4.18.2015

conversa 2119

Ela - Qual é o melhor vinho tinto que vendes na tua loja?
Eu - Quatro Caminhos, sem dúvida nenhuma...
Ela - Quanto custa?
Eu - Quase oito euros...
Ela - E qual é o pior?
Eu - Na minha opinião, Porta da Ravessa.
Ela - Quanto custa?
Eu - Menos de dois euros...
Ela - Detesto esta dúvida existencial de fim de semana.
Eu - Qual dúvida?
Ela - Se devo ficar sóbria com um bom vinho ou bêbada com um mau vinho.

4.17.2015

Os nossos governos estão cheios de Jics

Por definição, sou contra os homens que não são contra nada. Existe uma raça de homens no nosso país que chamo de Jics. São aqueles que, surja que tema surgir numa conversa, antes de emitir opinião dizem que não têm nada contra. Querem estar bem com todos, mesmo que todos estejam mal com eles, e em nome desse bem estar abdicam da sua própria afirmação.
Estar bem com todos pode dar jeito no futuro, porque assim ninguém lhes aponta o dedo. A quem não tem opinião, ninguém acusa de a ter ou de ter tido. Por isso, just in case, não são contra nada. É daí que vem a alcunha de Jic.
O grande problema dos Jics é a palavra "mas", que os trai a cada conversa e a cada momento. Eu não tenho nada contra os homossexuais, mas...; eu não tenho nada contra os comunistas, mas...; eu não tenho nada contra as tatuagens, mas...; o "mas" é a palavra que morde pela calada.
"Não ter nada contra, mas..." é uma característica de género e, já agora, também portuguesa. É dos homens portugueses, pronto. É ela o grande denominador comum da nossa querida classe política (aquela que pertence à esfera do poder, pelo menos), contra a qual não tenho nada contra, mas que só faz merda, lá isso é verdade.
Os nossos governos estão cheios de Jics.

4.16.2015

respostas a perguntas inexistentes (302)

As mulheres gostam mais de sexo do que os homens

As mulheres gostam mais de sexo do que os homens. Muito mais, mesmo. Por isso é que o querem menos vezes. É comum os homens pensarem que as mulheres não gostam tanto de sexo assim que ouvem o primeiro "hoje não me apetece" da namorada ou da amante. O que eles não percebem é que para elas o sexo é um prato gourmet, para eles é um hambúrguer num restaurante de fast food.
Pensem num Caril de Peixe com frutas em que juntam Perca, Cherne e Alabote. Refogam tudo em alho e cebola enquanto juntam os temperos:  sal, salsa ou os coentros e o louro. É o sexo das mulheres. Tem sabor, dedicação e oportunidade. Não se come é todos os dias.
Eles conduzem um carro até ao drive in mais próximo e pedem um Big Mac. Sim, todos os dias.
O melhor que pode acontecer a um homem é encontrar uma mulher que o ensine, não só a cozinhar, mas também a comer, para que ele possa conhecer receitas gastronómicas. É quando um homem deixa de ter a mania que é o melhor do mundo na cama que passa a ser alguma coisa de jeito. É também, nesse momento, que ela o acompanha uma vez por outra ao pior restaurante do mundo.

4.14.2015

respostas a perguntas inexistentes (301)

Existem os homens que sabem fazer declarações de Amor e existem os outros, os bêbados da meia-noite. Eu pertenço à segunda categoria, àqueles que nunca fizeram uma única declaração de Amor decente. São esses que a partir da meia-noite bebem um pouco mais, porque o álcool está para um homem incapaz de fazer declarações de Amor assim como um cão está para o Homem em geral: é o seu melhor amigo.
O mais bonito nos homens que não sabem fazer declarações é que nunca desistem de tentar. Passam a vida a esbarrar na incompreensão feminina, que ora reage com desprezo total, ora com um sorriso igual ao de quem parte em viagem, isto é, de quem vai embora porque está farto de ali estar.
As mulheres deviam ter mais atenção aos homens que bebem. Acredito que não há um único bêbado neste mundo que não o seja por causa delas. Delas e, claro, da sua incompetência natural para fazer declarações de Amor.
Lembro-me do dia em que percebi que não sabia fazer declarações de Amor. Foi num dia como o de hoje. A espuma da minha cerveja descia pelo vidro num lento suicídio em direcção ao fundo do copo e ela, que ainda só tinha dado dois goles, sugeriu-me que pedisse outra.

- És bonita! - disse eu.

Os olhos dela continuaram a olhar para o meu copo, como se estivessem a admirar uma obra de arte qualquer, indiferentes ao que eu acabara de dizer. Para meu espanto, o mundo continuava a funcionar à minha volta como se nada fosse. Menos mal. Os clientes continuavam a entrar e sair daquela esplanada e o empregado de mesa, demasiado calmo para o número de clientes que esperavam por ele, empilhava copos vazios numa bandeja que me parecia demasiado pequena para o efeito.

- Outra cerveja, por favor! - pedi-lhe assim que passou perto de mim.

É claro que ela ficou indiferente. A minha declaração não chegava a ser de Amor. Era apenas uma tremida constatação da sua beleza, pela qual ela nem sequer tinha responsabilidade nenhuma. Acabei a minha segunda cerveja no mesmo momento em que ela acabou a primeira. Vi-a levantar-se, pagar e afastar-se enquanto me dizia adeus com a mão esquerda. Aquela era uma despedida que me despedia a mim, definitivamente, de candidato a poder Amá-la.

- Paguei as três... - disse ela. Depois desapareceu.

Fiquei eu e o bar.

4.11.2015

conversa 2118

Ela - Os homens só se interessam por uma mulher se ela for bonita. Já as mulheres têm a capacidade de se apaixonarem por homens menos bonitos, mas que digam e pensem coisas interessantes.
Eu - Não concordo nada com isso.
Ela - Podes não concordar, mas é verdade. O meu marido, por exemplo, não era um homem especialmente bonito quando o conheci. Tornou-se bonito pela maneira de ser...
Eu - Eu percebo isso perfeitamente. Acho que os homens também têm essa capacidade.
Ela - Já te aconteceu interessares-te por uma mulher menos bonita fisicamente, apenas porque a achaste inteligente?
Eu - Já, claro que já. Contigo, por exemplo.
Ela - Comigo?!
Eu - Sim.
Ela - Ah! Meu sacana. Então não me achas bonita?!

4.10.2015

respostas a perguntas inexistentes (300)

Tenho quarenta e três anos. Gosto de uísque, de vinho e de café. Tornei-me merceeiro para tentar sobreviver a um período difícil da minha vida. De todos os sonhos que tive, sobra-me apenas um, o de manter permanentemente sonhos impossíveis de cumprir.
Um dos sonhos que deixei pelo caminho foi o de estar sempre apaixonado. Aconteceu-me quando tinha trinta e cinco anos e iniciei, para poder desabafar com estranhos, este blogue. Para além de todos os Amores que fui tendo, tive só dois. Esse de que já falei e aquele que vivo agora, nos dias difíceis que correm.
Quando alguém me conhece não sabe isto, mas conheça-se quem se conhecer há sempre dois parágrafos por trás, uma forma tão insuficiente quanto lúcida de se definir. Eu, aliás, também nunca conheço os dois parágrafos de quem passa por mim. Parto apenas do princípio que os tem.
Se eu pedisse a cada um dos leitores deste blogue para se definir em dois parágrafos curtos, tal como eu acabei de fazer, com certeza que todos o conseguiriam fazer. É isso que nos distingue uns dos outros. Quando pegamos na nossa vida inteira e a esprememos para um copo pequenino como se espreme um sumo ou uma laranja, o resultado é sempre diferente. É o nosso sumo, não o dos outros.
Tenho um enorme respeito pelos dois parágrafos de cada um de nós, apenas por saber que existem. Apesar de curtos, são normalmente uma construção de anos, com momentos deliciosos e outros sofridos. São um labirinto de razões e emoções, de risos e de lágrimas, de murros e de abraços. Todos nós somos assim, tão diferentes quanto iguais.
Parece pouco, mas quando nos apaixonamos por alguém à primeira vista, pouco mais temos do que esses dois parágrafos. O facto de nos conseguirmos apaixonar por meia dúzia de frases e com elas escrever um romance, às vezes mais longo outras vezes mais curto, torna-me optimista. Obrigado.
Acho que é isso o Amor.

4.09.2015

respostas a perguntas inexistentes (299)

insuficiência

Todos procuramos certezas no Amor, sem percebermos que são elas o seu fim. Um Amor a sério vive sempre da dúvida e da insegurança, do receio e da saudade. Por mais que se tenha de um Amor nunca é suficiente. A insuficiência e a insegurança, como duas irmãs gémeas, andam sempre de mão dada.
Pedir a quem se Ama que dê mais é a mesma coisa que pedir a um rio que mude o seu curso natural. Não se faz nem leva a lado nenhum. Para viver bem com um Amor é preciso viver bem com o insuficiente.
Mal do Amor quando é suficiente, quando um dos apaixonados diz para si mesmo que já chega. Todos procuramos certezas no Amor, é verdade. Eu  procuro-as na insuficiência, porque é dela que vivo. 

pensamentos catatónicos (318)

Da estupidez dos homens

No Amor, os homens são um bocadinho estúpidos. Eu incluído, claro. Passam a vida a aprender aquilo com que a mulher já nasce ensinada: a Amar. Depois a vida torna-se um teste de resistência delas com eles. É ver quanto tempo uma mulher aguenta as estupidezes dum homem. Eu cá gabo-lhes a paciência.
A maior estupidez é passar do zero aos cem em menos de dois segundos. Quando um homem está sozinho acha-se um falhado, quando não está passa a ser o maior do planeta. Absurdamente, passa até a ser melhor do que a própria mulher que o Ama. É por isso que um homem nunca acredita que pode ser deixado. Tão verdade que às vezes já o foi e continua a não acreditar.
Com a vida, quando namoram (adoro este verbo), o principal objectivo dos homens que conseguem aprender alguma coisa com a vida é fazer o menor número possível de asneiras. Controlar os ciúmes competitivos, acalmar o excesso de confiança que só uma mulher dá, fazer mais em casa do que jogar jogos parvos e, por fim, tapar sempre a sanita depois de a usar. É o que eu faço, apesar da dificuldade de género.
Ainda hoje saí para tomar café. Na mesa ao lado da minha estava um casal ainda jovem (já não adoro assim tanto dizer isto). Ele explicava-lhe em alta voz como é que se estaciona um automóvel de marcha atrás enquanto ela suspirava e olhava para o infinito. Só mesmo um homem para ter orgulho em conseguir estacionar um carro. Os níveis de paciência dela baixaram mais um pouco, claro. Boa sorte, pá!

4.08.2015

Lá fora

Nós, portugueses, temos um contrasenso tão delicioso que só pode ser Amor. Falamos sempre do estrangeiro como o "lá fora". Se não concordamos com alguma coisa, dizemos que lá fora é que é, sem nos apercebermos que esse "lá fora" é o mundo todo, da Coreia do Norte à Patagónia, e que portanto nos estamos a comparar ao mundo inteiro.
É interessante como nos conseguimos criticar constantemente por não sermos tão bons como o resto do mundo, ao mesmo tempo que afirmamos que estamos quase lá. Somos nós e o resto do mundo num permanente e desigual combate.
E eu digo que só pode ser Amor. É como nas discussões Amorosas em que os apaixonados atribuem mil e um defeitos ao outro e o comparam injustamente a alguém. Discutem e argumentam, mas à noite deitam-se juntos e fazem Amor.
É que o Amor é isso, considerar o outro tão bom como o mundo inteiro ou, no meu caso, melhor ainda.

3.27.2015

respostas a perguntas inexistentes (298)

o meu Amor e o mundo

Espantam-me os apaixonados que não sentem ciúmes. Eu cá sou um homem ciumento, apesar de não ter ciúmes de ninguém. É com o mundo que me zango constantemente, por ter mais do meu Amor do que eu próprio. Chamo-lhe nomes, mas ele não me liga nenhuma. Filho da puta!
É que é sempre assim quando me apaixono. Vem o mundo e zás, estraga tudo. Tem a mania de atrair as atenções e eu que me lixe. Fico como um cão abandonado enquanto o meu Amor e Ele se divertem. É a merda do trabalho, dos programas baratos da tv por cabo, do livro que nunca acaba por mais páginas que passem e até da gastronomia.
Ainda há dias estávamos juntos na cama, acabadinhos de acordar, eu e o meu Amor, quando se decidiu levantar para ir comer torradas com doce. E eu com ciúmes daquilo tudo, à espera que eles decidam descansar um do outro para conseguir um pouco de atenção. Passei-me!
A única coisa que eu queria era que o mundo desaparecesse cada vez que me apaixono, mas isso nunca acontece. É um chato. O mundo parece um vendedor ambulante, sempre a tocar à campainha nos piores momentos.
Quando alguém me diz que nunca teve ciúmes, então é porque nunca esteve apaixonado. O Amor é isso: ter ciúmes do mundo.

3.26.2015

sem título

Era um sábado triste, tão triste como qualquer sábado que não seja feliz. Foi assim que ela o explicou e tinha razão. Os sábados nunca são dias assim assim. Só têm duas hipóteses: ou são felizes ou são tristes. Depois sorriu, mas foi um sorriso triste. Concluí que os sorrisos, pelo menos os dela, eram como os sábados.

- Por favor, diz-me o que se passa! - Pedi-lhe.

Estávamos no carro dela, motor desligado e a chuva a bater violentamente no pára-brisas. Tive pena daquela chuva, que vinha de tão longe para nos molhar e mesmo à última da hora não conseguia. Havia um vidro a separar-nos. Só isso. Um vidro. Depois de uma viagem tão grande ficava-se por ali, de forma inglória, desfeita em gotas.

- Por favor, diz-me o que se passa! - Repeti.

Ela rodou a chave uma vez e ligou o rádio, não sei se para matar o próprio silêncio ou se para cobrir o som da chuva. Estava a dar uma música que eu conhecia, mas da qual não sabia o nome nem o autor. Era uma música daquelas que passa por nós como um desconhecido a quem vemos a face na rua, mas de quem não conhecemos a identidade.

- É gira, esta música...
- Precisava que saísses e só voltasses a falar para mim no dia em que eu te pedir.

Para ela falar foi preciso que eu deixasse de lho pedir. Toquei-lhe no ombro de forma subtil, na tentativa de lhe dizer que compreendia, abri a porta do automóvel e corri para dentro do café onde tínhamos estado antes a pedir ao tempo que passasse mais depressa. Os pratos das torradas e os copos dos galões já tinham sido levantados pelo empregado eléctrico.
Até esse dia, nunca nenhuma mulher tinha terminado comigo algo que ainda nem sequer tinha começado. Pela janela do bar, vi o carro deslizar sobre a água que inundava as ruas de Lisboa. Pedi outro galão e outra torrada, à espera do comboio que me havia de levar a casa.
Passado pouco tempo apaixonei-me, creio que numa quarta-feira feliz, tão feliz como qualquer quarta-feira que não seja triste.

3.10.2015

inútil declaração de Amor

É uma merda que as pessoas se cansem de fazer declarações de Amor. Quando nos apaixonamos, não fazemos outra coisa senão falar de Amor, mas depois cansamo-nos e habituamo-nos à coisa. Começamos a dar ao Amor a mesma importância que damos às compras: é uma coisa que se faz porque se tem que fazer. Repito: isso é uma merda.
Volto ao princípio para me explicar melhor. O Amor tem que ser uma causa, daquelas pelas quais lutamos com todas as nossas forças. Não podemos aceitar que estar apaixonado seja a mesma coisa que estar na fila para o pão, ou seja, que o Amor se transforme numa variável útil da nossa vida, daquelas que só temos porque dá jeito ter.
O melhor Amor é aquele que não dá jeito nenhum. É o Amor inútil. Só existe pela mesmíssima razão que o Big Bang se deu. É a explosão que nos permite viver. Tirando essa razão para viver, não nos dá mais nada, a não ser sexo.
Ninguém devia responder "mais ou menos" quando lhe perguntam como está de Amor. Estar mais ou menos é a mesma coisa que estar mal, ou pior, é ainda mais vazio, mais cheio de nada. É só por isso que hoje, mais de seis anos depois de te ter conhecido, me apetece dizer publicamente que te Amo inutilmente.

2.27.2015

há coisas que não vão mudar

A Santa Casa da Misericórdia tem uma publicidade onde diz que há coisas que não vão mudar. Um homem feio que acertou no Euromilhões apresenta a namorada à mãe, uma mulher que já foi Miss Universo, e a mãe acha-a magrinha. Há, realmente, coisas que não mudam. A estupidez é uma delas. Misericórdia, por favor.
As mulheres bonitas e magras só estão ao alcance dum homem milionário. Já os homens têm mais sorte, podem ser sempre feios, ter um bigode mal cortado e barriga de cerveja. Enfim, a vida deles é muito mais simples do que a delas, que têm que estar sempre em forma e bem tratadas.
Claro que eles só podem ser feios se forem ricos e elas só devem ser bonitas se forem compráveis. Tudo o resto foge a uma normalidade que me escapa totalmente.
Hoje é sexta e eu não joguei no Euromilhões, apesar do meu sonho de dar a volta ao planeta de mochila às costas. Quando um dia destes jogar, se vir uma mulher na fila, dir-lhe-ei que é um jogo só para homens. O melhor que lhe pode acontecer é ser mulher dum gajo rico ou, em última análise, mãe incomodada desse mesmo excêntrico.

2.26.2015

respostas a perguntas inexistentes (297)

o mais pequeno Amor

Ainda ontem ouvi alguém falar do grande Amor da sua vida. É claro que o tamanho importa, por isso é que todos procuram esse grande Amor. Nunca ninguém deseja um Amor pequeno, porque à falta de mais conhecimento sobre o assunto, sobra o tamanho. O tamanho é o primeiro objecto de análise. Vivam os grandes Amores.
Eu também sempre quis um grande Amor, até ao dia em que percebi que os melhores Amores são os pequenos que, por serem menores, também são difíceis de encontrar. No dia em que decidi que precisava de um pequeno Amor vivia um grande, enormíssimo, Amor. Tão grande que ocupava o espaço todo, incluindo o de uma praia invernosa e deserta onde eu tinha caminhado sozinho toda uma tarde, apenas porque a solidão também é uma necessidade.

- Onde é que andaste o dia todo? - Perguntou-me.

Voltei a essa praia já a pensar em como desejava um Amor mais pequeno, daqueles que não são óbvios e que, para termos a certeza que existem, precisam de uma lupa ou até de um microscópio. São os Amores de pormenor, que por serem pequenos não exigem nada. Dão é tudo. É o pormenor de uma mão dada, de um segredo ao ouvido ou de um abraço. Ninguém vê, a não ser quem o sente.
Há alguns anos que vivo o mais pequeno Amor da minha vida. Assim, porque não quero outro.

2.15.2015

conversa 2117

(ao telefone)

Ela - Se não sou eu a ligar-te nem te vejo. Nunca dizes nada...
Eu - Tenho estado doente.
Ela - Desculpas!
Eu - Não são desculpas. Tenho estado mesmo com muita febre e má disposição.
Ela - Muita febre?! Quanta?
Eu - Isso não sei.
Ela - Não sabes?!
Eu - Não.
Ela - Tiveste muita febre e não sabes quanta febre tiveste, é isso?
Eu - É. Como não tenho termómetro em casa, nunca tirei a febre.
Ela - Como é que é possível não teres um termómetro em casa?!
Eu - Não tenho. Não costumo ter febre, então nunca me lembro de comprar um...
Ela - Pois, os homens nunca se lembram das coisas essenciais, a não ser quando precisam delas.
Eu - Não gozes. Já me aconteceu ir jantar a tua casa e não teres um simples saca-rolhas para abrir uma garrafa de vinho.
Ela - Estás a querer comparar um saca-rolhas a um termómetro?
Eu - Estou. Um saca-rolhas é de uso diário, um termómetro nem por isso. É mais grave não ter saca-rolhas em casa.
Ela - É de uso diário para ti. Eu só bebo vinho ao fim de semana.
Eu - E eu só tenho febre uma vez por ano.
Ela - Aposto que vais chegar ao próximo ano sem termómetro.
Eu - É possível. Aposto que vais chegar ao próximo jantar sem saca-rolhas.
Ela - É possível.

2.13.2015

respostas a perguntas inexistentes (296)

um brinde

Lembro-me da primeira vez que tentei matar por interesse. Com excepção do curso que tirei no Politécnico do Porto, nunca fui um aluno propriamente brilhante. Desde cedo revelei alguma incompatibilidade com a escola, tão incompatível que, para ser sincero, eu próprio não me apercebia que era um aluno à parte.
Um dos miúdos que eu conhecia e que também era um mau aluno vivia mesmo ao meu lado. Não dava nada para os estudos, mas dava para o negócio. Com doze anos já vendia de tudo aos colegas, desde relógios a doces e também ratos brancos. Nunca fomos grandes amigos, mas foi a ele que eu comprei um rato para levar para a aula de Ciências da Natureza, com o intuito de ser aberto. O rato ia morrer, mas era uma rara oportunidade que eu tinha de fazer qualquer coisa de positivo naquela disciplina.
O Filipe, sim, era um bom amigo. Também era um excelente aluno. Depois de termos estado todos a fazer festinhas ao rato, ele emocionou-se, pegou na caixa com o animal e fugiu. Soltou o bicho pela rede de arame para uns terrenos onde, na altura, apenas crescia milho. Enfureci-me e bati-lhe. Ele também me bateu. Ficámos os dois bastante marcados e chorámos bastante tempo. Menos mal, foi desde esse dia que nos tornámos amigos inseparáveis.
Talvez o Filipe, que já não está entre nós, tenha sido o meu grande amigo de infância. Foi a ele que confessei o meu primeiro Amor falhado. E o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto. Na verdade perdi-lhe a conta. Era criança e apaixonava-me todos os dias porque nem sequer sabia o que era o Amor. Bons tempos, esses, em que não sabemos o que é o Amor mas sabemos o que é a Amizade.
Hoje o movimento na minha loja esteve parado. Fiquei um bocado de tempo a olhar, surpreendido, para duas crianças que faziam equilibrismo no muro do outro lado da avenida. Tocavam-se a medo para tentar fazer o outro cair. Tantas vezes que eu brinquei assim com o Filipe. Se ele estivesse ali, provavelmente tínhamos bebido e brindado com uma cerveja. Como não está, é este o meu brinde para ele.

1.30.2015

Alabote

Não me lembro do dia em que decidi que ter um Amor é melhor do que ter cinquenta. Sei que foi uma decisão rápida e espontânea, não um processo de lento amadurecimento. Procuro esse dia no meu passado, como se procura num qualquer velho sótão empoeirado, e não o encontro. Por isso, e porque sei que ele está lá algures, fecho a porta à chave para que ninguém mo roube e volto ao presente.
No presente atendo uma cliente na minha loja de congelados que procura um peixe muito específico chamado Alabote.

- É aqui que vendem Alabote? - Pergunta-me da porta.
- É! - E ela sobe os três degraus da entrada.

Habituei-me a esta pergunta com alguma regularidade. Não faço a mínima ideia porquê, mas o Alabote é um peixe difícil de encontrar. Eu próprio só o saboreei pela primeira vez depois de ter iniciado este negócio. Normalmente, quem compra este peixe já sabe ao que vem.
Lá fora , três árvores nuas vão-se acariciando mutuamente com as pontas finas dos galhos, indiferentes ao trânsito automóvel que mastiga a estrada como se não soubesse muito bem para onde ir. Olho pela janela e ouço uma arca frigorífica a abrir-se.

-  Não sei muito bem quando é que comi este peixe pela primeira vez, mas sei que me sabe muito bem. Foi uma amiga que já cá veio que me disse que vendia Alabote.

Sorrio. A cliente não sabe, mas enquanto lhe faço a conta penso em como ela respondeu à minha dúvida. Decidi que ter um Amor é melhor do que ter cinquenta no exacto momento em que o provei e me soube bem. Ela sai, devagarinho, com a carteira numa mão e o saco de peixe noutra. Agradeço-lhe a compra e, sem ela saber, tudo o que ela me disse.
O vento amainou e as árvores pararam com as carícias. Talvez estejam a pensar em como lhes souberam bem. Acho que às vezes todos paramos por um momento ou dois para pensar no prazer de estar vivo. Mesmo que não saibamos de onde ele vem, guardamo-lo. Acho que é tudo.

1.27.2015

sou um enorme sucesso entre as mulheres

A verdade é que eu sou um enorme sucesso entre as mulheres. Não é ser convencido nem nada, mas nem posso sair à rua. Elas não tiram os olhos de mim. É incrível. A coisa chegou a um ponto que eu próprio não aguento mais. A sério que preferia ser um tipo banal e passar discreto entre a multidão.
Ainda ontem, por exemplo, para ver se conseguia passear sossegado pela cidade, disfarcei-me de pinguim. Vesti um pijama comprado na Primark que tem luvas e rabo incluído. Pois bem, não resultou. Assim que saí de casa, a primeira mulher por quem passei seguiu-me com o olhar durante o tempo todo. Nem disfarçou. Claro que não liguei. Acendi um cigarro e continuei.
Não aguento muito tempo sem tomar o café da manhã, pelo que entrei numa pastelaria venezuelana e sentei-me num canto onde, pensava eu, ninguém ia reparar em mim. Enganei-me. A empregada foi a primeira a não resistir ao meu charme. Em vez de, muito simplesmente, me perguntar o que eu queria, perguntou-me se estava tudo bem comigo. A fingir-se preocupada, a gaja. Nem lhe respondi. Disse-lhe só para me trazer um café. Acreditem que esteve o tempo todo a olhar para mim, ela e todas as outras clientes, sempre com risinhos comprometedores.
Uma delas até se meteu mesmo comigo. Ganhou coragem e deu-me o contacto dela num cartão de visita. É psiquiatra, a gaja. Eu já reparei que as psiquiatras têm todas um fraquinho por mim, mas não lhes ligo nenhuma. Fico sempre na minha, a ver se não me chateiam. A esta, por exemplo, prometi telefonar, mas claro que não o vou fazer. Uma vez telefonei a uma e marcámos um encontro. A primeira coisa que ela me disse foi para me deitar numa marquesa. O que ela queria sei eu muito bem. Virei logo costas, que para mim o sexo só faz sentido depois de travar algum conhecimento.
Detesto este tipo de cenas, mas não consigo que as mulheres deixem de olhar fixamente para mim. Alguns de vocês até podem pensar que é por eu me disfarçar de pinguim, mas acreditem que não. Hoje disfarcei-me de hipopótamo e foi a mesma coisa. É assim a vida de um homem charmoso.

1.15.2015

respostas a perguntas inexistentes (295)

Em criança, a minha mãe costumava dizer-me que eu estragava o calçado muito depressa. Tal não se devia ao facto de eu abrir a ponta dos sapatos quando jogava à bola, embora isso também acontecesse, mas sim à forma como gastava as solas. Pela minha forma de correr e andar, rapidamente os sapatos passavam a parecer um automóvel com os pneus furados de um lado. Ficavam tortos e desequilibrados.
Estou a olhar para os meus sapatos agora. Ainda é assim hoje em dia. Tem piada, reparar na forma como as minhas solas estão gastas trouxe-me várias recordações de infância. A voz doce da minha mãe, a luz do Sol a desenhar os buracos da persiana na parede do meu quarto e ao canto, sempre no canto, a minha velha bola de futebol a descansar dos pontapés que levava diariamente.
Às vezes jogava no tapete de relva que ainda está no bairro da Gulbenkian, em Aveiro, onde morava a minha avó. Jogava o dia todo, com intervalos apenas para comer o pudim amarelo, que ela fazia quase todos os dias, e para fugir dos funcionários da câmara que nos proibiam de pisar a relva.
Lembro-me de, ao fugir deles a sete pés, tropeçar no passeio, cair e ser apanhado por um.

- Um dia, quando cresceres, vais perceber porque é que não podes pisar a relva! - disse-me ele em tom ameaçador.

A minha avó viu tudo da varanda e saiu em meu socorro. O homem afastou-se, pareceu-me que frustrado por não me ter assustado mais.

- Eu já sou velha e ainda não percebo porque é que fazem tapetes de relva, se não os podemos pisar... - disse ela.

Eu tenho quarenta e três anos agora. Também ainda não percebo.

E foi nisto que pensei ao olhar para os meus sapatos.

1.13.2015

conversa 2116

Ela - Caraças! Devo ser uma gaja mesmo muito estranha...
Eu - Porque é que dizes isso?
Ela - Não sei... sinto-me estranha e nem sei bem porquê, o que já é estranho.
Eu - Não te preocupes. És uma gaja como outra qualquer.
Ela - Uma gaja como outra qualquer?! Não melhorou nada, preferia ser uma gaja estranha.

1.12.2015

um pássaro assustado

Neste momento quase só trabalho. As horas de lazer de que desfruto são roubadas a muita coisa que tenho que fazer e resumem-se a ver um ou outro filme à noite ou ler um ou outro livro. Quando posso vou ver a minha companheira, o que acontece menos vezes do aquilo que eu quero e preciso. Para além disso, a minha vida social resume-se quase só aos amigos e amigas que me visitam quando estou na loja e, claro, a alguns momentos com a minha filha.
Não me considero com jeito para vendedor, mas nunca me tinha acontecido isto: simplesmente não conseguir ter emprego e ter que iniciar uma actividade por conta própria. A minha loja ainda não está a dar dinheiro, mas as reacções da generalidade dos clientes dão-me alguma esperança de que eu possa vir a viver disto. Uma das vantagens é que converso com mais pessoas que não conheço de lado nenhum, clientes que entram, compram uma ou duas postas de peixe e falam sobre temas variados. Ainda assim, passo muitas horas sozinho.
Na rua onde estou não há árvores no passeio. É uma avenida preenchida por edifícios herméticos, com cerca de seis ou sete andares cada um, que parecem indiferentes ao que se passa lá fora. Existe uma esplanada onde o Sol costuma tomar café depois do almoço e eu, sempre que posso, também. Tudo o resto é quase sempre sombra.
Foi num desses momentos que percebi que alguns pássaros pequenos pousam na frágil vegetação da faixa central da avenida. Cada vez que passam automóveis, eles assustam-se e voam. Depois tornam a pousar, como se o susto os tivesse cansado bastante. Não sei se é sempre assim, mas pelo menos foi uma vez.
Foi dessa esplanada, também, que vi um senhor de idade tropeçar e estatelar-se no chão. Ninguém se levantou para o ajudar, a não ser eu e o amigo que estava nesse momento comigo. Às vezes parece que quantos mais somos, mais sós vivemos. É por isso que aproveitamos a compra duma posta de peixe para falar sobre qualquer coisa, seja o que for. Eu também sou assim, uma espécie de pássaro assustado.

1.06.2015

a minha loja, ou como não consigo fazer as pazes com o mundo

Todos nós sabemos que não está tudo bem, nem connosco nem com o mundo. Há sempre qualquer coisa mal, mesmo que esteja quase tudo bem. Apesar de tudo, costumamos perguntar aos amigos se está tudo bem, como se não soubéssemos a resposta. Não sabemos mesmo, porque normalmente a resposta que ouvimos é sim.
Talvez tenha a ver com a idade, não sei. Ando com uma vontade enorme de fazer as pazes com o mundo. O problema é que não consigo.
Os mais atentos leitores deste blogue sabem que estive dois anos desempregado, mas não sabem que acabei de abrir uma loja em Aveiro e que por isso é que deixei de escrever durante algum tempo. Foram dias agitados que, na verdade, ainda o são.
A minha loja fica na Avenida da Força Aérea, em Aveiro, e vende produtos alimentares livres de químicos, branqueadores, intensificadores de sabor, etc. Essencialmente tenho produtos congelados da marca Moreira, mas também conservas e mercearia essencial. Tudo marcas portuguesas de alguma qualidade e baixo preço que aprendi a consumir precisamente durante o meu período de desempregado.
Quis fazer as pazes com o mundo, mas no primeiro dia que abri, provavelmente a minha quinta ou sexta cliente, foi uma senhora que demorou cerca de dois minutos a subir os três degraus da entrada. ofereci-lhe ajuda, mas ela recusou. Depois escolheu uma posta de Alabote e perguntou-me o preço.
- Um euro e noventa e oito! - respondi.

Ela abriu o porta moedas, procurou com os dedos algumas moedas e tornou a fechá-lo. Agradeceu-me e saiu. Provavelmente nem percebeu que tinha escolhido um dos peixes mais caros do mercado, mas a dor de barriga com que fiquei impediu-me de a esclarecer. Não lhe ofereci porque, em abono da verdade, não posso oferecer nada que tenha a ver com o meu trabalho.
Alguns momentos depois um amigo entrou na loja e perguntou-me se estava tudo bem. Respondi-lhe que sim, mas menti. Obviamente.

De qualquer maneira, para quem tem Facebook e é de Aveiro, pode visitar-me aqui.

1.05.2015

engolida pelo Sol

Hoje encontrei uma amiga que já não via há muito tempo. Talvez há uns quatro anos, pelo que me lembro. A primeira vez que olhei para ela pensei que fosse apenas uma mulher parecida, mas depois reparei que era mesmo ela e então cumprimentei-a. Acho que lhe aconteceu o mesmo relativamente a mim, porque não me disse nada na primeira vez que trocámos olhares.
Estávamos num café em Aveiro. Eu sozinho numa mesa e ela acompanhada por um homem e uma criança noutra mesa. Levantámo-nos ao mesmo tempo, depois de um lapsus facial simultâneo, e demos um abraço a meio do caminho, muito perto duma outra mesa onde duas mulheres bebiam chá e comiam torradas. 
De certa forma apetecia-me contar-lhe e ouvir-lhe tudo sobre o tempo que passou por nós desde a última vez que nos vimos, mas a situação não o permitiu. Dois minutos depois do nosso abraço, o homem levantou-se e levou a criança pela mão até à porta do estabelecimento, onde ficou em pé a esperar por ela. Eram o marido e o filho que a chamavam sem chamar. Ela abanou os ombros como que desculpando-se, deu-me outro abraço e despediu-se. Disse-me que temos que falar para pôr a conversa em dia.
Não fiquei com o número dela nem ela com o meu. Acabei de o procurar e não consta da minha lista telefónica. Acho que o perdi numa das mudanças de telemóvel bruscas que fiz no passado recente. O mais provável é que se passem mais quatro anos até eu a encontrar de novo, por acaso, num café qualquer da cidade.
Não sei quando é que o tempo se tornou assim, imensamente pequeno e minuciosamente grande. Acho que fiquei alguns minutos em pé no meio do bar, a vê-la afastar-se e sair pela porta cujos vidros eram violentamente trespassados pela luz do Sol. Quando me sentei percebi que as mulheres que bebiam chá e comiam torradas cochichavam qualquer coisa sobre mim. Não sei bem o quê, mas suspeito que tinha a ver com o facto de eu ter ficado a suspirar assim que ela foi engolida pelo Sol.

12.01.2014

respostas a perguntas inexistentes (294)

Outono

É comum dizer-se que o tempo anda maluco. Anda mesmo. A única coisa que não mudou na rua onde acordo foi a cor das árvores. Parece que algum pintor chegou ali e deu umas pinceladas de vermelho para contrastar com o cinzento dos edifícios que se vêem até à linha do horizonte.
Existem dois tipos de árvores: aquelas que exibem com orgulho a sua cor outonal e aquelas que perderam totalmente a folhagem. As árvores são como as pessoas. Algumas estão felizes, outras estão tristes. Um pouco mais ao fundo, quase a desaparecer numa curva, uns ramos finos e articulados seguram em esforço uma última folha. É uma árvore triste, mas que não desiste de ser feliz. E é assim que me lembro dela.
Às vezes dou-lhe a mão e a folha sou eu. Sinto-me um enorme petroleiro puxado por uma frágil embarcação prestes a afundar-se. Ainda assim, todos os dias ela me salva também a mim, sem sequer perceber muito bem como ou porquê. É a existência, acho eu. Poucas pessoas percebem essa mensagem do Outono, quando ele varre de frio as ruas da cidade e empurra todo o calor do mundo para dentro de cada casa. Às vezes num abraço, outra vezes num sorriso, outras vezes até numa discussão sobre um copo partido.
Ninguém devia acreditar no destino, com excepção daquele que o Outono nos traz.

11.24.2014

respostas a perguntas inexistentes (293)

bifanas

Esta podia ser a história dum homem e duma mulher que foram feitos um para o outro, mas não é. Quando nascemos, nascemos feitos para nós mesmos. Não é egoísmo, é liberdade. Se o Amor não entender isso, acaba. O problema é que normalmente não entende, porque o Amor tem a mania de ser egoísta.
Sobre o que falamos quando falamos de Amor, acaba sempre no mesmo pressuposto, errado, de que quando duas pessoas se Amam passam a dever alguma coisa um ao outro. É a assumpção de que duas pessoas podem nascer uma para a outra quando, de facto, não podem.
 A variável do nascimento insere-se no imenso caos probabilístico que nos torna impossíveis para o(s) outro(s). Ainda bem, digo eu. Sabe tão bem sermos feitos para nós mesmos que sabe ainda melhor quando atingimos a impossibilidade do Amor.
Na verdade, o único egoísmo que consegue ser maior do que o nosso é o egoísmo da paixão. Quando nos apaixonamos e passamos a sentir que o chão está dez centímetros abaixo dos nossos pés, assim como quem não quer a coisa, abdicamos um pouco de nós.
Estou a escrever este texto com as mãos a cheirar a bifanas, as melhores do mundo, que como de vez em quando no Icaria, um restaurante perto da estação de São Bento. São dois euros e noventa por uma experiência divinal com carne no pão e uma cerveja. Mais ainda quando se assiste ao que eu assisti hoje. Um homem e uma mulher a discutirem energicamente na rua. Ela a pedir que ele a deixasse em paz, ele a argumentar que foram feitos um para o outro.
É um péssimo argumento, pensei. Depois trinquei a bifana.

11.12.2014

Berlim

Sempre gostei de viajar pelo motivo mais óbvio, que é o prazer que dá conhecer lugares novos. Com a Raquel aprendi que o melhor de viajar não é conhecer esses lugares, mas sim poder partilhá-los com alguém que nos conhece as entranhas.
Dentro daquilo que são as minhas limitações económicas, tenho viajado o mais que posso e consigo. Nestes últimos dias, por exemplo, andei a saltitar por Berlim como se fosse uma criança num parque de diversões. Virava-me para ela e dizia "olha isto!" com o mesmo entusiasmo com que o dizia à minha mãe em criança sempre que ia ao Portugal dos Pequeninos. Levei uma lista com o nome de dezasseis coisas que eu queria mesmo ver naquela cidade. De nenhuma tinha a morada, as coordenadas ou uma referência qualquer. Foi a Raquel que se deu ao trabalho de descobrir onde ficavam todas e de me levar lá em transportes públicos. Numa cidade cuja zona urbana tem quarenta e seis por trinta e oito quilómetros, acreditem que não é fácil.
Às vezes paro num sítio qualquer, como parei num bar duma das grandes avenidas de Berlim, e fico a beber uma cerveja tão lenta quanto um caracol. Não percebo (e isto é a sério!) o que é que uma mulher como ela vê em mim. Encontro-me no papel do Monstro amado pela Bela, no sentido lato da expressão e do contexto, e considero-me um homem com sorte.
Só isso.

10.28.2014

respostas a perguntas inexistentes (292)

Conhecer alguém é a melhor coisa que nos pode acontecer. Já me aconteceu inúmeras vezes conhecer pessoas de quem gostei tanto, que não percebo o péssimo estado em que o planeta se encontra. É como se o resultado disto tudo fosse (e é mesmo) pior do que as partes que o constituem. Também já me aconteceu conhecer pessoas detestáveis, é verdade, mas muito menos vezes do que pessoas de quem gostei.
Na verdade, considero-me um pessimista relativamente ao mundo e um optimista relativamente às pessoas. Praticamente já não leio jornais e abdiquei totalmente dos programas de televisão, que considero tão estúpidos quanto estupidificantes e me fazem sentir mal. Depois, quando conheço alguém, raramente corresponde ao que considero ser essa estupidez. É por isso que cada vez que travo um conhecimento nasce de novo em mim uma esperança qualquer.
Acho que a amizade passa muito por aqui, por nos salvarmos todos os dias do enorme absurdo em que o mundo se tornou. O Amor também, com a vantagem de que ele próprio é um mundo diferente.

10.24.2014

conversa 2115

Ela - Não ganho para os copos, actualmente...
Eu - A sério?
Ela - A sério...
Eu - Não fazia ideia ideia que isso andava assim...
Ela - Pois, não sei o que se passa. Ainda ontem foram dois.
Eu - Dois quê?
Ela - Dois copos.
Eu - Copos de quê?
Ela - De vinho, daqueles de pé alto.
Eu - Bebeste dois copos e achas muito?
Ela - Só bebi um. Parti foi dois copos enquanto os lavava. Está sempre a acontecer...
Eu - Ah! Não ganhas para os copos porque os partes, é isso?
Ela - Claro. Pensavas o quê?
Eu - Nada, nada...

10.23.2014

queixinhas

Quando eu era pequeno só se apresentava queixa a uma autoridade. Se um colega me batesse na escola primária, a autoridade era a professora; se o meu irmão me roubasse um brinquedo qualquer, a autoridade era a minha mãe; se alguém me assaltasse na rua, a autoridade era a polícia. O problema era quando queria fazer queixa de um Amor mal resolvido, cuja autoridade no planeta Terra ainda está por encontrar.
Nós, os queixinhas do Amor, precisamos sempre duma autoridade. Acho que foi por isso que fiz este blogue. À falta de autoridade fui-me queixando ao mundo, até que o mundo lá me prestou alguma atenção e me resolveu o problema.
Há bastante tempo que eu não me queixo de Amores, sem qualquer garantia que um dia destes não o volte a fazer. O Amor é assim, um dia acordamos e ele já não está ao nosso lado. Nesse dia tornarei a bater-vos à porta, pedir licença e informar que venho apresentar queixa: "Meus amigos! O meu Amor fugiu...".
As queixinhas sobre o Amor são as únicas que não devem ser engolidas. Em primeiro lugar porque são comuns a todos nós, em segundo porque nunca são digeridas e acabam por causar vómito, em terceiro porque são as únicas que não exigem vingança nem execução alheia. Se eu sempre quis que a professora batesse no meu colega, a minha mãe no meu irmão ou a polícia no ladrão, do mundo só quero que deixe o Amor andar por aí em paz.
Do Amor, queixem-se sempre ao mundo. Ninguém vos leva a mal.

10.19.2014

pensamentos catatónicos (317)

Estou a pôr a roupa a secar. Do outro lado da rua uma mulher fuma um cigarro e olha para um gato preto que costuma andar por ali.
Tenho um método para pendurar a roupa um bocado estranho. Começo sempre pelas peças maiores. Sei que o trabalho é o mesmo, mas o monte de roupa que falta pendurar parece mais pequeno quando começo pelas peças maiores. Se pendurar duas toalhas de banho, por exemplo, o tamanho do monte diminui num instante. Além disso é uma questão estética, gosto que as peças maiores fiquem atrás e as mais pequenas à frente. As meias, por exemplo, ficam sempre no primeiro arame do meu estendal a contar da rua.
Cada peça leva sempre duas molas, seja grande ou pequena, com excepção precisamente das meias, que levam uma mola por par. É que as organizo por pares logo quando as ponho a secar. Assim, quando as apanho, dobro-as no mesmo instante e poupo o trabalho de as andar a escolher entre o monte da roupa seca mais tarde. É também por isso que as penduro em último lugar. É mais fácil separá-las quando já não há mais roupa nenhuma misturada.
O gato está a aproveitar o que parecem ser os primeiros raios de sol nesta semana. A mulher também. Sempre que olho para ela, ela está a olhar para o gato. Suponho que talvez olhe para mim de vez em quando, quando estou de costas a pendurar a roupa. Eu não fumo, mas se fumasse também o estaria provavelmente a fazer neste momento.
Hoje sei que tenho duas coisas estranhas na vida. Pelo menos duas, digo. Uma é a forma como penso quando penduro a roupa, outra é a minha relação com a minha vizinha da frente. Ainda há bocado me cruzei com ela no café e fingi que não a conhecia, o que ela também fez comigo. Agora estamos aqui os dois a fingir que o outro não existe.


10.14.2014

respostas a perguntas inexistentes (291)

O Amor é um pudim

Quase ninguém pensa no Amor que está a viver como o Amor que está a viver, mas sim como o Amor que quer viver a vida toda. Toda mesmo, até ao fim. É sempre um problema, porque uma vida toda não cabe no presente. É demasiado grande, e mesmo que às vezes custe perceber que é assim, ainda bem que o é.
É que o Amor é um pudim. Quando sabe bem, depois da primeira colherada não queremos que ele acabe nunca mais. À medida que o vamos saboreando vamos também sofrendo por ele estar cada vez mais pequeno.
Um Amor acaba, outro Amor começa. O sabor pode nunca ser o mesmo, mas a intensidade certamente que o é. O truque é saber aguentar o tempo entre um e outro pudim, como quando se vai lambendo os restos que ficaram entre os dentes. A imagem talvez não seja a melhor, é verdade. Ainda assim é a mais real, porque o Amor também é saliva, bactérias e restos de comida.
Dos pudins que se comem, no entanto, pode haver um que dure mais tempo do que o normal. Diria eu, pelo menos. Quando não se quer mudar, aprenda-se a cozinhar.

10.13.2014

the last but not the least

Com o café veio uma prenda.
Dado que para o Intercidades já só havia bilhetes de primeira classe, optei por ganhar meia-hora para comer uma sopa e beber um café, apanhando o Alfa Pendular seguinte. Na estação de Santa Apolónia vivia-se um formigueiro mais ou menos intenso, próprio do fim de tarde de um Domingo.

- Uma sopa e um café, por favor! - Pedi enquanto olhava discretamente para as tatuagens coloridas da empregada.

Tive que empilhar alguns tabuleiros e loiça suja para arranjar lugar sentado. Alguns clientes comiam sandes variadas em pé, apenas apoiados pelo balcão ou até pela parede do café. Em pé também, mais ou menos perto de mim, uma mulher fazia equilibrismo para conseguir comer uma sopa quente igual à minha. Fiz-lhe sinal para se sentar na minha mesa, enquanto afastava a torre de tabuleiros, mas ela recusou com algum embaraço.
Depois chegou a hora da luta pelo café. Cerca de uma dezena de clientes que tinham acabado de comer qualquer coisa amontoavam-se num dos cantos balcão. Alguns agitavam o papel que indicava que o café estava pago, mas ele de facto nem era preciso. Uma oura empregada enfrentou-nos a todos depois de um suspiro profundo.

- Café para todos, não é? - Perguntou de forma quase retórica.

Um a um, ou dois a dois, foi servindo toda a gente. Eu fui o último. Quando afastei o pacote de açúcar (que nunca uso) do pequeno pires, já a maior parte dos clientes abandonava a loja. Sem saber explicar porquê, sentia uma pequena frustração por ter sido deixado para trás. Sabia que tinha sido dos primeiros a encostar-me ao balcão mas, compreendendo a confusão do momento, optei por aceitar tudo passivamente.
Assim que dei o último gole e pousei a chávena, a empregada voltou à carga.

- Desculpe ter sido o último. Olhei para si e pareceu-me ser o mais pacífico de todos. Hoje já tive problemas que cheguem...
- Não se preocupe. Vamos todos no mesmo comboio, provavelmente, que só parte daqui a cinco minutos.

Não sei onde é que ela viu em mim algum sinal de pacifismo, mas sei que sem o perceber comuniquei com ela sem de facto querer comunicar. Quando me sentei na carruagem seis, lugar sessenta e oito, fiquei a pensar naquilo... e sorri.

Já agora, fiquem com um pequeno vídeo que fiz no concerto íntimo do guineense Bubakar Djabaté, na Associação Renovar a Mouraria. É uma prenda.

10.10.2014

os meus sapatos estão rotos

Às vezes dou por mim a olhar fixamente para os meus sapatos. Sento-me no sofá e, como não vejo televisão a não ser que tenha um filme específico em mente, os sapatos são objecto seguinte. Foi o que me aconteceu agora mesmo, enquanto tentava respirar um pouco pelo excesso de tarefas e coisas para fazer dos últimos dias. Os meus sapatos estão rotos, pensei.
Estão mesmo, e ainda não tinha reparado, apesar de os calçar e descalçar quase todos os dias (às vezes uso outros). Quando olho para eles dentro do meu próprio quotidiano, os meus olhos não são capazes de analisar nada. Sabem que eles estão ali para serem calçados e me protegerem os pés enquanto caminho e são incapazes de alcançar seja o que for para além disso. Só em momentos como o de hoje, em que tento parar e quebrar a rotina do mundo, é que consigo perceber que os meus sapatos estão rotos.
Por qualquer motivo, sempre achei que é uma capacidade mais feminina do que masculina, esta de perceber que os sapatos estão rotos. Acho que é por isso que os divórcios e as separações partem quase sempre delas e não deles. Não são um fim em si mesmo. São uma tentativa de calçar outra coisa qualquer.

10.08.2014

conversa 2114

Ela - Há muito tempo que não sinto interesse por homem nenhum e, assim de repente, sinto que estou bem. Não quero mais nada da vida.
Eu - Estás em paz?
Ela - Sim, é isso. Estou em paz comigo mesma...
Eu - Fixe, então.
Ela - Na verdade...
Eu - Na verdade o quê?
Ela - Na verdade estar em paz é a única coisa que me chateia um bocado e que me pode vir a fazer envolver com alguém.

10.07.2014

respostas a perguntas inexistentes (290)

Hoje de manhã passei por uma professora minha do tempo do liceu. Cumprimentei-a e ela demorou alguns segundos a aperceber-se de quem eu era. Provavelmente, por uma questão lógica, deduziu imediatamente que tinha sido minha professora, mas depois precisou de tempo para procurar e encontrar-me na longa lista de alunos dela.

- Eras aquele que estava sempre no canto lá atrás a tentar passar despercebido... - disse.

Concordei abanando afirmativamente a cabeça e, depois de me despedir dela, fiquei a vê-la a andar devagar até desaparecer na primeira curva da rua. De tudo o que eu fui no liceu, aquilo que lhe ficou na memória foi o facto de eu me refugiar quase sempre num dos cantos da sala. Depois apercebi-me que eu próprio não me lembro do nome dela, mas sei que ela costumava estar constantemente com uma esferográfica na mão a fechar e a abrir a tampa.
De tudo o que somos ou fomos para os outros, às vezes só resta aquilo que não somos nem nunca fomos para nós. Não faz mal, pensei. Acho que é isso que vai tornando o Amor possível, podermos escolher aquilo de que nos lembramos nos outros.

10.05.2014

pensamentos catatónicos (316)

O fim de qualquer Amor é uma despensa.
A minha máquina de café avariou-se. Preocupa-me metê-la no lixo, tanto por causa do seu valor comercial como pela ligação emocional que lhe tenho (sim, é possível ter uma ligação emocional com um objeto). Arrumo-a na despensa, onde todas essas preocupações vão morrendo devagar e, muito provavelmente, levo-a para o lixo daqui a um ano ou dois. Nessa altura já não me vai custar nada, porque entretanto deixou de fazer parte da minha vida.
Uma despensa não serve apenas para guardar aquilo que já não usamos ou só usamos de vez em quando. Serve, mais do que tudo, para aliviar. Pelo menos no meu caso.
Mal ou bem, vou tendo a minha casa mais ou menos arrumada, com as garrafas no sítio das garrafas, os livros no sítio dos livros, os discos no sítio dos discos e as panelas no sítio das panelas. É uma preocupação constante manter as coisas assim. A despensa é o sítio das despreocupações. É lá que está atirado tudo aquilo que não me preocupa, mas já preocupou.

10.03.2014

Os Lavradores do Mar



Este é o trailer do meu último filme, que é como quem diz que estou a tentar abrir uma porta para cumprir um sonho de sempre: fazer documentários. Foi por isso que passei alguns dias na Praia de Mira a filmar pescadores de Arte Xávega, para tentar pôr em pouco mais de vinte minutos aquilo que é um dia de trabalho de quem nos põe o carapau na mesa.
Na verdade, ontem mesmo juntei três ou quatro amigos em casa e decidi fazer mais algumas alterações de última hora. Vou fazê-las hoje e dar o processo por terminado. Por agora convido-vos a ver um pouco do filme...

10.02.2014

respostas a perguntas inexistentes (289)

À medida que os anos passam e vamos envelhecendo, as nossas memórias afastam-se e vão ficando cada vez mais pequeninas. É como se fossem objetos no espelho retrovisor dum automóvel em andamento que numa curva qualquer podem desaparecer para sempre. Às vezes apetece-me encostar e ficar a olhar para trás, na esperança de que alguma decida vir ter comigo, mesmo que apenas por alguns momentos.
Pelas minhas contas foi há vinte e seis ou vinte e sete anos que eu ganhei o hábito de, sempre ao fim da tarde, sair de casa e sentar-me num muro que ficava a uns dois quilómetros de distância. Não fazia mais nada do que ficar ali sentado a ver a vida a passar. Depois, quando a hora do jantar se aproximava, voltava para casa.
Nunca expliquei a ninguém, nem sequer a mim mesmo, por que motivo o fazia. Sei apenas que o fazia e que me sentia bem ao fazê-lo. Acho que sentia a capacidade de parar perante um mundo que continuava a mover-se indiferente a tudo. No fundo, sentia-me um observador, totalmente isolado e independente, como se fosse um cientista num laboratório a olhar para ratinhos brancos.
Os meus ratinhos brancos, claro, eram as pessoas que passavam por mim. Algumas em passo apressado, outras mais calmas e outras ainda que esperavam apenas pelo autocarro numa paragem que era mais ou menos concorrida.
Houve um dia qualquer em que a Joana se sentou ao meu lado. Quando digo ao meu lado, digo mesmo ao meu lado, naquilo que se pode considerar uma distância reservada a pessoas íntimas. A mão dela tocou na minha, que por sua vez abraçava uma das esquinas do muro. No princípio não disse nada, mas depois admitiu que estava curiosa por me ver sentado ali quase todos os fins de tarde. Não me via a andar nem depressa nem devagar, muito menos a entrar num autocarro. Apercebi-me que para ela, que vivia num dos apartamentos mesmo em frente e a janela do quarto dela dava para o muro onde eu me sentava, eu era o ratinho branco.
Vinte e seis ou vinte e sete anos é uma quantidade de tempo que não me parece tão grande como quando eu me sentava nesse muro, o que é natural. Como tinha vivido menos, o tempo que passava era sempre gigantesco, pelo menos quando comparado com a minha reduzida vida. 
Ainda assim, esta memória estava a desaparecer. Só a recuperei num jantar que fiz a semana passada com a Joana, que ainda é minha amiga hoje em dia, depois de alguns períodos em que estivemos mais próximos e outros mais afastados. Ela lembrava-se de alguns pormenores, eu de outros, e acabámos por reconstruir um dos pequenos cantinhos da minha vida. Da dela também, claro.
A memória coletiva é sempre mais eficaz e certeira do que a singular. É por isso que, quando encosto o automóvel para olhar para trás e tentar recuperar alguma coisa perdida, gosto de levar alguém ao meu lado.

9.30.2014

pensamentos catatónicos (315)

É verdade que todos nós precisamos, de vez em quando, de desabafar. É mais verdade ainda que pode ser mais fácil desabafar com um desconhecido do que com um amigo. 
Os amigos são aqueles que estão regularmente connosco e que, por isso, guardam o nosso desabafo para sempre. Se eu disser a um amigo que a minha vida está uma merda, não há forma de voltar atrás. Sempre que ele estiver comigo vai ter essa informação em conta, mesmo que a mim não me apeteça que tenha. 
Pelo contrário, se eu o disser a um desconhecido qualquer, nunca mais vou ter que enfrentar alguém que sabe que a minha vida estava uma merda num determinado momento. Desabafar com um desconhecido é como vomitar para um saco e lançá-lo para dentro de um comboio em andamento. Os desconhecidos são, assim, para as ocasiões.
Estava a pensar nisto quando me apercebi que alguns dos meus melhores amigos eram desconhecidos quando tive um qualquer desabafo com eles. O comboio afastou-se, mas depois voltou. A amizade entre duas pessoas tem que ser capaz de levar com alguns sacos de vómito. Na verdade, o Amor também.

9.29.2014

conversa 2113

Ela - Há muito tempo que não escreves nada no teu blogue das mulheres...
Eu - Ando sem tempo...
Ela - Mas vê lá se escreves, que eu tenho saudades tuas.
Eu - Estás comigo aqui, agora.
Ela - Quando digo que tenho saudades tuas é de ler o teu blogue. Estar contigo pessoalmente não tem piada nenhuma.
Eu - Pronto, está bem. Olha, vou começar com esta conversa.
Ela - Pode ser...

8.08.2014

a violência feminina

Na verdade, não tenho nenhum exemplo de casamento feliz à minha volta. Digo isto com alguma segurança desde que percebi que, para a maior parte das pessoas, a felicidade num casamento vem sempre temperada com alguma resignação. A F. não foi excepção.

- O meu casamento foi bom! - disse ela.

Nessa altura já estava na fase de arrumar todos os livros que tirara das suas inúmeras e preenchidas prateleiras para me ler, a espaços, uma frase escolhida de cada um. Eu estava impressionado com a sua capacidade para memorizar frases chave de romances e, admito, ainda mais por ser capaz de as encontrar com relativa facilidade.

- Quer dizer... não foi mau. - continuou.

E eu ri-me, não por achar piada à frase mas porque não sabia como reagir. Aquela verdade deixava-me nervoso porque ia de encontro ao que eu acabara de concluir nos meus trinta e cinco anos de vida: um casamento bom é um casamento que não é mau.
A F. ia organizando os livros por autores. As frases todas que me lera estavam preenchidas de vida. De Amor, de ódio, de viagens, lágrimas e abraços. Talvez em silêncio tenhamos tirado mais ou menos a mesma conclusão. Os nossos casamentos, por pouco maus que pudessem ter sido, tinham-nos tirado essa vida que ela acabara de resgatar daquelas páginas soltas.
Assim que a mesa ficou desimpedida, desapareceu por um minuto ou dois e voltou com uma garrafa de uísque e dois copos. Ela própria nos serviu, sem me perguntar se eu queria beber ou se preferia puro ou com gelo. Dei o primeiro gole apenas para lhe mostrar que estava de acordo com tudo. Depois cruzei as mãos e foi a primeira vez que a olhei olhos nos olhos. Reparei que era das mulheres mais bonitas que eu já tinha visto.
Enquanto o seus cabelos pretos lhe banhavam os ombros como uma suave maré cheia, fui percebendo a forma como o seu ex-marido se apaixonara perdidamente por ela muitos anos antes. Provavelmente, eu estava a viver exactamente as mesmas sensações que ele. O ar começava a entrar e sair dos meus pulmões com alguma dificuldade e não encontrava as palavras certas para lhe responder a nada. Acabei por dar um gole sôfrego no uísque e tentar concentrar-me no que ela dizia.

- As mulheres têm uma violência dentro delas que os homens não são capazes de perceber.
- Ahn?! - estava assustado.
- Durante anos observei a lenta degradação do meu casamento na expectativa de que o meu marido se apercebesse do mesmo que eu. Queria que ele chegasse à conclusão que o nosso Amor não merecia acabar assim, como um velho que se vai encolhendo até morrer...
- E ele apercebeu-se?
- Claro que não. Todos os dias saía de casa para trabalhar e voltava como se tudo estivesse normal, mesmo naquelas fases em que passávamos dois meses sem sexo. E eu todos os dias ia tendo cada vez mais pena dele...
- É essa violência que dizes que só as mulheres é que têm?
- Sim, exactamente. Observei-o durante anos como se ele fosse um rato de laboratório, porque era isso que ele era de facto. Até que um dia me cansei de o estudar e pus fim àquilo tudo com o divórcio.

Depois disto ela calou-se e senti os seus olhos, pesados, sobre mim. Naquele preciso momento o rato de laboratório era eu, que passara dum desejo enorme de a levar para a cama para uma estranha sensação de incapacidade total para fazer fosse o que fosse. 
Imaginei-me, também eu, a ser o objecto de pena da minha companheira de vários anos. A sair todos os dias e a voltar para casa debaixo do seu olhar estudioso, mesmo quando passávamos dois meses sem sexo. Imaginei-a a questionar-se sobre o meu comportamento mecânico e diário, como se fosse possível assim fugir à desilusão da própria vida.
Com o terceiro gole acabei o uísque e, sem pedir licença, servi-me de outro. O copo da F. ainda estava cheio.
Acabara de me aperceber que eu próprio, sem ser capaz de o perceber, sentira essa violência feminina durante anos, como se um chicote silencioso todos os dias me abrisse mais uma ferida invisível na pele. A normalidade da vida passara a ser uma merda e eu adaptara-me cobardemente a ela. Mesmo assim, apesar de tudo, tinha sido ela a salvar-me, essa violência feminina.
A F. ainda me olhava em silêncio, com um sorriso que indicava ser capaz de ler os meus pensamentos.

- Vamos para a cama? - perguntou.
- Sim.

7.30.2014

coisas que fascinam (173)

O Amor morre sempre ao mesmo tempo que a saudade que temos de quem Amamos. Quando deixamos de sentir falta de alguém, então não estamos apaixonados de facto. Podemos fingir que sim, até por uma questão de conforto, mas o Amor morninho nunca será igual ao Amor a sério.
Isto é uma merda, porque a saudade morre por causa do próprio Amor. É ele que nos impele a matá-la a cada momento da nossa vida, sem perceber que se está a matar a si mesmo.
Agora, desde que me apaixonei pela última vez, mantenho a saudade sempre nos seus níveis máximos. É, muito provavelmente, das coisas mais difíceis de se conseguir fazer mas, fazendo-o, mantém-se o Amor vivo. A vida também.
Manter a saudade significa, ao mesmo tempo, manter a individualidade e alguma distância. Viver para além do meu próprio Amor, para que ele não se transforme em mim mesmo e morra sem que eu me dê conta. 

7.29.2014

conversa 2112

(numa loja de desporto)

Eu - Não tem tendas de campismo familiares?!
Ela - Só no outdoor showroom.
Eu - Onde?
Ela - No outdoor showroom.
Eu - Onde é que fica?
Ela - Lá fora.
Eu - Ah! O outdoor showroom são aquelas tendas devastadas pelo vento lá fora?
Ela - Sim.
Eu - Não percebo porque é que não diz simplesmente "lá fora". Muito obrigado na mesma.

7.28.2014

respostas a perguntas inexistentes (288)

Lembro-me perfeitamente da primeira casa onde vivi e de onde saí definitivamente antes dos dois anos de idade. Tendo em conta este último facto, acredito que a frescura dessa memória seja apenas uma concepção minha. Uma mentira que eu imaginei tantas vezes que passei a acreditar nela. Ainda assim é a memória da minha primeira casa e, por qualquer motivo que nem sequer consigo explicar muito bem, é importante.
Uma porta velha de madeira escondia-se num muro sujo que dava para um pequeno caminho cimentado. À esquerda dele ficava um terreno onde crescia uma árvore de fruto e à direita a casa propriamente dita. Na casa entrávamos pela cozinha e, depois dela num corredor que desaguava em todas as divisões da casa: uma casa de banho, quatro quartos e uma sala pequena.
A memória que eu tenho desta casa, de onde saí há pouco mais de quarenta e um anos, é similar à memória da primeira namorada que tive. Sei que ela existiu, mas admito que ponho a hipótese de eu próprio ter criado grande parte das memórias que tenho dela. Era bonita e envergonhada. Costumava tapar a cara com a própria mão, num gesto que surgia por impulso sempre que por acaso era o centro das atenções. Também se ria nervosamente. Às vezes ainda tenho algumas saudades dela.
A minha primeira casa já não existe. Deu lugar a um edifício de quatro ou cinco andares na estrada de São Bernardo, para quem conhece Aveiro. Passei lá há uns dias e encostei o carro, só para me certificar que é exactamente ali que está sediada a minha memória. Depois ri-me do tempo que passa e arranquei.
A minha primeira namorada também já não existe. Passei por ela há uns dias, na fila para pagamento duma pastelaria no centro da cidade, e ela nem sequer me reconheceu. Observei-a a sair, depois de lhe ter dito "olá" e ela ter respondido com aquele sorriso nervoso de que me lembro tão bem, para ter a certeza que é exactamente nela que está sediada a minha memória. Depois ri-me do tempo que passa e arranquei.

7.25.2014

conversa 2111

Ela - Tinha uma grande amiga que desapareceu assim que arranjou namorado. Agora nem cinco minutos para tomar um café comigo tem...
Eu - Pois... já ouvi essa história tantas vezes...
Ela - É triste, não é?!
Eu - Um bocado. Fica a parecer que a amizade é um remendo à falta de uma paixão. Por outro lado, percebo que uma paixão nova absorva muito tempo. Mas as amizades costumam sobreviver aos Amores. Mais tarde ou mais cedo ela volta a contactar-te...
Ela - Espero que sim. E se eu arranjar namorado nessa altura faço-lhe o mesmo.

7.24.2014

respostas a perguntas inexistentes (287)

A fotografia

A Susana e a mãe abraçam-se e sorriem naquela fotografia. Por trás há um muro amarelo desfocado e algumas árvores, entre as quais está uma figueira. Há também uma mancha cinzenta que, embora não assuma contornos figurativos, eu sei que pertence a um gato. É que fui eu que a tirei. Nunca mais me esqueci.
Tinha conhecido a mãe da Susana apenas uns quinze dias antes e ela tinha assumido, com alguma naturalidade própria da sua geração, que eu era o novo namorado da filha. Não era, mas o leve tom de censura com que ela o afirmou também nunca mais me saiu da cabeça.

- Agora vais namorar com este?! - Perguntou de forma a sublinhar que eu não seria o primeiro nem, muito provavelmente, o último.

Apesar de tudo simpatizou comigo, pelo menos em parte. Senão não me tinha convidado para uma viagem ao Minho onde, perto de Viana do Castelo, tirei aquela fotografia. As duas abraçaram-se e sorriram quando apontei a máquina e, assim que os braços se tornaram a soltar daquele laço efémero, desataram a discutir uma com a outra. Antes, era também o que tinham feito: discutir.
A discussão tornou-se como que um ruído de fundo, daqueles que nos incomodam da mesma forma que o zumbido de um mosquito no silêncio da noite, e enquanto o ouvia fiquei a olhar para o ecrã da máquina, onde aquele fragmento de tempo capturado deixava transparecer uma estranha sensação de felicidade e cumplicidade entre as duas.
Não cheguei , de facto, a declarar-me namorado da Susana, mas aceitei um convite dela para irmos ao Alto Alentejo duas semanas depois, desta vez sem a mãe. O carro dela era bastante melhor do que o meu e, por isso, nem sequer hesitei quando ela se ofereceu para me levar. Ainda bem, porque se já detesto conduzir, ainda detesto mais com esse ruído de fundo. 
Depois da primeira paragem numa estação de serviço, ainda perto de Aveiro, nasceu a primeira discussão entre nós, apenas porque eu tinha insistido que queria pagar a gasolina. Já no Alentejo, o mosquito ainda estava ali, apesar de ter pousado num sítio qualquer fora de vista. Aproveitámos essa paz momentânea para, numa rua qualquer com muitas laranjeiras, esticar as pernas. Ela pediu a um transeunte para nos tirar uma fotografia e, depois de lhe passar a máquina para as mãos, abraçou-se a mim e sorriu.
Não foram as discussões que impediram que nos continuássemos a ver depois daquela viagem. Foi esse tique de abraçar e sorrir no momento da fotografia. Lembro-me que lhe disse que até posso viver num ambiente de alguma discordância, pelo menos de vez em quando. Não consigo é abraçar e sorrir nesses momentos.
Ainda tenho essa imagem que tirámos no Alentejo. Ela sorri, eu não.

7.23.2014

conversa 2110

Ela - Não consigo ter uma conversa com o meu marido que não me irrite profundamente.
Eu - Ele é assim tão irritante?!
Ela - Não. Só que quando começa a falar do passado sinto ciúmes das gajas todas que estiveram com ele antes de mim.
Eu - Ah!
Ela - Eu sei que é um bocado difícil falar do nosso passado sem falar dos nossos Amores, mas também é difícil não sentir ciúmes quando se ouve o próprio marido elogiar uma ex-namorada qualquer...
Eu - É mais difícil ainda não falar do passado quando conhecemos um novo Amor. É através do passado que nos conhecemos melhor...
Ela - Eu sei. Tenho que me inscrever no ioga.
Eu - Talvez estejas a exagerar um bocadinho. Tu também foste casada. Já lhe falaste do teu ex-marido?
Ela - Já, mas é diferente.
Eu - Diferente porquê?
Ela - Enquanto eu só lhe digo mal do meu ex-marido, ele só me diz bem da ex-mulher dele.

7.21.2014

respostas a perguntas inexistentes (286)

Somos crianças até ao dia em que nos deixamos de apaixonar para sempre. Pelo menos comigo foi assim. Tornei-me adulto no dia em que me apaixonei com um calculismo minucioso, do género "na melhor das hipóteses isto dura seis meses". Durou dois. Nada mau.
Antes disso já me tinha apaixonado algumas vezes, sempre para sempre. Foi nesse período que algumas pessoas me tentaram informar da verdade do Amor, colocando-me uma mão no ombro e dizendo-me com alguma pena que o Amor nunca é para a vida. Ainda hoje acho que isso não se faz. Há coisas que tem que ser a experiência a ensinar-nos. Não um pai, com medo do nosso sofrimento.
Do pouco que sei é que um Amor é melhor quando é para sempre, mesmo que dure um só dia. Muito melhor do que um Amor a prazo que dura uma eternidade.

7.18.2014

respostas a perguntas inexistentes (285)

Tenho uma amiga que nunca se apaixonou. Eu acredito nela, principalmente pela forma feliz como o diz. Se ela soubesse o que perde não mo dizia assim, a sorrir. Não seria capaz. Se o faz é porque não sabe mesmo, e se não sabe é porque nunca se apaixonou. A única noção que tem é a do que ganha com isso, porque assiste à tristeza do fim das paixões alheias.
Quem é que compreende o fim de um Amor? Ninguém, porque o fim de um Amor é a antítese do próprio Amor. Quando acontece, ninguém consegue explicar porquê.
Uma vez viveu com um homem, diz ela. Admirava-o e mudou-se para casa dele. Quando a admiração acabou tornou a mudar de casa. Alugou um T0 no centro da cidade e comprou uma mobília de sala que também é uma mobília de quarto. Foi tudo. No Amor nunca é assim. Quando nos mudamos trazemos a tristeza connosco, muito mais pesada e difícil de mudar do que a mobília.
Já lhe disse que gostava de ser como ela. Repeti-o quando há uns dias me convidou para dividir uma garrafa de vinho, mais uns bifes e algum arroz. No fim do jantar, quando me sentei no sofá que também é uma cama, disse-me que me admira. Perguntei-lhe porquê e respondeu-me que é pela minha capacidade de sofrer com o Amor. 
Ora bolas!

7.17.2014

conversa 2109

(ao telefone)

Ela - Preciso que venhas a minha casa partilhar uma garrafa de vinho branco. Já!
Eu - Sentes-te só?
Ela - Não. Sinto-me bêbada e não a quero beber toda.

7.16.2014

pensamentos catatónicos (314)

Em nome do futuro

É em nome do futuro que vamos esquecendo o presente. Todos vivemos em função do amanhã, mas quando ele chega transforma-se apenas num novo hoje de esperança. Nunca somos felizes, porque optamos por uma tristeza que nos pode trazer a felicidade num tempo que ainda não chegou. É assim na política, no trabalho, na educação e em tudo o que vamos fazendo. O futuro é a cenoura à frente do burro.
A única excepção é o Amor e, a espaços, uma cerveja com amigos na esplanada de um bar.
O Amor está sempre encostado à parede. Ou nos traz felicidade a cada momento que passa ou então não presta enquanto Amor. Ninguém, como na vida, se entrega a um Amor que não existe com a esperança que venha a existir no futuro.
E eu sempre estive com o José Mário Branco, que na canção histórica "FMI" canta assim: Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro.

7.15.2014

pensamentos catatónicos (313)

Não me parece que seja possível o Amor aparecer quando menos se espera. De uma forma ou de outra estamos sempre à espera dele, mesmo que às vezes ele pareça Godot. Só há uma excepção a esta regra, que é quando ele chega duas vezes no mesmo espaço de tempo.
Ninguém quer que um Amor chegue quando ainda vive outro. Se quiser, então não o vive assim tanto. É que o contrário já acontece quando menos se espera, ou seja, a chegada do fim de um Amor.

7.08.2014

conversa 2108

(numa loja, a comprar umas calças)

Ela - Então são dezanove euros e noventa e nove.
Eu - Desculpe lá, mas ali está um cartaz com o preço de catorze e noventa e nove.
Ela - Esse cartaz é duma promoção que já acabou.
Eu - Azar o seu. O cartaz está ali, é o preço que eu pago.
Ela - Vou chamar o gerente. Sou apenas uma trabalhadora.
Eu - Chame lá, mas não diga que é apenas trabalhadora. Detesto que um trabalhador se considera apenas isso.
Ela - Mas é a verdade, o que é que se há-de fazer?
Eu - O gerente é trabalhador ou apenas trabalhador?
Ela - É o gerente.
Eu - Estou esclarecido.

7.07.2014

respostas a perguntas inexistentes (284)

depois de uma paixão de uma só noite

A partir da ponte, o Porto parece uma cidade de brincar. Uma criança qualquer desenhou uma série de casas, umas em cima das outras, e pintou-as da forma mais colorida que pôde. É bonito, aquele quadro do qual me afasto lentamente em direcção ao sul. Ainda ontem eu próprio fazia parte dele. Era mais um pequeno ponto daqueles que se passeiam à beira-rio como se andassem à deriva.
Afastar-me desta cidade lembra-me sempre o dia em que me despedi da S. Ela à janela, com as madeixas coloridas no cabelo, a ficar cada vez mais pequenina e eu em direcção ao sul, a pensar que ainda ontem tinha passeado nela como quem anda à deriva.
O problema das paixões de uma só noite é o dia seguinte, quando nos afastamos e entregamos todas as dúvidas sobre um Amor a um copo de uísque, à espera que ele nos explique aquilo que ninguém sabe. Sentamo-nos num balcão qualquer com um misto de tristeza e alegria, acho eu que tristeza por estarmos novamente sós e alegria exactamente pelo mesmo motivo, pedimos uma bebida e o tempo senta-se ao nosso lado a beber também até perder a noção de si mesmo.
Depois dessa paixão de uma só noite ficou um limbo, um vazio qualquer cheio de nada, e eu a perguntar ao uísque se devia ou não dizer-lhe qualquer coisa que fosse. Talvez o Amor só se dê quando não há dúvidas, quando nos atiramos a ele como uma criança para uma onda do mar, e enquanto o Amor não se dá o Não Amor vai remendando a alma.
O Porto é a minha cidade do Não Amor. Apaixono-me por ela todos os dias, sempre com dúvidas e hesitações.
O uísque respondeu-me que a S também não tinha dito nada. Depois de uma paixão de uma só noite.

7.04.2014

respostas a perguntas inexistentes (283)

feitos um para o outro

"Foram feitos um para o outro". Não sei quantas vezes li e ouvi esta frase, tanto em romances como em filmes de Amor. Cheguei a perder-me na sua imensidão que, partindo de Shakespeare, foi herdada até por Holly e Bollywood. Pode parecer uma ideia bonita, a de que nos apaixonamos pelo coração por alguém a quem estávamos destinados, mas eu não gosto. Acho-a feia  e desinteressante.
Ter sido feito para o outro retira ao Amor a sua maior qualidade: a da dificuldade. Porque o melhor Amor é aquele que é bom ao mesmo tempo que é difícil. É a esse que nos agarramos apesar de tudo e não apenas porque tudo é confortável.
Se o Amor só existisse entre aqueles que foram feitos um para o outro, o sofrimento não tinha lugar. A alegria e a luta pelo que é importante também não. A paixão confundir-se-ia com uma sopa morna e sem sal, daquelas que nos tiram a fome mas não nos satisfazem o paladar.
Das vezes que me apaixonei nunca senti que tivesse sido feito para a outra, muito menos a outra para mim. O presente não é excepção. Ainda bem, porque assim sei que o Amor que vivo é uma opção de ambos.

7.03.2014

pensamentos catatónicos (312)

É uma das coisas que mais me confunde, assistir ao ódio crescente entre pessoas que já foram amantes. Nunca assisto de forma impávida e serena, embora exemplos abundem. Um Amor que se transforma em ódio nunca foi Amor. Foi outra coisa qualquer cujo nome desconheço.
A única certeza que eu tenho é a da tristeza profunda. Sei que um abraço a sério nunca será um murro. Quando o é, então parte de alguém que nunca conheceu o gosto genuíno de um abraço. De alguém profundamente triste, portanto.
É que eu, que nem no arrependimento da violência acredito, ponho-me a pensar como será acordar um dia e descobrir que nunca se soube Amar.

7.01.2014

pensamentos catatónicos (311)

Duas mulheres sentam-se ao meu lado e começam a falar. Tem piada, eu já tinha visto mulheres juntas no cabeleireiro, no jardim da cidade, na pastelaria à frente da minha casa. Nunca na fila da Segurança Social. Estão ali as duas, como se eu não estivesse exactamente entre elas, a criticar um filho que decidiu morrer prematuramente a uma mãe.

- Não têm cuidado nenhum! - diz uma
- É só boa vida. Estava na piscina... - responde a outra.

E eu penso que quando morrer quero ser velho. Não, não. Ser velho é a segunda opção. Quando morrer quero ser pai.
Tenho a senha número duzentos e trinta. Estão mais de trinta pessoas à minha frente.

- E a outra que queria vender o próprio filho?!
- É uma vergonha. Deus há-de pôr a mão nessa criança.

E eu penso que Deus não põe a mão em ninguém, mas quando alguém põe a mão por ele dá sempre merda. É assim há séculos.
Está outra mulher à minha frente, vestida de silêncio e saia longa a beijar-lhe os pés. É bonita, penso. É o primeiro pensamento feliz que tenho desde que me sentei. Agradeço-lhe a presença, porque dela depende aquele pequeno fragmento da minha vida.

- Às vezes as mulheres querem é tudo dado. Até podem trabalhar para sustentar um filho, mas preferem não fazer nada.
- Não querem sofrer...

E eu penso que também não quero sofrer. Tenho a senha número duzentos e trinta. Estão mais de vinte pessoas à minha frente. Mando-as calar. Digo-lhes que não têm o direito de me cercarem, uma à minha esquerda e outra à direita, e debruçarem-se sobre mim a dizer tantas asneiras. E elas calam-se.
Amanhã dirão mal de mim noutro sítio qualquer.

6.30.2014

conversa 2107

(ao telefone)

Ela - Desculpa por este fim de semana.
Eu - Desculpa o quê?!
Ela - Por não te ter dito nada. Eu tinha prometido telefonar-te para jantarmos os dois, mas o tempo passou a voar e nem te avisei que não podia.
Eu - Não faz mal. Nem sequer me lembro de me teres dito que ias telefonar...
Ela - Não?!
Eu - Sinceramente não...
Ela - Raios, pá! Então eu faço-te uma coisa destas e tu nem ligas?!

6.25.2014

respostas a perguntas inexistentes (282)

Um dos meus brinquedos preferidos de infância era a máquina de costura da minha tia. Tinha um pedal muito grande que accionava uma correia que, por sua vez, fazia girar a roda que permitia que a agulha cosesse. Para mim aquilo não era máquina de costura nenhuma. Era uma locomotiva de um comboio e foi nela que eu fiz as minhas primeiras viagens de longa distância.
Uma das viagens que eu mais gostava de fazer era a Ouagadougou, capital do Burkina Faso, país que na época se chamava Alto Volta. Tinha visto o nome num mapa e ficado cheio de curiosidade. Como não havia internet, pouco mais sabia sobre a cidade do que aquilo que a enciclopédia lusobrasileira lá de casa me tinha ensinado. Ainda assim, normalmente nas tardes de Domingo, saía de Aveiro logo a seguir ao almoço na minha locomotiva improvisada e chegava a Ouagadougou uns vinte minutos depois.
Acabei por contar sobre essas viagens aos meus amigos da rua, aqueles com quem jogava futebol de vez em quando num passeio inclinado que ia dar à antiga fonte dos Amores, e todos eles gozaram com o nome da cidade. Só a Clara é que ficou tão interessada quanto eu naquele destino esquisito.
Houve um Domingo em que a levei comigo. Ao lado da cadeira onde eu me sentava para dar ao pedal, coloquei outra onde ela se sentou e passou uma tarde a visitar a capital do Alto Volta comigo. Foi lá que lanchámos bolachas e uma caneca de leite com chocolate preparada pela minha tia, apanhámos algumas molas de roupa que eram pedras preciosas e fugimos dum terrível coelho laranja que nos queria comer.
Já não me lembro muito bem da Clara, mas lembro-me que ela me aturou toda essa tarde cedendo às brincadeiras que eu queria fazer, sem alterar o argumento ou a substância das mesmas. Talvez tenha sido a primeira mulher a fazê-lo e quase de certeza a última.
Hei-de ir a Ouagadougou.

p.s.: eu tinha mesmo um coelho cor de laranja. não é uma piada política.

6.23.2014

gatas


Aqui há algum tempo aceitei acolher temporariamente uma gata em minha casa que, para além de algumas doenças, estava prenhe. A urgência era, à data, salvar-lhe a vida, algo que já foi conseguido. Foi em minha casa que ela pariu duas crias, uma das quais morreu logo no terceiro ou quarto dia de vida. A outra, no entanto, é bastante saudável e até já joga melhor futebol do que qualquer jogador da selecção portuguesa (tal como podem confirmar no vídeo).
Ambas as gatas estão para adopção. Como eu não sou o dono delas, não sou eu que vou decidir quem pode ou não levá-las nem em que condições, mas se houver interessados posso agilizar o contacto com quem de direito. Basta para isso que me contactem por email (bagacoamarelo @ gmail . com)


6.19.2014

respostas a perguntas inexistentes (281)

o Amor para totós

Quando alguém, para explicar porque é que se afastou de outra pessoa, diz que não houve química entre ambas, está a dizer a verdade. O Amor passa-se todo no cérebro e nada no coração, já sabemos. A testosterona nos homens e o estrogénio nas mulheres é que nos levam para a caminha. Além do mais, todas as sensações de paixão profunda se traduzem por reacções químicas cerebrais. A serotonina e a dopamina fazem-nos sentir felizes e a oxitocina faz-nos dar beijos na ponta do nariz.
Ao contrário do que se possa pensar, no entanto, a Ciência não está a acabar com o contexto onírico do Amor. Muito pelo contrário, está a elevá-lo ao seu máximo expoente. Para nos reproduzirmos, enquanto espécie, bastava pinarmos de forma mecânica de vez em quando. Todos nós sabemos fazer isso porque é assim que trabalhamos, sem grande vontade e mais por obrigação. O que aconteceu foi que o nosso caminho evolutivo nos trouxe para aqui, para um Amor que não conseguimos explicar mesmo quando ele está mais do que explicado.
Quando estou perto de quem Amo não penso que o meu hipotálamo está a produzir mais oxitocina do que o normal e por isso apetece-me beijá-lo. Penso apenas no imenso oceano de sorte que tenho por o poder fazer. Isso acontece porque há química e o Amor é químico. É o Amor para totós. Ainda bem.

6.18.2014

conversa 2106

Ela - Descobri como é que o futebol pode ser realmente bom para a minha vida.
Eu - E como é?
Ela - Com Portugal a perder como perdeu com a Alemanha.
Eu - Isso é bom para a tua vida?
Ela - É! Durante três dias o meu marido não abriu a boca. Andou sempre cabisbaixo lá por casa. Há muito tempo que não tinha tanta paz de espírito.

6.17.2014

respostas a perguntas inexistentes (280)

Do pão e do Amor

As paixões vivem da dificuldade. Quando se tornam fáceis morrem nesse mesmo instante. Desistam. Não há volta a dar. É por isso que não acredito quando alguém me diz que tem uma relação perfeita. A perfeição é o contrário do Amor.
Sobre os sobressaltos do Amor, já alguém os viveu com o padeiro? Claro que não. A não ser que se tenham apaixonado por ele. O padeiro faz o pão. É tudo muito fácil porque é só isso. Já o Amor Ama. Está tudo fodido.
É impossível pedir que alguém nos Ame da mesma forma que se pede um saco de pão, embora o desejo seja esse, acordarmos de manhã e pedirmos meia hora de Amor como quem toma café. Era bom, mas não existe.
Às vezes dou por mim no sofá da sala, naquela posição que não é sentada nem deitada, a pensar em como o dia foi difícil só por causa do Amor. É nesses momentos que me apercebo que vou fazer quarenta e três anos e tenho a sorte de ter uma vida difícil.

6.16.2014

pensamentos catatónicos (310)

Uma das coisas de que eu tenho inveja assumida dos adeptos de futebol é a facilidade com que se sentem felizes. Uma equipa ganha um jogo e parece que ganharam o dia ou até a vida. Gostava de conseguir o mesmo, mas não consigo. Ainda por cima eu próprio já tive essa sensação, porque também já fui adepto. Dá-me para ter saudades.
Agora, a facilidade com que os adeptos festejam um golo é a mesma com que eu festejo pequenos gestos de Amor, que são os que me fazem felizes a mim. Uma mão apertada, um abraço sincero, uma noite de encosto num sofá ou um beijo prolongado.
Como em tudo, às vezes sofremos golos na própria baliza.

6.13.2014

os meus pequenos segredos



Não sei se é normal, francamente, ter alguns lugares assinalados como segredos nas nossas vidas. Sei que para mim é. Principalmente em Aveiro, mas também em vários locais do mundo, encontrei sítios onde nunca irei com ninguém, mas apenas sozinho. São os meus pequenos segredos.
Chamo um pequeno segredo a um espaço qualquer onde já me tenha refugiado algumas vezes, onde consegui falar comigo mesmo com calma, normalmente sobre decepções de Amor, tenham sido elas maiores ou menores.
Na Holanda de Aveiro (chama-se assim por ter sido conquistada à água pela mão humana), em pleno rio Príncipe, há um canto que já me serviu de refúgio algumas vezes. Estive lá, por exemplo, no dia seguinte àquele em que conheci a Raquel. Nesse dia passei lá a manhã e parte da tarde, li um livro inteiro e molhei os pés, só para tentar perceber o que me estava acontecer. Sozinho, porque o Amor deve sempre evitar opiniões alheias.
Ontem voltei lá, não sei bem porquê, e decidi filmá-lo e desvendá-lo assim que vi um lagostim a movimentar-se com dificuldade na terra em direcção à água, onde o perdi para sempre. Não é nada de especial, mas para mim é um canto inesquecível de vários cantos da minha vida.
Podem vê-lo maximizado, porque está em full hd e com uma qualidade de imagem bastante boa.


6.12.2014

conversa 2105

Ela - Tu assumes demasiado facilmente que tens uma namorada.
Eu - Demasiado facilmente?!
Ela - Sim. Eu perguntei-te se tinhas namorada e disseste logo que sim.
Eu - Querias que eu dissesse o quê?!
Ela - Não queria que dissesses nada, mas a maior parte dos homens, quando diz que tem, diz também que está numa fase má e que a coisa deve estar para acabar.
Eu - Eu não estou para acabar...
Ela - Mas se o disseres sempre abres a porta a um caso extraconjugal.
Eu - Ah! Por um lado não quero abrir essa porta, por outro não acredito que as mulheres sejam parvas ao ponto de irem nessa conversa da relação que está muito mal e prestes a acabar.
Ela - É claro que não são parvas a esse ponto, mas às vezes fingem que sim...

6.09.2014

coisas que fascinam (172)

Das poucas vezes que tive problemas com os meu professores da primária ou do ciclo preparatório foi por causa das mãos. Sempre que pediam aos alunos para fazer uma rodinha e dar as mãos, eu recusava-me. Não era birra, era mesmo qualquer coisa de genuíno dentro de mim. Eu não gostava de dar as mãos. Ponto.
Claro que nos anos setenta e oitenta não havia qualquer tipo de compreensão para com estas manias, pelo que a coisa me valeu algumas reguadas e até expulsões com falta a vermelho. Uma vez a minha professora primária, já irritada, perguntou-me porque é eu não queria dar a mão a ninguém. Eu não soube explicar. Disse-lhe apenas que me fazia impressão. Apanhei.
À Helena, no entanto, dava sempre a mão. Corria com ela de mão dada pelo recreio todos os dias. Foi por causa dessas mãos dadas que experimentei o meu primeiro beijo que, aliás, não me soube a nada. Um dia a minha professora viu-nos assim e afastou-me dela. A lógica era que se eu não dava a mão quando me pediam, também não podia dar quando me apetecia.
Mesmo já mais crescido nunca fui muito de dar mãos. Às vezes acontecia e até gostava, mas a iniciativa nunca partia de mim e sim das poucas namoradas que tive na vida. Olhando agora para trás, creio que todas se queixaram disso pelo menos uma vez. Lembrei-me disso ontem, quando a passear em Matosinhos com a Raquel estiquei o meu braço e lhe dei a mão. Já aconteceu mais vezes com ela. Acho que é a primeira vez.

6.06.2014

pensamentos catatónicos (309)

Durante vários meses sentei-me à frente dela com o único objectivo de beber um copo. Às vezes mais do que um, outra vezes mais do que muitos. Nunca troquei com ela mais do que a informação necessária para conseguir o meu objectivo. 

- Um Bushmills, por favor.

Talvez, num dia ou noutro e assim como quem não quer a coisa, tenha falado do estado do tempo, aproveitando o facto de estar molhado pela chuva ou suado pelo calor.

- Nunca se viu um calor assim.

Mais do que a voz, lembro-me do seu constante sorriso. Ela ainda falava menos do que eu e limitava-se a cumprir os meus pedidos com o máximo de competência possível. Nunca me pareceu feliz nem triste, o que fazia dela um enigma.
Era a empregada do meu sítio secreto, aquele onde eu ia beber quando queria trocar dois dedos de conversa comigo mesmo. Não é fácil encontrar um bar onde me sinta bem sozinho. Por isso mesmo, quando encontro um nunca o divulgo. Provavelmente ela via-me como um homem solitário e silencioso, se é que alguma vez pensou nisso.
Ontem fui lá e ela não estava. Atendeu-me um tipo simpático e conversador que me disse que ela está de férias. Só bebi um copo e voltei para casa.
Às vezes são as pessoas que não conhecemos bem nem queremos conhecer melhor que nos fazem falta.
Uma pessoa pode ser um vício. Era só isso. 

6.05.2014

pensamentos catatónicos (308)

Às vezes, normalmente uma vez por semana, vou almoçar a casa dos meus pais. Fico sempre a saber que a minha mãe começou a preparar o almoço algumas horas antes, às vezes até no dia anterior. Também era assim quando eu era criança. Lembro-me de ver o bacalhau a demolhar lentamente numa grande bacia com água ou os bifes entre limão espremido e alguns dentes de alho cortados em pedacinhos.
É então que reparo que, apesar do meu humilde gosto pela cozinha, nunca preparo nada com antecedência. Quando cozinho para amigos, o máximo que faço é temperar a comida uns trinta minutos antes. Se cozinhar só para mim, nem isso.
Com o tempo perdemos o tempo, ou seja, perdemos a disponibilidade para pensar nas coisas com alguma antecedência. Só por si, a coisa pode não parecer grave. Afinal de contas vende-se bacalhau já demolhado e vinagre tão bom que tempera bem os bifes em cerca de dez minutos. É na falta de projecto que está o problema. Para a geração da minha mãe tudo era um projecto de vida, para a minha tudo é um improviso.
Às vezes tenho a sensação que este princípio se aplica a tudo. Também ao Amor, onde vamos Amando o que é possível Amar sem ensaiar muito a coisa. Dez minutos agora, vinte minutos amanhã. Só por si a coisa não parece grave. Afinal de contas os Amores vão-se digerindo como uma qualquer refeição improvisada.

6.04.2014

conversa 2104

(ao telefone)

Ela - Então?! Está tudo bem?
Eu - Sim. Estou aqui em casa com a Cristina, que veio cá visitar a minha gata.
Ela - E ela está bem?
Eu - Sim. A Cristina está sempre na mesma, o que no caso dela é bom sinal.
Ela - Estava a perguntar pela gata, não pela Cristina.

6.03.2014

conversa 2103

(na casa dela)

Ela - Vou comer um iogurte de ananás. Queres um?
Eu - Não, obrigado.
Ela - Não vamos comer nada durante algumas horas...
Eu - Eu sei, mas detesto iogurtes de ananás.
Ela - Eu também. Gosto de iogurtes de tudo, menos de ananás.
Eu - Então porque é que os compraste?
Ela - Se eu tiver iogurtes de que gosto, como-os todos duma vez. Assim só como quando tenho mesmo fome.

6.02.2014

coisas que fascinam (171)

da minha avó

Quando se é criança e se conversa com um velho, o mais interessante é perceber que os velhos falam a olhar para o passado e as crianças para o futuro. Acho que é por isso que, pelo menos às vezes, crianças e velhos se dão tão bem. Há um ponto de encontro entre as duas gerações, ponto esse que só se encontra nessas conversas.
Na loja do meu avô, por exemplo, lembro-me de um casal de velhos que ia lá apenas para falar. Ela entrava sempre depois dele. Nunca compravam nada, mas o meu avô recebia-os todos os dias como se não os visse há muito tempo. Enquanto ele falava do passado com um entusiasmo inesgotável, ela ficava em silêncio a ouvir as histórias que tinham passado ao lado da sua própria vida. Às vezes, entre um leve abanar de ombros, lá interrompia por uns segundos sempre no mesmo tom.

- Eu aturei muita coisa! - dizia.

E o homem e o meu avô sorriam entre dentes.
Assim, fiquei sempre com a sensação de que as mulheres é que tinham abdicado de si durante a vida. Independentemente das agruras da vida, os homens falavam sempre dela como se fosse um romance. Já as mulheres nem por isso. Primeiro para não prejudicar o casamento, depois para não prejudicar os filhos e por fim para não prejudicar os netos, remetiam-se a uma vida de algum silêncio sofrido. 
É assim que me lembro da minha avó, a viver sem prejudicar ninguém, prejudicando-se a ela mesma. Conversei muitas vezes com ela, comigo a olhar para o futuro e ela a olhar para o passado, ou seja, para este tempo em que agora eu vivo e escrevo com saudades dela.
As conversas entre crianças e velhos olham sempre para um dia como o de hoje, em que rego as plantas da minha varanda com as instruções que ela me deu há trinta e cinco anos atrás, numa estufa improvisada nas traseiras dessa loja. Sempre sem prejudicar ninguém, como todas as mulheres do seu tempo.

6.01.2014

conversa 2102

Ela - Estive a ensinar o meu marido a comprar fiambre e queijo num hipermercado. Quantidades necessárias consoante a semana, qualidade, preço, etc...
Eu - Fiambre e queijo?! A que propósito?
Ela - Os homens são óptimos para irem para a fila do fiambre e do queijo enquanto as mulheres fazem as compras...