o vento. É com a ausência dela que ele a percebe e que ela lhe ensina que o Amor se prolonga para além do que se vê.
Um homem também pode perder a inteligência que o faz ser estúpido.

6.01.2015

coisas que fascinam (177)

O Amor Colibri

Nunca tinha tido um Amor como este, capaz de se alimentar de pequenas fracções de tempo. De um segundo, por exemplo. Chamo-lhe o Amor Colibri, desde que soube que o colibri bate as asas setenta vezes por segundo quando se alimenta duma flor qualquer. É a dedicação inteira a apenas um momento.
Uma pequena fracção de tempo não significa uma pequena fracção de Amor. Muito pelo contrário. Num segundo apenas, por exemplo, um terramoto pode destruir uma cidade e levar tudo com ele. É o que me acontece no segundo em que ela me dá a mão. Vou todo com ela.
Já tinha experimentado o Amor do tempo inteiro, aquele em que a mão se dá mesmo quando está cansada de se dar. É o Amor do tempo todo que o tempo tem. Não sei se é melhor ou pior. Sei que um dia cheguei a casa e ele, o Amor, tinha partido e eu só dei por ela muito tempo depois.
O truque do Amor Colibri é que das pequenas fracções de tempo também se faz o tempo todo. Os colibris alimentam-se de quinze em quinze minutos e ingerem diariamente trinta vezes o seu peso. Impressionante, para quem já passou dias inteiros a comer sem comer nada.


wfc

5.29.2015

Desde que esse alguém fosses tu.

O Amor vai sempre contra nós. Por Amarmos, sentimo-nos dependentes desse Amor. Por nos sentimos dependentes, buscamos a independência. Para buscarmos a independência fingimos que não Amamos. Como não conseguimos fingir muito tempo, voltamos ao princípio. Amamos e sentimo-nos dependentes.
Que merda!
Talvez um dia destes eu Ame alguém que me Ame exactamente da mesma forma. Era a melhor coisa que me podia acontecer, apaixonar-me de novo por aí. Desde que esse alguém fosses tu outra vez.

www.wfc.pt

5.28.2015

conversa 2125

Ela - Cheguei a uma fase da vida em que não discuto mais...
Eu - Então?
Ela - Estou cansada de discutir. Preciso de paz e de sossego.
Eu - Compreendo... mas não acho muito bem.
Ela - Porquê?
Eu - Porque assim perdes a capacidade de intervir. É como se não existisses em muitos aspectos.
Ela - Não existo, o tanas é que não existo.
Eu - Se não discutes, não existes. É o princípio da dialéctica. Tornas-te inútil.
Ela - Sabes onde é que podes meter a dialéctica? No teu cuzinho.
Eu - Tem calma. Só estava a...
Ela - Estavas a dizer que eu sou uma inútil.
Eu - Pensei que estavas numa fase da vida em que não discutias...
Ela - Contigo abro uma excepção.

P.S.: Olha a Dialéctica no WFC...

5.27.2015

pensamentos catatónicos (322)

A sós

O problema dos homens sós não é apenas a solidão. É o Amor estar em todo o lado menos neles. Os homens sós estão para o Amor assim como um ateu está para Deus. Sabem que ele existe mas não lhe conseguem tocar. Assim como os ateus dizem "Meu Deus!" sem acreditarem que podem chegar a Deus, os homens sós dizem "foda-se" sem acreditarem que podem chegar ao Amor. Vai dar ao mesmo. É um desabafo.
O problema das mulheres sós não é apenas a solidão. É o Amor não estar em lado nenhum a não ser nelas. As mulheres sós estão para o Amor assim como Deus está para os ateus. Sabe que eles existem mas não obtém nada deles. Assim como Deus não lhes diz nada, as mulheres sós também nada dizem. Vai dar ao mesmo. É o silêncio.
E eu, que ateu me confesso, homem só me sinto.


P.S.: Out Of Love. Podem ir sós

5.26.2015

conversa 2124

(numa esplanada)

Eu - Às vezes cansam-me as alterações de humor femininas.
Ela - Não são assim tantas...
Eu - Eu acho que são. É verdade que têm uma explicação hormonal, mas são...
Ela - São o tanas, pá!  Explicação hormonal o tanas, pá! Pareces parvo!
Eu - Não te zangues.
Ela - Como é que não me hei-de zangar?! Não digas parvoíces...
Eu - Okay, eu calo-me. Não abro mais a boca a não ser para beber do meu vinho
Ela - Ah! ah!
Eu - Agora estás a rir...
Ela - Claro. Com essa conversa de bêbado...
Eu - É conversa dum gajo que bebe para esquecer que está a ter esta conversa.
Ela - Também não me ponhas assim triste. Agora não queres falar comigo?!
Eu - Estás a ver? Já estiveste zangada, a rir e agora estás triste. Tudo em dois minutos.
Ela - É melhor calares-te, antes que eu me chateie a sério.


P.S.: Preparem-se para as alterações de humor no WFC, em Lisboa...

respostas a perguntas inexistentes (308)

O Dia Seguinte

Há uma altura em que deixamos de gostar do nosso aniversário. É a mesma altura em que quando dizemos a nossa idade a alguém que acabámos de conhecer, queremos sempre ouvir a banalidade de que parecemos mais novos. As banalidades são boas e vêm sempre acompanhadas do dia seguinte, que é o melhor de todos. O dia seguinte é aquele em que não fazemos anos e ainda falta um ano inteiro para os fazer de novo. O tempo torna-se uma expectativa tão grande e despreocupada como quando somos novos.
Aos quarenta, já aprendemos que o dia seguinte se torna sempre o mais importante. Até no Amor. Quando um homem se apaixona por uma mulher e a leva para a cama (digo isto tendo a consciência que é sempre ela que o leva para a cama a ele), não é esse o momento mais ansiado, mas sim o dia seguinte. O dia seguinte é aquele em que o sexo já está consumado e todas as conversas se libertaram do jogo do engate. 
Quando a coisa corre muito bem, talvez ela até se levante antes dele e passeie nua pelo quarto como se a sua nudez fosse habitual. Só aí, um homem sorri por dentro sem sorrir por fora.
O dia seguinte é o verdadeiro dia das apresentações. Os corpos já se conhecem, por isso só falta o resto. E isto acontece mesmo quando ambos já saíam há anos, porque a nudez é sempre uma novidade.
Quando um Amor termina, o que acaba com ele não são as expectativas da primeira noite, mas sim a promessa criada no dia seguinte. Foi nesse dia que nos mostrámos tal como queremos ser  o resto da vida: apaixonados. Cada grito, cada ofensa, cada mal estar ou zanga que surja no futuro vem desmentir tudo aquilo a que nos propusemos no dia seguinte.
A primeira noite é apenas um beijo. O dia seguinte é tudo. Às vezes nada.


5.24.2015

pensamentos catatónicos (321)

Quando estamos sozinhos dizemos que a vida é uma merda, quando vivemos um Amor dizemos que estamos a viver uma história bonita. É o nosso subconsciente a pensá-lo, na verdade. Todos sabemos que, lá no fundo, a solidão é a realidade e o Amor é a ficção. A grande virtude do Amor é essa: tornar-nos, a todos nós, autores e intérpretes duma história qualquer.
Saímos dessa história e caímos na realidade quando temos uma chatice no Amor. Quando somos maltratados, por exemplo. É por isso que usamos o verbo cair. A realidade é sempre uma queda e só nos tornamos a pôr de pé quando nos apaixonamos de novo.
As pessoas que sofreram muito numa história de Amor, às vezes desistem dele. Passam a considerar a solidão o maior dos bens, mesmo que seja triste, e optam por viver sempre sós. Podem escrever um pequeno conto de vez em quando, mas desistem de escrever grandes romances.
É uma pena que isso aconteça, perdermos a noção de que somos nós que escrevemos a nossa história de Amor. Até porque perdemos também a noção de que é melhor uma intensa verosimilhança do que uma frágil verdade.
Viva o Amor verosímil! Abaixo a realista solidão!




P.S.: Já foram ao site Out Of Love - WORLD FAILURISTS CONGRESS?

5.21.2015

pensamentos catatónicos (320)

Os homens adormecem primeiro depois do sexo.
É que para os homens, o Amor é uma balança continuamente desequilibrada. Se às vezes se equilibra por alguns momentos, é por causa do sexo. A caminha, a lambidela e o "toma lá disto" são o verdadeiro Amor ao quilo. Um quilo de um lado, outro quilo do outro e ficamos todos felizes. Até ela sair da cama, pelo menos.
Não existem casos de Amor justos. Talvez por isso se diga que a Justiça é cega. É que é mesmo cega. Ceguinha de todo. O mais pequeno pormenor e nós, os homens, sentimos que Amamos mais do que somos Amados. É uma merda ser homem. Ela atende o telefone de um call center qualquer e o mundo deixa de ser como era. Temos ciúmes, ficamos inseguros e choramos por dentro. Enfim, sofremos porque os quilos estão todos no mesmo prato. Mas quem será que estava do outro lado da linha?
Ainda por cima não é suposto um homem chorar. Fingimo-nos fortes e não há melhor maneira de enfraquecer do que o fingimento da força. É assim o Amor.
Depois vem o sexo provar que o call center era mesmo um call center. Não era um amante mais giro. mais forte e com uma pila maior. Fodemos, beijamos e fazemos juras de Amor eterno, mesmo sabendo que a eternidade é a única mentira maior do que o próprio Amor. Tudo se equilibra no Universo. As estrelas, os planetas e até os quilos na balança.
As mulheres  deixaram que o homem parecesse o sexo forte para o enfraquecer ainda mais. É por isso que no fim do sexo elas ligam a tv e eles adormecem. É o descanso do herói.

5.20.2015

conversa 2123

Eu - Estás mesmo bonita, hoje.
Ela - Detesto que me digam isso.
Eu - Porquê?!
Ela - Porque a beleza é supérflua, é por isso. Prefiro que gostem de mim pelo que eu sou.
Eu - Pronto... não és bonita mas és adorável, então.
Ela - Vê lá se levas duas chapadas.


P.S. O congresso do ano está aí à porta! WFC

5.19.2015

A Guerra dos Tronos

Defendo a ideia de que todos os homens deviam ter um sofá só para eles, como antigamente. De preferência um monolugar grande e robusto, parecido com o trono de um rei, onde as crianças até podem dar uma cambalhota quando ele não está, mas a mulher nem pensar.
Todos ganham com esse sofá. O homem, que pode ser Rei em casa mesmo quando é humilhado todos os dias no trabalho; a mulher, que ganha o estatuto de conselheira familiar por uns momentos; a criança, que pode dar umas cambalhotas de vez em quando.
O sofá monolugar sempre foi um elemento essencial na estrutura familiar portuguesa. Era com esse sofá que parecia que tudo estava bem, mesmo quando tudo estava mal. Era o Poder do Trono. O homem sentava-se nele a ler o jornal e ganhava imediatamente o estatuto que não tinha em mais lugar nenhum, nem sequer no café da frente entre os bêbados diários (cada um deles também teria o seu sofá em casa).
Com o fim do sofá, as famílias desagregaram-se porque a peça principal da estrutura ruiu. As mulheres começaram a partir do princípio que também tinham o direito à felicidade e, pior, a decidir o seu próprio destino. Aumentou o número de separações, divórcios e discussões caseiras.
O Ikea tem parte da culpa, porque os seus sofás são todos iguais. Falta-lhe o sofá monolugar tipo trono, com uma almofada enorme, pesados pés de madeira e um tecido grosso e difícil para ela limpar.
Na boa época do sofá, um homem decidia que estava apaixonado e queria ficar com aquela mulher para toda a vida, sempre antes do primeiro sexo. Assim mesmo, com o verbo "ficar", não pelo seu significado de posse, mas sim pelo seu aspecto mais conservador. Ficar significa permanecer ou deter-se. O sofá era a garantia desse conservadorismo e o conservadorismo sempre seguiu um modelo masculino.
O fim do sofá como lugar de Poder é uma responsabilidade feminina, no exacto momento em que as mulheres decidiram que o homem não tinha o direito de decidir ficar (lá está o verbo de novo) com elas. A subversão da coisa é que deixou de ser o trono do Rei para passar a ser um lugar de queca. Foi o fim da monarquia lá de casa.
Ainda assim, todos os homens deviam ter um sofá como antigamente.

as pessoas que falam demais e as pessoas que falam de menos

Existem pessoas que falam demais e contam tudo a toda gente sobre tudo e sobre todos. Existem outras que falam de menos e se refugiam constantemente no silêncio para se manterem, a si e aos seus, na privacidade absoluta.
As pessoas que falam demais sabem que falam demais, mas acreditam que as pessoas a quem contam tudo não lhes vão fazer a desfeita de as desmascarar. Acreditam, acima de tudo, que falam demais a pessoas que falam de menos.
As pessoas que falam de menos fazem-no porque põem sempre a hipótese de estarem a falar com quem fala demais. É melhor não contar nada a este tipo porque ele vai contar tudo a toda a gente, pensam.
As pessoas que falam demais são boas, porque acreditam no outro. As pessoas que falam de menos são umas desconfiadas, apesar de desconfiarem de pessoas boas que confiam nelas.

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5.16.2015

conversa 2122

Ela - Está tudo bem?
Eu - Sim... tirando não ter dinheiro para mandar cantar um cego, está tudo bem.
Ela - O Stevie Wonder, por exemplo.
Eu - O quê?!
Ela -O Stevie Wonder é cego e não tens dinheiro para o mandar cantar. Deve ser caríssimo...
Eu - Onde é que queres chegar com isso?
Ela - A lado nenhum...
Eu - Pareces chateada...
Ela - E estou... mas não é contigo.
Eu - Então?!
Ela - O meu marido entrou hoje na casa de banho quando eu lá estava...
Eu - E qual é o problema?
Ela - O problema é que eu sou casada com ele e a retrete é o único lugar onde uma pessoa casada consegue ter alguma privacidade. Até à retrete ele já chegou. Percebes o que eu estou a dizer?
Eu - Mais ou menos... qual é a relação com o Stevie Wonder?
Ela - Mandei-o sair da casa de banho e ele veio com a mesma conversa de que não temos dinheiro para mandar cantar um cego, por isso temos que partilhar a casa de banho quando for preciso. Não temos dinheiro para uma casa maior. O Stevie Wonder foi a resposta que eu lhe dei...
Eu - E ele?
Ela - Começou a cantar o "I Just Called To Say  I Love You".
Eu - E tu?
Ela - Saí de casa um bocado enraivecida e depois de discutir com ele...
Eu - Ele está bem?
Ela - Está. Não te preocupes, não o matei.


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5.14.2015

bullying

Tenho uma revelação a fazer ao mundo: quando era criança fiz bullying com outros. Fui violento, física e verbalmente, com colegas meus da escola. Tenho ainda outra revelação a fazer: quando era criança fui vítima de bullying. Alguns colegas meus agrediram-me, física e verbalmente, sem que houvesse motivo para tal.
Estou a caminho dos quarenta e quatro anos e olho para a minha experiência como algo que contribuiu para a minha formação e o meu crescimento. Foi através, também dessa violência, que me tornei naquilo que sou. Entre outras coisas, um pacifista.
Não, não estou a dizer que devemos aceitar o bullying como se fosse uma coisa normal, deixando os putos agredirem-se mutuamente como se fossem animais numa jaula. Devemos, todos nós estar lá, presentes. Até porque, adivinhem, nós também fazemos parte da formação e do crescimento desses putos.
Da minha professora, de quem tenho saudades, levei uma chapada ou duas, mas não foi isso que me fez parar (bem, houve uma reguada que ajudou bastante). Foi a vida toda e o facto de ter crescido. Recuso-me a esta visão simplista e maniqueísta da violência dividir bons e maus. Isso é falso.
A revelação final que vos tenho a fazer, e que eu pensava que Darwin já tinha feito antes de mim, é que Adão e Eva nunca existiram. Nós vimos mesmo de um antepassado em que a agressão foi uma forma de organização social (hoje ainda é). Está escrito nos nossos genes, nos lóbulos frontais e temporais e também numa ou outra hormona.
A boa notícia é que se passa exactamente o mesmo com o Amor, que também é algo em que se evolui. Na verdade, se me lembro hoje de ter chorado e rido intensivamente muitas vezes, foi sempre por causa do Amor e não dos murros que dei ou levei. Esses foram apagados pelos abraços de quem me Amou e nunca me condenou a ser uma pessoa má.

5.13.2015

diz que disse (1)

Os homens irritam-me um bocado por se comportarem como mulheres. São falsos, dizem mal uns dos outros pelas costas e não podem ficar sozinhos nem um bocadinho. Queixam-se logo.
Já as mulheres são muito melhores. Mais directas e independentes. Até parecem homens.


o wfc.pt está quase!

5.12.2015

coisas que fascinam (176)

Gostar de não gostar

Na pessoa que Amamos, há sempre aquilo de que gostamos mais e aquilo de que gostamos menos, ou melhor, de que até não gostamos nadinha. É inevitável. Nós também temos sempre algumas características de que os outros não gostam, mesmo quando gostam de nós. O Amor dá-se quando passamos a gostar de não gostar. É simples, não é?
É simples e difícil. Simples porque é aquilo que todos nós somos, difícil porque passa por não desejarmos que o outro mude. Eu gosto assim do meu Amor, tal como está, e não lhe mudava nadinha. Nem sequer mudava as coisas de que não gosto.
Não gostar de alguma coisa na pessoa que Amamos dá ao Amor um gosto muito maior. Mais intenso, digamos, até porque o Amor sem um ou outro desgosto é a coisa mais deslavada que pode haver. É arroz sem sal. Discorde quem quiser, mas quem nunca fez Amor depois de um quid pro quo ainda não sabe o que é fazer Amor.
Aquilo de que não gostamos no nosso Amor nunca pode ser um factor de acusação. Pode apenas ser um pequeno ponto de discórdia, partida para uma concordância maior. Pelo menos enquanto gostamos dele. É esse um dos aspectos mágicos do Amor: ficarmos bêbados de alegria por não gostarmos do outro.

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5.11.2015

pensamentos catatónicos (319)

O Amor e a solidão são campos estranhamente opostos. Estranhamente, digo, eu, porque a solidão engloba mais pessoas do que o Amor, mas mesmo assim não deixa de ser solidão.
Amar e ser Amado por uma só pessoa acaba de forma determinante com a solidão, mesmo que não se tenha amigos. Por outro lado, quando não se Ama, um mundo inteiro de amigos pode não chegar para acabar com a solidão. O Amor é mais eficaz do que a amizade na luta contra a solidão.
Quando um Amor começa a correr mal, o nosso primeiro pensamento é o de que temos que nos habituar a estar sozinhos, que é o mesmo que pensar que temos que nos habituar a estar só com os nossos amigos. A amizade é muito importante nesse sentido: não termina com a solidão, mas mantém-nos vivos nela. Às vezes, por alguns momentos, até se transforma em Amor, mesmo que só para disfarçar.
A metamorfose da amizade num acto de Amor dá-se quando duas pessoas são amigas e se sentem sós, ou porque não vivem um Amor ou porque aquele que vivem está a correr mal. Ao contrário da amizade, sempre que existe solidão no Amor, então ele está a correr mal.

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5.07.2015

respostas a perguntas inexistentes (307)

As mulheres não sabem nada de Amor

Em todas as disciplinas da vida vamos aprendendo alguma coisa com o tempo que passa. Aprendemos a cozinhar, a ler e a escrever. Aprendemos a atravessar as ruas, a fazer aviões de papel, a procurar emprego ou a descodificar o código genético humano. Aprendemos, melhor ou pior, tudo aquilo que precisamos. O Amor é a única disciplina em que precisamos de desaprender, talvez por ser, de facto, uma indisciplina. Foi o que eu aprendi nesta vida: a desaprender o Amor. Quem mo ensinou foi uma mulher.
Há uma razão simples para o que eu estou a dizer: tudo o que se ensina explica-se e o  Amor morre no exacto momento em que precisa de explicação. "Eu estou com ele porque, apesar de tudo, é bom companheiro e até ajuda em casa", "eu estou com ela porque acho que o casamento deve ser para a vida", "eu estou com ela porque é fiel". Na vida, ensinam-nos sempre que o Amor é ter deixado de Amar. Desaprendamos isso, por favor.
Se todos desaprendêssemos o Amor, Amar tornava-se mais fácil. Menos frágil, mais seguro, mais Ele mesmo. Estou a escrever este texto num momento em que tenho uma enorme pedra na alma porque estou com saudades do meu Amor, aquele que eu não faço a mínima ideia por que motivo Amo. Nem quero fazer, aliás.
Quem me ofereceu esta oportunidade de desaprender totalmente a Amar foi uma mulher, no momento exacto em que me disse que nós já nos Amávamos. Nesse dia tentei explicar-lhe que sim, que nos Amávamos. Eu era o homem que sabia tudo sobre o Amor, ela era a mulher que não sabia nada. Ainda bem. Agradeço-lhe.


5.06.2015

conversa 2121

Sempre tive mulheres como amigas. Ter uma mulher como amiga é diferente de ter um homem como amigo. É mais exigente, quero eu dizer. Primeiro porque a confusão entre o que é, ou não, amizade se pode tornar um terreno pantanoso; segundo porque as mulheres têm a mania de não se enganarem a si mesmas.
Para se ser amigo de um homem são precisas duas coisas: gostar de cerveja e conseguir ver um jogo de futebol no café. Para se ser amigo de uma mulher são precisas mil e quinhentas coisas, entre elas muito tempo e uma confiança nunca quebrada. A cerveja e o jogo de futebol também podem existir, mas mais lá para o fim da lista.
Foi com as mulheres que eu aprendi o que é a Amizade, aquela que vai para lá da divisão de um prato de tremoços enquanto se comemora um golo do Sporting. Tudo porque as mulheres sabem fazer a distinção entre esses tremoços e ir para as cambalhotas na cama. Os homens não sabem. Eu, pelo menos, sempre tive dificuldade.

- Queres dormir comigo? - perguntei.
- Porquê?!
- Talvez eu queira ser mais do que teu amigo! - atirei como se fosse a última carta num jogo de póquer.
- Nunca vais conseguir ser mais do que meu amigo.
- Porquê?
- Porque isso não existe. Se fores para a cama comigo, passas a ser menos do que meu amigo.

Continuei a comer tremoços.

5.04.2015

respostas a perguntas inexistentes (306)

O Segredo Duma Vida Estúpida

As mulheres têm um segredo. Sabem que a vida é uma coisa estúpida, só não o dizem a ninguém. Se as mulheres dissessem aos homens que a vida é estúpida, os homens iam tomar isso como uma ofensa, porque no seu brilhante egoísmo pensariam, não na vida, mas sim na vidinha. A deles.
O segredo delas é maior. Sabem que a vida tem o lado biológico da reprodução da espécie e que ninguém consegue perceber muito bem porquê. Sabem que só existimos quando calha termos um corpo e que, quando o temos, não sabemos muito bem o que fazer com ele. O Amor é uma excepção à estupidez. É esse o segredo delas, Todas o têm, mesmo quando não sabem que sabem isto.
Uma mulher fica desiludida quando é enganada no Amor, um homem fica fodido. São coisas totalmente diferentes. A mulher passa a depositar esperança num hipotético Amor futuro, um homem faz o balanço dos despojos.

- Pelo menos dei umas quecas! - pensa.

Ser enganado no Amor, para quem tiver dúvidas, não é o mesmo que aquilo que se costuma chamar traição ou, para os mais terra à terra, ser encornado. Ser enganado no Amor é pensar que se é Amado quando, de facto, não se é. Em todos nós há enganos de Amor de uma vidinha inteira e enganos de cinco minutos.
Os enganos de cinco minutos são mais femininos, os enganos de uma vidinha são mais masculinos. Isto quer dizer que a mulher pode deixar de Amar um homem durante cinco minutos e aguentar a coisa, um homem pode não Amar uma vida inteira e aguentar na mesma essa coisa. Lá está, pelo menos deu umas quecas. A coisa é o casamento.
Quando um homem descobre que não é Amado durante cinco minutos, explode. Lá está, fica fodido. Quando uma mulher descobre que não é Amada uma vida inteira, vai-se embora. Lá está, sabe que o Amor é o segredo duma vida estúpida. Não faz fretes.



O próximo WFC é sobre desmistificar o Amor e a forma como o pensamos e vivemos. Vão estando atentos...

4.30.2015

respostas a perguntas inexistentes (305)

O tamanho do mundo

O tamanho do mundo altera-se com o Amor. É mais pequeno quando vivemos um e maior, muito maior, quando não vivemos. Reparei nisso uma vez quando fui tomar café ao bar do outro lado da rua, aquele que se vê da varanda do meu segundo andar. Nunca mais lá chegava e, quando cheguei, senti-me como se tivesse acabado de atravessar um deserto. Ainda por cima, ainda tinha que fazer o mesmo na direcção oposta.
É o tempo do Não Amor que torna o mundo maior, porque esse é o tempo em que se espera todos os segundos que aconteça alguma coisa boa. Uma paixão, por exemplo. Mas nunca acontece nada e cada segundo transforma-se numa hora. Atravessar uma rua passa a ser uma viagem de dias.
Quando nos apaixonamos, o mundo encolhe subitamente. Está tudo à nossa mão porque também o está a mão do nosso Amor. Quando entramos no bar e pedimos café, já nem nos lembramos do carro que nos apitou por atravessarmos a rua tão depressa.
É assim que se vê o tamanho de um Amor. É sempre inverso ao tamanho do mundo. Até porque existindo, é ele o nosso mundo.

4.29.2015

Amor e carapau frito

Tenho um imenso orgulho em ser português, ou melhor, deixem-me reformular, tenho um imenso orgulho em pertencer a um certo tipo de portugueses, aqueles que se estão perfeitamente nas tintas para o facto de o serem.
Sou português por mero acaso. Se tivesse nascido noutro sítio, era doutro sítio. Por acaso nasci aqui, neste país. Gosto, apesar de tudo o que não gosto. De qualquer forma, orgulho, orgulho mesmo, não posso dizer que tenha.
Ainda assim, sinto-me português de gema em muitas situações. Quando joga a selecção de futebol não sinto nada, mas quando como carapau frito com arroz de tomate, sim, sinto. Se houver algum motivo de orgulho neste país é esse. Acreditem que é um bom motivo.
Acontece-me mais ou menos o mesmo com vinho tinto, sardinha assada com pimento e alguma música, principalmente fado. Por falar em música, é uma área em que sou muito mais africano e brasileiro do que europeu.
Voltando a Portugal, e para além do carapau frito com arroz de tomate, acredito que tive a sorte de nascer num país bom para me apaixonar. A razão é simples: a única mulher do mundo inteiro por quem eu me poderia apaixonar é portuguesa. Foi uma sorte brutal que eu tive, porque isso me permitiu conhecê-la.
Espremo o mundo inteiro e é essa a razão de eu gostar deste país: poder apaixonar-me nele e conseguir acreditar na enorme mentira que me diz que nunca me apaixonaria noutro lugar.

4.28.2015

respostas a perguntas inexistentes (304)

As pessoas são como ímanes. Habituam-se umas às outras e, mesmo quando já não se Amam, querem continuar a Amar-se. É por isso que o Amor mais difícil de terminar é aquele que já terminou, mas foi bom enquanto durou. Mesmo bom, daqueles a sério.
Podemos sentir uma nova paixão todos os dias. Todas as horas, até. Nenhuma delas chega aos calcanhares da paixão de todos os dias, aquela cujo princípio já se transformou numa memória distante, como a de um filme clássico qualquer.
Quando um Amor de todos os dias termina, o que sobra é um imenso nada. Mais do que da pessoa Amada, temos saudades do próprio Amor. É por isso que, às vezes, tentamos colmatar um grande Amor com um Amor pequenino. Se de um Amor grande sobra um imenso nada, dum Amor pequeno sobra sempre uma chaticezinha. Uma chaticezinha sempre é alguma coisa ou, pelo menos, dá para fingir que sim.
É essa a grande diferença entre um pequeno e um grande Amor. Tudo o que sobra ao terminar. Ou uma chaticezinha porque precisamos dela, ou nada porque já vivemos tudo.

4.24.2015

o Síndrome do Frasco

As mulheres deviam ser proibidas de pedir a um homem que lhes abra um frasco de azeitonas. Ao contrário do que parece, nunca é um pedido inocente. Pelo contrário, é tortura psicológica e humilhação gratuita.
Há três coisas que elas sabem quando fazem tal pedido: que ele não vai recusar, que ele não vai conseguir e, finalmente, que ele se vai sentir envergonhado. É por isso que o fazem. Por isso, e porque assim o reduzem a um mero instrumento doméstico: "Olha, preciso de abrir este frasco e lembrei-me de ti". Acontece-lhes o mesmo com o secador de cabelo, do qual só se lembram depois do banho.
O grande problema de um homem que não consegue abrir um frasco de azeitonas passa, naquele exacto momento, a ser o mesmo de um secador de cabelo avariado. Não serve para nada. No desespero, a humilhação aumenta quando ele se se põe a secar as mãos num pano de cozinha enquanto vai dizendo que as tem húmidas. Ao mesmo tempo, entre risos fininhos, elas vão assumindo uma condescendência cruel, do género "deixa lá, eu vou pedir ao vizinho!"
Homens de todo o mundo, quero dizer com orgulho que ontem recusei o pedido duma mulher para abrir um frasco de azeitonas. Não foi fácil, mas alguém tinha que ser o primeiro. A partir de agora também o podem fazer sem terem que ouvir que os outros nunca se recusam a tal coisa. Libertei-vos para sempre do Síndrome do Frasco.

animais

Existem algumas pessoas, felizmente muitas, que defendem os animais com o argumento que se encerra nos próprios animais, isto é, defendem o direito dos animais porque consideram que eles têm o direito a uma vida digna e com o mínimo possível de sofrimento.
Eu concordo com estas pessoas e com estes argumentos, mas o meu argumento principal em defesa dos animais é diferente, porque tem o próprio Homem por trás. Considero que quando um Homem trata mal um animal perde um pouco de humanidade. Enfim, é uma vergonha para a espécie. Para quem se estiver a perguntar, sim, considero que é o caso dos toureiros e de quem defende a tauromaquia. Para mim não são pessoas, são uma imitação barata de pessoas.
Não estamos aqui a falar apenas de emoções (mas também, claro). Estamos a falar de ciência, ou melhor, neurociência e neuropsicologia. Eu sou um ignorante em ambas porque ambas ultrapassam em muito o empirismo, mas sei o suficiente para perceber que a estrutura nervosa de um gato, de um cão ou de um touro lhe "permite" sofrer física e emocionalmente. Simplificando, eu sei que se der um pontapé num cão, ele vai sofrer pela dor física e também pela dor emocional. A minha resposta é fácil: não dou pontapés em cães.
É a partir daí que defendo os animais para defender o Homem. Custa-me ver um indivíduo da minha espécie descer ao nível mais reles que o mundo possibilita, que é esse de fazer outro ser sofrer em nome de coisa nenhuma. É o caso de todos os toureiros, pelos quais sinto imensa vergonha alheia. Enfim, posso chamar-lhes todos os nomes, menos o de animais, porque os animais são melhores do que eles.

4.23.2015

respostas a perguntas inexistentes (303)

Provas de Amor

As mulheres que precisam constantemente de provas de Amor são umas chatas. As outras, acredito que a grande maioria, são melhores. São aquelas que percebem que o Amor se prova a si mesmo todos os dias, sem testes, sem pressões e sem condicionamentos.
Os homens que tentam provar que Amam uma mulher são uns palermas. Normalmente acabam a fazer pedidos de casamento em estádios de futebol, declarações de Amor em noites de karaoke ou a pagar jantares gourmet  para ficarem na mesma com fome. Digo-o eu, com a experiência própria de quem já fez palermices a mais.
O Amor é um ser vivo. Eu diria até que é como uma pessoa qualquer. A partir do momento que existe, tem a noção da sua existência, e nenhuma pessoa precisa de anunciar ao mundo a sua existência. Por um lado porque o mundo apercebe-se facilmente dela, por outro porque se está nas tintas para isso.
O melhor Amor não se anuncia, vive-se. E a vida prova-se a ela mesma. Às vezes num olhar, outras vezes num simples toque de mãos. Na distância e na presença.
Nunca me peças que te diga que te Amo. O "Amo-te!" como simples resposta não vale coisa nenhuma.

4.22.2015

coisas que fascinam (175)

Da conquista

Não há pior verbo para usar num caso de Amor do que o verbo "conquistar". Quando nos apaixonamos e sentimos que somos correspondidos, temos a mania de acreditar que conquistámos alguém, mas no Amor nunca conquistamos ninguém. O melhor que nos pode acontecer é sermos conquistados.
Ser conquistado é passar a pertencer ao outro sem que o outro nos pertença a nós, porque a pertença no Amor tem sempre que ser voluntária. Impulsiva até, diria eu. E a sério que não há melhor Amor do que aquele em que ambos são conquistados, mas nenhum é conquistador.
Quem acredita que conquistou alguém, então ainda não sabe bem que Amar é um verbo bem maior, apesar de ter menos letras. Ter que conquistar é triste, mas ser conquistado é de uma felicidade extrema.
Quando estamos apaixonados, tudo o queremos é que a outra pessoa nos invada e ocupe como um exército intruso. De preferência, que se instale em nós para sempre. É aí que nos rendemos e nos declaramos conquistados. Estamos bem, foi uma guerra sem armas, e a cama é o melhor sítio para guerrear.

4.21.2015

coisas que fascinam (174)

Dizem que o princípio e o fim são naturais. Quanto ao princípio não sei, mas se o fim é natural, então a Natureza não é natural. Eu não gosto de fins, embora os tenha na minha vida de forma regular. Hoje mesmo, assim como quem não quer a coisa, um amigo perguntou-me há quanto tempo estou com a Raquel (usou mesmo o verbo "estar") e eu contei pelos dedos para lhe responder.

- Quase sete! - disse.
- Tens que contar pelos dedos?!

Claro que tenho que contar pelos dedos. Nunca conto o tempo que passa quando Amo alguém. Por um lado, não gosto que o tempo passe; por outro, não tenho dedos que cheguem para o infinito. O infinito é o meu tempo com a Raquel. É essa a minha Natureza, seja ela natural ou não.
O melhor Amor não é aquele que começa, é aquele que não acaba. A Natureza está cheia de merdas que não me são naturais. O fim do Amor é uma delas, talvez a mais grave.  Por favor, não me perguntem pelo passado do Amor. Perguntem-me pelo futuro, aquele que eu não posso contar pelos dedos.

4.20.2015

conversa 2120

Ela - Então, gostas do meu vestido novo?
Eu - É novo?
Ela - Sim.
Eu - Gosto, é bonito.
Ela - Mas não gostas assim tanto...
Eu - Gosto, gosto.
Ela - Pelo teu tom de voz, não sei se gostas.
Eu - Qual tom de voz?! Se eu disse que gosto é porque gosto. Se não gostasse, dizia que não gostava.
Ela - E se só gostasses mais ou menos?
Eu - Dizia que gostava mais ou menos.
Ela - Os homens são mesmo incompreensíveis.

4.18.2015

conversa 2119

Ela - Qual é o melhor vinho tinto que vendes na tua loja?
Eu - Quatro Caminhos, sem dúvida nenhuma...
Ela - Quanto custa?
Eu - Quase oito euros...
Ela - E qual é o pior?
Eu - Na minha opinião, Porta da Ravessa.
Ela - Quanto custa?
Eu - Menos de dois euros...
Ela - Detesto esta dúvida existencial de fim de semana.
Eu - Qual dúvida?
Ela - Se devo ficar sóbria com um bom vinho ou bêbada com um mau vinho.

4.17.2015

Os nossos governos estão cheios de Jics

Por definição, sou contra os homens que não são contra nada. Existe uma raça de homens no nosso país que chamo de Jics. São aqueles que, surja que tema surgir numa conversa, antes de emitir opinião dizem que não têm nada contra. Querem estar bem com todos, mesmo que todos estejam mal com eles, e em nome desse bem estar abdicam da sua própria afirmação.
Estar bem com todos pode dar jeito no futuro, porque assim ninguém lhes aponta o dedo. A quem não tem opinião, ninguém acusa de a ter ou de ter tido. Por isso, just in case, não são contra nada. É daí que vem a alcunha de Jic.
O grande problema dos Jics é a palavra "mas", que os trai a cada conversa e a cada momento. Eu não tenho nada contra os homossexuais, mas...; eu não tenho nada contra os comunistas, mas...; eu não tenho nada contra as tatuagens, mas...; o "mas" é a palavra que morde pela calada.
"Não ter nada contra, mas..." é uma característica de género e, já agora, também portuguesa. É dos homens portugueses, pronto. É ela o grande denominador comum da nossa querida classe política (aquela que pertence à esfera do poder, pelo menos), contra a qual não tenho nada contra, mas que só faz merda, lá isso é verdade.
Os nossos governos estão cheios de Jics.

4.16.2015

respostas a perguntas inexistentes (302)

As mulheres gostam mais de sexo do que os homens

As mulheres gostam mais de sexo do que os homens. Muito mais, mesmo. Por isso é que o querem menos vezes. É comum os homens pensarem que as mulheres não gostam tanto de sexo assim que ouvem o primeiro "hoje não me apetece" da namorada ou da amante. O que eles não percebem é que para elas o sexo é um prato gourmet, para eles é um hambúrguer num restaurante de fast food.
Pensem num Caril de Peixe com frutas em que juntam Perca, Cherne e Alabote. Refogam tudo em alho e cebola enquanto juntam os temperos:  sal, salsa ou os coentros e o louro. É o sexo das mulheres. Tem sabor, dedicação e oportunidade. Não se come é todos os dias.
Eles conduzem um carro até ao drive in mais próximo e pedem um Big Mac. Sim, todos os dias.
O melhor que pode acontecer a um homem é encontrar uma mulher que o ensine, não só a cozinhar, mas também a comer, para que ele possa conhecer receitas gastronómicas. É quando um homem deixa de ter a mania que é o melhor do mundo na cama que passa a ser alguma coisa de jeito. É também, nesse momento, que ela o acompanha uma vez por outra ao pior restaurante do mundo.

4.14.2015

respostas a perguntas inexistentes (301)

Existem os homens que sabem fazer declarações de Amor e existem os outros, os bêbados da meia-noite. Eu pertenço à segunda categoria, àqueles que nunca fizeram uma única declaração de Amor decente. São esses que a partir da meia-noite bebem um pouco mais, porque o álcool está para um homem incapaz de fazer declarações de Amor assim como um cão está para o Homem em geral: é o seu melhor amigo.
O mais bonito nos homens que não sabem fazer declarações é que nunca desistem de tentar. Passam a vida a esbarrar na incompreensão feminina, que ora reage com desprezo total, ora com um sorriso igual ao de quem parte em viagem, isto é, de quem vai embora porque está farto de ali estar.
As mulheres deviam ter mais atenção aos homens que bebem. Acredito que não há um único bêbado neste mundo que não o seja por causa delas. Delas e, claro, da sua incompetência natural para fazer declarações de Amor.
Lembro-me do dia em que percebi que não sabia fazer declarações de Amor. Foi num dia como o de hoje. A espuma da minha cerveja descia pelo vidro num lento suicídio em direcção ao fundo do copo e ela, que ainda só tinha dado dois goles, sugeriu-me que pedisse outra.

- És bonita! - disse eu.

Os olhos dela continuaram a olhar para o meu copo, como se estivessem a admirar uma obra de arte qualquer, indiferentes ao que eu acabara de dizer. Para meu espanto, o mundo continuava a funcionar à minha volta como se nada fosse. Menos mal. Os clientes continuavam a entrar e sair daquela esplanada e o empregado de mesa, demasiado calmo para o número de clientes que esperavam por ele, empilhava copos vazios numa bandeja que me parecia demasiado pequena para o efeito.

- Outra cerveja, por favor! - pedi-lhe assim que passou perto de mim.

É claro que ela ficou indiferente. A minha declaração não chegava a ser de Amor. Era apenas uma tremida constatação da sua beleza, pela qual ela nem sequer tinha responsabilidade nenhuma. Acabei a minha segunda cerveja no mesmo momento em que ela acabou a primeira. Vi-a levantar-se, pagar e afastar-se enquanto me dizia adeus com a mão esquerda. Aquela era uma despedida que me despedia a mim, definitivamente, de candidato a poder Amá-la.

- Paguei as três... - disse ela. Depois desapareceu.

Fiquei eu e o bar.

4.11.2015

conversa 2118

Ela - Os homens só se interessam por uma mulher se ela for bonita. Já as mulheres têm a capacidade de se apaixonarem por homens menos bonitos, mas que digam e pensem coisas interessantes.
Eu - Não concordo nada com isso.
Ela - Podes não concordar, mas é verdade. O meu marido, por exemplo, não era um homem especialmente bonito quando o conheci. Tornou-se bonito pela maneira de ser...
Eu - Eu percebo isso perfeitamente. Acho que os homens também têm essa capacidade.
Ela - Já te aconteceu interessares-te por uma mulher menos bonita fisicamente, apenas porque a achaste inteligente?
Eu - Já, claro que já. Contigo, por exemplo.
Ela - Comigo?!
Eu - Sim.
Ela - Ah! Meu sacana. Então não me achas bonita?!

4.10.2015

respostas a perguntas inexistentes (300)

Tenho quarenta e três anos. Gosto de uísque, de vinho e de café. Tornei-me merceeiro para tentar sobreviver a um período difícil da minha vida. De todos os sonhos que tive, sobra-me apenas um, o de manter permanentemente sonhos impossíveis de cumprir.
Um dos sonhos que deixei pelo caminho foi o de estar sempre apaixonado. Aconteceu-me quando tinha trinta e cinco anos e iniciei, para poder desabafar com estranhos, este blogue. Para além de todos os Amores que fui tendo, tive só dois. Esse de que já falei e aquele que vivo agora, nos dias difíceis que correm.
Quando alguém me conhece não sabe isto, mas conheça-se quem se conhecer há sempre dois parágrafos por trás, uma forma tão insuficiente quanto lúcida de se definir. Eu, aliás, também nunca conheço os dois parágrafos de quem passa por mim. Parto apenas do princípio que os tem.
Se eu pedisse a cada um dos leitores deste blogue para se definir em dois parágrafos curtos, tal como eu acabei de fazer, com certeza que todos o conseguiriam fazer. É isso que nos distingue uns dos outros. Quando pegamos na nossa vida inteira e a esprememos para um copo pequenino como se espreme um sumo ou uma laranja, o resultado é sempre diferente. É o nosso sumo, não o dos outros.
Tenho um enorme respeito pelos dois parágrafos de cada um de nós, apenas por saber que existem. Apesar de curtos, são normalmente uma construção de anos, com momentos deliciosos e outros sofridos. São um labirinto de razões e emoções, de risos e de lágrimas, de murros e de abraços. Todos nós somos assim, tão diferentes quanto iguais.
Parece pouco, mas quando nos apaixonamos por alguém à primeira vista, pouco mais temos do que esses dois parágrafos. O facto de nos conseguirmos apaixonar por meia dúzia de frases e com elas escrever um romance, às vezes mais longo outras vezes mais curto, torna-me optimista. Obrigado.
Acho que é isso o Amor.

4.09.2015

respostas a perguntas inexistentes (299)

insuficiência

Todos procuramos certezas no Amor, sem percebermos que são elas o seu fim. Um Amor a sério vive sempre da dúvida e da insegurança, do receio e da saudade. Por mais que se tenha de um Amor nunca é suficiente. A insuficiência e a insegurança, como duas irmãs gémeas, andam sempre de mão dada.
Pedir a quem se Ama que dê mais é a mesma coisa que pedir a um rio que mude o seu curso natural. Não se faz nem leva a lado nenhum. Para viver bem com um Amor é preciso viver bem com o insuficiente.
Mal do Amor quando é suficiente, quando um dos apaixonados diz para si mesmo que já chega. Todos procuramos certezas no Amor, é verdade. Eu  procuro-as na insuficiência, porque é dela que vivo. 

pensamentos catatónicos (318)

Da estupidez dos homens

No Amor, os homens são um bocadinho estúpidos. Eu incluído, claro. Passam a vida a aprender aquilo com que a mulher já nasce ensinada: a Amar. Depois a vida torna-se um teste de resistência delas com eles. É ver quanto tempo uma mulher aguenta as estupidezes dum homem. Eu cá gabo-lhes a paciência.
A maior estupidez é passar do zero aos cem em menos de dois segundos. Quando um homem está sozinho acha-se um falhado, quando não está passa a ser o maior do planeta. Absurdamente, passa até a ser melhor do que a própria mulher que o Ama. É por isso que um homem nunca acredita que pode ser deixado. Tão verdade que às vezes já o foi e continua a não acreditar.
Com a vida, quando namoram (adoro este verbo), o principal objectivo dos homens que conseguem aprender alguma coisa com a vida é fazer o menor número possível de asneiras. Controlar os ciúmes competitivos, acalmar o excesso de confiança que só uma mulher dá, fazer mais em casa do que jogar jogos parvos e, por fim, tapar sempre a sanita depois de a usar. É o que eu faço, apesar da dificuldade de género.
Ainda hoje saí para tomar café. Na mesa ao lado da minha estava um casal ainda jovem (já não adoro assim tanto dizer isto). Ele explicava-lhe em alta voz como é que se estaciona um automóvel de marcha atrás enquanto ela suspirava e olhava para o infinito. Só mesmo um homem para ter orgulho em conseguir estacionar um carro. Os níveis de paciência dela baixaram mais um pouco, claro. Boa sorte, pá!

4.08.2015

Lá fora

Nós, portugueses, temos um contrasenso tão delicioso que só pode ser Amor. Falamos sempre do estrangeiro como o "lá fora". Se não concordamos com alguma coisa, dizemos que lá fora é que é, sem nos apercebermos que esse "lá fora" é o mundo todo, da Coreia do Norte à Patagónia, e que portanto nos estamos a comparar ao mundo inteiro.
É interessante como nos conseguimos criticar constantemente por não sermos tão bons como o resto do mundo, ao mesmo tempo que afirmamos que estamos quase lá. Somos nós e o resto do mundo num permanente e desigual combate.
E eu digo que só pode ser Amor. É como nas discussões Amorosas em que os apaixonados atribuem mil e um defeitos ao outro e o comparam injustamente a alguém. Discutem e argumentam, mas à noite deitam-se juntos e fazem Amor.
É que o Amor é isso, considerar o outro tão bom como o mundo inteiro ou, no meu caso, melhor ainda.

3.27.2015

respostas a perguntas inexistentes (298)

o meu Amor e o mundo

Espantam-me os apaixonados que não sentem ciúmes. Eu cá sou um homem ciumento, apesar de não ter ciúmes de ninguém. É com o mundo que me zango constantemente, por ter mais do meu Amor do que eu próprio. Chamo-lhe nomes, mas ele não me liga nenhuma. Filho da puta!
É que é sempre assim quando me apaixono. Vem o mundo e zás, estraga tudo. Tem a mania de atrair as atenções e eu que me lixe. Fico como um cão abandonado enquanto o meu Amor e Ele se divertem. É a merda do trabalho, dos programas baratos da tv por cabo, do livro que nunca acaba por mais páginas que passem e até da gastronomia.
Ainda há dias estávamos juntos na cama, acabadinhos de acordar, eu e o meu Amor, quando se decidiu levantar para ir comer torradas com doce. E eu com ciúmes daquilo tudo, à espera que eles decidam descansar um do outro para conseguir um pouco de atenção. Passei-me!
A única coisa que eu queria era que o mundo desaparecesse cada vez que me apaixono, mas isso nunca acontece. É um chato. O mundo parece um vendedor ambulante, sempre a tocar à campainha nos piores momentos.
Quando alguém me diz que nunca teve ciúmes, então é porque nunca esteve apaixonado. O Amor é isso: ter ciúmes do mundo.

3.26.2015

sem título

Era um sábado triste, tão triste como qualquer sábado que não seja feliz. Foi assim que ela o explicou e tinha razão. Os sábados nunca são dias assim assim. Só têm duas hipóteses: ou são felizes ou são tristes. Depois sorriu, mas foi um sorriso triste. Concluí que os sorrisos, pelo menos os dela, eram como os sábados.

- Por favor, diz-me o que se passa! - Pedi-lhe.

Estávamos no carro dela, motor desligado e a chuva a bater violentamente no pára-brisas. Tive pena daquela chuva, que vinha de tão longe para nos molhar e mesmo à última da hora não conseguia. Havia um vidro a separar-nos. Só isso. Um vidro. Depois de uma viagem tão grande ficava-se por ali, de forma inglória, desfeita em gotas.

- Por favor, diz-me o que se passa! - Repeti.

Ela rodou a chave uma vez e ligou o rádio, não sei se para matar o próprio silêncio ou se para cobrir o som da chuva. Estava a dar uma música que eu conhecia, mas da qual não sabia o nome nem o autor. Era uma música daquelas que passa por nós como um desconhecido a quem vemos a face na rua, mas de quem não conhecemos a identidade.

- É gira, esta música...
- Precisava que saísses e só voltasses a falar para mim no dia em que eu te pedir.

Para ela falar foi preciso que eu deixasse de lho pedir. Toquei-lhe no ombro de forma subtil, na tentativa de lhe dizer que compreendia, abri a porta do automóvel e corri para dentro do café onde tínhamos estado antes a pedir ao tempo que passasse mais depressa. Os pratos das torradas e os copos dos galões já tinham sido levantados pelo empregado eléctrico.
Até esse dia, nunca nenhuma mulher tinha terminado comigo algo que ainda nem sequer tinha começado. Pela janela do bar, vi o carro deslizar sobre a água que inundava as ruas de Lisboa. Pedi outro galão e outra torrada, à espera do comboio que me havia de levar a casa.
Passado pouco tempo apaixonei-me, creio que numa quarta-feira feliz, tão feliz como qualquer quarta-feira que não seja triste.

3.10.2015

inútil declaração de Amor

É uma merda que as pessoas se cansem de fazer declarações de Amor. Quando nos apaixonamos, não fazemos outra coisa senão falar de Amor, mas depois cansamo-nos e habituamo-nos à coisa. Começamos a dar ao Amor a mesma importância que damos às compras: é uma coisa que se faz porque se tem que fazer. Repito: isso é uma merda.
Volto ao princípio para me explicar melhor. O Amor tem que ser uma causa, daquelas pelas quais lutamos com todas as nossas forças. Não podemos aceitar que estar apaixonado seja a mesma coisa que estar na fila para o pão, ou seja, que o Amor se transforme numa variável útil da nossa vida, daquelas que só temos porque dá jeito ter.
O melhor Amor é aquele que não dá jeito nenhum. É o Amor inútil. Só existe pela mesmíssima razão que o Big Bang se deu. É a explosão que nos permite viver. Tirando essa razão para viver, não nos dá mais nada, a não ser sexo.
Ninguém devia responder "mais ou menos" quando lhe perguntam como está de Amor. Estar mais ou menos é a mesma coisa que estar mal, ou pior, é ainda mais vazio, mais cheio de nada. É só por isso que hoje, mais de seis anos depois de te ter conhecido, me apetece dizer publicamente que te Amo inutilmente.

2.27.2015

há coisas que não vão mudar

A Santa Casa da Misericórdia tem uma publicidade onde diz que há coisas que não vão mudar. Um homem feio que acertou no Euromilhões apresenta a namorada à mãe, uma mulher que já foi Miss Universo, e a mãe acha-a magrinha. Há, realmente, coisas que não mudam. A estupidez é uma delas. Misericórdia, por favor.
As mulheres bonitas e magras só estão ao alcance dum homem milionário. Já os homens têm mais sorte, podem ser sempre feios, ter um bigode mal cortado e barriga de cerveja. Enfim, a vida deles é muito mais simples do que a delas, que têm que estar sempre em forma e bem tratadas.
Claro que eles só podem ser feios se forem ricos e elas só devem ser bonitas se forem compráveis. Tudo o resto foge a uma normalidade que me escapa totalmente.
Hoje é sexta e eu não joguei no Euromilhões, apesar do meu sonho de dar a volta ao planeta de mochila às costas. Quando um dia destes jogar, se vir uma mulher na fila, dir-lhe-ei que é um jogo só para homens. O melhor que lhe pode acontecer é ser mulher dum gajo rico ou, em última análise, mãe incomodada desse mesmo excêntrico.

2.26.2015

respostas a perguntas inexistentes (297)

o mais pequeno Amor

Ainda ontem ouvi alguém falar do grande Amor da sua vida. É claro que o tamanho importa, por isso é que todos procuram esse grande Amor. Nunca ninguém deseja um Amor pequeno, porque à falta de mais conhecimento sobre o assunto, sobra o tamanho. O tamanho é o primeiro objecto de análise. Vivam os grandes Amores.
Eu também sempre quis um grande Amor, até ao dia em que percebi que os melhores Amores são os pequenos que, por serem menores, também são difíceis de encontrar. No dia em que decidi que precisava de um pequeno Amor vivia um grande, enormíssimo, Amor. Tão grande que ocupava o espaço todo, incluindo o de uma praia invernosa e deserta onde eu tinha caminhado sozinho toda uma tarde, apenas porque a solidão também é uma necessidade.

- Onde é que andaste o dia todo? - Perguntou-me.

Voltei a essa praia já a pensar em como desejava um Amor mais pequeno, daqueles que não são óbvios e que, para termos a certeza que existem, precisam de uma lupa ou até de um microscópio. São os Amores de pormenor, que por serem pequenos não exigem nada. Dão é tudo. É o pormenor de uma mão dada, de um segredo ao ouvido ou de um abraço. Ninguém vê, a não ser quem o sente.
Há alguns anos que vivo o mais pequeno Amor da minha vida. Assim, porque não quero outro.

2.15.2015

conversa 2117

(ao telefone)

Ela - Se não sou eu a ligar-te nem te vejo. Nunca dizes nada...
Eu - Tenho estado doente.
Ela - Desculpas!
Eu - Não são desculpas. Tenho estado mesmo com muita febre e má disposição.
Ela - Muita febre?! Quanta?
Eu - Isso não sei.
Ela - Não sabes?!
Eu - Não.
Ela - Tiveste muita febre e não sabes quanta febre tiveste, é isso?
Eu - É. Como não tenho termómetro em casa, nunca tirei a febre.
Ela - Como é que é possível não teres um termómetro em casa?!
Eu - Não tenho. Não costumo ter febre, então nunca me lembro de comprar um...
Ela - Pois, os homens nunca se lembram das coisas essenciais, a não ser quando precisam delas.
Eu - Não gozes. Já me aconteceu ir jantar a tua casa e não teres um simples saca-rolhas para abrir uma garrafa de vinho.
Ela - Estás a querer comparar um saca-rolhas a um termómetro?
Eu - Estou. Um saca-rolhas é de uso diário, um termómetro nem por isso. É mais grave não ter saca-rolhas em casa.
Ela - É de uso diário para ti. Eu só bebo vinho ao fim de semana.
Eu - E eu só tenho febre uma vez por ano.
Ela - Aposto que vais chegar ao próximo ano sem termómetro.
Eu - É possível. Aposto que vais chegar ao próximo jantar sem saca-rolhas.
Ela - É possível.

2.13.2015

respostas a perguntas inexistentes (296)

um brinde

Lembro-me da primeira vez que tentei matar por interesse. Com excepção do curso que tirei no Politécnico do Porto, nunca fui um aluno propriamente brilhante. Desde cedo revelei alguma incompatibilidade com a escola, tão incompatível que, para ser sincero, eu próprio não me apercebia que era um aluno à parte.
Um dos miúdos que eu conhecia e que também era um mau aluno vivia mesmo ao meu lado. Não dava nada para os estudos, mas dava para o negócio. Com doze anos já vendia de tudo aos colegas, desde relógios a doces e também ratos brancos. Nunca fomos grandes amigos, mas foi a ele que eu comprei um rato para levar para a aula de Ciências da Natureza, com o intuito de ser aberto. O rato ia morrer, mas era uma rara oportunidade que eu tinha de fazer qualquer coisa de positivo naquela disciplina.
O Filipe, sim, era um bom amigo. Também era um excelente aluno. Depois de termos estado todos a fazer festinhas ao rato, ele emocionou-se, pegou na caixa com o animal e fugiu. Soltou o bicho pela rede de arame para uns terrenos onde, na altura, apenas crescia milho. Enfureci-me e bati-lhe. Ele também me bateu. Ficámos os dois bastante marcados e chorámos bastante tempo. Menos mal, foi desde esse dia que nos tornámos amigos inseparáveis.
Talvez o Filipe, que já não está entre nós, tenha sido o meu grande amigo de infância. Foi a ele que confessei o meu primeiro Amor falhado. E o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto. Na verdade perdi-lhe a conta. Era criança e apaixonava-me todos os dias porque nem sequer sabia o que era o Amor. Bons tempos, esses, em que não sabemos o que é o Amor mas sabemos o que é a Amizade.
Hoje o movimento na minha loja esteve parado. Fiquei um bocado de tempo a olhar, surpreendido, para duas crianças que faziam equilibrismo no muro do outro lado da avenida. Tocavam-se a medo para tentar fazer o outro cair. Tantas vezes que eu brinquei assim com o Filipe. Se ele estivesse ali, provavelmente tínhamos bebido e brindado com uma cerveja. Como não está, é este o meu brinde para ele.

1.30.2015

Alabote

Não me lembro do dia em que decidi que ter um Amor é melhor do que ter cinquenta. Sei que foi uma decisão rápida e espontânea, não um processo de lento amadurecimento. Procuro esse dia no meu passado, como se procura num qualquer velho sótão empoeirado, e não o encontro. Por isso, e porque sei que ele está lá algures, fecho a porta à chave para que ninguém mo roube e volto ao presente.
No presente atendo uma cliente na minha loja de congelados que procura um peixe muito específico chamado Alabote.

- É aqui que vendem Alabote? - Pergunta-me da porta.
- É! - E ela sobe os três degraus da entrada.

Habituei-me a esta pergunta com alguma regularidade. Não faço a mínima ideia porquê, mas o Alabote é um peixe difícil de encontrar. Eu próprio só o saboreei pela primeira vez depois de ter iniciado este negócio. Normalmente, quem compra este peixe já sabe ao que vem.
Lá fora , três árvores nuas vão-se acariciando mutuamente com as pontas finas dos galhos, indiferentes ao trânsito automóvel que mastiga a estrada como se não soubesse muito bem para onde ir. Olho pela janela e ouço uma arca frigorífica a abrir-se.

-  Não sei muito bem quando é que comi este peixe pela primeira vez, mas sei que me sabe muito bem. Foi uma amiga que já cá veio que me disse que vendia Alabote.

Sorrio. A cliente não sabe, mas enquanto lhe faço a conta penso em como ela respondeu à minha dúvida. Decidi que ter um Amor é melhor do que ter cinquenta no exacto momento em que o provei e me soube bem. Ela sai, devagarinho, com a carteira numa mão e o saco de peixe noutra. Agradeço-lhe a compra e, sem ela saber, tudo o que ela me disse.
O vento amainou e as árvores pararam com as carícias. Talvez estejam a pensar em como lhes souberam bem. Acho que às vezes todos paramos por um momento ou dois para pensar no prazer de estar vivo. Mesmo que não saibamos de onde ele vem, guardamo-lo. Acho que é tudo.

1.27.2015

sou um enorme sucesso entre as mulheres

A verdade é que eu sou um enorme sucesso entre as mulheres. Não é ser convencido nem nada, mas nem posso sair à rua. Elas não tiram os olhos de mim. É incrível. A coisa chegou a um ponto que eu próprio não aguento mais. A sério que preferia ser um tipo banal e passar discreto entre a multidão.
Ainda ontem, por exemplo, para ver se conseguia passear sossegado pela cidade, disfarcei-me de pinguim. Vesti um pijama comprado na Primark que tem luvas e rabo incluído. Pois bem, não resultou. Assim que saí de casa, a primeira mulher por quem passei seguiu-me com o olhar durante o tempo todo. Nem disfarçou. Claro que não liguei. Acendi um cigarro e continuei.
Não aguento muito tempo sem tomar o café da manhã, pelo que entrei numa pastelaria venezuelana e sentei-me num canto onde, pensava eu, ninguém ia reparar em mim. Enganei-me. A empregada foi a primeira a não resistir ao meu charme. Em vez de, muito simplesmente, me perguntar o que eu queria, perguntou-me se estava tudo bem comigo. A fingir-se preocupada, a gaja. Nem lhe respondi. Disse-lhe só para me trazer um café. Acreditem que esteve o tempo todo a olhar para mim, ela e todas as outras clientes, sempre com risinhos comprometedores.
Uma delas até se meteu mesmo comigo. Ganhou coragem e deu-me o contacto dela num cartão de visita. É psiquiatra, a gaja. Eu já reparei que as psiquiatras têm todas um fraquinho por mim, mas não lhes ligo nenhuma. Fico sempre na minha, a ver se não me chateiam. A esta, por exemplo, prometi telefonar, mas claro que não o vou fazer. Uma vez telefonei a uma e marcámos um encontro. A primeira coisa que ela me disse foi para me deitar numa marquesa. O que ela queria sei eu muito bem. Virei logo costas, que para mim o sexo só faz sentido depois de travar algum conhecimento.
Detesto este tipo de cenas, mas não consigo que as mulheres deixem de olhar fixamente para mim. Alguns de vocês até podem pensar que é por eu me disfarçar de pinguim, mas acreditem que não. Hoje disfarcei-me de hipopótamo e foi a mesma coisa. É assim a vida de um homem charmoso.

1.15.2015

respostas a perguntas inexistentes (295)

Em criança, a minha mãe costumava dizer-me que eu estragava o calçado muito depressa. Tal não se devia ao facto de eu abrir a ponta dos sapatos quando jogava à bola, embora isso também acontecesse, mas sim à forma como gastava as solas. Pela minha forma de correr e andar, rapidamente os sapatos passavam a parecer um automóvel com os pneus furados de um lado. Ficavam tortos e desequilibrados.
Estou a olhar para os meus sapatos agora. Ainda é assim hoje em dia. Tem piada, reparar na forma como as minhas solas estão gastas trouxe-me várias recordações de infância. A voz doce da minha mãe, a luz do Sol a desenhar os buracos da persiana na parede do meu quarto e ao canto, sempre no canto, a minha velha bola de futebol a descansar dos pontapés que levava diariamente.
Às vezes jogava no tapete de relva que ainda está no bairro da Gulbenkian, em Aveiro, onde morava a minha avó. Jogava o dia todo, com intervalos apenas para comer o pudim amarelo, que ela fazia quase todos os dias, e para fugir dos funcionários da câmara que nos proibiam de pisar a relva.
Lembro-me de, ao fugir deles a sete pés, tropeçar no passeio, cair e ser apanhado por um.

- Um dia, quando cresceres, vais perceber porque é que não podes pisar a relva! - disse-me ele em tom ameaçador.

A minha avó viu tudo da varanda e saiu em meu socorro. O homem afastou-se, pareceu-me que frustrado por não me ter assustado mais.

- Eu já sou velha e ainda não percebo porque é que fazem tapetes de relva, se não os podemos pisar... - disse ela.

Eu tenho quarenta e três anos agora. Também ainda não percebo.

E foi nisto que pensei ao olhar para os meus sapatos.

1.13.2015

conversa 2116

Ela - Caraças! Devo ser uma gaja mesmo muito estranha...
Eu - Porque é que dizes isso?
Ela - Não sei... sinto-me estranha e nem sei bem porquê, o que já é estranho.
Eu - Não te preocupes. És uma gaja como outra qualquer.
Ela - Uma gaja como outra qualquer?! Não melhorou nada, preferia ser uma gaja estranha.

1.12.2015

um pássaro assustado

Neste momento quase só trabalho. As horas de lazer de que desfruto são roubadas a muita coisa que tenho que fazer e resumem-se a ver um ou outro filme à noite ou ler um ou outro livro. Quando posso vou ver a minha companheira, o que acontece menos vezes do aquilo que eu quero e preciso. Para além disso, a minha vida social resume-se quase só aos amigos e amigas que me visitam quando estou na loja e, claro, a alguns momentos com a minha filha.
Não me considero com jeito para vendedor, mas nunca me tinha acontecido isto: simplesmente não conseguir ter emprego e ter que iniciar uma actividade por conta própria. A minha loja ainda não está a dar dinheiro, mas as reacções da generalidade dos clientes dão-me alguma esperança de que eu possa vir a viver disto. Uma das vantagens é que converso com mais pessoas que não conheço de lado nenhum, clientes que entram, compram uma ou duas postas de peixe e falam sobre temas variados. Ainda assim, passo muitas horas sozinho.
Na rua onde estou não há árvores no passeio. É uma avenida preenchida por edifícios herméticos, com cerca de seis ou sete andares cada um, que parecem indiferentes ao que se passa lá fora. Existe uma esplanada onde o Sol costuma tomar café depois do almoço e eu, sempre que posso, também. Tudo o resto é quase sempre sombra.
Foi num desses momentos que percebi que alguns pássaros pequenos pousam na frágil vegetação da faixa central da avenida. Cada vez que passam automóveis, eles assustam-se e voam. Depois tornam a pousar, como se o susto os tivesse cansado bastante. Não sei se é sempre assim, mas pelo menos foi uma vez.
Foi dessa esplanada, também, que vi um senhor de idade tropeçar e estatelar-se no chão. Ninguém se levantou para o ajudar, a não ser eu e o amigo que estava nesse momento comigo. Às vezes parece que quantos mais somos, mais sós vivemos. É por isso que aproveitamos a compra duma posta de peixe para falar sobre qualquer coisa, seja o que for. Eu também sou assim, uma espécie de pássaro assustado.

1.06.2015

a minha loja, ou como não consigo fazer as pazes com o mundo

Todos nós sabemos que não está tudo bem, nem connosco nem com o mundo. Há sempre qualquer coisa mal, mesmo que esteja quase tudo bem. Apesar de tudo, costumamos perguntar aos amigos se está tudo bem, como se não soubéssemos a resposta. Não sabemos mesmo, porque normalmente a resposta que ouvimos é sim.
Talvez tenha a ver com a idade, não sei. Ando com uma vontade enorme de fazer as pazes com o mundo. O problema é que não consigo.
Os mais atentos leitores deste blogue sabem que estive dois anos desempregado, mas não sabem que acabei de abrir uma loja em Aveiro e que por isso é que deixei de escrever durante algum tempo. Foram dias agitados que, na verdade, ainda o são.
A minha loja fica na Avenida da Força Aérea, em Aveiro, e vende produtos alimentares livres de químicos, branqueadores, intensificadores de sabor, etc. Essencialmente tenho produtos congelados da marca Moreira, mas também conservas e mercearia essencial. Tudo marcas portuguesas de alguma qualidade e baixo preço que aprendi a consumir precisamente durante o meu período de desempregado.
Quis fazer as pazes com o mundo, mas no primeiro dia que abri, provavelmente a minha quinta ou sexta cliente, foi uma senhora que demorou cerca de dois minutos a subir os três degraus da entrada. ofereci-lhe ajuda, mas ela recusou. Depois escolheu uma posta de Alabote e perguntou-me o preço.
- Um euro e noventa e oito! - respondi.

Ela abriu o porta moedas, procurou com os dedos algumas moedas e tornou a fechá-lo. Agradeceu-me e saiu. Provavelmente nem percebeu que tinha escolhido um dos peixes mais caros do mercado, mas a dor de barriga com que fiquei impediu-me de a esclarecer. Não lhe ofereci porque, em abono da verdade, não posso oferecer nada que tenha a ver com o meu trabalho.
Alguns momentos depois um amigo entrou na loja e perguntou-me se estava tudo bem. Respondi-lhe que sim, mas menti. Obviamente.

De qualquer maneira, para quem tem Facebook e é de Aveiro, pode visitar-me aqui.

1.05.2015

engolida pelo Sol

Hoje encontrei uma amiga que já não via há muito tempo. Talvez há uns quatro anos, pelo que me lembro. A primeira vez que olhei para ela pensei que fosse apenas uma mulher parecida, mas depois reparei que era mesmo ela e então cumprimentei-a. Acho que lhe aconteceu o mesmo relativamente a mim, porque não me disse nada na primeira vez que trocámos olhares.
Estávamos num café em Aveiro. Eu sozinho numa mesa e ela acompanhada por um homem e uma criança noutra mesa. Levantámo-nos ao mesmo tempo, depois de um lapsus facial simultâneo, e demos um abraço a meio do caminho, muito perto duma outra mesa onde duas mulheres bebiam chá e comiam torradas. 
De certa forma apetecia-me contar-lhe e ouvir-lhe tudo sobre o tempo que passou por nós desde a última vez que nos vimos, mas a situação não o permitiu. Dois minutos depois do nosso abraço, o homem levantou-se e levou a criança pela mão até à porta do estabelecimento, onde ficou em pé a esperar por ela. Eram o marido e o filho que a chamavam sem chamar. Ela abanou os ombros como que desculpando-se, deu-me outro abraço e despediu-se. Disse-me que temos que falar para pôr a conversa em dia.
Não fiquei com o número dela nem ela com o meu. Acabei de o procurar e não consta da minha lista telefónica. Acho que o perdi numa das mudanças de telemóvel bruscas que fiz no passado recente. O mais provável é que se passem mais quatro anos até eu a encontrar de novo, por acaso, num café qualquer da cidade.
Não sei quando é que o tempo se tornou assim, imensamente pequeno e minuciosamente grande. Acho que fiquei alguns minutos em pé no meio do bar, a vê-la afastar-se e sair pela porta cujos vidros eram violentamente trespassados pela luz do Sol. Quando me sentei percebi que as mulheres que bebiam chá e comiam torradas cochichavam qualquer coisa sobre mim. Não sei bem o quê, mas suspeito que tinha a ver com o facto de eu ter ficado a suspirar assim que ela foi engolida pelo Sol.

12.01.2014

respostas a perguntas inexistentes (294)

Outono

É comum dizer-se que o tempo anda maluco. Anda mesmo. A única coisa que não mudou na rua onde acordo foi a cor das árvores. Parece que algum pintor chegou ali e deu umas pinceladas de vermelho para contrastar com o cinzento dos edifícios que se vêem até à linha do horizonte.
Existem dois tipos de árvores: aquelas que exibem com orgulho a sua cor outonal e aquelas que perderam totalmente a folhagem. As árvores são como as pessoas. Algumas estão felizes, outras estão tristes. Um pouco mais ao fundo, quase a desaparecer numa curva, uns ramos finos e articulados seguram em esforço uma última folha. É uma árvore triste, mas que não desiste de ser feliz. E é assim que me lembro dela.
Às vezes dou-lhe a mão e a folha sou eu. Sinto-me um enorme petroleiro puxado por uma frágil embarcação prestes a afundar-se. Ainda assim, todos os dias ela me salva também a mim, sem sequer perceber muito bem como ou porquê. É a existência, acho eu. Poucas pessoas percebem essa mensagem do Outono, quando ele varre de frio as ruas da cidade e empurra todo o calor do mundo para dentro de cada casa. Às vezes num abraço, outra vezes num sorriso, outras vezes até numa discussão sobre um copo partido.
Ninguém devia acreditar no destino, com excepção daquele que o Outono nos traz.