3.26.2014

pensamentos catatónicos (303)

Um abraço

Há duas palavras que eu detesto: "empreendedorismo"  e "sucesso", porque actualmente as duas estão tão próximas uma da outra quanto distantes. Por isso, mas também porque detesto fingimentos e lonjuras. Ser empreendedor ou ser um self made man é ser a antítese do Amor. A merda deste país acabou nestas duas palavras. Fala-se do sucesso dum amigo porque ele tem emprego ou abriu uma lojeca qualquer numa esquina da cidade, nunca porque ele está apaixonado apesar dos seus quarenta anos. Não me fodam, a felicidade não passa por aí.
O Amor também não é felicidade, é verdade. O Amor é estar vivo, é estar sempre nos píncaros da felicidade ou da tristeza profunda. Nada mais. Mas é isso que é estar aqui, tão vivinho quanto a sardinha que salta no cais depois de apanhada. Este país cansa-me porque já nem sequer sabe estar triste. Não sabe sofrer. Só sabe falar em palavras vãs como empreendedorismo e sucesso. Fala-se nisso, depois morre-se.
Tenho uma má notícia para todos os que  consideram que o seu sucesso passa por ter um pequeno negócio ou por uma pequena empresa que lhes permite sobreviver: isso não vale uma merda. O que vale é, tendo uma loja, sorrir para os clientes, apaixonarmo-nos todos os dias, dar a mão a um Amor todas as manhãs. O resto é folclore. Até eu estou a abrir um negócio. Não para viver, mas sim para sobreviver.
Este país cansa-me porque já nem sequer é um país. É um pequeno grupo de gente que busca uma conta bancária confortável, apesar de nunca o conseguir, e acha que isso é normal. É um país que não fala de Amor, é uma coisa sem vida que nem triste consegue ser. Eu não quero ser parte disto, até porque ainda me apaixono todos os dias. 
Agradeço à mulher que hoje, no Parque Infante Dom Pedro, me pediu um abraço. Um abraço nunca se pede, porque quando se dá também se recebe. É isso, um abraço troca-se. É por isso que é tão bom abraçar. Só por isso. Tenho pena de quem ainda não chegou lá. Ela chegou lá hoje. Eu também.

3.24.2014

conversa 2082

Ela - Não te devias vestir assim.
Eu - Assim como?
Ela - Tão mal.
Eu - Achas que me visto mal?
Ela - Acho. É como se pegasses na primeira roupa que te aparece à frente e a vestisses...
Eu - É mais ou menos isso, sim.
Ela - Vês?! Dá-te um ar de abandono. As mulheres não gostam de homens abandonados.
Eu - Na verdade, neste momento é-me igual ao litro o que as mulheres gostam ou deixam de gostar.
Ela - Ainda por cima antipático.
Eu - Uma mulher que ligue muito a isso torna-se desinteressante, percebes?
Ela - Eu ligo.
Eu - Eu sei.
Ela - Sou desinteressante?
Eu - Sim.
Ela - É melhor ir-me embora, então.
Eu - Não te esqueças de pagar o café.
Ela - Só pago o meu.
Eu - Claro.

conversa 2081

Ela - É incrível como é que há homens adultos que ainda acham que, para uma mulher, o tamanho é importante...
Eu - O tamanho de quê?
Ela - De que é que há-de ser?!
Eu - Ah! E é importante ou não?
Ela - Claro que não.
Eu - Okay...
Ela - Desde que não seja demasiado pequeno, nem demasiado grande.

3.21.2014

conversa 2080

(com uma estranha, hoje, numa rua em Aveiro)

Ela - Sabe-me dizer onde é que fica a Segurança Social?
Eu - Sei, é este edifício aqui com cerca de vinte andares.
Ela - Caramba! Já passei aqui tantas vezes e ainda não o tinha visto.

3.20.2014

conversa 2079

(numa esplanada)

Eu - Estás com ar pensativo...
Ela - Sim, estava aqui a olhar para as pessoas...
Eu - E?
Ela - E não percebo porque é que os homens engordam à frente e as mulheres engordam atrás...

3.18.2014

conversa 2078

Ela - Para mulheres como eu, não é fácil manter uma relação próxima com um homem.
Eu - O que é que tem ser uma mulher como tu?
Ela - Gosto de dormir na diagonal da cama e de ocupar o colchão todo. Durmo mal se sinto alguém a mexer ao meu lado...
Eu - Podes sempre ter duas camas. Uma para ti, outra para ele.
Ela - O meu ex-marido dormia no chão.
Eu - E ele aceitava isso? Se tu é que estavas mal, ias tu para o chão.
Ela - Eu gosto de dormir na diagonal da cama, não na diagonal do chão.

3.17.2014

Não chegámos a ir à Islândia!

Acabei de pegar num livro que li há alguns anos. Já não me lembro de nada do que está escrito nas suas páginas. Nem da história, nem sequer do estilo. Lembro-me apenas que gostei muito de o ler. Na verdade, é exactamente essa a memória que tenho de nós os dois. Já não faço a mínima ideia de como foram os nossos dias juntos. Sei apenas que gostei deles.
O livro chama-se Gente Independente e é de um escritor islandês. Sei isso porque uma das poucas coisas de que me lembro é que tu o conhecias. Eu não, apesar de ser eu quem o andava a ler.

- Estás a gostar? - perguntaste.
- Sim.
- Porque é que andas a ler um autor islandês?
- Porque me ofereceram este livro. Só isso.

Deste-me um abraço e afogaste a tua vontade de rir no meu peito, como se te quisesses aninhar na minha camisola de lã grossa. Achavas que era estúpido andar a ler um livro sem me informar sobre o autor. Depois respiraste fundo.

- Um dia vamos os dois à Islândia! - decidiste.
- Está bem.

Encontrei-te muitos anos depois, numa altura em que já não te aninhavas em mim. Demos dois beijos na face e perguntámos um ao outro como estávamos. Bem, respondemos abanando os ombros. De um Amor de Verão pode não sobrar quase nada, a não ser a memória de que foi bom.

- Quando duas pessoas marcam uma viagem para data incerta, para um futuro qualquer, é uma forma de prometerem que querem ficar juntas até lá...
- Não chegámos a ir à Islândia! - respondi.

Sorriste.

conversa 2077


Ela - Ando com a libido tão em baixo e o meu marido não me dá tréguas...
Eu - É normal isso, principalmente nas mulheres.
Ela - É que os problemas da vida afectam-me muito. São as contas por pagar, é o emprego de merda que eu tenho, é a nossa casa que precisa de obras urgentes...
Eu - E isso não o afecta a ele também?
Ela - Afecta, mas ao contrário. Ele diz que quanto pior está a vida, mais importante é o sexo...

3.15.2014

pensamentos catatónicos (302)

a verdade é que ele é uma besta!

As mulheres falam demais. Lembro-me de ler um estudo científico qualquer que demonstrava esta evidência. Já não me lembro bem, mas era qualquer coisa como uma diferença média de cinco mil palavras por dia. As mulheres chegam em média às oito mil, enquanto os homens se ficam pelas três mil. Era qualquer coisa parecida com isto a que, em abono da verdade, não dei muita importância.

Lembrei-me disso hoje porque passei a noite na casa duma amiga. Entre alguns copos de uísque e uns aperitivos saborosos, a nossa conversa não deve ter ficado muito longe desta relação entre géneros. Não fui eu que cheguei a esta conclusão, foi ela. Antes de se despedir de mim disse-me, com um misto de sorriso e vergonha, que as mulheres falam demais.
Não é bem verdade. Ela falou bastante mais do que eu, mas não falou demais. De qualquer maneira, no caminho que fiz para regressar a casa, a pé e de cerca de três quilómetros, pareceu-me que os homens é que falam de menos. Um grupo de adolescentes a destruir caixotes de lixo ao pontapé, uma mulher que me pediu "boleia" porque estava ser seguida por um homem e uma cena de pancadaria entre dois gajos bêbados. Se a estatística interessa, eram todos homens, os autores das cenas miseráveis desta noite.
Falar de menos dá nisto. A violência e a agressão são sempre o défice de outra coisa qualquer. Da inteligência, da percepção e talvez da capacidade que se tem de comunicar. É por aí que muitos homens falam de menos. Se for possível ter vergonha de género, hoje tive.
Pelo caminho, e depois de deixar a mulher que me fez companhia à porta dum hotel da cidade, lembrei-me só do que gostava de dizer à minha filha: "Se um dia qualquer um gajo te agredir ou levantar a mão por impulso num gesto ameaçador, a coisa não tem solução mesmo que ele se desculpe e prometa mudar. A verdade é que ele é uma besta!".

3.14.2014

conversa 2076

(ao telefone)

Eu - Olá. Por acaso não estás com o teu marido? Não atende o telefone e preciso urgentemente de falar com ele...
Ela - Ah! De facto o telemóvel dele tocou. Ele saiu a correr e deixou-o cá em casa, mas daqui a uns minutos já deve estar aí outra vez.
Eu - Mas está tudo bem?
Ela - Está. Foi só à casa de banho.
Eu - Saiu de casa a correr para ir à casa de banho?!
Ela - Sim, nós só temos uma e eu estou a estudar. Foi ali ao café da frente...
Eu - Estás a estudar na casa de banho?!
Ela - Sim, porquê?!
Eu - Por nada. Pronto... eu já ligo de novo.

3.13.2014

conversa 2075

Ela - Meti uma série de revistas velhas do meu marido no lixo, mas agora estou a pensar por que motivo as teria ele tão bem arrumadinhas numa gaveta...
Eu - Ui!
Ela - Achas grave?
Eu - Acho gravíssimo. Ele já sabe?
Ela - Não, não sabe. Vou-lhe contar logo quando estivermos os dois a lavar os dentes.
Eu - A lavar os dentes?! Porquê a lavar os dentes?
Ela - Porque os homens não conseguem falar enquanto lavam os dentes. Assim falo só eu e vou-lhe explicando que estou pronta para o sexo antes de adormecer, a ver se ele se acalma...

3.12.2014

coisas que fascinam (166)

Um destes dias um amigo perguntou-me porque é que eu, se estou apaixonado, continuo a viver sozinho. A minha resposta foi imediata. É por isso mesmo, porque estou apaixonado.
Aprendi com a vida (a minha, não a dos outros) que a eternidade do Amor é uma mentira. É por isso que, quando me acontece Amar alguém a sério, tento que esse Amor se prolongue por toda a minha finitude. É que o Amor é finito, tal como cada um de nós. O meu objectivo é que o meu Amor e eu próprio possamos morrer no mesmo instante. Não é um jogo, é por ser mais feliz assim.
Se não tivermos cuidado, o Amor vai-se mais depressa do que um gelado numa tarde de Verão, daqueles que sabem muito bem mas se derretem na própria mão.
É que o mais difícil no Amor é precisamente que Amar não chega para nada. Amar, só Amar, é igual a zero. Talvez até menos que zero.
Quando dizemos ou pensamos que Amamos alguém, estamos apenas a dizer ou pensar que queremos ser Amados por esse alguém. É por isso que o Amor não é uma dádiva nem uma partilha. É um pedido, é uma exigência, é um amuo perante os dias que passam.
Eu cá, quando sou Amado, ou pelo menos sinto que sim, pego no meu gelado e vou saboreá-lo para a sombra tão devagar quanto possível. É só isso.

3.11.2014

conversa 2074

Ele - Estou mesmo feliz. Se quiseres sair esta semana, encontro-me divorciado.
Eu - Divorciaste-te?!
Ele - Não, mas esta semana a minha mulher está em Madrid numa conferência qualquer, por isso é como se estivesse. Posso sair até à hora que me apetecer, meter-me com mulheres e jantar fora. Posso fazer tudo o que me apetecer!
Eu - Desculpa lá, mas dito assim parece mesmo que o teu casamento é uma coisa sofredora.
Ele - Não são todos?
Eu - Se calhar são, passado algum tempo.
Ele - Então mudemos de assunto e deixa-me aproveitar esta semana.
Eu - Okay, desculpa.
Ele - Mas agora que penso nisso...
Eu - Que pensas nisso, o quê?
Ele - Será que a minha mulher também está farta do casamento e inventou esta ida a Madrid só para ficar sozinha?
Eu - Pois... não sei.
Ele - Já não estou assim tão feliz.

3.10.2014

conversa 2073

Ela - Detesto que um homem me pergunte se eu gosto dele antes de me convidar para jantar.
Eu - Porquê?
Ela - Prefiro que ele assuma que eu gosto e pronto, convide.
Eu - E se tu não gostares?
Ela - Vou na mesma. Pelo menos janto.

3.07.2014

conversa 2072

Ela - Não percebo como é que um homem pode estar disponível para sexo logo a seguir a uma valente discussão.
Eu - Eu até acho que é quando o sexo é melhor.
Ela - Achas?
Eu - Às vezes é. Ter sexo a seguir a uma discussão pode ser bom porque também é reconciliador.
Ela - Nunca tinha pensado nisso assim. Logo, quando chegar a casa, a primeira coisa que faço é discutir com o meu marido, a ver se tens razão.

3.06.2014

conversa 2071

(no Carnaval)

Eu - Fica-te bem, a tua fantasia.
Ela - E tu?! Não te disfarçaste de nada?
Eu - Sim, de gajo simpático. Igual ao costume, mas simpático. Percebes?
Ela - Percebo. Por acaso, agora que penso nisso, estás irreconhecível.

3.05.2014

13 erros que as mulheres devem evitar num encontro com um homem

Descobri esta maravilha na internet. Um artigo duma revista americana, de 1938, que explica tintim por tintim quais são os erros que uma mulher nunca deve cometer quando tem um encontro com um homem. Como concordo com todos eles, decidi traduzir e publicar, a ver se as mulheres que por aqui passam aprendem alguma coisa.
A única excepção que abro é para o ponto oito (8). É verdade que os homens não gostam de carícias em público, mas se a carícia for espetar um dedo dentro do ouvido a coisa muda totalmente, até porque se ela tiver a unha comprida sempre dá para tirar alguma cera.
Enfim, tentem levar isto a sério que é importante. Um homem quando se irrita fica como aquele senhor na última imagem, de braços levantados e ar ameaçador. Evitem cenas destas seguindo estes conselhos:

1. Não seja sentimental nem tente fazê-lo dizer algo que ele não quer, explorando as suas emoções. Os homens não gostam de lágrimas, especialmente em lugares públicos.

2. Não use o espelho do carro para retocar a maquilhagem. Os homens precisam dele para conduzir e é muito irritante ter que se curvar para ver o que está atrás.

3. Não se sente em posições desconfortáveis e nunca dê ar de aborrecida, mesmo que esteja. Esteja atenta e se estiver a mascar chiclete (não é aconselhável), seja silenciosa e mantenha a boca fechada

4. Vista-se no seu quarto privado para manter o seu encanto. Esteja pronta a horas dos encontros e não o faça esperar. Cumprimente-o com um sorriso.

5. Os homens não gostam de mulheres que lhes pedem o lenço emprestado e o sujam com manchas de batom. Maquilhe-se em privacidade, não onde ele a possa ver.

6. As mulheres descuidadas nunca atraem cavalheiros. Nunca fale enquanto dança, pois quando um homem dança é porque quer dançar.

7. Se precisa de um sutiã, use um. Não force a sua cintura e tenha cuidado para que as suas formas não estejam engelhadas.

8. Não ganhe demasiada confiança de forma a acariciá-lo em público. Qualquer demonstração aberta de afecto é de mau gosto e normalmente humilhante para ele.

9. Não ganhe confiança com o empregado de mesa, conversando sobre como se divertiu com alguém noutra altura. O homem merece a sua total atenção.

10. Não fale de roupa nem descreva o seu vestido novo a nenhum homem. Promova e lisonjeie o seu encontro falando de coisas que ele quer falar.

11. Não beba demais, já que um homem espera que mantenha a sua dignidade toda a noite. Algumas mulheres podem parecer inteligente quando bebem, mas a maior parte fica maluca.

12. Não seja evidente quando fala com outros homens.

13. A gota de água é desmaiar com tanto licor. Provavelmente, ele nunca mais vai querer nada consigo.

3.04.2014

conversa 2070

Ela - O meu ex não sabia beijar. Foi o motivo principal para ter posto fim à nossa relação.
Eu - Um bocado radical, não?
Ela - Achas radical?
Eu - Acho... se falasses com ele talvez ele mudasse a forma de beijar.
Ela - Está mas é calado. Radical é ficar com a sensação que se fez uma endoscopia cada vez que um gajo nos enfia a língua pela boca dentro.

3.03.2014

respostas a perguntas inexistentes (270)

Um local assombrado é sempre uma história de Amor

Só agora, com mais de quarenta anos, é que percebi plenamente uma frase da minha professora de Educação Física do sétimo ano do liceu. Quase trinta anos depois, portanto. Não sei o que é feito dessa professora, porque nunca a mais a vi. Nem sequer faço a mínima ideia se ela está viva, nem me lembro do nome dela. Aquela frase, no entanto, e por qualquer motivo, agarrou-se às paredes da minha memória e nunca mais a esqueci.

- O exercício físico é a melhor forma de esquecermos os nossos problemas de Amor.

Eu tinha uns treze anos quando ela me disse isto, pelo que os meus problemas de Amor se resumiam às minhas crises e inseguranças do princípio da adolescência. Embora fortes, não eram verdadeiros problemas de Amor. Mesmo assim, aquela frase pareceu-me importante e nunca mais a esqueci. Esta semana, numa das poucas tréguas que a chuva deu à cidade de Aveiro, pus-me a caminhar sem direcção, apenas pelo vício de caminhar. Creio que com a mesma sensação que um urso deve ter quando sai da toca depois de um longo período de hibernação, porque de facto as condições meteorológicas não me têm dado muita vontade de sair de casa.
Encontrei a Catarina, com um passo apressado, ali perto de um centro comercial no centro de Esgueira. Já não a via há algum tempo e a primeira coisa que me veio à memória assim que a vi foi a de um abraço que ela me deu há uns atrás do qual, talvez por me ter sabido a uma sinceridade extrema, também nunca mais me esqueci. Convidei-a para tomar café, mas ela limitou-se a cumprimentar-me, dizer-me que precisava de andar e despedir-se de mim novamente.
Devo dizer que tenho um fetiche por centros comerciais construídos nos anos oitenta, daqueles que eram apenas uma série de corredores com lojas que mais pareciam aquários. Tenho esse fetiche porque, nos dias que correm, esses locais mais parecem locais assombrados de tão abandonados que estão. É por isso que de vez em quando visito um ou outro, que foi o que fiz nesse dia. Primeiro passei pelo Carramona, em Esgueira, que mesmo assim ainda tem bastantes sinais de vida, depois pelo Riaplano, perto duma das mais importantes avenidas da cidade e que faz mais justiça à descrição de local assombrado.
Foi nesse local assombrado que reencontrei a Catarina, umas duas horas depois, com o mesmo ar tenso que lhe vira antes. Sorri-lhe, mas não lhe disse nada, pois a forma como ela se despedira de mim antes indicava que ela não estava com muita paciência para ter conversas de circunstância comigo. Só que desta vez foi ela quem parou.

- Também estás desiludido com alguém?

 A pergunta apanhou-me de surpresa e até me deixou um pouco baralhado, mas não me ri porque o ar dela era grave e sério.

- Para além de alguns milhares de portugueses que consideram que o país está no bom caminho, não estou desiludido com ninguém... - arrisquei.
- É que eu só me ponho a andar assim pela cidade quando estou desiludida. - respondeu.
- E estás desiludida agora?
- Sim, e acho que o exercício físico é a melhor forma de esquecer um problema de Amor.

Assim que ela me disse isto lembrei-me da minha professora de Educação Física. Talvez ela, naquela altura, tivesse feito exactamente o mesmo que a Catarina estava a fazer naquele preciso momento, andar pela cidade sem qualquer tipo de objectivo a não ser mergulhar num mundo maior do que os seus pensamentos mais íntimos e preciosos. Pelo menos, acho que é assim que, caminhando ou fazendo exercício, conseguimos esquecer um problema de Amor.
Ainda assim, a Catarina, aceitou tomar o tal café comigo. Expliquei-lhe porque é que gosto de visitar centros comerciais decrépitos e abandonados. À semelhança do que ela sentia, talvez seja porque em todos eles identifico sinais de agitação, de felicidade e alegria adormecidos em cada canto.
Talvez dentro de todos nós, depois de passada uma determina idade, exista um local assombrado destes, uma memória de felicidade que entretanto nos deu um abraço sincero e nos disse adeus. Um local desses é sempre uma história de Amor.

2.27.2014

conversa 2069

(no café)

Eu - Então, que cara é essa?
Ela - Estou muito pensativa.
Eu - Mas está tudo bem?
Ela - Mais ou menos. Hoje é quinta-feira e já comi duas natas esta semana, que é o limite a que me propus a mim mesma.
Eu - E então?
Ela - Estava aqui a pensar se devia, ou não, desobedecer às minhas próprias regras.
Eu - Ah!
Ela - O problema é que, faça eu o que fizer, é sempre triste.
Eu - A sério?!
Ela - Se eu comer uma nata, é triste porque engordo. Por outro lado, se eu não comer, é triste porque fico ougada.
Eu (risos) - Parece um problema existencial.
Ela - Felizes são os homens, que só se preocupam em ter os seus automóveis a brilhar.
Eu - Eu nem isso.
Ela - Tu és o cúmulo da felicidade, então.

2.26.2014

conversa 2068

Ela - Se fosse possível ter o meu marido uma ou duas horas por dia, era o ideal.
Eu - Uma ou duas horas por dia?!
Ela - Sim, em vez do dia todo.
Eu - Ah!
Ela - Se eu soubesse o que sei hoje, nunca tinha casado. Ficava namorada dele a vida toda, mas cada um na sua casa.
Eu - Compreendo perfeitamente.
Ela - Compreendes?
Eu - Sim. Duas pessoas, quando vivem juntas a vida inteira acabam por se cansar, por muito que gostem uma da outra.
Ela - Pois é... e quando não gostam muito, como é o meu caso, ainda é pior.
Eu - Então... não gostas muito dele e querias ficar namorada dele mesmo que cada um vivesse na sua casa?!
Ela - Queria. Não gosto muito dele, mas sei que ele é requisitado por muito gajedo e não o quero dar a ninguém...

2.25.2014

conversa 2067

Ela - Há homens que pensam que o teste mais importante que passam com uma mulher é quando se deitam com ela.
Eu - E não é?
Ela- Claro que não. É quando acordam no dia seguinte, se é que chegam lá...
Eu - Quando acordam?!
Ela - Sim... uma coisa é conhecer um gajo à noite, gostar dele nem que seja só um bocadinho e levá-lo para cama. Outra coisa, totalmente diferente, é gostar dele quando ele está com aquele ar ensonado, cabelo espetado e, se for preciso, com gases matinais.

2.24.2014

coisas que fascinam (165)

É claro que me apaixono constantemente por mulheres que não conheço de lado nenhum. Por uma cantora, uma locutora de rádio, uma jornalista ou uma mulher que está sentada no mesmo bar que eu. As mulheres que eu não conheço de lado têm essa característica deliciosa que é precisamente eu não as conhecer de lado nenhum. Podem ser tudo aquilo que eu quiser imaginar, para além do pouco que eu já sei que são.
Se não acontece com todos, ter um grande Amor pelo desconhecido, então devia acontecer. O desconhecido tem uma enorme paciência para aturar os nossos maiores defeitos e todas as nossas exigências. É um Amor incondicional.
As mulheres que nunca conheci fazem parte dos grandes Amores da minha vida e, como sou um homem que gosta de prolongar o Amor por muito tempo, opto por continuar assim, sem as conhecer de lado nenhum.

2.16.2014

olha o que eu fiz...

Todas as pessoas têm sonhos. Eu tenho-os. Acho que sempre tive e sempre terei. Na verdade, acho que os nossos sonhos são o que melhor nos definem. Claro que estou a falar dos sonhos verdadeiros e não daqueles que temos quando estamos a dormir.
Um dos meus sonhos é trabalhar no que eu mais gosto e, mesmo estando desempregado, é o que eu vou fazendo. Escrevo muito e, dentro das condições que tenho, procuro filmar. Filmo de tudo e faço de tudo, pelo simples prazer de o fazer.
É por isso que hoje vos venho mostrar uma das coisas que tenho feito, da mesma forma que se mostra a uma namorada, quando se chega ao pé dela e se diz: "olha isto que eu fiz". Não é que ela goste obrigatoriamente, mas dela esperamos sempre uma reacção qualquer. Como um sorriso, por exemplo.
O que eu fiz foi um canal sobre a zona onde vivo. Não é verdadeiramente um canal. Na verdade sou eu e a minha pequena câmara. Pode ser seguido no facebook ou visto no website.
Obrigado.

2.14.2014

conversa 2066

Ela - O Amor é o Pai Natal dos adultos...
Eu - O Pai Natal dos adultos?!
Ela - Sim. Todos dizem que existe, mas ele nunca aparece...
Eu - Parece-me que andas triste...
Ela - Ando mas é com raiva de todos os que são felizes!

2.13.2014

conversa 2065

Ela - O meu marido foi namorado daquela que é, actualmente, a minha melhor amiga.
Eu - Não me parece que isso seja um problema.
Ela - E não é... mas às vezes tenho ciúmes dela, admito.
Eu - Ciúmes porquê? Ele agora até é teu namorado. Não é dela.
Ela - Mas ela é que esteve com ele quando ele era novo. Agora eu levo com um velhote de quarenta anos...
Eu - Obrigado por pores isso assim. Eu tenho quarenta e dois...
Ela - Eu gosto dele, percebes? Mas há uma parte dele que eu nunca vou ter e aquela sacana teve.
Eu - Aquela sacana é a tua melhor amiga?
Ela - Sim. Chamo-lhe sacana porque, ainda por cima, conta-me tudo sobre eles os dois sempre que estamos juntas.
Eu - Nunca lhe pediste para não falar disso?! Explica-lhe que o tema te incomoda...
Ela - Estás maluco?! Para ela ficar a saber que eu tenho ciúmes do passado?!

2.12.2014

conversa 2064

Eu - Queres jantar hoje comigo?
Ela - Para quê?
Eu - Para quê, como?! Para conversarmos...
Ela - Para conversarmos sobre quê?
Eu - Sei lá.
Ela - Pode ser.

2.09.2014

conversa 2063

Ela - Este mês deprime-me.
Eu - Porquê?
Ela - Por causa do Dia dos Namorados.
Eu - Ah! Eu não ligo nada ao Dia dos Namorados...
Ela - Eu também não ligava quando tinha namorado. Agora, como não tenho, ligo. Percebes?
Eu - Mais ou menos...
Ela - Quando esse dia chega, lembro-me sempre que estou encalhada há mais de três anos.
Eu - Encalhada?! E não te lembras disso nos outros dias?
Ela - Lembro-me com mais intensidade nesse dia.
Eu - Não me aprece um problema grave, para ser sincero.
Ela - Não te parece, porque não és uma mulher de quarenta anos que todos os dias se vê ao espelho e nota que está a envelhecer à velocidade da luz.
Eu - Não me vejo ao espelho quase nunca...
Ela - Sabias que és irritante?!
Eu - Porquê?
Ela - Porque respondes a tudo como se nada tivesse importância. Ao menos podias fingir que me compreendes.
Eu - Está bem, desculpa. De facto estás a envelhecer muito depressa e deve ser lixado não teres namorado há três anos.
Ela - Estou quase a estrangular-te!

2.05.2014

recomenda-se

Na minha busca incessante por um emprego, abro a minha conta de email e vejo que uma empresa me pede uma carta de recomendação. Não percebo a que propósito é que alguém quer que eu seja recomendado por quem não conhece. É que eu próprio não recomendo a ninguém trabalhar onde eu trabalhei nos últimos doze anos da minha vida. Para além dos salários em atraso serem uma constante, sou autor dum processo judicial cuja sentença, aliás, deve estar quase a sair.
Este é apenas um dos problemas deste mundo, a forma como confiamos ou desconfiamos uns dos outros. Uma empresa não confia num trabalhador que não conhece de lado nenhum, mas confia na carta de recomendação de outra empresa que também não conhece de lado nenhum. Não há nada que prove que uma empresa merece mais confiança do que um trabalhador. Na minha opinião, muito pelo contrário. Pela minha experiência, até sei que algumas empresas passam cartas de recomendação aos trabalhadores dos quais se querem ver livres, precisamente por isso.
Ninguém consegue pôr em causa o que está estabelecido como normal. Por exemplo, a uma empresa alemã que me pediu uma carta de recomendação, obrigatoriamente em alemão, eu fiz o mesmo e pedi uma carta de recomendação dos seus trabalhadores, obrigatoriamente em português. Demoraram quinze dias a responder-me que não tinham que o fazer. Pois bem, eu também não tenho que o fazer, nesse caso.
A este propósito, lembrei-me dum quase Amor que vivi uma vez. Era um Amor recomendado por amigos comuns, tanto de um lado como do outro. Encontrámo-nos num Domingo, num café em Viana. De tanta recomendação, estávamos convencidos que tínhamos sido feitos um para o outro, mesmo sem nos conhecermos de lado nenhum. A coisa durou um quarto de hora.

1.25.2014

Já não há pachorra para os Patetas

Os Patetas adoram
Morangos Com Açúcar
Resposta a um Pateta que escreve no Público

O ainda jovem Pateta é cada vez mais uma figura de relevo em Portugal. Não há semana em que não escreva uma crónica num jornal, palco de um coitado a quem o país deu um futuro, apesar de demonstrar ter uma capacidade de análise igual à de uma das figuras mais emblemáticas da Disney: o Pateta.

O Pateta critica severamente aqueles que se queixam dum país que os obrigou a emigrar por uma questão de sobrevivência e não por opção. Pior, não percebe que se este país é chamado de piolheira por alguns, é precisamente por causa de jornais de seriedade duvidosa que deixam gajos com menos de dois neurónios escreverem o que lhes apetece e ainda lhes paga por isso. Se puxarem por ele, até é capaz de se referir a esses emigrantes como amigos do Gato Xoné.

Felizmente não sou amigo destes Patetas. Acredito mesmo que constituem uma minoria hiperbolizada pelos jornais que defendem o interesse de grandes grupos económicos (o Público é do Tio Belmiro). Se não escrevessem este tipo de asneiras, não tinham lugar no jornal.

E eu nem estou a falar de cronistas que, apesar de estarem ligados ao poder político actual deste país, fazem uma ideia mínima do que está a acontecer. Este Pateta tem uma génese diferente. Apresenta-se aos leitores como alguém que "nasceu no segundo mês dos anos 80 e gosta de gelatina de morango". Uau, mas que grande totó...

As asneiras e a arrogância com que este Pateta escreve é alimentada pelo mito de que a crise económica se deve ao facto dos trabalhadores deste país terem vivido muito tempo acima das suas possibilidades e que, portanto, a solução passa por massacrá-los com impostos, baixos salários, trabalho temporário e desemprego. O Oliveira e Costa, a especulação financeira protegida pelos governos portugueses das últimas décadas, as parcerias público-privadas e os paraísos fiscais não tiveram nada a ver com isto.

É importante que alguém desengane este Pateta e lhe explique que para escrever não basta saber juntar palavras. É preciso pensar e ter, no mínimo, um neurónio em actividade. Já agora, perceber alguma coisa de Economia e de Política também ajuda.

Este Pateta tem, por isso, duas opções, ou continua a escrever no Público (pasquim que eu vou deixar definitivamente de comprar), ou emigra para deixar de ser totó e ver o que custa a vida.

1.08.2014

conversa 2062

(no café)

Ela - Estás a ver aquela gaja ali sozinha, que está a beber um café com natas?
Eu - Sim...
Ela - Achas que é bonita?
Eu - É bonita, sim.
Ela - Ainda bem.
Eu - Ainda bem porquê?
Ela - É a namorada do meu ex-marido. Não queria nada ter sido trocada por uma gaja feia.
Eu (risos) - Não te preocupes. Ela é bem gira.
Ela - Também não exageres. "Bonita" chega.
Eu - Pronto...
Ela - Mas é mais bonita do que eu?
Eu - Hum...
Ela - Pronto, hesitaste. A gaja é mais bonita do que eu.
Eu - Não é isso. As coisas não são assim tão lineares.
Ela - São, são. Deixa-te lá de merdas.
Eu - Tu e ela são diferentes. Não dá para comparar.
Ela - Se fossemos iguais é que não dava para comparar, pá.
Eu - Perguntaste-me se ela era bonita e eu disse que sim, porque é. Entre ti e ela já não sei dizer assim tão facilmente, percebes?
Ela - Percebo que a conversa do meu ex sobre o fim do nosso casamento, de como havia um cansaço natural entre nós e mais não sei o quê era tudo peta. Ele encontrou foi uma gaja melhor.
Eu - Não sei que te diga.
Ela - É melhor não dizeres nada. Quanto mais falas, pior a coisa fica.

1.07.2014

conversa 2061

Ela - O meu namorado já começou a desiludir-me e ainda nem em meio ano vamos. Decidiu passar o fim do ano com os amigos e deixar-me sozinha em casa.
Eu - É normal.
Ela - Achas?
Eu - Acho. Um homem só Ama uma mulher quando ela se transforma num vício. Antes disso não é bem Amor o que se sente. Talvez seja qualquer coisa muito parecida com espanto, como quando uma criança vê um brinquedo novinho em folha numa montra. É bom, mas não é Amor.
Ela - Estás a dizer que eu estou espantada com ele e ele comigo?
Eu - Estou a dizer que o princípio duma relação, na minha opinião, é sempre um espanto.
Ela - Então acho que está na altura de o espantar de vez.

12.25.2013

conversa 2060

(no café) 

Ela - Achas que eu falo demais?
Eu - Não, mas porquê?
Ela - O meu marido está sempre a dizer-me que eu falo demais.
Eu - Que falas demais ou que falas muito? Uma coisa é falar demais, outra é falar muito.
Ela - Ele diz que falo demais...
Eu - Tens que lhe perguntar porquê, então. Falar demais tem a ver com qualquer coisa inconveniente que disseste.
Ela - Pois...

 (cinco minutos depois)

Ela - Achas que falo muito?
Eu - Não, mas porquê?
Ela - Há bocado referiste que, em vez de eu falar demais, podia falar muito.
Eu - Foi só como termo comparativo.
Ela - Ah! Ainda bem. Não importo de falar demais, mas não queria que me dissessem que eu falo muito.
Eu - Bem... eu prefiro uma pessoa que fala muito a uma que fala demais.
Ela - Pois, mas o meu marido é mais importante do que tu e acho que ele não gosta de mulheres que falam muito.
Eu - Porque é que dizes isso?
Ela - Eu, às vezes, falo durante o sexo e ele está sempre a mandar-me calar. Às vezes até com palmadas no rabo.
Eu - Por exemplo, talvez isso seja falar demais.
Ela - Já não percebo nada.
Eu - Deixa lá. Esquece isso por agora.

12.20.2013

conversa 2059

(nas escadas do meu prédio)

Eu - Vamos pelas escadas.
Ela - Porquê?
Eu - Eu vou sempre pelas escadas por uma questão de método. Faço mais exercício e poupo electricidade ao condomínio.
Ela - Eu tenho que ir de elevador por uma questão de método também. O teu elevador tem espelho e eu gosto de me ver ao espelho.

12.19.2013

coisas que fascinam (164)

coisas estranhas nos dias normais

Acontecem coisas estranhas nos dias normais. Nenhuma dessas coisas é igual a outra, mas nunca damos por elas porque acontecem regularmente. É isso que as torna iguais, apesar de diferentes. Uma vez por outra, muito raramente, numa dessas coisas surge um pequeno rasgo de Amor, assim como um passageiro desconhecido que sai do comboio num apeadeiro qualquer à procura de aventura.

Numa estação do metro do Porto, num dia em que o céu se assemelhava a uma cinzenta aguarela infantil, uma mulher dividiu o guarda-chuva dela comigo. Ficou ali a segurá-lo, protegendo-me da água que ia caindo, como se isso fosse a coisa mais natural deste mundo. Mas não era. A normalidade depende da estatística e eu não via mais ninguém a dividir o guarda-chuva com um estranho. Esse dia foi hoje.
Ela não disse nada. Nem sequer uma palavra. Eu só disse uma. Obrigado. Depois vi-a sair em Campanhã e entrar no comboio para Braga, enquanto eu me dirigia para a linha seis onde me esperava o comboio para Aveiro. Provavelmente nunca mais a vejo. De certeza que nunca mais a esqueço.

É no comboio que escrevo estas linhas. Sentei-me à frente dum casal. Ele dormia com a cabeça pousada no ombro dela, enquanto ela olhava pela janela como se analisasse ao pormenor uma pintura qualquer. Os nossos olhares encontraram-se por uma pequena fracção de segundo, como se fossem duas borboletas num voo tonto, para logo a seguir pousarem em pontos distantes.
Ela acabou por sair na estação de Esmoriz. Primeiro afastou-lhe cuidadosamente a cabeça e pousou-a para trás, como se estivesse a mudar de sítio uma frágil peça de louça. Depois levantou-se e saiu em silêncio enquanto ele lhe pediu desculpa, ainda estremunhado. Afinal não eram um casal. Não se conheciam de lado nenhum, mas ele adormecera no ombro dela e ela deixara-se estar ali, tão quieta como uma fêmea leoa que protege uma cria de cordeiro.

Acontecem coisas estranhas nos dias normais. Uma das coisas mais estranhas que me acontece a mim é quase nunca dar por elas. Se desse, se eu fosse capaz de reparar todos os dias nas mulheres que têm a coragem de salvar o dia de um homem, tenho a certeza que os meus dias seriam diferentes. Mais estranhos e mais normais. Certamente melhores.

12.18.2013

ford figo


A Ford pediu imediatamente desculpa por esta publicidade, colocada na net pela agência publicitária JWT Índia, que mostra Sílvio Berlusconi num Ford Figo cheio de mulheres atadas na bagageira. Este anúncio misógino foi, segundo a marca, feito sem a intenção de ser tornado público. A minha pergunta é: "Então estavam só a curtir?"

conversa 2058

Ela - Detesto homens incapazes de ter discussões com mulheres.
Eu - Todos os homens são capazes de ter discussões com as mulheres.
Ela - O meu marido não é.
Eu - Olha que é. Pode é ter chegado à conclusão que não vale a pena discutir contigo. Aliás, pelo que eu conheço de ti, não vale mesmo a pena discutir contigo.
Ela - Não vale a pena discutir comigo?!
Eu  - Não, não vale. Nunca dás o braço a torcer, mesmo que seja óbvio que não tens razão.
Ela - Mesmo que isso seja verdade, prefiro que ele discuta.
Eu - Mas para que é que ele vai discutir contigo, se sabe que não vale a pena?
Ela - Para isso mesmo, para discutir.

12.17.2013

respostas a perguntas inexistentes (269)

Nenhum Amor se confirma por palavras. Estas, o máximo que podem conseguir, é confirmar a falta dele. Quando alguém diz que odeia outra pessoa, normalmente está a falar a sério. Já o mesmo não acontece quando se diz que se Ama.
Não faz mal nenhum. Sobra-nos o corpo. É o corpo que nos prova que alguém está, ou não, apaixonado por nós. Sem a demonstração do corpo não há semântica que salve um Amor. Sem o toque duma mão suada, sem um olhar trémulo ou de um abraço prolongado, a palavra Amor é incapaz de se vender.
Dizem que um casamento entre duas pessoas acaba quando os seus corpos se afastam e o toque dá lugar às palavras, sejam elas de angústia ou de paixão. É verdade. Dizer que se Ama alguém é apenas a cobertura do bolo. O bolo em si é o corpo.

12.16.2013

conversa 2057

Ela - Ando a precisar de um Amor de baixa intensidade.
Eu - De baixa intensidade?!
Ela - Sim, claro. Preciso apaixonar-me por alguém, mas só um bocadinho.
Eu - É das coisas mais estranhas que já ouvi.
Ela - Quando me apaixono muito fico fragilizada. Se me apaixonar só um bocadinho, sou eu que mando na relação.

12.13.2013

Reportório Osório



Os sortudos da zona de Lisboa podem ir amanhã, à meia-noite, à Fábrica do Braço de Prata ver e ouvir Reportório Osório. No fundo, é uma oportunidade para assistir, numa só noite, a uma nova epopeia épica, desta vez sobre a condição do género mais sofredor de todos da espécie humana: o masculino.
Enquanto um homem sofre, uma mulher toca acordeão. Por qualquer motivo de que agora não me apetece falar, é-me fácil estabelecer um paralelismo entre este projecto e minha própria vida que, já agora, não é assim muito diferente de todas as outras.
O Amândio, o Augusto, o Eugénio, o Aurélio, o Orlando, o Gervásio, o Ernesto, o Jeremias, o Serafim, o Rufino e o Felisberto são homens sofredores que precisam desabafar. Passem por lá. Eu, como estou longe, vou andar aqui a beber uns copos de vinho para afogar esta coisa cá dentro de mim, que fico indefinidamente assim...

12.12.2013

conversa 2056

Ela - Estás com uma cara!
Eu - Deitei-me tarde. Estive na conversa com uma amiga minha até às tantas da manhã...
Ela - Acredito mesmo nisso.
Eu - Não acreditas?
Ela - Não. Como se fosse possível estares na conversa com uma amiga até às tantas da manhã. Passa-se sempre mais qualquer coisa.
Eu - Não passa nada.
Ela - Passa, passa.
Eu - Não passa nada.
Ela - Pronto, eu é que não acredito. Qual é a mulher que quer estar na conversa até às tantas da manhã contigo?!
Eu - Uma que seja minha amiga.
Ela - Só se for isso. As amigas, realmente, não costumam servir para mais nada do que falar. 

12.11.2013

sem título, sem nada

Primeiro, aquilo de que um Amante sente falta é da própria falta. Perguntamo-nos se, em vez de Amar, não seria melhor procurar eternamente o Amor como se ele estivesse à nossa espera na próxima esquina, percorrendo assim todas as esquinas da vida até esta se apagar num ligeiro sopro de alívio.
Procurar o Amor, viver nessa expectativa, é uma infelicidade tão próxima da felicidade que chegamos a acreditar que vale a pena. Talvez valha. Sei lá.
O que eu sei é que há um momento em que acreditamos que não. É quando damos a mão a alguém que nos estende a sua e tudo o resto perde a importância. A árvore que nos observa do meio da avenida, o polícia que multa um carro em segunda fila ou o resultado dum jogo de futebol. Tudo se engrandece para se reduzir a nada.
Porque o Amor é o único capaz de viver do nada.

12.10.2013

conversa 2055

(no café, depois do telemóvel dela ter recebido algumas dezenas de mensagens)

Eu - Caramba! Recebes mais mensagens do que o Pai Natal.
Ela - Pois recebo. É por causa do Facebook.
Eu - Do Facebook?!
Ela - Sim. Cada vez que alguém comenta uma coisa minha, eu recebo uma mensagem no telemóvel a avisar.
Eu - Ah! Já sei. Eu desliguei isso tudo. Também o podes fazer...
Ela - Eu sei que posso, mas não faço.
Eu - Não?! Isso, assim, é uma tortura. Recebes uma mensagem de dois em dois minutos...
Ela - Pois é, mas o eu marido fica roído de ciúmes. Pensa que são amigos meus...

12.08.2013

respostas a perguntas inexistentes (268)

Pela janela, cujos cortinados brancos e limpos me escondem, vejo uma mulher lá fora. Vai olhando para o relógio como se o tempo lhe começasse a faltar. Talvez esteja à espera de alguém que nunca mais chega. Tem o cabelo ligeiramente ruivo, provavelmente pintado com um produto qualquer comprado num supermercado.
Tudo o resto é paisagem. Era, aliás, nessa paisagem que eu estava a tentar acreditar. É que por ali, entre a aparente solidão de alguns edifícios decrépitos que povoam a estranha cidade de Gaia, sobram alguns sinais dum Amor clandestino. Alguém escreveu numa parede a palavra "Amor", em letras tortas e desproporcionais como se estivesse a gritar.
A Ana entra na sala e traz-me a melhor bebida do mundo, segundo ela mesma uns minutos antes. Um chá que não é apenas um chá. Pousa as canecas e olha-me de frente, sem piscar os olhos e com um sorriso que me parece esconder uma tristeza qualquer.

- Prova! - diz.

Aceno afirmativamente com a cabeça enquanto uma pequena porção de um sabor forte e quente percorre o meu esófago.

- É bom. Muito bom... - confirmo.

A Ana não me quer falar sobre o que o seu sorriso esconde. Conheço-a o suficiente para perceber isso. Se quisesse, o mais provável era nem sequer ter feito chá nenhum. Tinha começado a falar assim que abriu a porta de casa para eu entrar. É mau sinal. Talvez seja grave.
Desvio o olhar do nosso silêncio e digo-lhe que está uma mulher lá fora, à espera de alguém, com um ar anormalmente ansioso. Aparenta ter a minha idade, mais ou menos. É bonita, com aquela beleza que só uma mulher de quarenta e poucos anos consegue ter, mas vai abraçando-se dentro de um casaco comprido como se se quisesse esconder do vento, que é o único ocupante da rua. Ou isso, ou então sabe que alguém a espreita cobardemente por trás duma cortina branca.

- É maluca! - diz a Ana - está sempre ali à espera de alguém que nunca chega. Todos os dias faz o mesmo.

Não tenho muito bem a certeza se posso considerar uma pessoa maluca por estar permanentemente à espera de outra. Na verdade, tanto quanto me já me apercebi, essa é uma das condições essenciais do Amor. Esperar, às vezes sem sequer saber por quem. Dou outro gole, desta vez maior. O meu esófago queixa-se.

- Estou sozinha outra vez.
- Já percebi que sim.
- Como é que percebeste?
- Não sei explicar. Assim que entrei na tua casa percebi isso mesmo. Como é que te sentes?
- Aliviada.

O alívio pode ser triste? Pode esconder-se atrás dum sorriso enquanto se serve um chá a um amigo? Talvez possa. Pelo menos espero que sim. Olho-a nos olhos, com o mesmo espírito de um cientista que espreita pelo microscópio. Num imenso mar azul não vejo muito mais do que alguém que regressa a essa condição de espera.
Lá fora, do outro lado da janela, a paisagem subtraiu a mulher que espera permanentemente.

12.07.2013

falhanço


Hoje, sábado às 14:45, estarei no World Failurists Congress, a partir do Tecnoparque, na Curia

12.05.2013

respostas a perguntas inexistentes (267)

acidente por cima da toalha de mesa

Lembro-me daquele milésimo de segundo da mesma forma que me lembro de algumas histórias que li em criança. Com a mesma intensidade e, acima de tudo, com a mesma duração. Foi um milésimo de segundo que durou várias horas. Na verdade talvez ainda dure. Por isso é que estou a falar dele, apesar de ter nascido e morrido há alguns anos atrás.
Eu estava a pôr a mesa para jantar e a Marta quis ajudar. Foi à cozinha buscar duas peças de cada. Dois pratos, duas facas, dois garfos e dois copos de vinho. Sorrimos um para o outro por um momento e os nossos dedos tocaram-se, por acidente, durante o reposicionamento dos copos. Nos dela não sei, mas nos meus ficou guardada a textura da sua pele. Fechei-os, como se assim a pudesse guardar para sempre

- Se o jantar estiver muito salgado não é grave. Telefonamos para a Telepizza! - ri-me.

Ela também se riu.
Não havia razão nenhuma para estarmos os dois em minha casa à hora de jantar, a não ser uma daquelas coincidências cosmológicas que a vida nos traz, de vez em quando, como prenda. Tinha-a encontrado no dia anterior a respirar solidão, num bar qualquer da baixa da cidade. Por descontrole absoluto inspirara um pouco de mim. Trocámos algumas piadas sem piada e contámos mentiras um ao outro toda a noite. Depois combinámos jantar no dia seguinte. Só isso.

- Está bom. Poupaste o dinheiro duma chamada... - disse ela ainda antes de tocar na primeira garfada. 

Os lábios dela eram suaves.
Eu ainda estava a pensar no acidente, aquele em que nossos dedos se encontraram por acaso, um pouco acima da toalha de mesa, como se fossem dois aviões no céu em rota de colisão. A lâmpada de sessenta watts, mesmo por cima de nós, acendera-se pelo mesmo motivo. Um toque, neste caso de alguns fios eléctricos. Estabeleci a comparação como forma de me explicar a mim mesmo, ainda que de forma absurda.

- És tão bonita! - apeteceu-me dizer-lhe.

Mas não disse.
E se de repente fizéssemos Amor? Mas não fizemos. 
Talvez, de vez em quando, o melhor seja não fazer aquilo a que o corpo se propõe com tanta vontade. O corpo tem a mania de não ser lúcido e de querer apagar o desejo que o cérebro e o coração precisam. Sem sexo, talvez aquele calor que pulava na ponta dos meus dedos se mantivesse mais tempo ali. Muito tempo. E manteve.

- Uma das coisas que aprendi nesta vida é que o Amor sugere-se como fácil...
- Mas não é, pois não? - Interrompeu ela.

Não.

12.04.2013

conversa 2054

Ela - Acho que estou a passar a fase de maior actividade sexual da minha vida.
Eu - Fixe. Fizeste alguma coisa para isso?
Ela - Fiz. Comecei uma dieta.
Eu - Uma dieta?!?!
Ela - Sim. À noite, como não posso ir ao frigorífico buscar pão com manteiga, fico tão tensa que tenho que fazer alguma coisa com o meu marido.
Eu - Okay, mas não lhe expliques isso assim...
Ela - Já expliquei.
Eu - Já?!
Ela - Já. Ele perguntou-me o que é que se passava...
Eu - E reagiu bem?
Ela - Acho que sim. Disse qualquer coisa do tipo: "que se f**a!".

12.03.2013

conversa 2053

(em minha casa)

Ela - Tens uns vasos no meio da tua casa...
Eu - Estou a experimentar uma coisa que vi na internet. Colocas umas velas a aquecer um vaso pequeno, virado ao contrário, com outro vaso maior por cima. Parece que aquece o ambiente...
Ela - E aquece mesmo?
Eu - Aquece, embora ainda não esteja satisfeito com os resultados obtidos.
Ela - Mas porque é que estás a usar velas perfumadas para esta experiência?
Eu - Só tinha essas velas em casa quando me decidi a fazer isso.
Ela - Mas estas velas são caras, sabias?
Eu - Estou-me nas tintas. Não servem para nada. Tenho-as aí há que tempos. Foi alguém que mas deu num aniversário, num Natal, ou coisa parecida...
Ela - Pois foi, eu sei. Fui eu que tas ofereci...

11.30.2013

Poemarma

O Poemarma é um poema escrito pelo Manuel Alegre que o Rui Oliveira decidiu cantar. Foi para essa canção que fiz um vídeo. Espero que gostem. Bom dia para vocês!

11.29.2013

conversa 2052

Ela 1 - O Mário é mesmo um homem interessante!
Ela 2 - Achas?!
Ela 1 - Acho, por acaso acho. Tu não achas?
Ela 2 - Mais ou menos... como sou amiga dele há muitos anos nunca pensei nele como um amante, para ser sincera.
Ela 1 - Não?! Eu acho que ele é um naco.
Ela 2 - E deve ser sério. Nunca lhe conheci uma namorada...
Ela 1 - Ui! Acabei de perder todo o interesse nele.
Ela 2 - Porquê?
Ela 1 - Não gosto de automóveis em primeira mão. Prefiro-os usados.

11.28.2013

a primeira vez

Há demasiadas mulheres inteligentes que se deixam anular por homens estúpidos. Pode parecer um contra-senso, mas não é. Deve haver alguns homens que, depois de lerem esta primeira fase, chegam à conclusão que não há homens estúpidos, caso contrário não conseguiriam anular mulheres inteligentes. Errado. A estupidez não tem apenas a ver com o nosso pensamento dedutivo, mas também com o nosso comportamento, e quem se apropria da vida de outra pessoa é porque é estúpido. Ponto.
O que eu estou a dizer é que é muito mais importante o que nós fazemos com a nossa inteligência do que a nossa inteligência propriamente dita. Um homem que agride constantemente a mulher é estúpido, um homem que controla todos os movimentos da mulher é estúpido, um homem que manda calar a mulher também é estúpido. Por muito inteligente que se ache, claro.
Já sei que me vão dizer que também se passa o inverso. Obrigado, eu sei. Só que também sei que tenho quarenta e dois anos e nunca li no jornal que dezenas de homens foram assassinados pelas suas suas companheiras em Portugal, enquanto sobre mulheres mortas leio constantemente. Este ano foram trinta e três, num país do tamanho de um berlinde.
A violência doméstica não tem solução, se calhar porque a estupidez parece ser uma característica biológica e não cultural. Pelo menos nalguns casos. Por isso é que a coisa tem que passar pela primeira vez. E isto é um pedido que faço a todas as mulheres: a primeira vez que ele vos levantar a mão, a primeira que ele vos ameaçar, a primeira vez que ele fechar a porta de casa e esconder a chave ou a primeira vez que ele vos ofender, a única solução é dizer-lhe adeus. 
A estupidez funciona muito melhor quando está sozinha.

11.27.2013

conversa 2051

Ele - Já leste aquele estudo, duma universidade americana qualquer, que diz que ter sexo com a ex-namorada ou a ex-mulher faz bem à saúde?
Eu - Já. Por acaso li ontem na internet.
Ele - Eu também o li na internet e mandei-o logo à minha namorada, por email, a ver se a irritava. Ela costuma ter ciúmes da minha ex-mulher...
Eu - E ela Irritou-se?
Ele - Nem por isso. Respondeu-me logo, passado cinco minutos. Pôs-me um bocado a pensar..
Eu - Então?
Ele - Disse-me que o melhor é separarmo-nos já, a ver se o sexo entre nós nos começa a fazer bem.
Eu - Isso anda assim tão mal?
Ele - Pelos vistos...

11.25.2013

conversa 2050

Ela - Posso contar-te um desejo que tenho?
Eu - Podes.
Ela - Ando a precisar de me envolver com um homem mais novo do que eu.
Eu - Quanto mais novo do que tu?
Ela - Sei lá... preciso dum gajo que tenha aí vinte e cinco anos. Trinta no máximo, vá lá.
Eu - Tu tens quarenta e cinco, não é?
Ela - É.
Eu - Curioso...
Ela - O que é que é curioso?
Eu - Já te ouvi dizer várias vezes que os homens com quem te relacionaste quando eras mais nova eram imaturos e estúpidos a todos os níveis. Agora queres envolver-te com um?
Ela - Quero. Agora é que era bom arranjar um homem dessa idade. Já tenho experiência suficiente para o levar para a cama e não ligar nada ao que ele diz.

11.24.2013

sem título

Saí sozinho. Fui ter a um bar nos subúrbios de Aveiro onde estava uma mulher sentada no canto, pelo menos há uns trezentos anos, com um cão de guarda adormecido. Atrás do balcão, um homem que lia jornais desportivos já amarelecidos pelo tempo perguntou-me o que eu queria. Apeteceu-me dizer-lhe que me apetecia que houvesse paz no mundo, que o capitalismo acabasse duma vez por todas como pai do nosso modelo económico e que a Lena D'àgua nunca tivesse envelhecido. Pelo sim pelo não, acabei por pedir apenas uma aguardente CR&F.

- Tem CR&F? - perguntei.
- Tenho, mas também tenho mais baratas.
- Quanto é a CR&F? - assustei-me.
- Três.
- Pode ser.

A mulher com mais de trezentos anos olhava para mim. Eu sabia-o, embora ela não estivesse dentro do meu ângulo de visão. Há olhares que pesam sobre nós, mesmo quando não os enfrentamos. O homem, por qualquer motivo que nunca vou perceber, serviu-me duas CR&F duma vez e cobrou-me só uma. Em silêncio, cheguei à conclusão que ele sabe que quem bebe CR&F nunca bebe só uma. É uma questão estatística e, pela parte que me toca, tem razão.

- O Ronaldo é muito melhor que o Eusébio. - disse o homem.

A mulher com mais de trezentos anos riu-se, embora eu tenha dúvidas que saiba porquê. Pedi mais duas aguardentes com a condição de pagar só uma. Os bares dos subúrbios da cidade são embrulhos de solidão. É por isso que gosto deles. São os únicos capazes de pegar na solidão de várias pessoas e embrulhá-la duma forma bonita, como se fosse uma prenda de Natal.
Lembro-me de ter ido a este mesmo bar há uns oito anos atrás, pouco tempo depois do meu divórcio e quando me sentia o homem mais sozinho do mundo, com excepção de todos os outros, e de ter visto a mesma mulher com mais de trezentos anos e o mesmo homem a ler jornais desportivos.
Tal como as fases da Lua, há coisa que nunca mudam.


11.21.2013

respostas a perguntas inexistentes (266)

do Amor incondicional

Foi hoje que ouvi um amigo dizer que Ama incondicionalmente uma mulher. Disse-o ao meu lado, enquanto dividíamos uma garrafa de vinho e uma chouriça assada cortada em fatias pequeninas. Uns minutos antes, enquanto eu procurava desesperadamente palitos na minha cozinha para poder picar a chouriça, ele já me tinha dito que anda um bocado em baixo.
Andar um bocado em baixo e Amar incondicionalmente alguém são duas expressões que normalmente dão as mãos.O Amor sem condições não é Amor, é uma desistência de nós mesmos. Enfim, talvez também seja, no verdadeiro sentido do termo, uma infantilidade.
Digo-o, porque foi com a idade (talvez até tardiamente) que percebi a coisa. Agora só Amo com condições, sendo que a maior condição de todas é ser Amado também. Sem essa condição, o melhor que pode acontecer ao interesse por uma mulher é ser isso mesmo: um interesse, uma investigação, uma eventualidade.
Amar incondicionalmente já me aconteceu. Apercebi-me do erro quando dei por mim a mergulhar esse Amor em alguns copos de vinho, como estes que bebíamos hoje, mas sem chouriça, sem palitos e sobretudo sem amigo ao meu lado. O Amor incondicional é a mesma coisa que a solidão, porque quem Ama sem condições não se faz desejado por ninguém.
O vinho, tal como o Amor, deve ser sempre partilhado. E um amigo com quem dividir uma garrafa é bem mais importante que um Amor impossível.

11.14.2013

morte à "gaja boa"

Aviso: este texto é só para homens

Há uma relação directa entre a quantidade de vezes em que um homem chucha no dedo sozinho e aquelas em que diz que uma gaja qualquer é boa. Eu, sempre que ouço um tipo qualquer dizer que "aquela gaja é mesmo boa", tiro automaticamente a conclusão de que ele é apenas um pobre solitário, uma espécie de satélite longínquo do planeta em que queria tocar. A má notícia é que elas tiram a mesma conclusão. Com excepção, claro, da Scarlett Johansson, que é mesmo boa. Quando um gajo me diz que a Scarlett é mesmo boa, eu aceno afirmativamente com a cabeça e, lá está, passo a ser eu o satélite.
O problema da "gaja boa" não é apenas semântico. "Boa" podia querer dizer generosa (na maneira de ser e não nas formas) ou justa (na maneira de ser e não não nas formas), mas todos sabem o que é que aquilo quer dizer realmente. Não é que seja mau olhar para uma mulher por causa do seu impacto visual, mas é demasiado mau parecer um cachorro abandonado e a salivar, que é o que parece um gajo qualquer quando diz que "uma gaja é boa".
Por tudo isto declaro morte à expressão "gaja boa" e anuncio a boa nova, ou melhor, a mais ou menos nova. Devemos todos começar a dizer que as gajas são mais ou menos. É preciso ser inteligente e não parecer um cão que não come há duas semanas. Ao dizermos que uma gaja é mais ou menos, mantemo-nos no mesmo patamar dela. Impedimos que ela passe a olhar para nós como seres miseráveis e tristes que só pensam em sexo. Com excepção, lá está, da Scarlett Johansson. A essa podemos dizer que é boa, até porque é mesmo.
Se todos passarmos a dizer que as gajas são mais ou menos, não ofendemos ninguém e damos aos piropos um ar mais elegante e selecto. Com o tempo e com a habituação até podemos, eventualmente, começar a dizer coisas como "tu és mesmo toda mais ou menos" ou "mas que gaja tão mais ou menos". É melhor para todos, acreditem. As mulheres vão passar a olhar para os homens como seres que comem de faca e garfo, não fazem barulho a beber chá e nunca têm gases e, no final de contas, o desabafo pavloviano está lá na mesma.
Boa sorte, ou melhor, uma sorte assim assim.

11.13.2013

conversa 2049

Ela - Raios lá para os homens que não sabem engatar uma mulher!
Eu - Que homem é que não sabe engatar uma mulher?
Ela - Nenhum homem sabe. A verdade é essa.
Eu - É?
Ela - É. A maior parte pensa que com um carro de luxo, um ramo de flores e um jantar à luz das velas consegue o que quer...
Eu - E não consegue?
Ela - Claro que não. Não é isso que uma mulher procura num homem...
Eu - Então é o quê?! Pode vir a dar jeito...
Ela - Competição.
Eu - Competição?! Não atingi...
Ela - Lá está. Também nunca percebeste nada do assunto.
Eu - Então explica-me, por favor.
Ela - Um gajo tem que trazer concorrência com ele, que é para dar pica. Tem que ter outra gaja interessada nele, percebes?
Eu - Mais ou menos...
Ela - Qual é a mulher que se vai meter com um gajo a quem ninguém liga?! Se houver outra mulher no jogo, a coisa torna-se muito mais interessante.

11.12.2013

respostas a perguntas inexistentes (265)

o edifício

Era estudante e estava sentado num muro à espera dum colega meu, na cidade do Porto. À minha frente uma série de prédios, relativamente recentes, pareciam alinhados para admirar a Lua cheia que surgira por trás deles. Nas ruas não havia quase nenhum movimento pedonal, mas sobravam automóveis para dar e vender. 
Enquanto os prédios olhavam para a Lua, eu olhava para eles. As luzes interiores davam sinais de vida a um ritmo lento e, das janelas mais baixas, era possível ouvir alguns sons domésticos. As famílias que ali moravam começavam a jantar e eu, sozinho, continuava à espera que o meu colega chegasse. Dei-me conta de que, instintivamente, imaginara a vida de todas aquelas pessoas duma forma estereotipada. Para mim, todas as famílias que ali moravam eram compostas por um casal heterossexual e um ou dois filhos, com a mulher de avental e o marido a chegar a casa um pouco depois dela, já com a janta na mesa. Todos discutiam temas banais, como a política de panfleto ou um jogo de futebol qualquer. 
O meu colega acabou por não aparecer e eu, sem perceber exactamente como, fiquei ali até os edifícios se confundirem com o céu escuro e cada uma das minhas famílias estereotipadas adormecer. A verdade é que não dei pelo tempo a passar.
Na noite seguinte saí com alguns amigos e fui a um bar perto da Ribeira que eu gostava muito. Era calmo o suficiente para se poder ter uma conversa e movimentado quanto baste para não nos sentirmos isolados do mundo. Quando me virei para o balcão, para pedir a segunda cerveja, uma mulher que estava noutra mesa levantou-se e veio ter comigo. Perguntou-me se tinha sido eu a passar a noite anterior inteira sentado num muro que dava para a janela dela. Que sim, respondi, e expliquei-lhe a história toda.
Também ela me tinha visto da mesma forma estereotipada. Estando eu ali, toda a noite sozinho em frente a um edifício, só podia estar apaixonado por alguém que não me ligava nenhuma. Estaria numa de sofrimento, à espera que um milagre se desse e a minha paixão viesse à janela.

- Estava só à espera dum colega que não apareceu... - disse.

Eu e a Ana ficámos amigos. Provavelmente, e digo isto sem certezas, vivemos uma amizade tão intensa quanto incomum. Sei que sempre que entrei na casa dela, durante os anos em que fomos próximos, pensei em como a minha percepção da vida naquele edifício tinha sido errada. Quanto mais não seja, a Ana mostrou-me isso. Agradeço-lhe.

11.11.2013

conversa 2048

(na casa dela)

Eu - Compraste um peixinho vermelho...
Ela - Comprei. Sempre me faz companhia, agora que vivo sozinha. Gostas?
Eu - Para ser sincero não. Peixinhos vermelhos em aquários redondos sempre me fizeram impressão.
Ela - Porquê?
Eu - Porque são atrofiantes. Não acredito que um peixinho, ali naquela coisa minúscula, possa ser feliz.
Ela - Os peixinhos vermelhos não são felizes nem são tristes. Não têm essa capacidade.
Eu - Não?!
Ela - Não. Limitam-se a comer quando lhes dão comida. De resto, não são seres pensantes.
Eu - Então que raio de companhia é que o peixe te faz?
Ela - Lembra-me o meu marido.

11.09.2013

conversa 2047

Eu - Queres vir até minha casa beber um copo de vinho?
Ela - Isso é uma tentativa de engate?
Eu - Não.
Ela - Então não vou.
Eu - Não me digas que se fosse para eu te tentar engatar já ias.
Ela - Claro que ia, só que ia para não me deixar engatar.

11.08.2013

conversa 2046

Ela - Eu, que detesto homens ciumentos, logo tinha que ir dar com um...
Eu - O teu marido é ciumento?
Ela - Nem imaginas. Parece muito calminho mas depois, em casa, faz cada cena de vez em quando.
Eu - Espero que nunca tenha feito nenhuma cena por minha causa.
Ela - Por tua causa nunca fez, mas faz por causa dos meus amigos que eu acho giros.
Eu - Ah!

11.07.2013

respostas a perguntas inexistentes (264)

Sentei-me na mesa do café que me pareceu mais apetecível, isto é, naquela que me tornava o mais transparente possível. Todos os clientes estavam virados para o televisor e, naquele meu canto, nenhum dos seus olhares se cruzava comigo. Até a empregada de mesa demorou algum tempo a dar pela minha presença e, quando finalmente se aproximou, pediu-me desculpa.

- Não há problema.  Queria um café e uma Macieira, por favor.

Não sei se já vos aconteceu ter o cérebro divido em dois, como se um dos hemisférios estivesse em plena actividade e o outro tivesse tirado algum tempo para sonhar. Era assim que eu estava. Por um lado, sentia-me pela primeira vez capaz de perceber tudo o que me tinha acontecido, de pegar nos factos e colocá-los numa linha de pensamento como se fosse um puzzle terminado. Finalmente, pensei. Por outro lado, sentia-me numa espécie de planeta gigante onde eu era o único habitante. Podia fazer tudo o que me apetecesse e não tinha receio nenhum da solidão. Por algum motivo, sabia que mais tarde ou mais cedo aterraria ali uma nave qualquer com uma mulher por quem me ia apaixonar.
Primeiro bebi a Macieira, num só golo ansioso. Depois beberiquei o café, gozando plenamente a mistura do seu sabor com o do brandy. Apercebi-me que o meu paladar estava bastante apurado. Depois abri um livro que comecei a ler nesse preciso momento, mas propriamente, O Processo, de Franz Kafka.
Dois anos antes, tinha eu dezasseis anos, apaixonei-me com a intensidade única que aquela idade permite por uma mulher bastante mais velha do que eu. Chamava-se Cristina, tinha trinta e poucos anos e cheirava sempre ao mesmo perfume, algo que me fazia lembrar longas extensões de campos verdes. Era casada com um homem qualquer que nunca cheguei a conhecer, mas que estava emigrado no Canadá e não dava notícias de vida há bastante tempo. Assim, juntaram-se por mero acaso um jovem surpreendido pelo Amor e uma mulher já desiludida com esse mesmo Amor.
Lembro-me que estava uma chuva intensa no dia em que ela me levou àquele café para se despedir de mim. Já me tinha dito que se queria afastar, mas faltava explicar o motivo, se é que o motivo para acabar uma relação é importante. Sinceramente, não sei se é. Sei que esperava que ela me viesse com aquela conversa habitual de que as nossas idades eram incompatíveis, ou que me anunciasse que o marido dela decidira aparecer de repente. Mas não.

- Exactamente daqui a dois anos, quando tu já fores maior de idade, se eu ainda estiver apaixonada por ti venho aqui a este café e espero toda a tarde que apareças.

Era fim de tarde e ela ainda não tinha aparecido. Paguei a conta, que entretanto contava com mais duas cervejas e uma torrada, e saí. Talvez tenha sido a primeira vez que o Amor me explicou que não vem sempre para ficar. Que é um viajante como qualquer outro que só está bem onde não está.
Às vezes ainda me pergunto, no entanto, se nesse dia ela se lembrou de mim.

11.06.2013

conversa 2045

Ela - Quantas vezes é que já te disseram que te amavam profundamente?
Eu - Não sei...
Ela - Não sabes?! Foram assim tantas?
Eu - Não, não é isso. Não sei e pronto. Se calhar até foi só uma, mas mesmo assim não sei. Não me lembro...
Ela - A mim disseram-me vinte e oito vezes.

11.05.2013

conversa 2044

Ela - Como tenho Sport Tv, amanhã vou juntar algum pessoal lá em casa para ver o Zenit - Porto. Queres vir?
Eu - É melhor não, obrigado.
Ela - Todos os homens que eu convidei disseram logo que sim. Tinhas que ser a ovelha ranhosa...
Eu - É que actualmente nem costumo conseguir ver um jogo de futebol até ao fim...
Ela - Mas vem na mesma. Não é só para ver o jogo, é para estarmos todos juntos a beber um copo e a conversar na boa.
Eu - Hum... talvez vá, então. Eu até quero que o Porto perca.
Ela - Queres que o Porto perca?! Porquê?!
Eu - Joguei no totobola e apostei na vitória do Zenit...
Ela - É melhor não vires, então. Ainda acabo por me chatear contigo...
Eu - Então e aquela coisa de estarmos juntos a beber um copo na boa?
Ela - Esquece. Fica para outro dia.

11.04.2013

pensamentos catatónicos (301)

O Público dizia, na capa da sua edição de ontem, que os casamentos em Portugal estão a durar mais e os divórcios a cair. A culpada principal é a crise, que torna os membros de cada casal economicamente dependentes um do outro. É a confirmação de que este país está cada vez mais uma merda. A Economia já não controla apenas o Amor, mas também o desAmor.
Não foi neste país que eu nasci. Na verdade, já nem sei onde é que está esse país em que eu nasci, mas um dia destes saio daqui e vou procurá-lo noutro sítio qualquer. Talvez o encontre, talvez não, mas sei que está exactamente onde as pessoas acordam umas ao lado das outras todas as manhãs porque gostam uma da outra. Só por isso, não por outro motivo qualquer.
O Amor não é um contrato, nem sequer uma promessa. É cada suspiro que damos quando estamos afastados de quem Amamos, cada gota de suor que partilhamos. No final é cada dia que passa. Não cada ano financeiro. Mais um bocadinho e os contabilistas começam a ter uma alínea orçamental para o Amor. Este ano podemos Amar-nos até duzentos e cinquenta euros. Depois disso acabou porque temos que comer qualquer coisa. Nada mau.
Um país é tanto pior quanto o número de ombros que se encolhem para não enfrentar a vida, e Portugal é um país de ombros encolhidos perante tudo e mais alguma coisa. Encolhemo-nos agora perante a evidência que, depois de perder tudo, perdemos também a capacidade de Amar.

10.30.2013

conversa 2043

(ao telefone)

Ela - Preciso de ter dois dedos de conversa contigo urgentemente. Quando estiveres em Aveiro liga-me.
Eu - Porquê?
Ela - Agora não me estou a lembrar.
Eu - Então não é assim tão urgente.
Ela - É, é. Que é urgente, eu lembro-me.

10.29.2013

conversa 2042

Ela - Não consigo perceber porque é que nunca tive uma relação com um homem que durasse mais de três ou quatro meses.
Eu - Mas querias?!
Ela - Eu queria ter uma relação a sério, mas nunca funciona.
Eu - Hum, hum...
Ela - Eu sou uma mulher bonita, não sou?
Eu - És.
Ela - Não sou burra nenhuma, pois não?
Eu - Não.
Ela - E até sou afável, não sou?
Eu - És.
Ela - Lá está.
Eu - Lá está o quê?
Ela - A culpa é sempre dos homens.

10.25.2013

conversa 2041

Ela - Por causa da chuva, estraguei a minha persiana.
Eu - Por causa da chuva?!
Ela - Sim. Na ânsia de apanhar a roupa que estava a secar, puxei-a com demasiada força e foi toda lá para dentro.
Eu - Ah! Então não deves ter estragado nada.
Ela - Não?
Eu - Não. Deve ser só preciso abrir aquilo e ir lá desenrolá-la. Depois é só um ou outro ajuste...
Ela - E tu sabes fazer isso?
Eu - Qualquer um sabe.
Ela - Queres jantar lá em casa este fim de semana?

10.22.2013

conversa 2040

Ela - Acho incrível a forma como algumas pessoas discutem alguns assuntos.
Eu - Porquê?
Ela - Porque, quando partem do pressuposto que não concordam uma com a outra, são incapazes de ouvir os argumentos do outro. No fundo já não querem ouvir o que o outro tem a dizer, mas sim defender a sua posição mesmo que ela já não seja defensável.
Eu - Passaste por alguma discussão assim, foi?
Ela - Sim, com o meu ex-marido. Sabes que eu trabalho longe de Aveiro... acho que era melhor levar o nosso filho comigo.
Eu - E ele não concorda contigo?
Ela - Não. Quer que o miúdo fique em Aveiro.
Eu - Quais são os argumentos dele?
Ela - Sei lá. Achas que eu ainda dou importância ao que ele diz?!

10.21.2013

respostas a perguntas inexistentes (263)

Lembro-me duma árvore com um tronco sólido e sinuoso, dum carro abandonado com os vidros partidos, duma capela com velas a arder e dum bêbado numa esquina a gritar com quem passava. Era a minha rua, que não tinha princípio nem fim.
Era também o meu estádio de futebol' onde uma bola de futebol vazia se queixava, em frágeis e sofridos sopros, dos pontapés que levava. Lembro-me das balizas feitas com pequenos montes de pedras e de camisolas sujas. Lembro-me das mulheres que vinham à janela chamar os miúdos para o almoço ou para o lanche, algumas delas com rolos na cabeça e lábios pintados de vermelho vivo.
Lembro-me do único café que tinha o único televisor a cores da cidade, onde o meu me levava depois do jantar para beber uma Sumol de laranja, e de fazer uma pequena cidade em cima da mesa com a garrafa, o copo e o porta-guardanapos, para conduzir o meu Morgan Plus em miniatura enquanto não começava o programa dos Marretas.
Lembro-me de revelar à Dora, que vivia do outro lado da rua, um dos mais profundos e misteriosos segredos da vida, e de ela me dar um beijo como recompensa. Fez-me corar, fez-me fugir.

- O Monstro das Bolachas é azul.
- Azul escuro ou azul claro?
- Não sei bem, mas é mesmo muito azul.

Lembro-me de tudo isso nesta outonal tarde, muitos anos depois. Da janela da minha casa vejo agora outro mundo. Uma mulher, que passa as tardes a fumar numa janela cansada, dá para uma rua despovoada. As persianas dos prédios estão quase sempre fechadas, como se quisessem esconder alguma coisa. Penso nos segredos que desapareceram e das ruas que já não têm crianças.
Ainda estou, de vez em quando, com a Dora. Há dias, durante um curto café a seguir ao almoço, perguntei-lhe se se lembrava deste episódio das nossas vidas e ela abanou afirmativamente a cabeça. Deu-me um beijo igual ao de há trinta anos atrás, um beijo roubado e rápido. Fez-me corar, mas não me fez fugir. Fiquei a ver aquela cidade caótica em cima da mesa onde se amontoavam duas chávenas, um pacote de açúcar por abrir, um copo de água e um porta-guardanapos. Revelou-me outro segredo.

- Tenha saudades tuas.
- Saudades escuras ou saudades claras?
- Não sei, mas mesmo muitas saudades.

Eu também. Talvez o Amor seja isso mesmo, ter saudades de quem está ao nosso lado.

10.18.2013

conversa 2039

Uma noite ela disse-me.

- Os homens não sabem estar sozinhos.

Fiquei na mesma posição em que estava, deitado na areia da praia, a olhar na direcção do céu estrelado. A quietude do meu corpo contrastava com a tempestade que nascera dentro de mim, mas mantive-me assim, com a sensação de ser uma caixa com uma bomba relógio no interior. Não lhe perguntei porquê. Mais, nem sequer tentei adivinhar porquê.

- Em que é que estás a pensar? - Perguntou.
- Em nada.
- Quando uma mulher está sozinha, sente-se bem. Quando uma homem se encontra na mesma situação, entra facilmente em desespero.

Na verdade eu estava a pensar em como a minha vista conseguia englobar simultaneamente estrelas tão distantes umas das outras. 

- Então são as mulheres que não sabem estar sozinhas.
- Achas? - Perguntou.
- Acho.

E ela ficou na mesma posição que eu.

10.12.2013

conversa 2038

Ela - Tive, pela primeira vez na minha vida, um sonho húmido. Nem sabia o que isso era...
Eu - A sério?!
Ela - Sim... e foi contigo.
Eu - Comigo?! Espectacular.
Ela - Sim. Eu estava no pátio a ler um livro e tu dentro de casa, de esfregona na mão, a limpar o chão.
Eu - Foi esse o sonho?
Ela - Foi.

10.10.2013

conversa 2037

Ela - Mas que naco de gajo que conheci hoje!
Eu - Então?
Ela - Um homem com umas mãos enormes. Sempre adorei homens com mãos grandes.
Eu - Mãos grandes?! A que propósito?
Ela - Tenho mesmo que te explicar?
Eu - Tens.
Ela - olha bem para mim.
Eu - Sim...
Ela - O que é que eu tenho grande e que precisa de mãos grandes para apertar?
Eu - O nariz?
Ela - Eu tenho mãos pequenas, mas levas já duas chapadas.

10.09.2013

respostas a perguntas inexistentes (262)

Regresso à luz que costuma visitar-me todas as noites sós. Aquela que vem, trémula, dum fraco candeeiro público e se deita silenciosamente no meu sofá. Deito-me com ela, sem sexo, e abraço-a. Conversamos sobre a pressa dos dias que passam e se ultrapassam, sobre como o Amor neles se acanha e, finalmente, sobre o sabor dum copo de uísque novo. Digo-lhe que contei pelos dedos os sorrisos que vi hoje, durante todo o dia, na rua e no café da esquina. Enfim, no meu pequeno mundo.

- Quantos?
- Cabem todos numa só mão.
- Então fecha-a e guarda-os.

Regresso a um baloiço velho, já velho quando eu era criança, onde os dias baloiçavam numa tontura desigual. Era a Helena, que ia sempre mais alto do que eu e depois punha-se em pé. Chegava a ficar na horizontal, quando atingia a altura máxima atrás ou à frente e eu, com medo, a dizer-lhe que não me apetecia baloiçar. Quando o fiz, caí, e ela saltou lá de cima para me secar as lágrimas. Deu-me a mão para me ajudar a levantar e eu fechei-a, para guardar a sensação do toque dela.

Regresso a uma incerteza que nada sôfrega no meu copo de uísque.

- Lembras-te de mim?

10.08.2013

conversa 2036

Ela - Divorciei-me principalmente por um motivo.
Eu - Qual?
Ela - Sexo.
Eu - Era mau?
Ela - Era curto.
Eu - Era curto?!?!
Ela - Curto em tempo, curto em tempo... já ouviste falar em ejaculação precoce?
Eu - Ah! Porque é que ele nunca foi ao médico?
Ela - Já ouviste falar em estúpido orgulho de macho?
Eu - Ah!
Ela - Chegou a convencer-me que, se bebesse três ou quatro uísques antes do sexo, a coisa podia durar mais, para eu também aproveitar.
Eu - E experimentaram?
Ela - Sim. Algumas vezes.
Eu - Deu resultado?
Ela - O único resultado que deu foi ele adormecer bêbado em cima de mim algumas vezes.

10.07.2013

coisas que fascinam (163)

As árvores despem-se no Outono, disse ela. Eu confirmei, abanando a cabeça afirmativamente, enquanto aquecia os dedos das mãos na chávena de chá escaldada. Lá fora, como se estivéssemos perante uma pintura viva, as folhas mortas avermelhadas pontilhavam a cidade cinzenta. Lembro-me de acompanhar, com o olhar, um pássaro assustado que batia freneticamente as asas em direcção a lugar nenhum. Acabou por ser refugiar na beira duma janela triste, que muito provavelmente deixara de apreciar as vistas havia muitos anos. Estava fechada, tão fechada como os olhos de alguém que dorme um sono eterno.

A Marta era a companhia ideal para as minhas tardes de silêncio. Tinha sempre qualquer coisa para dizer e não se importava que eu não lhe respondesse. Falava sobre tudo e era capaz de mudar de assunto várias vezes por minuto. Normalmente eu limitava-me a ouvi-la. Lembro-me que gostava de o fazer porque também gostava de a ver sorrir, o que ela fazia constantemente. De resto, ela tinha uma habilidade muito especial para... para qualquer coisa importante que nunca percebi o que era.

- É estranho as árvores despirem-se no Outono! - insistiu ela.
- Porquê?
- Porque está frio. No Inverno deviam vestir-se com um casaco quentinho de folhas. Talvez fosse melhor despirem-se no Verão.
- As árvores não sentem frio nem calor... - respondi.

Ela desfez o sorriso enquanto eu verificava se o chá já tinha a cor pretendida, mergulhando o saco com as ervas várias vezes seguidas no caldo de água quente. Pelo canto do olho, percebi que ela estava desiludida com alguma coisa, mas não fazia ideia do que era.

- O que é que foi? - Arrisquei.
- Quando eu estiver a conversar contigo e te disser uma inverdade, por favor, leva-me a sério. Para seres meu amigo tens que acreditar que eu acho que as árvores têm frio. Está bem?

Tornei a abanar a cabeça afirmativamente. Foi aquela a única vez que a Marta me chamou a atenção numa conversa e mostrou desagrado pela minha resposta. Percebi, nesse dia, que mesmo numa conversa de pacotilha como aquela era importante estarmos os dois ao mesmo nível. A minha observação, embora coerente, tinha cortado a conversa pela raiz. 

- Desculpa. - pedi.

Hoje fui dar uma volta aqui pela zona onde vivo, em Aveiro, que não é propriamente a zona mais bonita da cidade. Sentei-me numa paragem de autocarro e ao meu lado sentou-se uma mulher com a filha, uma miúda com uns cinco ou seis anos de idade. Uma árvore nua contemplava-nos num silêncio sepulcral e a criança perguntou à mãe se ela não tinha frio.
Há muitos anos que não vejo a Marta. Sei que ela foi viver para o estrangeiro há muitos anos e perdi-lhe o rasto. Hoje, no entanto, percebi qual era a habilidade dela de que eu sinto falta. Ser criança. Não pelos gestos infantis, nem sequer por alguma ingenuidade inerente, mas sim pela capacidade que tinha de humanizar tudo o que via. Incluindo eu.

10.03.2013

pensamentos catatónicos (300)

Tenho uma cómoda no meu quarto que foi feita pelo meu avô. Sempre que a vejo, por um curto momento que seja, lembro-me dele. "Olha a cómoda do meu avô", penso. Nela tenho seis gavetas, três mais pequenas e três grandes, e reservo uma destas para guardar tudo o que não cabe em mais sítio nenhum. Ali estão fotografias, cartas, postais, canetas e as coisas mais estranhas que se pode imaginar. Muitos objectos que não têm interesse nenhum, a não ser para mim, porque num determinado momento da minha vida foram importantes. Sempre que os vejo lembro-me desses momentos, tal como a cómoda me lembra o meu avô.
É o caso duma joaninha de corda, por exemplo, que a Raquel me ofereceu quando passámos em frente a uma velha loja de brinquedos na República Checa. Estávamos tão felizes nesse dia, que experimentámos imediatamente o brinquedo no passeio, perante o olhar espantado dos transeuntes que se desviavam daquele insecto metálico que rodopiava no chão. Lembro-me de olhar para a Raquel e de pensar como o mundo se dividia entre nós e todos os outros habitantes do mundo. Depois ri-me. É desse momento que a joaninha me lembra.
Agora mesmo acabei de ler a primeira carta que a minha filha escreveu ao Pai Natal, quando ainda acreditava nele. Emocionei-me. Não pedia nada para ela, mas sim para mim, assim, como "poderes" em vez de "puderes"

Venho dizer que o meu pai queria uma PSP, sabes  eu não sei se podes dar. Se poderes agradecia, eu queria que o meu pai tivesse uma prenda de Natal mesmo que não seja uma PSP. Beijinho

Os objectos têm esta mania estúpida de me fazer viajar no tempo. É por isso que os guardo, seja uma pedra que encontro no caminho ou uma máquina de escrever antiga; um simples lápis de carvão ou um copo de vidro comum.

Sei que um dia qualquer, quando eu morrer, alguém vai tratar de pôr tudo no lixo, mas aí já terão cumprido a sua função de manter a minha vida para além do presente, este presente que deixa de o ser assim que o é. É só por isso que estou a escrever este pequeno texto. Acabei de ir lá fora pôr o lixo orgânico no contentor, onde uma mulher estava encostada sem dizer nada, como se ela própria tivesse sido ali depositada por alguém, como que à espera que outro reparasse nela e ainda a aproveitasse.

- Precisa de alguma coisa? Está bem? - Perguntei.

Ela acordou, como se tivesse acabado de sair dum sono secular. Aos seus pés tinha um saco cheio de objectos que podiam muito bem ser os da minha gaveta. Um pouco de tudo, como se fosse possível embalar uma vida num saco. Abriu-o, pegou num ou dois e meteu-os no bolso, depois atirou o resto para a reciclagem.

- Ele morreu! - disse.

Fiquei a vê-la afastar-se. Compreendo-a.

10.02.2013

respostas a perguntas inexistentes (261)

Desde o fim de semana que estou praticamente remetido ao interior da minha casa, entre algumas canecas de chá muito quente e copos de água onde dissolvo saquetas de paracetamol. Quando passamos alguns dias seguidos fechados em casa, praticamente sozinhos, o mundo lá fora ganha outro significado. É como se fosse o mundo dos outros, o qual vamos observando através da janela como se fosse o telescópio dum submarino.
Saio muito raramente com a desculpa comum de tomar um café no tasco do outro lado da rua, mas a razão verdadeira é precisamente aventurar-me nesse outro mundo e ver algumas caras diferentes daquela que o meu espelho tem a mania de me mostrar. As caras dos outros, que se tornam interessantes mesmo que eu não as conheça de lugar nenhum. É que para além disso, este é o terceiro dia consecutivo em que a minha vida social se resume a conversas ao telefone com a Raquel, a minha mãe e um ou outro amigo. Com uma excepção.
Foi precisamente nesse café que marquei um encontro com a Olga. Ela tinha visto no facebook que eu estava doente e mandou-me uma mensagem privada. "Talvez seja uma boa oportunidade para nos vermos", dizia. E eu, que acho que todas as oportunidades são boas, combinei com ela. Tive que lhe explicar onde vivo, porque não a via há uns quinze anos. Cheguei uns dez minutos antes da hora marcada.
Lembro-me que ela tinha um namorado de quem eu não gostava muito. Um tipo pouco falador, um pouco mais baixo do que eu, que tinha a mania de andar com a chave do carro na mão e que a usava como sinal sonoro para tudo. Por exemplo, quando queria chamar o empregado do café, batia com chave na mesa para atrair a sua atenção. Era uma coisa que me irritava solenemente.
Outra coisa de que me lembro é que ele anulava a Olga totalmente. Quando ela estava sozinha era uma mulher interessante, faladora e que tinha uma opinião sobre tudo, algo que eu apreciava bastante. Quando ele estava com ela, no entanto, era praticamente impossível ouvir-lhe a voz. Transformava-se numa espécie de bicho do mato, mudo e surdo. Mesmo quando eu lhe perguntava fosse o que fosse, era ele quem respondia automaticamente.
Talvez por isso tenha sentido um certo alívio quando a vi chegar sozinha ao café.

- Estás melhor? - Perguntou.
- Já consigo falar. Ontem nem isso conseguia, por causa da garganta inflamada.

Ela riu-se. Pediu um café e um pastel de nata enquanto olhava para a minha chávena já vazia, com um ar compreensivo e como se assim me explicasse que já sabia que eu não queria pedir nada.

- Estás como eu, então! - concluiu.
- Como tu?!
- Sim. Também andei anos com a garganta inflamada. Agora já consigo falar.
- Casaste com aquele teu namorado...
- Sim, mas já me divorciei.

Não me espantou o facto dela ter casado com ele. Espantou-me o tê-lo feito com a perfeita consciência do que estava a fazer. Ela sabia que estava a anular a própria vida ao fazer aquela opção mas, por qualquer motivo que nem ela me conseguiu explicar, fê-lo. Conversámos sobre isso, de forma descontraída, e eu acabei por recorrer também à doçura duma nata. Andou alguns anos calada, a observar o mundo como se não fizesse parte dele. Era o mundo dos outros, disse-me.
Estava doente, concluí.