4.22.2014

Kotka

Desde pequeno que adoro mapas. Quando era miúdo, um dos meus passatempos preferidos era passar horas a analisar os mapas que o meu pai tinha no carro. Havia um mapa de Portugal, outro da península Ibérica e outro da Europa. Cheguei mesmo a conseguir juntar o dinheiro de algumas semanadas para comprar um imenso mapa do mundo. Através das linhas que os formavam fui-me apercebendo do tamanho do mundo e, consequentemente, também do meu.
Dias houve em que me dediquei às terras mais pequenas e desconhecidas. Lia os nomes e tentava decorá-los para sempre, como se fosse possível um dia conhecer o mundo como conheço as palmas das minhas mãos. Tal nunca aconteceu mas ainda hoje, quando atravesso as estradas e ruas deste país, me acontece passar por pequenas terras cujo nome me soa familiar.
Os mapas em suporte de papel não mostravam muito mais do que linhas e nomes. Não serviam, por isso, para que eu tivesse uma noção mínima de como era cada terra, mas serviam para eu conhecer a sua localização. A partir de Aveiro, a cidade onde eu cresci, passava tardes a percorrer com os meus dedos os caminhos que me podiam levar a cidades tão distantes como Roma ou Moscovo, ou a aldeias tão perdidas como Vilarandelo ou Amareleja. Aveiro deixou de ser então a cidade onde eu crescia para passar a ser um ponto de ligação ao mundo inteiro.
Naquele princípio dos anos oitenta, fruto da revolução de Abril alguns anos antes, o nosso país começou a receber turistas um pouco de todo o mundo, mas principalmente de países do norte da Europa. Eram pessoas que se distinguiam fisicamente dos portugueses e para as quais eu olhava com um misto de espanto e de curiosidade. A minha vontade de meter conversa com cada um desses estrangeiros, para saber de que ponto do meu mapa é que vinham, esbarrava normalmente na língua. Mesmo assim, através duma linguagem gestual improvisada, consegui que muitos apontassem naquele imenso desdobrável o seu local de origem. Cada vez que isso acontecia, eu ficava a conhecer um pouco mais do mundo que nunca tinha visitado.
Foram assim as minhas primeiras viagens, a estender um mapa numa mesa de um café de praia para tentar descobrir de onde vinha aquela gente com um aspecto tão diferente. Hoje lembrei-me de um desses pequenos pontos no mapa que um casal de loiros deslavados apontou enquanto sorria pela minha curiosidade. De acordo com a minha memória, em criança pensei que aquela terra ficava numa zona em forma de pistola futurista, algo que eu vira na série Espaço 1999. Fui ao Google Maps e percorri o mesmo caminho no computador que percorri no papel há mais de trinta anos atrás, na esperança de descobrir a origem desse casal simpático. Descobri. Chama-se Kotka, na Finlândia.

4.17.2014

coisas que fascinam (169)

É quando o Amor nos corre mal que percebemos que o mundo é estúpido. Mesmo estúpido, todo ele, desde o café matinal que perde o sabor até aos aviões que vemos no céu, dos quais deixamos de tentar adivinhar em segredo a origem e o destino. O mundo é estúpido simplesmente porque tudo continua a funcionar quando, tal como o nosso Amor, devia estar parado.
Encontrei-a num desses dias em que inexplicavelmente o mundo estava a funcionar e, inexplicavelmente também, os cafés estavam abertos. Abanei os ombros quando ela me perguntou se estava tudo bem e sentei-me na mesma mesa, mais por obrigação do que por vontade. Um televisor sujo mostrava uma telenovela qualquer.
Saímos dali e ela ordenou-me que a acompanhasse. Percorremos as ruas dum bairro suburbano a passo de caracol, até entrarmos num automóvel cuja porta direita não fechava bem.

- Tens que sair e fechar por fora. A mola partiu. - disse ela.

Foi a única coisa que disse durante as várias horas em que percorremos a praia de forma pendular, ao som das ondas que não conseguíamos ver. É verdade que hoje, quando a encontro, ela me costuma sorrir e dizer que lhe dei uma bruta seca nessa noite. Eu, pela parte que me toca, lembro-me dela como a mulher que parou o mundo.

4.16.2014

conversa 2088

(na minha casa)

Ela - Ah! Também compraste uma bicicleta de manutenção!
Eu - Comprei. Sinto necessidade de fazer algum exercício...
Ela - E tens usado?
Eu - Tenho. Até aponto todos os tempos e distâncias.
Ela - A minha está nova. Nunca a usei.
Eu - Mas tu compraste a tua há menos de um ano, acho eu.
Ela - Sim. Comprei-a por impulso. Um dia vi-me ao espelho e pensei que tinha que fazer qualquer coisa urgente para emagrecer. Fui à loja e comprei a bicicleta.
Eu - Se não a usares também não emagreces...
Ela - Eu sei, mas nesse dia senti-me bem por a ter comprado. Depois nunca tive força de vontade para a usar.
Eu - E não tentaste devolvê-la? Esta brincadeira ainda é cara!
Ela - Eu sei. Eu devolvo tudo o que não quero, mas a bicicleta não. Seria uma derrota na minha luta pelo emagrecimento.
Eu - Nunca vou mesmo compreender as mulheres!
Ela - É fácil. tem a ver com eu sentir que fiz alguma coisa para emagrecer ou não.

4.15.2014

conversa 2087

Ela - Só consigo estar com homens mais novos do que eu.
Eu - Estás comigo e eu sou mais velho que tu.
Ela - Mas nós só estamos a conversar. Para conversar gosto de homens mais velhos, para levar para a cama é que gosto de homens mais novos.
Eu - Ah! A vida pode ser difícil.
Ela - Pode mesmo. Está cada vez vez mais difícil arranjar um homem novo para levar para cama e, ao mesmo tempo, parece-me que os mais velhotes estão a perder conversa.
Eu - Só uma pergunta...
Ela - Diz.
Eu - Nunca conversas antes, durante ou depois do sexo?
Ela - Claro que não. Só se for para mandar o gajo despachar-se.

4.11.2014

conversa 2086

Ela - A minha relação anda a matar-me lentamente.
Eu - Isso está assim?
Ela - Está. Todas as manhãs o meu marido me pergunta pelo sítio onde estão as coisas dele. As meias, a camisa, os sapatos... é tão enervante.
Eu - E o que é que tu respondes?
Ela - Respondo que estão no sítio do costume e ele diz: "Ah! Obrigado".
Eu - É mesmo estranho.
Ela - É, não é?!
Eu - Nunca lhe disseste para ir directamente buscar as coisas sem te perguntar primeiro por elas?
Ela - Já, mas não resultou. Se ele não me perguntar primeiro, abre o armário e diz: "a minha camisa não está aqui!", mesmo que esteja. Depois eu digo: "procura melhor!" e ele responde: "Ah! Obrigado".

4.10.2014

respostas a perguntas inexistentes (273)

Os desgostos de Amor são óptimos, ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa. Aliás, no que se refere ao Amor só há uma coisa melhor: os gostos de Amor. Tudo o que não é um gosto nem um desgosto, é estar ausente da vida. É mau.
Os desgostos de Amor, aliás, são mais difíceis de esquecer do que os gostos. Um gosto de Amor, que já o foi mas já não é, gastou-se. A sua memória é idêntica à duma fotografia na parede. Está morta, apesar de sabermos que já viveu. Pelo contrário, um desgosto de Amor torna-se saudade assim que nasce. É também assim que se mantém durante muito tempo, talvez até para sempre. Está vivo.
Quem se considera vítima por ter um desgosto de Amor é porque nunca teve um gosto de Amor a sério. Não faz mal. De um gosto de Amor a sério nunca desistimos. Vale a pena continuar a tentar.

4.09.2014

respostas a perguntas inexistentes (272)

O primeiro homem que eu conheci que falava constantemente ao telemóvel nem sequer tinha telemóvel. Era um tipo alto, coisa para mais de um metro e noventa, magro e bigode farto, que caminhava sozinho pelas ruas da cidade de Aveiro a falar sozinho com uma mão colada à orelha esquerda. Na altura nem sequer existiam telemóveis, mas ele lá imaginava que tinha um meio de comunicar com alguém.
Muitas vezes, a sair do BA (Bar da Associação que, na altura, ficava perto do estabelecimento prisional) às quatro ou cinco horas da manhã, via-o a caminhar como se estivesse numa missão secreta qualquer, de colarinhos levantados e sempre a comunicar com um entidade imaginária.

- Eles vêm aí, eles vêm aí! - dizia.

Eu e os meus amigos mais próximos começámos a chamar-lhe o 008, numa homenagem ao detective mais famoso da História do Cinema, mas o que era óbvio para todos é que ele, para além de sofrer duma doença mental qualquer, era também um tipo extremamente solitário.
Já não o vejo há alguns anos. Tanto quanto me lembro, a última vez que me cruzei com ele foi numa pastelaria perto da rotunda das Glicínias, provavelmente no ano de 2005, mas nunca mais me esqueci daquela pesada e abrangente solidão que ele carregava aos ombros. Nesse fim de tarde, estava ele à mesa da pastelaria a falar sozinho, com uma mão na boca e outra na orelha, quando eu reparei que ele não tinha meias dentro dos sapatos gastos nem estava a consumir nada. Decidi nesse dia pagar-lhe o lanche e, para meu espanto, ele agradeceu normalmente.

- Muito Obrigado! - disse.

Hoje lembrei-me dele quando fui tomar o primeiro café do dia ao tasco mais perto da minha casa. Uma mulher falava ao telemóvel com alguém que, não sei explicar bem porquê, me pareceu ser também uma entidade imaginária. Acho que era a conversa que não colava bem com nada. Quando finalmente se calou e pousou o objecto na mesa ao lado da minha, tive a certeza que sim, que a conversa dela era inventada. O telemóvel era bastante antigo e estava desligado. Depois olhei bem para ela e reconheci-a. Há pouco mais de vinte anos, creio que em 1988 ou 89, foi minha colega num daqueles primeiros cursos de formação que a CEE (agora UE) patrocinou neste país.
Ela não me reconheceu, isso é certo, mas eu lembro-me perfeitamente do momento em que, estávamos todos nós, alunos desse curso, a fazer um pequeno intervalo cá fora, na Avenida Lourenço Peixinho, quando o 008 passou por nós em passo apressado e a falar sozinho.

- Parece maluquinho! - disse ela.

4.08.2014

coisas que fascinam (168)

Nunca devemos desprezar um Amor de baixa intensidade. Foi a tua mão que me ensinou isto.
Na verdade, à distância de alguns anos, é da tua mão que me lembro tantas vezes. A tua mão que me agarrou numa rua qualquer de Lisboa, como se fosse uma bóia salva-vidas atirada a um náufrago. Era tão fina quanto forte e às vezes suava. É do que me lembro. É da tua mão. Da textura e do suor.

- Não largues! - disseste.

Não larguei.
Já não me lembro muito bem de ti, para ser sincero. Nem tu de mim, estou certo. O que eu queria era que te lembrasses da minha mão da mesma forma que eu me lembro da tua. As mãos são a prova dos nove de um Amor de baixa intensidade ou, como se diz às vezes, de uma paixoneta. Quem não se Ama nem um bocadinho, não dá as mãos durante mais do que alguns segundos. E nós demos.

4.05.2014

coisas que fascinam (167)

Tlim popó!

A Sara estava em minha casa, passou o dedo por uma das prateleiras da estante da sala e ficou a olhar para a ponta durante alguns momentos.

- Alguém te limpa o pó! - disse.
- Sou eu que limpo o pó. - respondi.

A Alla era ucraniana e não pescava nada de português. Costumávamos falar em inglês para nos entendermos os três, mas aquela reflexão sobre o pó tinha saído em português por distracção.

- Tlim popó! - repetiu ela antes de se rir.

Hoje em dia a Alla já fala português, ainda que com algumas dificuldades naturais. Deixei de a ver durante alguns anos, porque entretanto foi trabalhar para alguns restaurantes transmontanos. Esta semana estava eu a sopesar algumas laranjas no supermercado quando ouvi atrás de mim Tlim popó!. Era ela.
Há alguns atrás, creio que seis ou sete, a Alla veio para Portugal sem conhecer cá ninguém. Nessa altura ficou três ou quatro dias em minha casa e mostrei-lhe a região de Aveiro, algum vinho e alguns doces. Falámos sobre tudo e sobre todos, mas o que ficou como marca desses dias foi um som tão banal como outro qualquer. Tlim popó!
Um som que agora me fez recordar tudo em poucos segundos, antes de largar a laranja que tinha na mão e me virar para a abraçar.


4.04.2014

conversa 2085

Ela - Para mim o sexo é noventa por cento da relação.
Eu - Noventa por cento?!
Ela - Sim, mas não faças essa cara. Só estou com o meu namorado cerca de duras horas por semana. Uma vez ao sábado, outra ao Domingo.

4.02.2014

respostas a perguntas inexistentes (271)

Um dos problemas dos dias chuvosos não é a chuva em si, é o facto de quase toda a gente começar a falar do estado do tempo. Eu incluído, que chego de manhã à janela e começo por dizer a mim mesmo: "mas que dia de merda!".
Tenho passado a maior parte dos meus dias comigo mesmo. De vez em quando vou dar um pequeno passeio e, principalmente à noite, recebo uma visita de vez em quando. Mesmo assim nunca tive a casa tão suja e desarrumada como agora. Creio que é por estar a ter algum gozo em estar em casa e a desfrutar dela. É aí que penso que o dia não é tão de merda assim.
Olhando agora para a minha sala, encontro uma pilha de cds espalhados pelo sofá e pelo chão, dois livros que ando a ler de forma intercalada, dois copos de vinho com o fundo pintado de tinto, alguns papéis de coisas que tenho para resolver e metade de um chocolate Garoto (uma das boas coisas que nos chegam do Brasil). A minha casa está desarrumada porque aproveito o tempo que passo nela.
Ontem, no meio desta confusão, recebi uma visita inesperada da Tereza (outra das boas coisas que o Brasil nos trouxe) e foi ela que me disse isso mesmo quando lhe pedi desculpa pela desarrumação.

- Quer dizer que está vivendo! - disse ao entrar.

A Tereza tem razão. É mais ou menos o mesmo que acontece com o Amor. Quando desfrutamos dele há alturas em que ele parece mais ou menos desarrumado, como se não soubéssemos por onde começar para pôr tudo no sítio outra vez. Não faz mal, é assim mesmo.
Beba-se vinho.

4.01.2014

conversa 2084

Ela - A ditadura da beleza é lixada para as mulheres.
Eu - Só para as mulheres?
Ela - Sim. Um homem pode ser feio, uma mulher não.
Eu - Não percebi.
Ela - Uma mulher feia tem uma vida difícil só por ser feia. Um homem pode ser feio à vontade...
Eu - Continuo a não perceber.
Ela - Estou a tentar explicar-te que as mulheres se sentem quase obrigadas a serem bonitas, enquanto os homens não. Por causa das revistas, da televisão...
Eu - A sério que não percebo mesmo.
Ela - Queres que eu te explique melhor?
Eu - Se conseguires...
Ela - Tu és feio e sempre andaste com mulheres bonitas.

3.31.2014

conversa 2083

(ao telefone)

Ela - Anda cá a casa beber um copo, que eu estou farta de beber sozinha.
Eu - Estás farta de beber sozinha?!
Ela - Sim.
Eu - Então pára.
Ela - Não consigo. A única forma é vires cá a casa.
Eu - Para parares de beber?
Ela - Não, para beber acompanhada.

3.26.2014

pensamentos catatónicos (303)

Um abraço

Há duas palavras que eu detesto: "empreendedorismo"  e "sucesso", porque actualmente as duas estão tão próximas uma da outra quanto distantes. Por isso, mas também porque detesto fingimentos e lonjuras. Ser empreendedor ou ser um self made man é ser a antítese do Amor. A merda deste país acabou nestas duas palavras. Fala-se do sucesso dum amigo porque ele tem emprego ou abriu uma lojeca qualquer numa esquina da cidade, nunca porque ele está apaixonado apesar dos seus quarenta anos. Não me fodam, a felicidade não passa por aí.
O Amor também não é felicidade, é verdade. O Amor é estar vivo, é estar sempre nos píncaros da felicidade ou da tristeza profunda. Nada mais. Mas é isso que é estar aqui, tão vivinho quanto a sardinha que salta no cais depois de apanhada. Este país cansa-me porque já nem sequer sabe estar triste. Não sabe sofrer. Só sabe falar em palavras vãs como empreendedorismo e sucesso. Fala-se nisso, depois morre-se.
Tenho uma má notícia para todos os que  consideram que o seu sucesso passa por ter um pequeno negócio ou por uma pequena empresa que lhes permite sobreviver: isso não vale uma merda. O que vale é, tendo uma loja, sorrir para os clientes, apaixonarmo-nos todos os dias, dar a mão a um Amor todas as manhãs. O resto é folclore. Até eu estou a abrir um negócio. Não para viver, mas sim para sobreviver.
Este país cansa-me porque já nem sequer é um país. É um pequeno grupo de gente que busca uma conta bancária confortável, apesar de nunca o conseguir, e acha que isso é normal. É um país que não fala de Amor, é uma coisa sem vida que nem triste consegue ser. Eu não quero ser parte disto, até porque ainda me apaixono todos os dias. 
Agradeço à mulher que hoje, no Parque Infante Dom Pedro, me pediu um abraço. Um abraço nunca se pede, porque quando se dá também se recebe. É isso, um abraço troca-se. É por isso que é tão bom abraçar. Só por isso. Tenho pena de quem ainda não chegou lá. Ela chegou lá hoje. Eu também.

3.24.2014

conversa 2082

Ela - Não te devias vestir assim.
Eu - Assim como?
Ela - Tão mal.
Eu - Achas que me visto mal?
Ela - Acho. É como se pegasses na primeira roupa que te aparece à frente e a vestisses...
Eu - É mais ou menos isso, sim.
Ela - Vês?! Dá-te um ar de abandono. As mulheres não gostam de homens abandonados.
Eu - Na verdade, neste momento é-me igual ao litro o que as mulheres gostam ou deixam de gostar.
Ela - Ainda por cima antipático.
Eu - Uma mulher que ligue muito a isso torna-se desinteressante, percebes?
Ela - Eu ligo.
Eu - Eu sei.
Ela - Sou desinteressante?
Eu - Sim.
Ela - É melhor ir-me embora, então.
Eu - Não te esqueças de pagar o café.
Ela - Só pago o meu.
Eu - Claro.

conversa 2081

Ela - É incrível como é que há homens adultos que ainda acham que, para uma mulher, o tamanho é importante...
Eu - O tamanho de quê?
Ela - De que é que há-de ser?!
Eu - Ah! E é importante ou não?
Ela - Claro que não.
Eu - Okay...
Ela - Desde que não seja demasiado pequeno, nem demasiado grande.

3.21.2014

conversa 2080

(com uma estranha, hoje, numa rua em Aveiro)

Ela - Sabe-me dizer onde é que fica a Segurança Social?
Eu - Sei, é este edifício aqui com cerca de vinte andares.
Ela - Caramba! Já passei aqui tantas vezes e ainda não o tinha visto.

3.20.2014

conversa 2079

(numa esplanada)

Eu - Estás com ar pensativo...
Ela - Sim, estava aqui a olhar para as pessoas...
Eu - E?
Ela - E não percebo porque é que os homens engordam à frente e as mulheres engordam atrás...

3.18.2014

conversa 2078

Ela - Para mulheres como eu, não é fácil manter uma relação próxima com um homem.
Eu - O que é que tem ser uma mulher como tu?
Ela - Gosto de dormir na diagonal da cama e de ocupar o colchão todo. Durmo mal se sinto alguém a mexer ao meu lado...
Eu - Podes sempre ter duas camas. Uma para ti, outra para ele.
Ela - O meu ex-marido dormia no chão.
Eu - E ele aceitava isso? Se tu é que estavas mal, ias tu para o chão.
Ela - Eu gosto de dormir na diagonal da cama, não na diagonal do chão.

3.17.2014

Não chegámos a ir à Islândia!

Acabei de pegar num livro que li há alguns anos. Já não me lembro de nada do que está escrito nas suas páginas. Nem da história, nem sequer do estilo. Lembro-me apenas que gostei muito de o ler. Na verdade, é exactamente essa a memória que tenho de nós os dois. Já não faço a mínima ideia de como foram os nossos dias juntos. Sei apenas que gostei deles.
O livro chama-se Gente Independente e é de um escritor islandês. Sei isso porque uma das poucas coisas de que me lembro é que tu o conhecias. Eu não, apesar de ser eu quem o andava a ler.

- Estás a gostar? - perguntaste.
- Sim.
- Porque é que andas a ler um autor islandês?
- Porque me ofereceram este livro. Só isso.

Deste-me um abraço e afogaste a tua vontade de rir no meu peito, como se te quisesses aninhar na minha camisola de lã grossa. Achavas que era estúpido andar a ler um livro sem me informar sobre o autor. Depois respiraste fundo.

- Um dia vamos os dois à Islândia! - decidiste.
- Está bem.

Encontrei-te muitos anos depois, numa altura em que já não te aninhavas em mim. Demos dois beijos na face e perguntámos um ao outro como estávamos. Bem, respondemos abanando os ombros. De um Amor de Verão pode não sobrar quase nada, a não ser a memória de que foi bom.

- Quando duas pessoas marcam uma viagem para data incerta, para um futuro qualquer, é uma forma de prometerem que querem ficar juntas até lá...
- Não chegámos a ir à Islândia! - respondi.

Sorriste.