5.14.2014

conversa 2098

Eu - Já não te via há tanto tempo!
Ela - Não tenho saído muito. Estou numa fase em que gosto de ficar em casa, sozinha com os meus pensamentos.
Eu - Estás a viver sozinha?
Ela - Sim. Separei-me há quatro meses. Quer dizer, não me separei. Ainda namoro com o David, mas decidimos viver separados.
Eu - Ah! Eu também vivo sozinho, por isso compreendo.
Ela - Nós tivemos uma discussão muito grande e decidimos ir cada um para seu lado no próprio dia. Há coisas que tornam a coabitação difícil.
Eu - Ainda bem que não se chatearam.
Ela - Pois... ele queria tirar a televisão por cabo lá de casa. Para mim é impossível viver sem televisão por cabo. É mais do que evidente que não podemos viver na mesma casa.
Eu - Tens a certeza que gostas de ficar em casa sozinha com os teus pensamentos?!
Ela - Pronto... e a ver televisão também. Admito que sim.

5.13.2014

desabafo

Às vezes tenho vergonha de género, o que quer dizer que tenho vergonha de ser homem. Com "h" minúsculo. Isso acontece-me sempre que leio alguma coisa sobre violência doméstica. É que a estatística não engana e, enquanto as vítimas são quase sempre mulheres, os agressores são quase sempre homens.
São os homens que têm esta capacidade de transformar um beijo num murro, ou de passar de uma mão dada para uma mão sufocante à volta do pescoço. Este ano já vamos em dezoito vítimas mortais neste país, todas elas mulheres cuja culpa foi apaixonarem-se pela pessoa errada.
É certo que a violência entre quatro paredes é sempre um acto de cobardia mas, para além disso, o que retira qualquer capacidade de compreensão é essa metamorfose da paixão em violência. Nisto tudo tenho apenas uma certeza: se é possível o Amor transformar-se em agressão, já a agressão nunca se transforma em Amor. É uma fria verdade sobre a nossa espécie, mas é assim.
Sei que a minha vida emocional me leva a muitos sítios diferentes e é grande por isso mesmo. Leva-me ao sofrimento algumas vezes, à felicidade plena outras vezes. Se algum dia me tivesse levado à violência seria apenas isso: uma vida pequena.

5.12.2014

respostas a perguntas inexistentes (277)

Não acredito no Amor para sempre. Acredito no Amor durante algum tempo, seja ele mais curto ou mais longo consoante diversas variáveis. A vida pode ser óptima quando finalmente nos apercebemos disso mesmo, ou seja, que o Amor da Disney não existe. O problema que eu tenho é que, apesar de não acreditar no Amor para sempre, desejo-o.
Para quem o deseja mas não acredita nele há várias formas de o prolongar o mais possível. Estou convencido que a melhor de todas é ter vida própria e dar espaço a que a pessoa Amada também a tenha. Vida própria e ciúmes dela, claro.
Os ciúmes não são assim tão maus. Se não se tornarem doentios até são um dos ingredientes obrigatórios do Amor. É por isso que os devemos sentir de vez em quando e, caso já não os sintamos, temos que fazer por isso. A vida própria de ambos é uma boa maneira de o conseguir.
Com vida própria temos sempre alguma coisa para contar à pessoa que Amamos. Onde estivemos, o que fizemos, o que aprendemos e conhecemos. Além disso, também temos sempre alguma coisa nova para ouvir. É uma revelação constante, sendo que essa revelação, logo antes do ciúme, é o principal ingrediente de um Amor longo.


5.08.2014

conversa 2097

Ela - Desconfio que o meu marido me anda a trair com outra.
Eu - Porquê?
Ela - De repente tornou-se super carinhoso e meigo comigo.
Eu - Ele ser carinhoso contigo quer dizer que te anda a trair?!
Ela - Sim, porque na cama continua a ser um zero à esquerda.

5.07.2014

conversa 2096

(no café)

Eu - Pareces nervosa!
Ela - Já me acalmo, mas não me digas que pareço nervosa.
Eu - Mas pareces...
Ela - Eu sei que pareço, mas não me preciso que mo digas, okay?! Não há nada pior do que dizer a uma mulher nervosa que ela parece nervosa!
Eu - Pronto, mas posso fazer alguma coisa por ti?
Ela - Não. É só o meu marido que é um querido mas é preciso explicar-lhe tudo, até ao mais ínfimo pormenor, todos os dias. Até as coisas mais simples...
Eu - Ah!
Ela - Pedi-lhe para me cortar os legumes para fazer sopa e conseguiu fazer tudo ao contrário. Já lhe expliquei tantas vezes que as cenouras são para raspar e cortar em pedaços pequenos, que às batatas e aos nabos é que se tira a casca, que as cebolas é só lavar e tirar a casca seca. Nunca faz nada bem...
Eu - E é isso que é simples?
Ela - Então não é?
Eu - Mais ou menos, mas não precisas de te enervar por causa disso.
Ela - Já te disse para não me dizeres que estou nervosa.

5.06.2014

conversa 2095

Ela - Estou numa fase boa da minha vida.
Eu - Fico contente em ouvir isso.
Ela - Apercebi-me que os maridos não fazem falta para quase nada e sinto-me bem sozinha.
Eu - Para quase nada?! Então fazem falta para alguma coisa...
Ela - Sim, fazem falta para implicar de vez em quando, mas como tenho um filho adolescente não preciso de mais nada.

5.05.2014

conversa 2094

Ela - Ouvi dizer que tens gatinhos pequeninos.
Eu - Só durante algum tempo. Sou FAT* duma gata que decidiu parir dois gatitos lá em casa.
Ela - Ao meu ex-marido aconteceu mais ou menos o mesmo.
Eu - Também é FAT de gatos?
Ela - Não. Foi FAT duma gaja logo a seguir a mim e quando deu por ela, ela já estava prenha.

* Família de Acolhimento Temporário

respostas a perguntas inexistentes (276)

Só os homens é que sabem Amar.

O meu vizinho do lado era um tipo forte, de poucas palavras e muita acção. Trabalhava na distribuição de fruta e acordava todos os dias por volta das cinco da manhã. Eu simpatizava com ele, apesar de nunca termos tido um contacto muito próximo. Cumprimentava-me sempre, mesmo quando estava visivelmente mal disposto.
No apartamento à frente também só vivia uma pessoa. Era uma mulher igualmente de poucas palavras, mas que preferia virar a cara a dizer "bom dia" quando nos cruzávamos na escada do prédio.
Um dia descobri que eram marido e mulher, mas que tinham decidido viver tão perto e tão longe um do outro quanto possível. Por isso é que eram vizinhos, apesar de partilharem a cama regularmente. Foi ele que mo disse, numa noite em que ambos nos deixámos estar para além da hora no café da frente.

- As mulheres não sabem Amar. Só sabem ser Amadas! - concluiu ao pousar o último copo de vinho.

Já não vivo naquele edifício e nunca mais vi aquela gente. Mesmo assim nunca mais a esqueci, principalmente por causa desta frase, que terá sido a última que ele me disse para além do "bom dia" ou "boa tarde" habituais.
Se hoje passasse por ele, explicar-lhe-ia que na altura era apenas um jovem adulto e não percebi onde ele queria chegar, mas a vida ensinou-me muita coisa e hoje percebo. O tempo dá-nos destas certezas. Só os homens é que sabem Amar.

5.04.2014

respostas a perguntas inexistentes (275)

Todos nós dizemos coisas apenas por dizer. Eu também. Acho que às vezes é só uma questão de matar o silêncio porque o silêncio, dependendo do contexto, pode significar uma enorme distância entre duas pessoas. Aceito isso da mesma forma que aceito a minha condição, tão grande quanto pequena, de Homo Sapiens.
Para além duma flor para a minha mãe, pousei no tapete corredor do supermercado duas garrafas de vinho, uma embalagem de filetes de peixe e outra de rúcula selvagem. A empregada da caixa fez-me todas as perguntas que já teria feito algumas centenas de vezes, antes de mim, a outros clientes: se eu tinha cartão cliente, se desejava saco plástico e, por fim, se queria número de contribuinte na factura. Não, não, sim.
A última frase, já com o pagamento feito, não foi uma pergunta. Continuação de um bom domingo, disse. Foi simpática, mesmo que o tenha sido apenas porque sim, mas deu-me para não aceitar aquele cumprimento como outra coisa qualquer. Tenho tido um péssimo domingo, respondi.
Na verdade não tenho tido um péssimo domingo. Tenho tido, isso sim, um dia banal. Acho que o que me passou pela cabeça foi não aceitar a inocente presunção daquela mulher de que sabia como estava a ser o meu dia. Dizer coisas por dizer até pode ser, fazer apostas relativamente ao meu dia é que não.
O próximo cliente mostrava-se nervoso, como se eu lhe estivesse a empatar a tarde por estar a fazer compras no mesmo sítio que ele. Ela repetiu-lhe as mesmas duas perguntas iniciais: se ele tinha cartão cliente e se desejava saco plástico. Ele bufava com modos pesados a tanger o grosseiro. Percebi então o motivo pelo qual ela partia do princípio que eu estava a ter um bom domingo. Pedi-lhe desculpa e desejei-lhe um resto de um bom dia tanto quanto possível.
O cliente seguinte pareceu-me acalmar-se.


5.03.2014

respostas a perguntas inexistentes (274)

Irrita-me toda a iconografia sobre o Amor. Corações com setas, pores do Sol, lábios vermelhos ou duas mãos dadas num postal barato. O Amor não se dá com ícones, dá-se apenas consigo mesmo: Amor, e tentar reduzi-lo a outra coisa qualquer parece-me sempre um erro crasso.
No entanto percebo por que motivo se coloca uma fotografia do Pôr do Sol no Facebook quando se está apaixonado. É o sentimento de impotência para explicar o que nos vai na alma. Nenhuma palavra nos parece suficiente para o explicar, por isso passamos para uma imagem, acreditando que é verdade que ela pode valer mil palavras que no momento nem sequer nos vêm à cabeça. É mentira.
A minha proposta é que escrevam apenas Amor. Chega.

5.02.2014

coisas que fascinam (170)

As mulheres têm a mania de dizer, num estranho tom acusatório, que os homens não conseguem manter um compromisso de Amor, que abandonam uma mulher por outra com uma facilidade enorme porque não sabem Amar. Nada disso é verdade. A verdade é que o Amor não pode ser um compromisso.
Nenhum homem aceita um Amor que não seja o maior de todos, o que vai sendo cada vez mais difícil de conseguir com a idade. Depois de um Amor grande, nenhum consegue interessar-se por um Amor médio. Nem é má vontade, é apenas uma impossibilidade.
As relações curtas são legítimas e necessárias, mas não são Amor. São remendos à solidão.
O problema de muitos homens é que as mulheres aceitam remendos como se fossem Amor. Por um lado porque não gostam da definição de remendo, por outro por serem mais inteligentes. É que assim existe uma grande probabilidade de Amarem menos do que são Amadas. Numa relação desequilibrada, é sempre fodido Amar mais do que se é Amado.
Um homem pensa sempre que se o seu Amor terminar não conseguirá ter outro, pelo menos tão cedo. É que os Amores grandes não andam por aí pela rua à mão de semear. Já os remendos, felizmente, sim. Quando não se Ama ninguém, os remendos são uma questão de sobrevivência.
Eu vivo um Amor grande nos tempos que correm, o maior de todos. Ando a aproveitar para viver o mais possível. A sobrevivência é só para quem sabe.

conversa 2093

Ela - Gostas de caracóis?
Eu - Sim, com cerveja vão bem, especialmente no Verão. Só não percebo a que propósito é que me estás a perguntar isso. Estavas a falar do teu...
Ela (interrompendo-me) - Do meu cabelo. Exactamente!
Eu - Ah!

4.30.2014

conversa 2092

Ela - Às vezes, a única coisa que eu preciso é de um abraço de um amigo como tu.
Eu - Então dá cá um grande abraço.
Ela - Eu disse às vezes, não neste preciso momento.

4.29.2014

pensamentos catatónicos (305)

Hoje fiz uma máquina, o que quer dizer que lavei alguns quilos de roupa que depois tive que pendurar na corda. Em média, faço uma máquina por semana. Muito raramente faço duas. Tenho molas de plástico e de madeira, sendo que nas de plástico prefiro as roxas. Não pela cor, mas sim porque são mais curtas do que as clássicas e têm mais força. É sempre por essas que começo e, quando acabam, sigo depois para as outras de plástico que, na realidade, são todas diferentes umas das outras.
Dantes usava apenas molas de madeira. Actualmente, por conselho da Raquel, só as uso mesmo em caso de extrema necessidade. As molas de plástico não deixam marcas na roupa como as de madeira.
A minha corda é, na verdade, um estendal que tenho pendurado no tecto da varanda. Quando está bom tempo, para além de escolher a sequência das molas enquanto penduro muito devagar toda a roupa, aproveito também para beber uma cerveja ou simplesmente ficar a olhar para a rua quase deserta.
Também costumo optar por deixar as t-shirts estampadas viradas para a rua. Não sei bem porque é que faço isso, mas faço. Hoje até pendurei uma que tem o Gasganete (o célebre mau da fita na série dos Estrumpfes) ao contrário do habitual, apenas para o desenho ficar direito.
Hoje fiz uma máquina, já o disse. Algum tempo depois fui tomar café a uma pequena pastelaria de esquina que existe a cerca de cem metros da minha casa. Foi lá que uma mulher me perguntou porque é que eu penduro a roupa.

- Para ela secar! - respondi.

No princípio nem sequer percebi a pergunta, portanto dei apenas a resposta que me pareceu mais óbvia e continuei a tomar café enquanto folheava as páginas do Diário de Aveiro. Pelo canto do olho, enquanto pousava a chávena pela última vez, vi o vulto que me fizera a pergunta afastar-se em direcção à porta de saída.

- Não tem mulher, é o que é... - disse.

Saí dali com aquela última frase a ecoar dentro do meu cérebro, sem conseguir tirar conclusão nenhuma sobre a mesma. Quando cheguei a casa troquei as camisolas para um varão de dentro e deixei a roupa pendurada de forma mais discreta. 

4.28.2014

conversa 2091

Ela - Diz-me uma coisa: existem homens altos com o pénis pequeno e homens baixos com o pénis grande?
Eu - Sei lá!
Ela - Caramba! Precisava de saber...
Eu - Porque é que raio queres saber isso?
Ela - Ontem bebi uns copos a mais e contei umas histórias ao jantar...
Eu - E?!
Ela - E espero que sejam verosímeis...

4.27.2014

conversa 2090

(ao telefone)

Eu - Olá! 
Ela - Olá! Diz...
Eu - Estou a telefonar-te porque tinha uma chamada tua...
Ela - Pois tinhas. Não atendeste.
Eu - Então diz tu!
Ela - Como não atendeste também não mereces saber o que era.

4.25.2014

uma estátua de pedra

Lembro-me da caixa de fósforos em cima da toalha vermelha. Não parecia verdadeiramente uma caixa de fósforos. As superfícies ásperas ainda estavam intactas e ladeavam a reprodução de uma pintura naif. Era uma paisagem com um rio e algumas casas coloridas. Assim à primeira vista, podia tratar-se de um objecto de decoração e não de uma caixinha de fósforos.

- Que gira! - disse eu enquanto a observava com a ponta dos meus dedos.

Foi nesse dia que percebi que tinha uma espécie de sexto sentido relativamente a um aspecto muito particular dela. Ainda ia a subir a escada que dava para o terceiro andar onde ela vivia quando tive um calafrio. Cheguei a pensar voltar para trás e desaparecer, mas já tinha tocado à campainha para ela me abrir a porta do prédio. O intercomunicador do edifício tinha-se mantido mudo e o som da fechadura a soltar-se soou-me de uma forma particularmente agressiva. Ela estava com vontade de descarregar uma fúria qualquer em alguém.

- É apenas uma caixa de fósforos. Não tem nada de giro! - respondeu.

Mantive o silêncio. Sentei-me no sofá tentando não fazer ruído nem sequer com o a sola dos sapatos que pareciam querer irritar-me quando tocavam no flutuante da sala. Fiquei a vê-la do lado de fora da varanda, através do cortinado branco como se fosse uma sombra chinesa. Era tão bonita! Mesmo quando fumava cigarros nervosos e se transformava numa sombra era bonita.
Depois entrou e tornou a revelar as cores que lhe davam vida. O vestido vermelho e levemente decotado, o pescoço fino e frágil, o cabelo frisado da cor de mel e uma tatuagem em miniatura que vivia num dos seus braços como um insecto adormecido. Era uma mosca.

- Não trouxeste vinho? - Perguntou
- Pensei que tínhamos combinado jantar fora... - arrisquei.
- Mas não vamos. Não me apetece sair de casa e aqui sinto que não há espaço suficiente para os dois, muito sinceramente.

Levantei-me e dei-lhe um abraço a que ela não correspondeu. Foi a primeira vez na minha vida, aliás, que abracei uma estátua. Dura, de braços caídos e endurecidos, ficou assim enquanto desfiz o nó dos meus braços à volta dela e me afastei lentamente. Vesti o casaco e saí sem uma palavra. Foi nesse momento, graças ao cravo que estava preso ao bolso exterior daquela peça de roupa, que retomei a consciência que era a noite de 24 de Abril.
Foi nessa noite que conheci aquele que é ainda hoje um dos meus melhores amigos. Um homem de esquerda que me viu ao balcão de um bar a tentar afogar violentamente o meu dia num copo de uísque. Aproximou-se e deu-me um cravo novo, como que sugerindo que o meu estava amarrotado. E estava. Era o cravo e era eu, amarrotados pelo simples facto de me sentir apaixonado por uma estátua de pedra.
Contei-lhe a pequena história da minha noite. Às vezes é mais fácil despejar tudo num estranho do que num amigo de todos os dias. Existe a probabilidade de nunca mais o vermos e do nosso desabafo desaparecer com ele, da mesma forma que desaparece um vulto quando vira uma esquina no fundo duma rua. A coisa não durou muito tempo, mas terminou com o meu uísque bebido num só gole.

- Precisava de conseguir não me apaixonar. Era só isso! - pousei o copo.
- As pessoas que não se apaixonam não fazem revoluções. - respondeu.

Levantei os olhos para o mundo. A maior parte das pessoas ali presentes tinha um cravo vermelho reluzente ao peito. Reparei como todas tinham articulações. Os braços e as pernas mexiam-se ao som de músicas contemporâneas da revolução trocando abraços tão suaves quanto genuínos.
Tal como numa revolução, decidi pela primeira vez olhar para o futuro e deixar de Amar estátuas de pedra.

4.23.2014

pensamentos catatónicos (304)

Há poucas coisas mais elucidativas do que uma boa conversa de treta. As conversas de treta, sejam elas sobre o estado do tempo, o campeão nacional de futebol ou a quantidade de açúcar dos bolos portugueses, são sempre conversas que só existem se todos os interlocutores as desejarem. Para que duas ou mais pessoas tenham conversas de treta têm, por isso, que se desejarem também entre si, pelo menos nesse momento em que conversam sobre coisa nenhuma.

Nunca me apaixonei nas Finanças, no Registo Civil ou no Notário. A razão é simples, são locais onde não há conversas de treta. A última vez que tirei o cartão de cidadão tive a felicidade de ser atendido por uma mulher bonita e a infelicidade de estar num local onde não há espaço para conversas de treta. Tudo o que ela me perguntou foi útil, tudo o que eu lhe respondi também. No Amor não há muito espaço para a utilidade.

Sobre o estado do tempo, por exemplo, eu sou incapaz de trocar uma só palavra com alguém de quem não gosto. Já com quem Amo posso estar a noite inteira a falar do Sol, da chuva, das nuvens e da precipitação. Com a vantagem de que também consigo estar em silêncio sem que o silêncio me incomode. A companhia de quem Amo é sempre uma contemplação e não há treta melhor do que saber isso.

Sei que uma mulher não gosta de mim o suficiente quando a convido para sair ou jantar e ela me pergunta para quê. Quando há um "quê" num convite para estar com alguém a coisa simplifica-se, mas tudo o resto desaparece. Se eu telefonar ao canalizador há sempre um "quê" muito simples. Uma sanita entupida, por exemplo. Se eu convido alguém para jantar é porque quero ter uma noite de treta.
O Amor é uma treta. Quando não é uma treta também já não é Amor. É uma utilidade.

4.22.2014

conversa 2089

Ela - Estás bem?
Eu - Sim, mais ou menos.
Ela - Bem me parecia.
Eu - Bem te parecia o quê?
Ela - Que não estavas bem.
Eu - Eu disse que sim, mais ou menos.
Ela - Ou seja, não estás bem.
Eu - Estou, estou. Mais ou menos...
Ela - Mais ou menos que dizer que não andas bem.
Eu - Mais ou menos que dizer que estou mais ou menos.
Ela - Não me parece nada.
Eu - Mas é o que é. E tu, estás bem?
Ela - Sim, mais ou menos.

Kotka

Desde pequeno que adoro mapas. Quando era miúdo, um dos meus passatempos preferidos era passar horas a analisar os mapas que o meu pai tinha no carro. Havia um mapa de Portugal, outro da península Ibérica e outro da Europa. Cheguei mesmo a conseguir juntar o dinheiro de algumas semanadas para comprar um imenso mapa do mundo. Através das linhas que os formavam fui-me apercebendo do tamanho do mundo e, consequentemente, também do meu.
Dias houve em que me dediquei às terras mais pequenas e desconhecidas. Lia os nomes e tentava decorá-los para sempre, como se fosse possível um dia conhecer o mundo como conheço as palmas das minhas mãos. Tal nunca aconteceu mas ainda hoje, quando atravesso as estradas e ruas deste país, me acontece passar por pequenas terras cujo nome me soa familiar.
Os mapas em suporte de papel não mostravam muito mais do que linhas e nomes. Não serviam, por isso, para que eu tivesse uma noção mínima de como era cada terra, mas serviam para eu conhecer a sua localização. A partir de Aveiro, a cidade onde eu cresci, passava tardes a percorrer com os meus dedos os caminhos que me podiam levar a cidades tão distantes como Roma ou Moscovo, ou a aldeias tão perdidas como Vilarandelo ou Amareleja. Aveiro deixou de ser então a cidade onde eu crescia para passar a ser um ponto de ligação ao mundo inteiro.
Naquele princípio dos anos oitenta, fruto da revolução de Abril alguns anos antes, o nosso país começou a receber turistas um pouco de todo o mundo, mas principalmente de países do norte da Europa. Eram pessoas que se distinguiam fisicamente dos portugueses e para as quais eu olhava com um misto de espanto e de curiosidade. A minha vontade de meter conversa com cada um desses estrangeiros, para saber de que ponto do meu mapa é que vinham, esbarrava normalmente na língua. Mesmo assim, através duma linguagem gestual improvisada, consegui que muitos apontassem naquele imenso desdobrável o seu local de origem. Cada vez que isso acontecia, eu ficava a conhecer um pouco mais do mundo que nunca tinha visitado.
Foram assim as minhas primeiras viagens, a estender um mapa numa mesa de um café de praia para tentar descobrir de onde vinha aquela gente com um aspecto tão diferente. Hoje lembrei-me de um desses pequenos pontos no mapa que um casal de loiros deslavados apontou enquanto sorria pela minha curiosidade. De acordo com a minha memória, em criança pensei que aquela terra ficava numa zona em forma de pistola futurista, algo que eu vira na série Espaço 1999. Fui ao Google Maps e percorri o mesmo caminho no computador que percorri no papel há mais de trinta anos atrás, na esperança de descobrir a origem desse casal simpático. Descobri. Chama-se Kotka, na Finlândia.

4.17.2014

coisas que fascinam (169)

É quando o Amor nos corre mal que percebemos que o mundo é estúpido. Mesmo estúpido, todo ele, desde o café matinal que perde o sabor até aos aviões que vemos no céu, dos quais deixamos de tentar adivinhar em segredo a origem e o destino. O mundo é estúpido simplesmente porque tudo continua a funcionar quando, tal como o nosso Amor, devia estar parado.
Encontrei-a num desses dias em que inexplicavelmente o mundo estava a funcionar e, inexplicavelmente também, os cafés estavam abertos. Abanei os ombros quando ela me perguntou se estava tudo bem e sentei-me na mesma mesa, mais por obrigação do que por vontade. Um televisor sujo mostrava uma telenovela qualquer.
Saímos dali e ela ordenou-me que a acompanhasse. Percorremos as ruas dum bairro suburbano a passo de caracol, até entrarmos num automóvel cuja porta direita não fechava bem.

- Tens que sair e fechar por fora. A mola partiu. - disse ela.

Foi a única coisa que disse durante as várias horas em que percorremos a praia de forma pendular, ao som das ondas que não conseguíamos ver. É verdade que hoje, quando a encontro, ela me costuma sorrir e dizer que lhe dei uma bruta seca nessa noite. Eu, pela parte que me toca, lembro-me dela como a mulher que parou o mundo.

4.16.2014

conversa 2088

(na minha casa)

Ela - Ah! Também compraste uma bicicleta de manutenção!
Eu - Comprei. Sinto necessidade de fazer algum exercício...
Ela - E tens usado?
Eu - Tenho. Até aponto todos os tempos e distâncias.
Ela - A minha está nova. Nunca a usei.
Eu - Mas tu compraste a tua há menos de um ano, acho eu.
Ela - Sim. Comprei-a por impulso. Um dia vi-me ao espelho e pensei que tinha que fazer qualquer coisa urgente para emagrecer. Fui à loja e comprei a bicicleta.
Eu - Se não a usares também não emagreces...
Ela - Eu sei, mas nesse dia senti-me bem por a ter comprado. Depois nunca tive força de vontade para a usar.
Eu - E não tentaste devolvê-la? Esta brincadeira ainda é cara!
Ela - Eu sei. Eu devolvo tudo o que não quero, mas a bicicleta não. Seria uma derrota na minha luta pelo emagrecimento.
Eu - Nunca vou mesmo compreender as mulheres!
Ela - É fácil. tem a ver com eu sentir que fiz alguma coisa para emagrecer ou não.

4.15.2014

conversa 2087

Ela - Só consigo estar com homens mais novos do que eu.
Eu - Estás comigo e eu sou mais velho que tu.
Ela - Mas nós só estamos a conversar. Para conversar gosto de homens mais velhos, para levar para a cama é que gosto de homens mais novos.
Eu - Ah! A vida pode ser difícil.
Ela - Pode mesmo. Está cada vez vez mais difícil arranjar um homem novo para levar para cama e, ao mesmo tempo, parece-me que os mais velhotes estão a perder conversa.
Eu - Só uma pergunta...
Ela - Diz.
Eu - Nunca conversas antes, durante ou depois do sexo?
Ela - Claro que não. Só se for para mandar o gajo despachar-se.

4.11.2014

conversa 2086

Ela - A minha relação anda a matar-me lentamente.
Eu - Isso está assim?
Ela - Está. Todas as manhãs o meu marido me pergunta pelo sítio onde estão as coisas dele. As meias, a camisa, os sapatos... é tão enervante.
Eu - E o que é que tu respondes?
Ela - Respondo que estão no sítio do costume e ele diz: "Ah! Obrigado".
Eu - É mesmo estranho.
Ela - É, não é?!
Eu - Nunca lhe disseste para ir directamente buscar as coisas sem te perguntar primeiro por elas?
Ela - Já, mas não resultou. Se ele não me perguntar primeiro, abre o armário e diz: "a minha camisa não está aqui!", mesmo que esteja. Depois eu digo: "procura melhor!" e ele responde: "Ah! Obrigado".

4.10.2014

respostas a perguntas inexistentes (273)

Os desgostos de Amor são óptimos, ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa. Aliás, no que se refere ao Amor só há uma coisa melhor: os gostos de Amor. Tudo o que não é um gosto nem um desgosto, é estar ausente da vida. É mau.
Os desgostos de Amor, aliás, são mais difíceis de esquecer do que os gostos. Um gosto de Amor, que já o foi mas já não é, gastou-se. A sua memória é idêntica à duma fotografia na parede. Está morta, apesar de sabermos que já viveu. Pelo contrário, um desgosto de Amor torna-se saudade assim que nasce. É também assim que se mantém durante muito tempo, talvez até para sempre. Está vivo.
Quem se considera vítima por ter um desgosto de Amor é porque nunca teve um gosto de Amor a sério. Não faz mal. De um gosto de Amor a sério nunca desistimos. Vale a pena continuar a tentar.

4.09.2014

respostas a perguntas inexistentes (272)

O primeiro homem que eu conheci que falava constantemente ao telemóvel nem sequer tinha telemóvel. Era um tipo alto, coisa para mais de um metro e noventa, magro e bigode farto, que caminhava sozinho pelas ruas da cidade de Aveiro a falar sozinho com uma mão colada à orelha esquerda. Na altura nem sequer existiam telemóveis, mas ele lá imaginava que tinha um meio de comunicar com alguém.
Muitas vezes, a sair do BA (Bar da Associação que, na altura, ficava perto do estabelecimento prisional) às quatro ou cinco horas da manhã, via-o a caminhar como se estivesse numa missão secreta qualquer, de colarinhos levantados e sempre a comunicar com um entidade imaginária.

- Eles vêm aí, eles vêm aí! - dizia.

Eu e os meus amigos mais próximos começámos a chamar-lhe o 008, numa homenagem ao detective mais famoso da História do Cinema, mas o que era óbvio para todos é que ele, para além de sofrer duma doença mental qualquer, era também um tipo extremamente solitário.
Já não o vejo há alguns anos. Tanto quanto me lembro, a última vez que me cruzei com ele foi numa pastelaria perto da rotunda das Glicínias, provavelmente no ano de 2005, mas nunca mais me esqueci daquela pesada e abrangente solidão que ele carregava aos ombros. Nesse fim de tarde, estava ele à mesa da pastelaria a falar sozinho, com uma mão na boca e outra na orelha, quando eu reparei que ele não tinha meias dentro dos sapatos gastos nem estava a consumir nada. Decidi nesse dia pagar-lhe o lanche e, para meu espanto, ele agradeceu normalmente.

- Muito Obrigado! - disse.

Hoje lembrei-me dele quando fui tomar o primeiro café do dia ao tasco mais perto da minha casa. Uma mulher falava ao telemóvel com alguém que, não sei explicar bem porquê, me pareceu ser também uma entidade imaginária. Acho que era a conversa que não colava bem com nada. Quando finalmente se calou e pousou o objecto na mesa ao lado da minha, tive a certeza que sim, que a conversa dela era inventada. O telemóvel era bastante antigo e estava desligado. Depois olhei bem para ela e reconheci-a. Há pouco mais de vinte anos, creio que em 1988 ou 89, foi minha colega num daqueles primeiros cursos de formação que a CEE (agora UE) patrocinou neste país.
Ela não me reconheceu, isso é certo, mas eu lembro-me perfeitamente do momento em que, estávamos todos nós, alunos desse curso, a fazer um pequeno intervalo cá fora, na Avenida Lourenço Peixinho, quando o 008 passou por nós em passo apressado e a falar sozinho.

- Parece maluquinho! - disse ela.

4.08.2014

coisas que fascinam (168)

Nunca devemos desprezar um Amor de baixa intensidade. Foi a tua mão que me ensinou isto.
Na verdade, à distância de alguns anos, é da tua mão que me lembro tantas vezes. A tua mão que me agarrou numa rua qualquer de Lisboa, como se fosse uma bóia salva-vidas atirada a um náufrago. Era tão fina quanto forte e às vezes suava. É do que me lembro. É da tua mão. Da textura e do suor.

- Não largues! - disseste.

Não larguei.
Já não me lembro muito bem de ti, para ser sincero. Nem tu de mim, estou certo. O que eu queria era que te lembrasses da minha mão da mesma forma que eu me lembro da tua. As mãos são a prova dos nove de um Amor de baixa intensidade ou, como se diz às vezes, de uma paixoneta. Quem não se Ama nem um bocadinho, não dá as mãos durante mais do que alguns segundos. E nós demos.

4.05.2014

coisas que fascinam (167)

Tlim popó!

A Sara estava em minha casa, passou o dedo por uma das prateleiras da estante da sala e ficou a olhar para a ponta durante alguns momentos.

- Alguém te limpa o pó! - disse.
- Sou eu que limpo o pó. - respondi.

A Alla era ucraniana e não pescava nada de português. Costumávamos falar em inglês para nos entendermos os três, mas aquela reflexão sobre o pó tinha saído em português por distracção.

- Tlim popó! - repetiu ela antes de se rir.

Hoje em dia a Alla já fala português, ainda que com algumas dificuldades naturais. Deixei de a ver durante alguns anos, porque entretanto foi trabalhar para alguns restaurantes transmontanos. Esta semana estava eu a sopesar algumas laranjas no supermercado quando ouvi atrás de mim Tlim popó!. Era ela.
Há alguns atrás, creio que seis ou sete, a Alla veio para Portugal sem conhecer cá ninguém. Nessa altura ficou três ou quatro dias em minha casa e mostrei-lhe a região de Aveiro, algum vinho e alguns doces. Falámos sobre tudo e sobre todos, mas o que ficou como marca desses dias foi um som tão banal como outro qualquer. Tlim popó!
Um som que agora me fez recordar tudo em poucos segundos, antes de largar a laranja que tinha na mão e me virar para a abraçar.


4.04.2014

conversa 2085

Ela - Para mim o sexo é noventa por cento da relação.
Eu - Noventa por cento?!
Ela - Sim, mas não faças essa cara. Só estou com o meu namorado cerca de duras horas por semana. Uma vez ao sábado, outra ao Domingo.

4.02.2014

respostas a perguntas inexistentes (271)

Um dos problemas dos dias chuvosos não é a chuva em si, é o facto de quase toda a gente começar a falar do estado do tempo. Eu incluído, que chego de manhã à janela e começo por dizer a mim mesmo: "mas que dia de merda!".
Tenho passado a maior parte dos meus dias comigo mesmo. De vez em quando vou dar um pequeno passeio e, principalmente à noite, recebo uma visita de vez em quando. Mesmo assim nunca tive a casa tão suja e desarrumada como agora. Creio que é por estar a ter algum gozo em estar em casa e a desfrutar dela. É aí que penso que o dia não é tão de merda assim.
Olhando agora para a minha sala, encontro uma pilha de cds espalhados pelo sofá e pelo chão, dois livros que ando a ler de forma intercalada, dois copos de vinho com o fundo pintado de tinto, alguns papéis de coisas que tenho para resolver e metade de um chocolate Garoto (uma das boas coisas que nos chegam do Brasil). A minha casa está desarrumada porque aproveito o tempo que passo nela.
Ontem, no meio desta confusão, recebi uma visita inesperada da Tereza (outra das boas coisas que o Brasil nos trouxe) e foi ela que me disse isso mesmo quando lhe pedi desculpa pela desarrumação.

- Quer dizer que está vivendo! - disse ao entrar.

A Tereza tem razão. É mais ou menos o mesmo que acontece com o Amor. Quando desfrutamos dele há alturas em que ele parece mais ou menos desarrumado, como se não soubéssemos por onde começar para pôr tudo no sítio outra vez. Não faz mal, é assim mesmo.
Beba-se vinho.

4.01.2014

conversa 2084

Ela - A ditadura da beleza é lixada para as mulheres.
Eu - Só para as mulheres?
Ela - Sim. Um homem pode ser feio, uma mulher não.
Eu - Não percebi.
Ela - Uma mulher feia tem uma vida difícil só por ser feia. Um homem pode ser feio à vontade...
Eu - Continuo a não perceber.
Ela - Estou a tentar explicar-te que as mulheres se sentem quase obrigadas a serem bonitas, enquanto os homens não. Por causa das revistas, da televisão...
Eu - A sério que não percebo mesmo.
Ela - Queres que eu te explique melhor?
Eu - Se conseguires...
Ela - Tu és feio e sempre andaste com mulheres bonitas.

3.31.2014

conversa 2083

(ao telefone)

Ela - Anda cá a casa beber um copo, que eu estou farta de beber sozinha.
Eu - Estás farta de beber sozinha?!
Ela - Sim.
Eu - Então pára.
Ela - Não consigo. A única forma é vires cá a casa.
Eu - Para parares de beber?
Ela - Não, para beber acompanhada.

3.26.2014

pensamentos catatónicos (303)

Um abraço

Há duas palavras que eu detesto: "empreendedorismo"  e "sucesso", porque actualmente as duas estão tão próximas uma da outra quanto distantes. Por isso, mas também porque detesto fingimentos e lonjuras. Ser empreendedor ou ser um self made man é ser a antítese do Amor. A merda deste país acabou nestas duas palavras. Fala-se do sucesso dum amigo porque ele tem emprego ou abriu uma lojeca qualquer numa esquina da cidade, nunca porque ele está apaixonado apesar dos seus quarenta anos. Não me fodam, a felicidade não passa por aí.
O Amor também não é felicidade, é verdade. O Amor é estar vivo, é estar sempre nos píncaros da felicidade ou da tristeza profunda. Nada mais. Mas é isso que é estar aqui, tão vivinho quanto a sardinha que salta no cais depois de apanhada. Este país cansa-me porque já nem sequer sabe estar triste. Não sabe sofrer. Só sabe falar em palavras vãs como empreendedorismo e sucesso. Fala-se nisso, depois morre-se.
Tenho uma má notícia para todos os que  consideram que o seu sucesso passa por ter um pequeno negócio ou por uma pequena empresa que lhes permite sobreviver: isso não vale uma merda. O que vale é, tendo uma loja, sorrir para os clientes, apaixonarmo-nos todos os dias, dar a mão a um Amor todas as manhãs. O resto é folclore. Até eu estou a abrir um negócio. Não para viver, mas sim para sobreviver.
Este país cansa-me porque já nem sequer é um país. É um pequeno grupo de gente que busca uma conta bancária confortável, apesar de nunca o conseguir, e acha que isso é normal. É um país que não fala de Amor, é uma coisa sem vida que nem triste consegue ser. Eu não quero ser parte disto, até porque ainda me apaixono todos os dias. 
Agradeço à mulher que hoje, no Parque Infante Dom Pedro, me pediu um abraço. Um abraço nunca se pede, porque quando se dá também se recebe. É isso, um abraço troca-se. É por isso que é tão bom abraçar. Só por isso. Tenho pena de quem ainda não chegou lá. Ela chegou lá hoje. Eu também.

3.24.2014

conversa 2082

Ela - Não te devias vestir assim.
Eu - Assim como?
Ela - Tão mal.
Eu - Achas que me visto mal?
Ela - Acho. É como se pegasses na primeira roupa que te aparece à frente e a vestisses...
Eu - É mais ou menos isso, sim.
Ela - Vês?! Dá-te um ar de abandono. As mulheres não gostam de homens abandonados.
Eu - Na verdade, neste momento é-me igual ao litro o que as mulheres gostam ou deixam de gostar.
Ela - Ainda por cima antipático.
Eu - Uma mulher que ligue muito a isso torna-se desinteressante, percebes?
Ela - Eu ligo.
Eu - Eu sei.
Ela - Sou desinteressante?
Eu - Sim.
Ela - É melhor ir-me embora, então.
Eu - Não te esqueças de pagar o café.
Ela - Só pago o meu.
Eu - Claro.

conversa 2081

Ela - É incrível como é que há homens adultos que ainda acham que, para uma mulher, o tamanho é importante...
Eu - O tamanho de quê?
Ela - De que é que há-de ser?!
Eu - Ah! E é importante ou não?
Ela - Claro que não.
Eu - Okay...
Ela - Desde que não seja demasiado pequeno, nem demasiado grande.

3.21.2014

conversa 2080

(com uma estranha, hoje, numa rua em Aveiro)

Ela - Sabe-me dizer onde é que fica a Segurança Social?
Eu - Sei, é este edifício aqui com cerca de vinte andares.
Ela - Caramba! Já passei aqui tantas vezes e ainda não o tinha visto.

3.20.2014

conversa 2079

(numa esplanada)

Eu - Estás com ar pensativo...
Ela - Sim, estava aqui a olhar para as pessoas...
Eu - E?
Ela - E não percebo porque é que os homens engordam à frente e as mulheres engordam atrás...

3.18.2014

conversa 2078

Ela - Para mulheres como eu, não é fácil manter uma relação próxima com um homem.
Eu - O que é que tem ser uma mulher como tu?
Ela - Gosto de dormir na diagonal da cama e de ocupar o colchão todo. Durmo mal se sinto alguém a mexer ao meu lado...
Eu - Podes sempre ter duas camas. Uma para ti, outra para ele.
Ela - O meu ex-marido dormia no chão.
Eu - E ele aceitava isso? Se tu é que estavas mal, ias tu para o chão.
Ela - Eu gosto de dormir na diagonal da cama, não na diagonal do chão.

3.17.2014

Não chegámos a ir à Islândia!

Acabei de pegar num livro que li há alguns anos. Já não me lembro de nada do que está escrito nas suas páginas. Nem da história, nem sequer do estilo. Lembro-me apenas que gostei muito de o ler. Na verdade, é exactamente essa a memória que tenho de nós os dois. Já não faço a mínima ideia de como foram os nossos dias juntos. Sei apenas que gostei deles.
O livro chama-se Gente Independente e é de um escritor islandês. Sei isso porque uma das poucas coisas de que me lembro é que tu o conhecias. Eu não, apesar de ser eu quem o andava a ler.

- Estás a gostar? - perguntaste.
- Sim.
- Porque é que andas a ler um autor islandês?
- Porque me ofereceram este livro. Só isso.

Deste-me um abraço e afogaste a tua vontade de rir no meu peito, como se te quisesses aninhar na minha camisola de lã grossa. Achavas que era estúpido andar a ler um livro sem me informar sobre o autor. Depois respiraste fundo.

- Um dia vamos os dois à Islândia! - decidiste.
- Está bem.

Encontrei-te muitos anos depois, numa altura em que já não te aninhavas em mim. Demos dois beijos na face e perguntámos um ao outro como estávamos. Bem, respondemos abanando os ombros. De um Amor de Verão pode não sobrar quase nada, a não ser a memória de que foi bom.

- Quando duas pessoas marcam uma viagem para data incerta, para um futuro qualquer, é uma forma de prometerem que querem ficar juntas até lá...
- Não chegámos a ir à Islândia! - respondi.

Sorriste.

conversa 2077


Ela - Ando com a libido tão em baixo e o meu marido não me dá tréguas...
Eu - É normal isso, principalmente nas mulheres.
Ela - É que os problemas da vida afectam-me muito. São as contas por pagar, é o emprego de merda que eu tenho, é a nossa casa que precisa de obras urgentes...
Eu - E isso não o afecta a ele também?
Ela - Afecta, mas ao contrário. Ele diz que quanto pior está a vida, mais importante é o sexo...

3.15.2014

pensamentos catatónicos (302)

a verdade é que ele é uma besta!

As mulheres falam demais. Lembro-me de ler um estudo científico qualquer que demonstrava esta evidência. Já não me lembro bem, mas era qualquer coisa como uma diferença média de cinco mil palavras por dia. As mulheres chegam em média às oito mil, enquanto os homens se ficam pelas três mil. Era qualquer coisa parecida com isto a que, em abono da verdade, não dei muita importância.

Lembrei-me disso hoje porque passei a noite na casa duma amiga. Entre alguns copos de uísque e uns aperitivos saborosos, a nossa conversa não deve ter ficado muito longe desta relação entre géneros. Não fui eu que cheguei a esta conclusão, foi ela. Antes de se despedir de mim disse-me, com um misto de sorriso e vergonha, que as mulheres falam demais.
Não é bem verdade. Ela falou bastante mais do que eu, mas não falou demais. De qualquer maneira, no caminho que fiz para regressar a casa, a pé e de cerca de três quilómetros, pareceu-me que os homens é que falam de menos. Um grupo de adolescentes a destruir caixotes de lixo ao pontapé, uma mulher que me pediu "boleia" porque estava ser seguida por um homem e uma cena de pancadaria entre dois gajos bêbados. Se a estatística interessa, eram todos homens, os autores das cenas miseráveis desta noite.
Falar de menos dá nisto. A violência e a agressão são sempre o défice de outra coisa qualquer. Da inteligência, da percepção e talvez da capacidade que se tem de comunicar. É por aí que muitos homens falam de menos. Se for possível ter vergonha de género, hoje tive.
Pelo caminho, e depois de deixar a mulher que me fez companhia à porta dum hotel da cidade, lembrei-me só do que gostava de dizer à minha filha: "Se um dia qualquer um gajo te agredir ou levantar a mão por impulso num gesto ameaçador, a coisa não tem solução mesmo que ele se desculpe e prometa mudar. A verdade é que ele é uma besta!".

3.14.2014

conversa 2076

(ao telefone)

Eu - Olá. Por acaso não estás com o teu marido? Não atende o telefone e preciso urgentemente de falar com ele...
Ela - Ah! De facto o telemóvel dele tocou. Ele saiu a correr e deixou-o cá em casa, mas daqui a uns minutos já deve estar aí outra vez.
Eu - Mas está tudo bem?
Ela - Está. Foi só à casa de banho.
Eu - Saiu de casa a correr para ir à casa de banho?!
Ela - Sim, nós só temos uma e eu estou a estudar. Foi ali ao café da frente...
Eu - Estás a estudar na casa de banho?!
Ela - Sim, porquê?!
Eu - Por nada. Pronto... eu já ligo de novo.

3.13.2014

conversa 2075

Ela - Meti uma série de revistas velhas do meu marido no lixo, mas agora estou a pensar por que motivo as teria ele tão bem arrumadinhas numa gaveta...
Eu - Ui!
Ela - Achas grave?
Eu - Acho gravíssimo. Ele já sabe?
Ela - Não, não sabe. Vou-lhe contar logo quando estivermos os dois a lavar os dentes.
Eu - A lavar os dentes?! Porquê a lavar os dentes?
Ela - Porque os homens não conseguem falar enquanto lavam os dentes. Assim falo só eu e vou-lhe explicando que estou pronta para o sexo antes de adormecer, a ver se ele se acalma...

3.12.2014

coisas que fascinam (166)

Um destes dias um amigo perguntou-me porque é que eu, se estou apaixonado, continuo a viver sozinho. A minha resposta foi imediata. É por isso mesmo, porque estou apaixonado.
Aprendi com a vida (a minha, não a dos outros) que a eternidade do Amor é uma mentira. É por isso que, quando me acontece Amar alguém a sério, tento que esse Amor se prolongue por toda a minha finitude. É que o Amor é finito, tal como cada um de nós. O meu objectivo é que o meu Amor e eu próprio possamos morrer no mesmo instante. Não é um jogo, é por ser mais feliz assim.
Se não tivermos cuidado, o Amor vai-se mais depressa do que um gelado numa tarde de Verão, daqueles que sabem muito bem mas se derretem na própria mão.
É que o mais difícil no Amor é precisamente que Amar não chega para nada. Amar, só Amar, é igual a zero. Talvez até menos que zero.
Quando dizemos ou pensamos que Amamos alguém, estamos apenas a dizer ou pensar que queremos ser Amados por esse alguém. É por isso que o Amor não é uma dádiva nem uma partilha. É um pedido, é uma exigência, é um amuo perante os dias que passam.
Eu cá, quando sou Amado, ou pelo menos sinto que sim, pego no meu gelado e vou saboreá-lo para a sombra tão devagar quanto possível. É só isso.

3.11.2014

conversa 2074

Ele - Estou mesmo feliz. Se quiseres sair esta semana, encontro-me divorciado.
Eu - Divorciaste-te?!
Ele - Não, mas esta semana a minha mulher está em Madrid numa conferência qualquer, por isso é como se estivesse. Posso sair até à hora que me apetecer, meter-me com mulheres e jantar fora. Posso fazer tudo o que me apetecer!
Eu - Desculpa lá, mas dito assim parece mesmo que o teu casamento é uma coisa sofredora.
Ele - Não são todos?
Eu - Se calhar são, passado algum tempo.
Ele - Então mudemos de assunto e deixa-me aproveitar esta semana.
Eu - Okay, desculpa.
Ele - Mas agora que penso nisso...
Eu - Que pensas nisso, o quê?
Ele - Será que a minha mulher também está farta do casamento e inventou esta ida a Madrid só para ficar sozinha?
Eu - Pois... não sei.
Ele - Já não estou assim tão feliz.

3.10.2014

conversa 2073

Ela - Detesto que um homem me pergunte se eu gosto dele antes de me convidar para jantar.
Eu - Porquê?
Ela - Prefiro que ele assuma que eu gosto e pronto, convide.
Eu - E se tu não gostares?
Ela - Vou na mesma. Pelo menos janto.

3.07.2014

conversa 2072

Ela - Não percebo como é que um homem pode estar disponível para sexo logo a seguir a uma valente discussão.
Eu - Eu até acho que é quando o sexo é melhor.
Ela - Achas?
Eu - Às vezes é. Ter sexo a seguir a uma discussão pode ser bom porque também é reconciliador.
Ela - Nunca tinha pensado nisso assim. Logo, quando chegar a casa, a primeira coisa que faço é discutir com o meu marido, a ver se tens razão.

3.06.2014

conversa 2071

(no Carnaval)

Eu - Fica-te bem, a tua fantasia.
Ela - E tu?! Não te disfarçaste de nada?
Eu - Sim, de gajo simpático. Igual ao costume, mas simpático. Percebes?
Ela - Percebo. Por acaso, agora que penso nisso, estás irreconhecível.

3.05.2014

13 erros que as mulheres devem evitar num encontro com um homem

Descobri esta maravilha na internet. Um artigo duma revista americana, de 1938, que explica tintim por tintim quais são os erros que uma mulher nunca deve cometer quando tem um encontro com um homem. Como concordo com todos eles, decidi traduzir e publicar, a ver se as mulheres que por aqui passam aprendem alguma coisa.
A única excepção que abro é para o ponto oito (8). É verdade que os homens não gostam de carícias em público, mas se a carícia for espetar um dedo dentro do ouvido a coisa muda totalmente, até porque se ela tiver a unha comprida sempre dá para tirar alguma cera.
Enfim, tentem levar isto a sério que é importante. Um homem quando se irrita fica como aquele senhor na última imagem, de braços levantados e ar ameaçador. Evitem cenas destas seguindo estes conselhos:

1. Não seja sentimental nem tente fazê-lo dizer algo que ele não quer, explorando as suas emoções. Os homens não gostam de lágrimas, especialmente em lugares públicos.

2. Não use o espelho do carro para retocar a maquilhagem. Os homens precisam dele para conduzir e é muito irritante ter que se curvar para ver o que está atrás.

3. Não se sente em posições desconfortáveis e nunca dê ar de aborrecida, mesmo que esteja. Esteja atenta e se estiver a mascar chiclete (não é aconselhável), seja silenciosa e mantenha a boca fechada

4. Vista-se no seu quarto privado para manter o seu encanto. Esteja pronta a horas dos encontros e não o faça esperar. Cumprimente-o com um sorriso.

5. Os homens não gostam de mulheres que lhes pedem o lenço emprestado e o sujam com manchas de batom. Maquilhe-se em privacidade, não onde ele a possa ver.

6. As mulheres descuidadas nunca atraem cavalheiros. Nunca fale enquanto dança, pois quando um homem dança é porque quer dançar.

7. Se precisa de um sutiã, use um. Não force a sua cintura e tenha cuidado para que as suas formas não estejam engelhadas.

8. Não ganhe demasiada confiança de forma a acariciá-lo em público. Qualquer demonstração aberta de afecto é de mau gosto e normalmente humilhante para ele.

9. Não ganhe confiança com o empregado de mesa, conversando sobre como se divertiu com alguém noutra altura. O homem merece a sua total atenção.

10. Não fale de roupa nem descreva o seu vestido novo a nenhum homem. Promova e lisonjeie o seu encontro falando de coisas que ele quer falar.

11. Não beba demais, já que um homem espera que mantenha a sua dignidade toda a noite. Algumas mulheres podem parecer inteligente quando bebem, mas a maior parte fica maluca.

12. Não seja evidente quando fala com outros homens.

13. A gota de água é desmaiar com tanto licor. Provavelmente, ele nunca mais vai querer nada consigo.

3.04.2014

conversa 2070

Ela - O meu ex não sabia beijar. Foi o motivo principal para ter posto fim à nossa relação.
Eu - Um bocado radical, não?
Ela - Achas radical?
Eu - Acho... se falasses com ele talvez ele mudasse a forma de beijar.
Ela - Está mas é calado. Radical é ficar com a sensação que se fez uma endoscopia cada vez que um gajo nos enfia a língua pela boca dentro.

3.03.2014

respostas a perguntas inexistentes (270)

Um local assombrado é sempre uma história de Amor

Só agora, com mais de quarenta anos, é que percebi plenamente uma frase da minha professora de Educação Física do sétimo ano do liceu. Quase trinta anos depois, portanto. Não sei o que é feito dessa professora, porque nunca a mais a vi. Nem sequer faço a mínima ideia se ela está viva, nem me lembro do nome dela. Aquela frase, no entanto, e por qualquer motivo, agarrou-se às paredes da minha memória e nunca mais a esqueci.

- O exercício físico é a melhor forma de esquecermos os nossos problemas de Amor.

Eu tinha uns treze anos quando ela me disse isto, pelo que os meus problemas de Amor se resumiam às minhas crises e inseguranças do princípio da adolescência. Embora fortes, não eram verdadeiros problemas de Amor. Mesmo assim, aquela frase pareceu-me importante e nunca mais a esqueci. Esta semana, numa das poucas tréguas que a chuva deu à cidade de Aveiro, pus-me a caminhar sem direcção, apenas pelo vício de caminhar. Creio que com a mesma sensação que um urso deve ter quando sai da toca depois de um longo período de hibernação, porque de facto as condições meteorológicas não me têm dado muita vontade de sair de casa.
Encontrei a Catarina, com um passo apressado, ali perto de um centro comercial no centro de Esgueira. Já não a via há algum tempo e a primeira coisa que me veio à memória assim que a vi foi a de um abraço que ela me deu há uns atrás do qual, talvez por me ter sabido a uma sinceridade extrema, também nunca mais me esqueci. Convidei-a para tomar café, mas ela limitou-se a cumprimentar-me, dizer-me que precisava de andar e despedir-se de mim novamente.
Devo dizer que tenho um fetiche por centros comerciais construídos nos anos oitenta, daqueles que eram apenas uma série de corredores com lojas que mais pareciam aquários. Tenho esse fetiche porque, nos dias que correm, esses locais mais parecem locais assombrados de tão abandonados que estão. É por isso que de vez em quando visito um ou outro, que foi o que fiz nesse dia. Primeiro passei pelo Carramona, em Esgueira, que mesmo assim ainda tem bastantes sinais de vida, depois pelo Riaplano, perto duma das mais importantes avenidas da cidade e que faz mais justiça à descrição de local assombrado.
Foi nesse local assombrado que reencontrei a Catarina, umas duas horas depois, com o mesmo ar tenso que lhe vira antes. Sorri-lhe, mas não lhe disse nada, pois a forma como ela se despedira de mim antes indicava que ela não estava com muita paciência para ter conversas de circunstância comigo. Só que desta vez foi ela quem parou.

- Também estás desiludido com alguém?

 A pergunta apanhou-me de surpresa e até me deixou um pouco baralhado, mas não me ri porque o ar dela era grave e sério.

- Para além de alguns milhares de portugueses que consideram que o país está no bom caminho, não estou desiludido com ninguém... - arrisquei.
- É que eu só me ponho a andar assim pela cidade quando estou desiludida. - respondeu.
- E estás desiludida agora?
- Sim, e acho que o exercício físico é a melhor forma de esquecer um problema de Amor.

Assim que ela me disse isto lembrei-me da minha professora de Educação Física. Talvez ela, naquela altura, tivesse feito exactamente o mesmo que a Catarina estava a fazer naquele preciso momento, andar pela cidade sem qualquer tipo de objectivo a não ser mergulhar num mundo maior do que os seus pensamentos mais íntimos e preciosos. Pelo menos, acho que é assim que, caminhando ou fazendo exercício, conseguimos esquecer um problema de Amor.
Ainda assim, a Catarina, aceitou tomar o tal café comigo. Expliquei-lhe porque é que gosto de visitar centros comerciais decrépitos e abandonados. À semelhança do que ela sentia, talvez seja porque em todos eles identifico sinais de agitação, de felicidade e alegria adormecidos em cada canto.
Talvez dentro de todos nós, depois de passada uma determina idade, exista um local assombrado destes, uma memória de felicidade que entretanto nos deu um abraço sincero e nos disse adeus. Um local desses é sempre uma história de Amor.

2.27.2014

conversa 2069

(no café)

Eu - Então, que cara é essa?
Ela - Estou muito pensativa.
Eu - Mas está tudo bem?
Ela - Mais ou menos. Hoje é quinta-feira e já comi duas natas esta semana, que é o limite a que me propus a mim mesma.
Eu - E então?
Ela - Estava aqui a pensar se devia, ou não, desobedecer às minhas próprias regras.
Eu - Ah!
Ela - O problema é que, faça eu o que fizer, é sempre triste.
Eu - A sério?!
Ela - Se eu comer uma nata, é triste porque engordo. Por outro lado, se eu não comer, é triste porque fico ougada.
Eu (risos) - Parece um problema existencial.
Ela - Felizes são os homens, que só se preocupam em ter os seus automóveis a brilhar.
Eu - Eu nem isso.
Ela - Tu és o cúmulo da felicidade, então.

2.26.2014

conversa 2068

Ela - Se fosse possível ter o meu marido uma ou duas horas por dia, era o ideal.
Eu - Uma ou duas horas por dia?!
Ela - Sim, em vez do dia todo.
Eu - Ah!
Ela - Se eu soubesse o que sei hoje, nunca tinha casado. Ficava namorada dele a vida toda, mas cada um na sua casa.
Eu - Compreendo perfeitamente.
Ela - Compreendes?
Eu - Sim. Duas pessoas, quando vivem juntas a vida inteira acabam por se cansar, por muito que gostem uma da outra.
Ela - Pois é... e quando não gostam muito, como é o meu caso, ainda é pior.
Eu - Então... não gostas muito dele e querias ficar namorada dele mesmo que cada um vivesse na sua casa?!
Ela - Queria. Não gosto muito dele, mas sei que ele é requisitado por muito gajedo e não o quero dar a ninguém...

2.25.2014

conversa 2067

Ela - Há homens que pensam que o teste mais importante que passam com uma mulher é quando se deitam com ela.
Eu - E não é?
Ela- Claro que não. É quando acordam no dia seguinte, se é que chegam lá...
Eu - Quando acordam?!
Ela - Sim... uma coisa é conhecer um gajo à noite, gostar dele nem que seja só um bocadinho e levá-lo para cama. Outra coisa, totalmente diferente, é gostar dele quando ele está com aquele ar ensonado, cabelo espetado e, se for preciso, com gases matinais.

2.24.2014

coisas que fascinam (165)

É claro que me apaixono constantemente por mulheres que não conheço de lado nenhum. Por uma cantora, uma locutora de rádio, uma jornalista ou uma mulher que está sentada no mesmo bar que eu. As mulheres que eu não conheço de lado têm essa característica deliciosa que é precisamente eu não as conhecer de lado nenhum. Podem ser tudo aquilo que eu quiser imaginar, para além do pouco que eu já sei que são.
Se não acontece com todos, ter um grande Amor pelo desconhecido, então devia acontecer. O desconhecido tem uma enorme paciência para aturar os nossos maiores defeitos e todas as nossas exigências. É um Amor incondicional.
As mulheres que nunca conheci fazem parte dos grandes Amores da minha vida e, como sou um homem que gosta de prolongar o Amor por muito tempo, opto por continuar assim, sem as conhecer de lado nenhum.

2.16.2014

olha o que eu fiz...

Todas as pessoas têm sonhos. Eu tenho-os. Acho que sempre tive e sempre terei. Na verdade, acho que os nossos sonhos são o que melhor nos definem. Claro que estou a falar dos sonhos verdadeiros e não daqueles que temos quando estamos a dormir.
Um dos meus sonhos é trabalhar no que eu mais gosto e, mesmo estando desempregado, é o que eu vou fazendo. Escrevo muito e, dentro das condições que tenho, procuro filmar. Filmo de tudo e faço de tudo, pelo simples prazer de o fazer.
É por isso que hoje vos venho mostrar uma das coisas que tenho feito, da mesma forma que se mostra a uma namorada, quando se chega ao pé dela e se diz: "olha isto que eu fiz". Não é que ela goste obrigatoriamente, mas dela esperamos sempre uma reacção qualquer. Como um sorriso, por exemplo.
O que eu fiz foi um canal sobre a zona onde vivo. Não é verdadeiramente um canal. Na verdade sou eu e a minha pequena câmara. Pode ser seguido no facebook ou visto no website.
Obrigado.

2.14.2014

conversa 2066

Ela - O Amor é o Pai Natal dos adultos...
Eu - O Pai Natal dos adultos?!
Ela - Sim. Todos dizem que existe, mas ele nunca aparece...
Eu - Parece-me que andas triste...
Ela - Ando mas é com raiva de todos os que são felizes!

2.13.2014

conversa 2065

Ela - O meu marido foi namorado daquela que é, actualmente, a minha melhor amiga.
Eu - Não me parece que isso seja um problema.
Ela - E não é... mas às vezes tenho ciúmes dela, admito.
Eu - Ciúmes porquê? Ele agora até é teu namorado. Não é dela.
Ela - Mas ela é que esteve com ele quando ele era novo. Agora eu levo com um velhote de quarenta anos...
Eu - Obrigado por pores isso assim. Eu tenho quarenta e dois...
Ela - Eu gosto dele, percebes? Mas há uma parte dele que eu nunca vou ter e aquela sacana teve.
Eu - Aquela sacana é a tua melhor amiga?
Ela - Sim. Chamo-lhe sacana porque, ainda por cima, conta-me tudo sobre eles os dois sempre que estamos juntas.
Eu - Nunca lhe pediste para não falar disso?! Explica-lhe que o tema te incomoda...
Ela - Estás maluco?! Para ela ficar a saber que eu tenho ciúmes do passado?!

2.12.2014

conversa 2064

Eu - Queres jantar hoje comigo?
Ela - Para quê?
Eu - Para quê, como?! Para conversarmos...
Ela - Para conversarmos sobre quê?
Eu - Sei lá.
Ela - Pode ser.

2.09.2014

conversa 2063

Ela - Este mês deprime-me.
Eu - Porquê?
Ela - Por causa do Dia dos Namorados.
Eu - Ah! Eu não ligo nada ao Dia dos Namorados...
Ela - Eu também não ligava quando tinha namorado. Agora, como não tenho, ligo. Percebes?
Eu - Mais ou menos...
Ela - Quando esse dia chega, lembro-me sempre que estou encalhada há mais de três anos.
Eu - Encalhada?! E não te lembras disso nos outros dias?
Ela - Lembro-me com mais intensidade nesse dia.
Eu - Não me aprece um problema grave, para ser sincero.
Ela - Não te parece, porque não és uma mulher de quarenta anos que todos os dias se vê ao espelho e nota que está a envelhecer à velocidade da luz.
Eu - Não me vejo ao espelho quase nunca...
Ela - Sabias que és irritante?!
Eu - Porquê?
Ela - Porque respondes a tudo como se nada tivesse importância. Ao menos podias fingir que me compreendes.
Eu - Está bem, desculpa. De facto estás a envelhecer muito depressa e deve ser lixado não teres namorado há três anos.
Ela - Estou quase a estrangular-te!

2.05.2014

recomenda-se

Na minha busca incessante por um emprego, abro a minha conta de email e vejo que uma empresa me pede uma carta de recomendação. Não percebo a que propósito é que alguém quer que eu seja recomendado por quem não conhece. É que eu próprio não recomendo a ninguém trabalhar onde eu trabalhei nos últimos doze anos da minha vida. Para além dos salários em atraso serem uma constante, sou autor dum processo judicial cuja sentença, aliás, deve estar quase a sair.
Este é apenas um dos problemas deste mundo, a forma como confiamos ou desconfiamos uns dos outros. Uma empresa não confia num trabalhador que não conhece de lado nenhum, mas confia na carta de recomendação de outra empresa que também não conhece de lado nenhum. Não há nada que prove que uma empresa merece mais confiança do que um trabalhador. Na minha opinião, muito pelo contrário. Pela minha experiência, até sei que algumas empresas passam cartas de recomendação aos trabalhadores dos quais se querem ver livres, precisamente por isso.
Ninguém consegue pôr em causa o que está estabelecido como normal. Por exemplo, a uma empresa alemã que me pediu uma carta de recomendação, obrigatoriamente em alemão, eu fiz o mesmo e pedi uma carta de recomendação dos seus trabalhadores, obrigatoriamente em português. Demoraram quinze dias a responder-me que não tinham que o fazer. Pois bem, eu também não tenho que o fazer, nesse caso.
A este propósito, lembrei-me dum quase Amor que vivi uma vez. Era um Amor recomendado por amigos comuns, tanto de um lado como do outro. Encontrámo-nos num Domingo, num café em Viana. De tanta recomendação, estávamos convencidos que tínhamos sido feitos um para o outro, mesmo sem nos conhecermos de lado nenhum. A coisa durou um quarto de hora.

1.25.2014

Já não há pachorra para os Patetas

Os Patetas adoram
Morangos Com Açúcar
Resposta a um Pateta que escreve no Público

O ainda jovem Pateta é cada vez mais uma figura de relevo em Portugal. Não há semana em que não escreva uma crónica num jornal, palco de um coitado a quem o país deu um futuro, apesar de demonstrar ter uma capacidade de análise igual à de uma das figuras mais emblemáticas da Disney: o Pateta.

O Pateta critica severamente aqueles que se queixam dum país que os obrigou a emigrar por uma questão de sobrevivência e não por opção. Pior, não percebe que se este país é chamado de piolheira por alguns, é precisamente por causa de jornais de seriedade duvidosa que deixam gajos com menos de dois neurónios escreverem o que lhes apetece e ainda lhes paga por isso. Se puxarem por ele, até é capaz de se referir a esses emigrantes como amigos do Gato Xoné.

Felizmente não sou amigo destes Patetas. Acredito mesmo que constituem uma minoria hiperbolizada pelos jornais que defendem o interesse de grandes grupos económicos (o Público é do Tio Belmiro). Se não escrevessem este tipo de asneiras, não tinham lugar no jornal.

E eu nem estou a falar de cronistas que, apesar de estarem ligados ao poder político actual deste país, fazem uma ideia mínima do que está a acontecer. Este Pateta tem uma génese diferente. Apresenta-se aos leitores como alguém que "nasceu no segundo mês dos anos 80 e gosta de gelatina de morango". Uau, mas que grande totó...

As asneiras e a arrogância com que este Pateta escreve é alimentada pelo mito de que a crise económica se deve ao facto dos trabalhadores deste país terem vivido muito tempo acima das suas possibilidades e que, portanto, a solução passa por massacrá-los com impostos, baixos salários, trabalho temporário e desemprego. O Oliveira e Costa, a especulação financeira protegida pelos governos portugueses das últimas décadas, as parcerias público-privadas e os paraísos fiscais não tiveram nada a ver com isto.

É importante que alguém desengane este Pateta e lhe explique que para escrever não basta saber juntar palavras. É preciso pensar e ter, no mínimo, um neurónio em actividade. Já agora, perceber alguma coisa de Economia e de Política também ajuda.

Este Pateta tem, por isso, duas opções, ou continua a escrever no Público (pasquim que eu vou deixar definitivamente de comprar), ou emigra para deixar de ser totó e ver o que custa a vida.

1.08.2014

conversa 2062

(no café)

Ela - Estás a ver aquela gaja ali sozinha, que está a beber um café com natas?
Eu - Sim...
Ela - Achas que é bonita?
Eu - É bonita, sim.
Ela - Ainda bem.
Eu - Ainda bem porquê?
Ela - É a namorada do meu ex-marido. Não queria nada ter sido trocada por uma gaja feia.
Eu (risos) - Não te preocupes. Ela é bem gira.
Ela - Também não exageres. "Bonita" chega.
Eu - Pronto...
Ela - Mas é mais bonita do que eu?
Eu - Hum...
Ela - Pronto, hesitaste. A gaja é mais bonita do que eu.
Eu - Não é isso. As coisas não são assim tão lineares.
Ela - São, são. Deixa-te lá de merdas.
Eu - Tu e ela são diferentes. Não dá para comparar.
Ela - Se fossemos iguais é que não dava para comparar, pá.
Eu - Perguntaste-me se ela era bonita e eu disse que sim, porque é. Entre ti e ela já não sei dizer assim tão facilmente, percebes?
Ela - Percebo que a conversa do meu ex sobre o fim do nosso casamento, de como havia um cansaço natural entre nós e mais não sei o quê era tudo peta. Ele encontrou foi uma gaja melhor.
Eu - Não sei que te diga.
Ela - É melhor não dizeres nada. Quanto mais falas, pior a coisa fica.

1.07.2014

conversa 2061

Ela - O meu namorado já começou a desiludir-me e ainda nem em meio ano vamos. Decidiu passar o fim do ano com os amigos e deixar-me sozinha em casa.
Eu - É normal.
Ela - Achas?
Eu - Acho. Um homem só Ama uma mulher quando ela se transforma num vício. Antes disso não é bem Amor o que se sente. Talvez seja qualquer coisa muito parecida com espanto, como quando uma criança vê um brinquedo novinho em folha numa montra. É bom, mas não é Amor.
Ela - Estás a dizer que eu estou espantada com ele e ele comigo?
Eu - Estou a dizer que o princípio duma relação, na minha opinião, é sempre um espanto.
Ela - Então acho que está na altura de o espantar de vez.

12.25.2013

conversa 2060

(no café) 

Ela - Achas que eu falo demais?
Eu - Não, mas porquê?
Ela - O meu marido está sempre a dizer-me que eu falo demais.
Eu - Que falas demais ou que falas muito? Uma coisa é falar demais, outra é falar muito.
Ela - Ele diz que falo demais...
Eu - Tens que lhe perguntar porquê, então. Falar demais tem a ver com qualquer coisa inconveniente que disseste.
Ela - Pois...

 (cinco minutos depois)

Ela - Achas que falo muito?
Eu - Não, mas porquê?
Ela - Há bocado referiste que, em vez de eu falar demais, podia falar muito.
Eu - Foi só como termo comparativo.
Ela - Ah! Ainda bem. Não importo de falar demais, mas não queria que me dissessem que eu falo muito.
Eu - Bem... eu prefiro uma pessoa que fala muito a uma que fala demais.
Ela - Pois, mas o meu marido é mais importante do que tu e acho que ele não gosta de mulheres que falam muito.
Eu - Porque é que dizes isso?
Ela - Eu, às vezes, falo durante o sexo e ele está sempre a mandar-me calar. Às vezes até com palmadas no rabo.
Eu - Por exemplo, talvez isso seja falar demais.
Ela - Já não percebo nada.
Eu - Deixa lá. Esquece isso por agora.

12.20.2013

conversa 2059

(nas escadas do meu prédio)

Eu - Vamos pelas escadas.
Ela - Porquê?
Eu - Eu vou sempre pelas escadas por uma questão de método. Faço mais exercício e poupo electricidade ao condomínio.
Ela - Eu tenho que ir de elevador por uma questão de método também. O teu elevador tem espelho e eu gosto de me ver ao espelho.

12.19.2013

coisas que fascinam (164)

coisas estranhas nos dias normais

Acontecem coisas estranhas nos dias normais. Nenhuma dessas coisas é igual a outra, mas nunca damos por elas porque acontecem regularmente. É isso que as torna iguais, apesar de diferentes. Uma vez por outra, muito raramente, numa dessas coisas surge um pequeno rasgo de Amor, assim como um passageiro desconhecido que sai do comboio num apeadeiro qualquer à procura de aventura.

Numa estação do metro do Porto, num dia em que o céu se assemelhava a uma cinzenta aguarela infantil, uma mulher dividiu o guarda-chuva dela comigo. Ficou ali a segurá-lo, protegendo-me da água que ia caindo, como se isso fosse a coisa mais natural deste mundo. Mas não era. A normalidade depende da estatística e eu não via mais ninguém a dividir o guarda-chuva com um estranho. Esse dia foi hoje.
Ela não disse nada. Nem sequer uma palavra. Eu só disse uma. Obrigado. Depois vi-a sair em Campanhã e entrar no comboio para Braga, enquanto eu me dirigia para a linha seis onde me esperava o comboio para Aveiro. Provavelmente nunca mais a vejo. De certeza que nunca mais a esqueço.

É no comboio que escrevo estas linhas. Sentei-me à frente dum casal. Ele dormia com a cabeça pousada no ombro dela, enquanto ela olhava pela janela como se analisasse ao pormenor uma pintura qualquer. Os nossos olhares encontraram-se por uma pequena fracção de segundo, como se fossem duas borboletas num voo tonto, para logo a seguir pousarem em pontos distantes.
Ela acabou por sair na estação de Esmoriz. Primeiro afastou-lhe cuidadosamente a cabeça e pousou-a para trás, como se estivesse a mudar de sítio uma frágil peça de louça. Depois levantou-se e saiu em silêncio enquanto ele lhe pediu desculpa, ainda estremunhado. Afinal não eram um casal. Não se conheciam de lado nenhum, mas ele adormecera no ombro dela e ela deixara-se estar ali, tão quieta como uma fêmea leoa que protege uma cria de cordeiro.

Acontecem coisas estranhas nos dias normais. Uma das coisas mais estranhas que me acontece a mim é quase nunca dar por elas. Se desse, se eu fosse capaz de reparar todos os dias nas mulheres que têm a coragem de salvar o dia de um homem, tenho a certeza que os meus dias seriam diferentes. Mais estranhos e mais normais. Certamente melhores.

12.18.2013

ford figo


A Ford pediu imediatamente desculpa por esta publicidade, colocada na net pela agência publicitária JWT Índia, que mostra Sílvio Berlusconi num Ford Figo cheio de mulheres atadas na bagageira. Este anúncio misógino foi, segundo a marca, feito sem a intenção de ser tornado público. A minha pergunta é: "Então estavam só a curtir?"

conversa 2058

Ela - Detesto homens incapazes de ter discussões com mulheres.
Eu - Todos os homens são capazes de ter discussões com as mulheres.
Ela - O meu marido não é.
Eu - Olha que é. Pode é ter chegado à conclusão que não vale a pena discutir contigo. Aliás, pelo que eu conheço de ti, não vale mesmo a pena discutir contigo.
Ela - Não vale a pena discutir comigo?!
Eu  - Não, não vale. Nunca dás o braço a torcer, mesmo que seja óbvio que não tens razão.
Ela - Mesmo que isso seja verdade, prefiro que ele discuta.
Eu - Mas para que é que ele vai discutir contigo, se sabe que não vale a pena?
Ela - Para isso mesmo, para discutir.

12.17.2013

respostas a perguntas inexistentes (269)

Nenhum Amor se confirma por palavras. Estas, o máximo que podem conseguir, é confirmar a falta dele. Quando alguém diz que odeia outra pessoa, normalmente está a falar a sério. Já o mesmo não acontece quando se diz que se Ama.
Não faz mal nenhum. Sobra-nos o corpo. É o corpo que nos prova que alguém está, ou não, apaixonado por nós. Sem a demonstração do corpo não há semântica que salve um Amor. Sem o toque duma mão suada, sem um olhar trémulo ou de um abraço prolongado, a palavra Amor é incapaz de se vender.
Dizem que um casamento entre duas pessoas acaba quando os seus corpos se afastam e o toque dá lugar às palavras, sejam elas de angústia ou de paixão. É verdade. Dizer que se Ama alguém é apenas a cobertura do bolo. O bolo em si é o corpo.

12.16.2013

conversa 2057

Ela - Ando a precisar de um Amor de baixa intensidade.
Eu - De baixa intensidade?!
Ela - Sim, claro. Preciso apaixonar-me por alguém, mas só um bocadinho.
Eu - É das coisas mais estranhas que já ouvi.
Ela - Quando me apaixono muito fico fragilizada. Se me apaixonar só um bocadinho, sou eu que mando na relação.

12.13.2013

Reportório Osório



Os sortudos da zona de Lisboa podem ir amanhã, à meia-noite, à Fábrica do Braço de Prata ver e ouvir Reportório Osório. No fundo, é uma oportunidade para assistir, numa só noite, a uma nova epopeia épica, desta vez sobre a condição do género mais sofredor de todos da espécie humana: o masculino.
Enquanto um homem sofre, uma mulher toca acordeão. Por qualquer motivo de que agora não me apetece falar, é-me fácil estabelecer um paralelismo entre este projecto e minha própria vida que, já agora, não é assim muito diferente de todas as outras.
O Amândio, o Augusto, o Eugénio, o Aurélio, o Orlando, o Gervásio, o Ernesto, o Jeremias, o Serafim, o Rufino e o Felisberto são homens sofredores que precisam desabafar. Passem por lá. Eu, como estou longe, vou andar aqui a beber uns copos de vinho para afogar esta coisa cá dentro de mim, que fico indefinidamente assim...

12.12.2013

conversa 2056

Ela - Estás com uma cara!
Eu - Deitei-me tarde. Estive na conversa com uma amiga minha até às tantas da manhã...
Ela - Acredito mesmo nisso.
Eu - Não acreditas?
Ela - Não. Como se fosse possível estares na conversa com uma amiga até às tantas da manhã. Passa-se sempre mais qualquer coisa.
Eu - Não passa nada.
Ela - Passa, passa.
Eu - Não passa nada.
Ela - Pronto, eu é que não acredito. Qual é a mulher que quer estar na conversa até às tantas da manhã contigo?!
Eu - Uma que seja minha amiga.
Ela - Só se for isso. As amigas, realmente, não costumam servir para mais nada do que falar. 

12.11.2013

sem título, sem nada

Primeiro, aquilo de que um Amante sente falta é da própria falta. Perguntamo-nos se, em vez de Amar, não seria melhor procurar eternamente o Amor como se ele estivesse à nossa espera na próxima esquina, percorrendo assim todas as esquinas da vida até esta se apagar num ligeiro sopro de alívio.
Procurar o Amor, viver nessa expectativa, é uma infelicidade tão próxima da felicidade que chegamos a acreditar que vale a pena. Talvez valha. Sei lá.
O que eu sei é que há um momento em que acreditamos que não. É quando damos a mão a alguém que nos estende a sua e tudo o resto perde a importância. A árvore que nos observa do meio da avenida, o polícia que multa um carro em segunda fila ou o resultado dum jogo de futebol. Tudo se engrandece para se reduzir a nada.
Porque o Amor é o único capaz de viver do nada.

12.10.2013

conversa 2055

(no café, depois do telemóvel dela ter recebido algumas dezenas de mensagens)

Eu - Caramba! Recebes mais mensagens do que o Pai Natal.
Ela - Pois recebo. É por causa do Facebook.
Eu - Do Facebook?!
Ela - Sim. Cada vez que alguém comenta uma coisa minha, eu recebo uma mensagem no telemóvel a avisar.
Eu - Ah! Já sei. Eu desliguei isso tudo. Também o podes fazer...
Ela - Eu sei que posso, mas não faço.
Eu - Não?! Isso, assim, é uma tortura. Recebes uma mensagem de dois em dois minutos...
Ela - Pois é, mas o eu marido fica roído de ciúmes. Pensa que são amigos meus...

12.08.2013

respostas a perguntas inexistentes (268)

Pela janela, cujos cortinados brancos e limpos me escondem, vejo uma mulher lá fora. Vai olhando para o relógio como se o tempo lhe começasse a faltar. Talvez esteja à espera de alguém que nunca mais chega. Tem o cabelo ligeiramente ruivo, provavelmente pintado com um produto qualquer comprado num supermercado.
Tudo o resto é paisagem. Era, aliás, nessa paisagem que eu estava a tentar acreditar. É que por ali, entre a aparente solidão de alguns edifícios decrépitos que povoam a estranha cidade de Gaia, sobram alguns sinais dum Amor clandestino. Alguém escreveu numa parede a palavra "Amor", em letras tortas e desproporcionais como se estivesse a gritar.
A Ana entra na sala e traz-me a melhor bebida do mundo, segundo ela mesma uns minutos antes. Um chá que não é apenas um chá. Pousa as canecas e olha-me de frente, sem piscar os olhos e com um sorriso que me parece esconder uma tristeza qualquer.

- Prova! - diz.

Aceno afirmativamente com a cabeça enquanto uma pequena porção de um sabor forte e quente percorre o meu esófago.

- É bom. Muito bom... - confirmo.

A Ana não me quer falar sobre o que o seu sorriso esconde. Conheço-a o suficiente para perceber isso. Se quisesse, o mais provável era nem sequer ter feito chá nenhum. Tinha começado a falar assim que abriu a porta de casa para eu entrar. É mau sinal. Talvez seja grave.
Desvio o olhar do nosso silêncio e digo-lhe que está uma mulher lá fora, à espera de alguém, com um ar anormalmente ansioso. Aparenta ter a minha idade, mais ou menos. É bonita, com aquela beleza que só uma mulher de quarenta e poucos anos consegue ter, mas vai abraçando-se dentro de um casaco comprido como se se quisesse esconder do vento, que é o único ocupante da rua. Ou isso, ou então sabe que alguém a espreita cobardemente por trás duma cortina branca.

- É maluca! - diz a Ana - está sempre ali à espera de alguém que nunca chega. Todos os dias faz o mesmo.

Não tenho muito bem a certeza se posso considerar uma pessoa maluca por estar permanentemente à espera de outra. Na verdade, tanto quanto me já me apercebi, essa é uma das condições essenciais do Amor. Esperar, às vezes sem sequer saber por quem. Dou outro gole, desta vez maior. O meu esófago queixa-se.

- Estou sozinha outra vez.
- Já percebi que sim.
- Como é que percebeste?
- Não sei explicar. Assim que entrei na tua casa percebi isso mesmo. Como é que te sentes?
- Aliviada.

O alívio pode ser triste? Pode esconder-se atrás dum sorriso enquanto se serve um chá a um amigo? Talvez possa. Pelo menos espero que sim. Olho-a nos olhos, com o mesmo espírito de um cientista que espreita pelo microscópio. Num imenso mar azul não vejo muito mais do que alguém que regressa a essa condição de espera.
Lá fora, do outro lado da janela, a paisagem subtraiu a mulher que espera permanentemente.

12.07.2013

falhanço


Hoje, sábado às 14:45, estarei no World Failurists Congress, a partir do Tecnoparque, na Curia

12.05.2013

respostas a perguntas inexistentes (267)

acidente por cima da toalha de mesa

Lembro-me daquele milésimo de segundo da mesma forma que me lembro de algumas histórias que li em criança. Com a mesma intensidade e, acima de tudo, com a mesma duração. Foi um milésimo de segundo que durou várias horas. Na verdade talvez ainda dure. Por isso é que estou a falar dele, apesar de ter nascido e morrido há alguns anos atrás.
Eu estava a pôr a mesa para jantar e a Marta quis ajudar. Foi à cozinha buscar duas peças de cada. Dois pratos, duas facas, dois garfos e dois copos de vinho. Sorrimos um para o outro por um momento e os nossos dedos tocaram-se, por acidente, durante o reposicionamento dos copos. Nos dela não sei, mas nos meus ficou guardada a textura da sua pele. Fechei-os, como se assim a pudesse guardar para sempre

- Se o jantar estiver muito salgado não é grave. Telefonamos para a Telepizza! - ri-me.

Ela também se riu.
Não havia razão nenhuma para estarmos os dois em minha casa à hora de jantar, a não ser uma daquelas coincidências cosmológicas que a vida nos traz, de vez em quando, como prenda. Tinha-a encontrado no dia anterior a respirar solidão, num bar qualquer da baixa da cidade. Por descontrole absoluto inspirara um pouco de mim. Trocámos algumas piadas sem piada e contámos mentiras um ao outro toda a noite. Depois combinámos jantar no dia seguinte. Só isso.

- Está bom. Poupaste o dinheiro duma chamada... - disse ela ainda antes de tocar na primeira garfada. 

Os lábios dela eram suaves.
Eu ainda estava a pensar no acidente, aquele em que nossos dedos se encontraram por acaso, um pouco acima da toalha de mesa, como se fossem dois aviões no céu em rota de colisão. A lâmpada de sessenta watts, mesmo por cima de nós, acendera-se pelo mesmo motivo. Um toque, neste caso de alguns fios eléctricos. Estabeleci a comparação como forma de me explicar a mim mesmo, ainda que de forma absurda.

- És tão bonita! - apeteceu-me dizer-lhe.

Mas não disse.
E se de repente fizéssemos Amor? Mas não fizemos. 
Talvez, de vez em quando, o melhor seja não fazer aquilo a que o corpo se propõe com tanta vontade. O corpo tem a mania de não ser lúcido e de querer apagar o desejo que o cérebro e o coração precisam. Sem sexo, talvez aquele calor que pulava na ponta dos meus dedos se mantivesse mais tempo ali. Muito tempo. E manteve.

- Uma das coisas que aprendi nesta vida é que o Amor sugere-se como fácil...
- Mas não é, pois não? - Interrompeu ela.

Não.

12.04.2013

conversa 2054

Ela - Acho que estou a passar a fase de maior actividade sexual da minha vida.
Eu - Fixe. Fizeste alguma coisa para isso?
Ela - Fiz. Comecei uma dieta.
Eu - Uma dieta?!?!
Ela - Sim. À noite, como não posso ir ao frigorífico buscar pão com manteiga, fico tão tensa que tenho que fazer alguma coisa com o meu marido.
Eu - Okay, mas não lhe expliques isso assim...
Ela - Já expliquei.
Eu - Já?!
Ela - Já. Ele perguntou-me o que é que se passava...
Eu - E reagiu bem?
Ela - Acho que sim. Disse qualquer coisa do tipo: "que se f**a!".

12.03.2013

conversa 2053

(em minha casa)

Ela - Tens uns vasos no meio da tua casa...
Eu - Estou a experimentar uma coisa que vi na internet. Colocas umas velas a aquecer um vaso pequeno, virado ao contrário, com outro vaso maior por cima. Parece que aquece o ambiente...
Ela - E aquece mesmo?
Eu - Aquece, embora ainda não esteja satisfeito com os resultados obtidos.
Ela - Mas porque é que estás a usar velas perfumadas para esta experiência?
Eu - Só tinha essas velas em casa quando me decidi a fazer isso.
Ela - Mas estas velas são caras, sabias?
Eu - Estou-me nas tintas. Não servem para nada. Tenho-as aí há que tempos. Foi alguém que mas deu num aniversário, num Natal, ou coisa parecida...
Ela - Pois foi, eu sei. Fui eu que tas ofereci...