8.09.2013

regador

Uma mosca bate insistentemente no vidro da janela da sala, provocando um ruído constante que corta o silêncio sepulcral daquele compartimento. É a primeira vez que Sofia, estendida no longo sofá vermelho, pensa em si mesmo em termos evolutivos. A mosca, que tendo em conta as origens unicelulares da vida até pode ser considerada um animal complexo, não consegue atravessar aquela superfície transparente, nem sequer consegue chegar à conclusão que não vale a pena insistir. Ao observá-la, Sofia dá-se conta do longo caminho que foi preciso percorrer para ser ela mesma, uma mulher estendida num sofá a pensar nas incapacidades duma mosca para atravessar um vidro.
Acredita que as moscas tentam apenas prolongar a existência da sua espécie, mesmo que nenhuma delas tenha propriamente consciência disso. Está-lhes nos genes. Voam, alimentam-se e reproduzem-se. Porque é que os Homens não são assim? Porque é que na nossa espécie há indivíduos com comportamentos que se desviam desse objetivo simples? Não sabe a resposta. Sabe apenas que não a consegue encontrar dentro daquilo a que se habituou a chamar probabilística e que está, muito provavelmente, na base desta estranha forma de ser da humanidade.
 Ela própria não se entende, o que é muito mau para começar. Está ali deitada com um profundo sentimento de derrota que não consegue contextualizar em nada de concreto. Talvez apenas na sua vida toda, desde que nasceu até há poucos dias atrás. Aos trinta anos não tem família que consiga tratar como tal, pois abandonou o pai e a mãe quando tinha doze anos. Além disso nunca teve filhos, nem tão pouco um homem a que pudesse chamar seu. Não por falta de candidatos, mas sim porque nunca se interessou verdadeiramente por nenhum dos que lhe passaram pelas mãos.
Agora que pensa nisso, a única vez que esteve realmente apaixonada foi ainda na escola primária, quando um rapaz chamado Sandro se sentou ao lado dela logo no primeiro dia de aulas. Não o fez por nenhum motivo especial, mas apenas porque o professor sentou todos os alunos por ordem alfabética. Olharam um para o outro e ela cumprimentou-o com o olhar. Ele sorriu-lhe, o que foi suficiente para criar essa sua primeira paixão.
 O Sandro era um rapaz diferente de todos os outros. Não jogava futebol no intervalo das aulas, nem sequer gostava de qualquer atividade física como qualquer criança da sua idade. Passava o tempo livre sozinho, com um regador de plástico na mão a deitar água a tudo o que era árvore, flor ou até erva daninha. Todos os colegas gozavam com ele, menos a Sofia, que um dia lhe declarou Amor.

- Gosto de ti! - disse.

 O Sandro continuou a regar um canteiro de rosas como se nada fosse. Desde então, nunca mais nenhum homem a cativou da mesma maneira. É como se o género masculino fosse composto por indivíduos todos iguais. Tirando um pormenor ou outro, nenhum consegue elaborar uma frase de engate que se encaixe no que ela quer, o que é uma pena porque adora sexo.
Sempre que tem sexo, aliás, é porque engata um homem qualquer. Nunca nenhum homem a engatou a ela. Normalmente prefere tipos um pouco mais velhos, com um máximo de cinquenta anos, que se vistam discretamente e possuam um sentido de humor constante mas que não seja óbvio. Não gosta de homens com o cabelo muito comprido e detesta aqueles que são mais baixos do que ela.
Com estas exigências, consegue engatar em média um homem por semana, sempre num bar de hotel. Desta forma, tem a certeza que o companheiro sexual não é de Lisboa, a cidade onde vive, e por isso não a tornará a chatear tão cedo para um novo encontro. Tem uma vida sexual satisfatória e nunca se prende a ninguém, o que lhe parece muito bem.
Ontem à noite vestiu uma saia curta e uma camisola apertada que lhe realça a forma dos seios. Depois apanhou um táxi e foi beber um copo no bar dum hotel central da capital. Esteve ali uma hora e meia sem que nada acontecesse, a fumar cigarro atrás de cigarro e a meter conversa com o barman para matar o tempo, até que finalmente avistou uma presa.
Um homem de meia idade, ainda com o cabelo todo e pouca barriga sentou-se no mesmo balcão, a três bancos de distância, e pediu um vermute com limão. Trazia uma mala e desapertou o nó da gravata assim que a pousou. Ela aproximou-se dele e perguntou-lhe se lhe podia fazer companhia. Disse que uma amiga, com quem tinha combinado um encontro, lhe tinha telefonado a dizer que afinal não podia aparecer. Desculpa habitual neste tipo de encontros. Ele concordou, acenando afirmativamente com a cabeça.
Vinte minutos depois estavam no quarto 408. Ele deitou-se vestido e foi ela que o despiu. Começou por massajar-lhe o pénis durante alguns minutos e depois pôs-se em cima dele, penetrando-se devagar com aquela excitação que parecia duma estátua. Ele não se mexia, mas continuava com o falo ereto como se fosse de pedra. Na altura exata ela pediu-lhe que se viesse, o que ele conseguiu fazer com uma competência fora do normal.
Ao contrário do habitual, deitou-se ao lado dele e dormitou um pouco. Quando acordou estava já viciada no seu cheiro e na sua pele. Elogiou-lhe a capacidade sexual e perguntou-lhe como é que ele conseguia vir-se na hora h. Ela não estava nada habituada a homens assim. Normalmente, ou são demasiado rápidos ou extremamente lentos.
Ele explicou-lhe que nunca teve uma companheira regular, por isso habitou-se a ter sexo apenas quando consegue e com quem consegue. Apesar de poucas vezes, a diversidade deu-lhe experiência suficiente para controlar o momento do orgasmo.

- Nunca estiveste apaixonado? - Perguntou-lhe.
- Na escola primária houve uma miúda que me me disse que gostava de mim. Não lhe respondi porque estava entretido a regar rosas. Desde então, nunca mais consegui declarar amor a ninguém.

 Agora Sofia está ali, deitada num sofá vermelho a ver uma mosca bater insistentemente no vidro da janela.

7.30.2013

conversa 2028

Ela - Uma coisa que as mulheres costumam fazer, é dizerem às amigas que os maridos são melhores na cama do que realmente são.
Eu - Tens a certeza?
Ela - Tenho.
Eu - Como é que podes ter a certeza?
Ela - O meu marido, antes de casar comigo, era namorado da minha melhor amiga.

7.29.2013

conversa 2027

Ela - Desculpa lá não ter ido ao teu jantar de aniversário...
Eu - Não te preocupes. Não faz mal.
Ela - Não faz mal?!
Eu - Não... claro que não. Estava muito pessoal.
Ela - Estou a sentir-me rejeitada...

7.26.2013

Virginia Johnson

Na década de 50 o mundo recuperava lentamente de duas guerras mundiais. A memória da segunda, que atingira directa ou indirectamente todos os continentes e vitimara milhões de cidadãos, estava bem viva. Entre a frágil sensação de paz mundial, nascia a Guerra Fria e o mundo dividia-se em dois. O pacto assinado em 1950 pelas duas maiores nações comunistas ameaçava o mundo ocidental e abria uma nova frente de guerra nas Coreias. Nos EUA iniciava-se a Caça às Bruxas moderna, que é como quem diz, a Caça aos Comunistas.
Foi neste ambiente que Virginia Johnson deu andamento à expressão "Make Love, Not War" e revolucionou os estudos sobre a sexualidade. Com o seu marido, e com base na observação directa e métodos de medição por ela criados, explicou a esse mundo frio o que é o orgasmo. A mim parece-me bem.
Morreu ontem. Que o mundo agora a homenageie na cama.

7.25.2013

conversa 2026

Ela - Era bom que os homens percebessem o elemento chave de qualquer relação heterossexual...
Eu - E qual é?
Ela - Um homem apaixona-se por uma mulher, uma mulher apaixona-se pelo facto desse homem estar apaixonado por ela.
Eu - E é tudo?
Ela - É.

7.23.2013

respostas a perguntas inexistentes (258)

Nessa altura trabalhava numa fábrica de cerâmica, a alimentar durante oito horas seguidas a linha de produção com placas em bruto que alguns minutos mais tarde seriam já azulejos. O salário ainda era pior do que o trabalho, por isso não tinha outro remédio senão assumir esse tempo como uma subtracção à minha vida. Era como se aquelas oito horas diárias não fizessem parte dos dias. Para tal arranjava múltiplas e variadas formas de me abstrair durante o expediente.
O trabalho consistia em manobrar uma máquina cujos comandos se assemelhavam ao volante duma mota. Esse volante estava pendurado no tecto e, com aquilo que seriam os travões, abria e fechava uma boca capaz de segurar centenas de azulejos duma só vez. Eram esses azulejos que eu ia buscar a uma palete e depois largava sobre duas borrachas em constante movimento que os faziam cair, um a um, num circuito que os limpava, texturizava e envidraçava. No fundo era como se estivesse a conduzir oito horas seguidas, mas sem sair do mesmo sítio, sem luz natural e sem paisagens edificantes.
Quando saía da fábrica estava sempre tão cansado que tudo o que eu queria era beber umas cervejas com uns amigos, comer qualquer coisa e depois ir para casa dormir. Comecei a ter uma enorme vontade de escrever, mas as forças que me restavam depois de tudo não me permitiam fazer muito mais do as palavras cruzadas do jornal do café que eu frequentava. Por isso acabei por arranjar um método alternativo. Andava sempre no bolso com um pequeno caderno e uma esferográfica e, quando me vinha uma ideia qualquer à cabeça, fosse ela a base de um argumento ou apenas uma metáfora solta, apontava-a nesse caderno. Interrompia o trabalho por cinco ou dez segundos, escrevia o que queria e voltava a fechá-lo.
Foi assim que conheci a Margarida. Um dia o supervisor reparou no que eu fazia e confiscou-me o caderno como uma prova de que eu não cumpria totalmente com o meu contrato de trabalho. Ameaçou-me com despedimento e entregou-o, junto com uma queixa escrita, no departamento de pessoal. O supervisor era um tipo estranho de quem eu não gostava ali, naquele ambiente hostil e desconfortável, mas também não gostaria em nenhum outro local do mundo. Nem que o conhecesse numa ilha tropical durante umas férias de Verão.
Alguns dias depois ele passou por mim e, tugindo, informou-me que eu tinha que ir ao tal departamento de pessoal prestar informações.

- A doutora Margarida chamou-te! - disse.

Subi umas escadas curvas com a sensação que ia ser presente a um tribunal Inquisidor. Lá em cima inspirei e expirei profundamente três vezes seguidas e decidi, antes de entrar, que à mínima falta de respeito pela minha pessoa esticaria o dedo do meio e virava costas àquele sítio para sempre.
Como as minhas mãos estavam cheias de óleo, entrei ainda na casa de banho e lavei-as. Penteei o cabelo com a ponta dos dedos e, finalmente, dei por mim a bater à porta da tal Doutora Margarida, mulher de quem já tinha ouvido falar mas nunca tinha visto nem para assinar contrato, pois era sempre uma intermediária sua que falava comigo.
Para meu espanto era bonita. Nunca esperei que uma mulher de quem, na generalidade, os trabalhadores falavam tão mal pudesse ser tão bonita. Tinha o cabelo apanhado e uma camisa branca parcialmente aberta num decote generoso. Usava um lenço avermelhado e tinha um sinal no queixo que combinava com os seus grandes olhos castanhos claros. Além disso, a sua face transmitia, acima de tudo, alguma generosidade.

O meu livro estava em cima da secretária dela, junto a umas folhas que eu não sabia se tinham a ver com o meu processo. Ela perguntou-me, antes de qualquer outra coisa, se o livro era meu.

- O livro é meu! - respondi.

Ela sorriu, admitiu que o tinha lido todo, do princípio ao fim, e perguntou-me porque é que eu escrevia aquelas coisas todas durante o trabalho.

- Não é durante o trabalho, é durante a vida. Faço anotações em qualquer sítio ou altura porque gosto de escrever e de me sentir vivo. Apesar de não me sentir muito vivo quando estou na produção, faço os possíveis...

Ela tornou a sorrir e perguntou-me a que horas é que eu saía. Como o meu turno acabava uma hora depois do dela, convidou-me para jantar lá em casa. Lembro-me que fez carne guisada com batatas e ervilhas e serviu-me um bom vinho. Depois do jantar levantou-se e desapareceu dentro dum quarto que apenas tinha estantes e livros. Quando regressou trazia uma série de cadernos iguais ao meu, com anotações feitas por ela.

- Faço exactamente o mesmo que tu, sabes? A diferença é que eu estou sentada numa secretária e ninguém dá por ela.

Passei a noite a visitar esses cadernos dela. A partir desse dia ficámos amigos durante muito tempo, apesar de eu ter pedido demissão pouco tempo depois. A Margarida tinha mais doze anos do que eu e nunca quis envolver-se comigo para além dessa amizade. Era um problema para ela, essa diferença de idade, embora me tenha dito várias vezes que tinha pena de não ser da minha faixa etária.
Um dia encontrou um homem por quem se apaixonou perdidamente e nunca mais nos tornámos a ver. Ontem vi-a numa pastelaria e reconheci-a. Cumprimentei-a à distância com um sorriso que ela devolveu. Ao sair abraçou o marido, olhou para trás e cochichou-lhe qualquer coisa. Eu não sei o que foi, mas abri o meu caderno e escrevi este texto.

7.20.2013

páginas de silêncio

Páginas de silêncio

Página por página, talvez alguém tenha tido um sonho estranho durante a noite, com cadáveres semeando flores em extensões de campos estéreis. Ao acordar, Helena sentiu-lhes o aroma que rareava serpenteando as artérias da cidade, e saiu da cama mais depressa do que o habitual. Costuma ficar entre os lençóis com o sossego que foge das ruas e se vem deitar na cama dela. Normalmente nem fazem amor, ficam só a olhar para o débil e silencioso baile dos cortinados de pano branco sujo. É áspera a luz lá fora, vai pensando suavemente, e o silêncio concorda. Agora que se levantou precipitada, vê-se ao espelho ainda nua e consegue achar-se um bocadinho bonita, apesar do ar cansado e envelhecido. Talvez depois de ir ao psiquiatra passe numa loja e compre um frasco de tinta para o cabelo. Talvez isso a possa fazer feliz, pensa. O silêncio concorda de novo e conforta-a, diz-lhe que o sonho não passou disso mesmo: um sonho. Helena gosta de ir ao psiquiatra por dois motivos: porque pode reinventar os seus sonhos e porque pode nada dizer. Às vezes sabe bem estar com alguém a quem se pode nada dizer.

Página por página, um homem com sotaque do leste folheia em voz alta os últimos dias da sua vida, numa avenida desatenta, mas as suas palavras vão fraquejando entre os olhares flutuantes e ombros embrutecidos que passam. Sente-se um barco à deriva, o homem, e procura um farol algures entre a multidão. Diz que tem trabalhado para um construtor civil qualquer que não lhe paga, que tem filhos à espera numa garagem dum bairro da cidade que sopra, que implora mais alguns dias de vida. Que tem fome. Depois desiste. Deita-se embalado pela sombra duma árvore da avenida. Helena passa por ele sem reparar na sua mão ainda aberta.

As árvores sabem que ele decidiu morrer atirando-se à ria e que, mesmo assim, vai tomar um café com açúcar. Sabem que ele apertará os atacadores dos sapatos várias vezes, até sentir que os mesmos estão justos aos pés. Nem demasiado apertados nem demasiado largos. Depois, penteará ainda o seu reflexo na abundante montra duma pastelaria da cidade. As árvores sabem que ele agirá assim em silêncio, e estenderam um tapete vermelho e outonal que ele vai percorrer devagar, fascinado pela luz que se alonga ao horizonte. Desviar-se-á dum automóvel que não respeitou uma passadeira para peões, antes de esperar, junto à ria, que um autocarro pare e despeje uma dezena de pessoas silenciosas. As árvores sabem que agirá assim para não morrer antes de se matar.

Helena está na sala de espera. Ainda não decidiu de que cor vai pintar o cabelo quando sair dali, talvez porque assim possa continuar a ocupar o espírito com essa preocupação mínima. Não lhe apetecia nada chorar outra vez quando começar a contar os seus dias ao psiquiatra, página por página. Página por página vai lendo, de trás para a frente, uma revista que tirou à sorte dum monte. São só caras, pensa ela, caras empacotadas em fatos e vestidos caros, caras rotuladas por sorrisos torpes, caras sem mais nada. Só caras. Pousa a revista numa das cadeiras vazias ao seu lado. Há várias cadeiras assim e lembra-se de como cresceu dividindo um quarto com mais uma cama vazia. A mãe dizia-lhe que era para quando a família aumentasse, o que nunca chegou a acontecer. Nunca teve ninguém ao seu lado, pensa. Por isso viveu sempre em silêncio. Reprime um esgar de choro.
Vermelho, vai pintar o cabelo de vermelho. Sorri.

Uma morrinha parece segredar qualquer coisa à cidade. Helena nunca desvenda esse segredo, mas tenta encontrar nele qualquer coisa de bom. Às vezes consegue, numa criança que se estica no balcão duma pastelaria para escolher um bolo, num automóvel que pára para deixar atravessar peões que nem sequer estão numa passadeira, num guarda-chuva que se esforça em vão por abrigar mais do que uma pessoa. Às vezes noutra coisa qualquer. Quando consegue agarra esse momento e guarda-o bem na memória, explica ao psiquiatra, que lhe pergunta se ela se sente mais optimista ou pessimista do que na consulta anterior. Pessimismo? Optimismo? Não sabe o que é, diz ela. As coisas são o que são, vai-se vivendo página por página. Depois emudece durante cinco, dez, talvez quinze minutos. Levanta-se, despede-se e sai. Hoje não chorou.

Há páginas que são um erro e se devem rasgar, há outras que se rasgam sozinhas, mesmo quando não queremos. Helena caminha compreendendo o seu silêncio amante, mas sorri-lhe distanciando-se. Que não quer pensar nisso. Um grupo de pessoas agita-se junto a um dos canais da ria que, como sangue, percorre a cidade transportando algum oxigénio. O corpo dum homem oscila ali entre as mãos de dois médicos do INEM, e começa a expulsar alguma água suja pela boca. Já mexe, diz alguém. Que é ucraniano, conclui outro alguém. Que rasgue depressa da sua vida a página do dia de hoje, deseja Helena. Depois sorri. Vai pintar o cabelo de vermelho, como o vermelho das folhas que despiram as árvores. As árvores estão nuas mas conseguem achar-se bonitas, conclui. Em silêncio.


7.09.2013

conversa 2025

(duas miúdas que passaram por mim, hoje, perto da estação de Campanhã)

Ela1 - Até dava umas voltas contigo, ó jeitoso!
Ela2 - Foda-se! Não vês que ele é um velho?!
Ela 1 - É velho, mas não é como o teu pai.
Ela2 - E tu já comeste o meu pai?
Ela 1- Não, mas ele está sempre a fazer-se ao piso, o cabrão.
Eu (só em pensamento) - Socorro!

7.05.2013

Crónicas da Cidade que Sopra



O meu novo livro, em formato exclusivo digital, está disponível gratuitamente no meu site pessoal: www.ivarcorceiro.net. É um pdf com 128 páginas, A4, e compila crónicas que escrevi para o Diário de Aveiro há uns anos atrás. Estão todos convidados...

7.03.2013

conversa 2024

Ela - Já foste à praia?
Eu - Ainda não. Para a semana devo ir algumas vezes...
Ela - Vais para a mesma zona do ano passado, onde te encontrei várias vezes?
Eu - Devo ir...
Ela - Este ano, se me quiseres encontrar, vai lá mais para trás para o meio das dunas...
Eu - Eu não gosto de ir para as dunas...
Ela - Mas eu tenho que ir... pelo menos enquanto não fizer a depilação total e definitiva...

7.02.2013

conversa 2023

Ela - Acho que sou bipolar.
Eu - Porquê?
Ela - Num dia estou muito feliz e no dia seguinte já estou triste...
Eu - É sempre assim?
Ela - É. Ontem estava deprimida e hoje já estou a sentir-me feliz.
Eu - Bem... aproveita o dia de hoje, pelo menos.
Ela - Não consigo.
Eu - Porquê?
Ela - Porque estou feliz, mas sinto-me mal só de saber que amanhã já vou estar triste.
Eu - Não és assim tão bipolar, então. No fundo estás sempre triste.
Ela - Mais ou menos. Amanhã, por exemplo, vou estar triste, mas como sei que além de amanhã vou estar feliz consigo andar mais ou menos bem...
Eu - Estás a gozar comigo?
Ela - Não.
Eu - Parece mesmo!
Ela - Os homens é que não percebem estes labirintos sentimentais das mulheres.

7.01.2013

conversa 2022

(ao telefone)

Eu - Ia convidar-te para vires beber uma cerveja comigo, mas suponho, se bem te conheço, que não deves querer sair com este calor...
Ela - Importas-te de me fazer o convite sem responderes por mim?! Que coisa irritante!
Eu - Queres vir beber uma cerveja comigo?
Ela - Não. Está demasiado calor...

6.28.2013

conversa 2021

Ela - Pode ser que agora, no Verão, arranje um namorado decente.
Eu - Então e o teu?
Ela - Acabámos a semana passada.
Eu - E já estás a pensar no seguinte.
Ela - Para esquecer um Amor, nada como levar um gajo para a cama.
Eu - Hum...
Ela - Como dizem os brasileiros, há mais gente na fila. 

6.26.2013

conversa 2020

(com uma de duas senhoras, testemunhas de Jeová, que me bateram à porta)

Ela - Andamos a explicar a importância de Deus...
Eu - Não vale a pena perderem tempo comigo. Sou ateu.
Ela - Posso só fazer-lhe uma pergunta?
Eu - Se não for para vender nada, pode. Além de ateu, estou desempregado.
Ela - Quem é que fez a sua camisola?
Eu - Sei lá. Provavelmente um escravo qualquer no Bangladesh...
Ela - Então alguém a fez?
Eu - Sim, alguém a fez...
Ela - E acredita que o mundo poderia existir sem ninguém o ter feito?
Eu - Acredito na teoria do Big Bang.
Ela - É possível, mas o Big Bang não poderá ter sido mão de Deus?
Eu - E quem é que fez Deus?
Ela - Ninguém pode ter feito Deus. Deus é o Pai.
Eu - O meu pai tinha um pai também, que por acaso era meu avô.
Ela - Mas com Deus é diferente.
Eu - Porquê?
Ela - Porque... porque...
Eu - Bem me pareceu que não sabia.
Ela - Posso deixar-lhe só este jornal sobre como ser um bom pai de família?
Eu - Está bem. Prometo ler quando estiver na casa de banho.

6.25.2013

respostas a perguntas inexistentes (257)

Dizem que é preciso algum tempo para perceber se se gosta de alguém. Eu concordo que às vezes sim. Outras vezes não.
Com a Irina, por exemplo, foi uma questão de espaço e não de tempo. Por isso é que decidi em dez minutos que não gostava dela. Não gostar dela não significa detestá-la ou ter algum sentimento negativo por ela. Significa apenas que a obrigatoriedade de gostar, para poder sair com ela uma segunda vez, não se cumpriu.
A porta da pastelaria Bissau, mesmo em frente à estação de comboios de Aveiro, é pequena. Por ela passa apenas uma pessoa de cada vez. Há mais cafés ali, mas eu teimo em ir à Bissau sempre que estou naquela zona. Ela perguntou-me porquê, ao telefone, quando combinámos um encontro para eu lhe entregar um saco que uma amiga comum me pedira. Eu expliquei-lhe, sem pensar muito no assunto, que é a pastelaria mais antiga por ali.

- És um tipo estranho! - disse ela.

Fiquei a saber que era estranho eu escolher sempre os cafés e pastelarias mais antigos quando existe a possibilidade de optar. Sempre o fiz e ainda hoje o faço, pelo que me limitei a confirmar que, se por ela não houvesse inconveniente, era na Bissau que eu queria tomar café e fazer a entrega.
Quando, no dia seguinte lá cheguei, ela já lá estava. Reconheci-a pela camisola amarela que ela tinha prometido levar como sinal e, por isso, depois de me apresentar, sentei-me na cadeira em frente. Dei-lhe imediatamente o saco e iniciámos uma conversa de circunstância.
Por norma gosto muito de ter conversas de circunstância ou, como se diz por aí, conversas de treta , arrotar postas de bacalhau (nunca percebi esta), etc. Aquela também não correu mal. No que diz respeito a trivialidades, tanto eu como a Irina mostrámos alguma capacidade de comunicação. Isto para não dizer mais.
O meu problema com ela, se é que se pode chamar problema ao facto de perdermos a vontade de estar com alguém pela segunda vez, foi perceber que ela manteve sempre as pernas esticadas, de tal forma que quem queria ir à casa de banho tinha que pedir por favor para as encolher, o que aconteceu três ou quatro vezes enquanto conversámos, tanto a entrar como a sair. Eu não lhe disse nada, mas comecei a sentir-me incomodado com aquilo. Não percebia por que motivo ela não se virava um pouco e esticava as pernas para outro lado, de forma a não incomodar os clientes que queriam ir aos lavabos.
A conversa acabou e ela levantou-se primeiro do que eu para, por amabilidade, pagar a despesa toda (dois cafés e uma água com gás). Eu, depois de ter apertado bem os atacadores dos sapatos, reparei que ela tinha parado exactamente na pequena porta da pastelaria para se assoar duas ou três vezes, fazendo esperar uma mãe com duas crianças que queriam entrar.
Foi já cá fora que lhe expliquei, mais em jeito de explicação do que zangado, que gosto de pessoas com noção de espaço público. Detesto ver automóveis estacionados em segunda fila, por exemplo, da mesma forma que não suporto ver pessoal deitado em dois lugares num comboio repleto de pessoas em pé. Fico incomodado e, por norma, reajo.

- És um tipo estranho! - disse ela.

6.18.2013

conversa 2019

Eu - Tu, que és nutricionista, sabes aconselhar-me alguma dieta para reavivar a memória?
Ela - Andas com memória fraca?
Eu - Acho que sim.
Ela - Não sei...
Eu - Não?!
Ela - Não. Sou nutricionista, mas normalmente bebo para esquecer.

6.13.2013

conversa 2018

Ela - Sinto um vazio enorme dentro de mim.
Eu - O que é que se passa?
Ela - Tenho fome!
Eu - Eu a pensar que estavas com uma pedrinha na alma...
Eu - É quase isso. Preciso dum pedregulho no estômago.

6.12.2013

coisas que fascinam (161)

o fim da paixão e o princípio do Amor

Estou no comboio que liga as cidades do Porto e de Aveiro. Mesmo à minha frente viaja um casal de alemães que não consegue passar despercebido, embora gostasse de o fazer. São ambos altos, loiros e devem ter cerca de sessenta anos.
Já me fizeram algumas perguntas, em inglês, sempre em voz baixa para que ninguém perceba que não são portugueses. A primeira foi logo na estação de São Bento, onde lhes ensinei como funciona a bilhética da CP. Como vão visitar Aveiro para onde, por coincidência, eu também me dirijo, sentaram-se ao pé de mim a pedir conselhos para visitar a cidade.
Falámos cerca de vinte minutos e ele, já cansado, adormeceu. Ela endireitou-lhe a cabeça com a brandura duma mãe, encostou-a ao seu ombro e depois deu-lhe a mão. Eu abri o meu computador para escrever qualquer coisa, neste caso este texto.
Há uns dias falava com uma amiga sobre o fim da paixão e o princípio do Amor. Dizia-me ela que a paixão é uma forma de começar uma relação, normalmente com muito sexo, suor e lágrimas. Acha que, com o tempo, essa paixão se vai transformando lentamente em Amor, ou então em nada. Zero. Quando se transforma em nada, a relação acaba. Quando se transforma em Amor, a relação continua.
A tese dela é que a paixão é o início. O Amor ou o nada vêm depois.
Eu não concordei com ela, se bem que não tenha propriamente apresentado uma tese alternativa à sustentação duma relação duradoura. A lei das probabilidades no Amor impede-me de ser tão esclarecido. Mesmo assim acabei de perceber, acho eu, onde ela queria chegar.

A esse propósito, estava aqui a lembrar-me de fogosas paixões que tive e que rapidamente se reduziram a cinzas. Talvez, de facto, continuar uma relação seja uma opção consciente, pelo menos a partir de um determinado momento. Agora, se me permitem, vou fechar o computador e olhar pela janela.

6.10.2013

respostas a perguntas inexistentes (256)

É fim de tarde dum feriado qualquer, ou melhor, dum feriado que já se chamou o Dia da Raça e que agora se chama Dia de Portugal e de Camões. Dou por mim a discutir questões de raça e a enervar-me. Aquela que está à minha frente ri-se quando lhe digo que felizmente a genética acabou com essa merda, com as raças entre nós, humanos. Etnias sim, existem. Raças não. Mas ela ri-se. Trata-me como se eu estivesse a dizer tolices.
Sinto-me esmagado. O café está cheio e tanto os meus nervos como os risos dela já chegaram a alguns clientes das outras mesas. Alguns olham-nos de lado. Numa delas está sentada uma mulher marcada, não sei se pela vida ou pela violência de um eventual marido. É nítido que sustém as próprias lágrimas como uma represa. Está de óculos escuros.

- Quer dizer que um mongol e um sueco loiro não são de raças diferentes? - Pergunta.

Estou a falar com alguém que não conheço de lado nenhum. Ambos estamos à espera da mesma pessoa e considero o nosso encontro uma infeliz casualidade. Puxo pela cabeça para chegar a uma resposta qualquer que não me obrigue a um grande esforço. Estou cansado da conversa e apetece-me ir para casa.

- Quer dizer que um mongol não é um dálmata e que um sueco não é um bulldog.

Ela ri-se. Incomoda-me.

- Isso sei eu.

Noutra mesa está uma família. Pai, mãe e dois filhos, um de cada género. O pai bebe uma Super Bock e olha para o infinito, os filhos lancham umas torradas com leite branco. A mãe não faz nada. Parece uma estátua que deixou de ter significado há muito tempo para quem passa por ela, incluindo a própria família.

- A Ana está tão atrasada! - diz ela.
- Hum, hum... - aceito.

Um homem entra no café com ar apressado e vai ter com a mulher que chora. Pergunta-lhe como está e vejo-a a abanar os ombros. Dão um abraço e a represa cede. Invade-a um violento mar de lágrimas.
Pergunto-me de que são feitos os abraços que têm este magnífico poder de nos controlar totalmente o coração. Não sei, mas acho que alguns abraços, exactamente neste momento, teriam o mesmo efeito em mim.
Levanto-me e digo que vou embora.

- Não esperas pela Ana?!
- Não.
- Ela deve estar mesmo a chegar...
- Que se foda! Tchau!

A cidade parece dormir durante o dia. Telefono à minha companheira de vida. Pelo menos do que é a minha vida agora, penso. Desta vida que vou tendo apesar deste país e desta raça que somos. Rio-me. 

- Está tudo bem?
- Onde estás? Preciso dum abraço.

6.08.2013

conversa 2017

(ao telefone)

Ela - Queres ir tomar café comigo hoje à tarde?
Eu - Pode ser...
Ela - Eu passo aí em tua casa às três. Pode ser?
Eu - Pode...
Ela - Não leves aliança mas, para variar, vê se te penteias e vestes com algum cuidado.
Eu - Eu não uso aliança. O que é que raio se passa?
Ela - Vamos a um café que eu cá sei, onde trabalha um gajo giríssimo, e tu vais-te mostrar muito interessado em mim enquanto eu te dou ao desprezo. Está bem?
Eu - Mas o que é que tu pensas que eu sou?!
Ela - És meu amigo e os amigos servem para isso mesmo. Um dia, se precisares, faço o mesmo por ti...

6.07.2013

dona Elvira

Começo pelo baloiço do parque. Aquele onde a Helena conseguia sempre baloiçar mais alto do que eu e depois saltava lá de cima até enterrar os pés na areia. Lembro-me de a ver a sacudir as mãos e a dizer-me "outra vez!". E eu, que não tinha coragem para ir tão alto, ficava a vê-la repetir a operação durante uma tarde inteira.

- Não fazes? - perguntava ela de vez em quando.
- Não me apetece! - nunca admiti que tinha medo.

Depois veio o ciclo e uma nova paixão, já diferente da anterior e mais perto do início da puberdade. Não havia baloiço, mas havia um enorme muro onde jogávamos ao equilíbrio. A Maria fazia-o todo quase em bicos de pés, eu caía sempre antes de chegar ao fim. Era grande demais para a minha idade e meio desconchavado. Uma vez ela começou num extremo do muro e eu no outro, até nos encontrarmos algures no meio. Dei-lhe a mão e a voz tremeu-me.

- Gosto de ti!

Ela olhou para mim durante alguns segundos, com aqueles enormes olhos de amêndoa de que nunca mais me esqueci. Atirou-me ao chão e fugiu. Eu chorei escondido num arbusto da escola, sem ninguém me ver. Depois o Filipe deu-me um maracujá, porque eu gostava de maracujás ou pelo menos fingia que sim. Talvez tenha sido a minha primeira desilusão de Amor.
Veio o liceu e mais duas mulheres com quem nunca tive coragem de falar, que não queria cair de mais nenhum muro. Passei por elas durante anos como uma bola perdida numa máquina de flippers, aquela Dona Elvira onde vim a fazer um dos meus melhores amigos depois duma cena de pancadaria entre os dois.
Eu estava a jogar, creio que quase a bater o meu recorde pessoal, e ele deu um pontapé na máquina para accionar o bloqueio automático da mesma. Os dois flippers pararam e eu perdi o jogo. Dei-lhe um encontrão que se veio a transformar em murros e pontapés. Acabámos os dois a sangrar do nariz e expulsos do café por um dos empregados, que nos pediu para nunca mais lá voltarmos.
Passámos a cumprimentarmo-nos nos corredores da escola, já que afinal de contas éramos conhecidos. Primeiro com alguma distância, mas depois o tempo curou a nossa zanga e tornámo-nos amigos. Bebemos as primeiras cervejas juntos e falávamos de Amor como se dominássemos o assunto. Não dominávamos, mas parecia que sim e só ele sabia de quem eu gostava mesmo.
Hoje, tantos anos depois, gostava de lhe poder dizer que uma dessas miúdas é a minha namorada, por quem estou apaixonado como quando andava no liceu. É essa a recordação que eu tenho da escola. De Amores transformados em lágrimas e lágrimas transformadas em abraços. É certo, mais um murro ou um pontapé à mistura.
Talvez hoje a escola não esteja a formar pessoas, não esteja a ensinar-nos a viver com o sucesso e com a derrota, ambos inerentes à própria vida. Talvez a competição instaurada entre alunos seja um erro e talvez a maior parte dos professores não tenha mais forças para realmente o ser.
Há qualquer coisa de errado nisto tudo, menos os putos.

6.06.2013

eu sou feliz sendo prostituta


O Ministério da Saúde brasileiro acabou de retirar uma campanha chamada "eu sou feliz sendo prostituta". O objectivo da campanha, idealizada para ser lançada no Dia Internacional das Prostitutas, era incentivar o uso do preservativo. O objectivo era óptimo, a ideia nem por isso.
Partir do princípio que uma prostituta é feliz por usar preservativo equivale a dizer que um servente ou um engenheiro civil é feliz por usar capacete de protecção no trabalho, que um polícia é feliz por andar com uma arma ou que um professor primário é feliz por ter um bocado de giz na mão. Nada disto é verdade.
A campanha tem, no entanto, o condão de nos fazer pensar se somos felizes no trabalho.  Normalmente não somos, porque a forma como trabalhamos, ou melhor, como somos obrigados a trabalhar, está errada. Em empregos que não gostamos, somos normalmente explorados e até desrespeitados. Por isso, usar aquilo que é suposto usarmos no trabalho não chega para nos sentirmos felizes.
Pior ainda, a grande maioria das pessoas que eu conheço que é feliz no trabalho já perdeu a capacidade de ser feliz fora dele, ou seja, perdeu a capacidade de ser feliz na vida. No Amor também.
A campanha é fraquinha, mas começa pelo ponto certo. Quando falamos em organização política, em relações laborais e produtividade, só faz sentido começar pelo objectivo da felicidade. A maior parte de nós é que tem a mania de não o fazer...

6.04.2013

conversa 2016

(ao telefone)

Ela - Ando um bocado em baixo...
Eu - Eu também...
Ela - Vamos beber um copo hoje?
Eu - Eu preciso de alguém que esteja com boa disposição. Se me junto contigo, que também estás em baixo, ainda é pior...
Ela - Ah! É que eu, para ficar bem, preciso de estar com alguém que ainda esteja pior do que eu.

respostas a perguntas inexistentes (255)

Just in case

Tenho saudades da Sandra. Não sei porquê, mas tenho. Muitas. Já não a vejo há tantos anos que lhes perdi a conta. Na verdade, não faço a mínima ideia se alguma vez a vou ver até ao fim dos meus dias. Perdi-lhe totalmente o rasto e só sei que emigrou para outro país qualquer. Nem sequer a encontro nas redes sociais. O mais provável é ela já não se lembrar de mim. 
Eu ouço-lhe a voz, sinto-lhe o cheiro e principalmente ouço-a chamar-me. A Sandra não era apenas uma amiga. Era A Amiga. O pior disto tudo é que nem sequer me despedi dela na última vez que a vi. Não sabia que ela ia desaparecer para sempre e limitei-me a dizer-lhe: "telefono-te um dia destes". Uns dias depois alguém me disse que ela tinha ido viajar por impulso. Uma chatice familiar ou coisa parecida. Nunca mais voltou. Que merda.
Quando ando mais triste é dela que me lembro. Aliás, hoje já confundi quatro ou cinco transeuntes com ela. Abri os olhos e, por um milésimo de segundo, senti a alegria enorme desse improvável encontro. Não era ela, mas deu para perceber o que me vai acontecer se um dia a encontro mesmo. Vou-me sentir feliz. Estou ansioso.
Entretanto despedi-me agora duma amiga que me deu boleia para casa. Parou o carro sem desligar o motor mesmo em frente a minha casa e eu disse-lhe: "telefono-te um dia destes". Depois saí e ela arrancou no seu carro preto que se fundiu na noite escura. Eu subi o elevador, entrei em casa e liguei o computador. Entretanto mandei-lhe uma mensagem pelo telemóvel: "gosto de ti, sabias?". Just in case.

6.03.2013

pensamentos catatónicos (297)

Hoje, não por acaso

Hoje, não por acaso, lembrei-me dela. Nunca percebi se a Amei sem me apaixonar ou se me apaixonei sem a Amar. Só percebi o meu corpo clandestino, como um fugitivo sem papeis, a querer esconder-se no dela. Assim, sem cartão de cidadão nem passaporte, e ela a deixar sabendo que era ilegal.
Hoje, não por acaso, lembrei-me duma bebedeira de batidos de fruta mais uma guitarra com cinco cordas, um tapete na parede com dois cavalos e um rádio fanhoso a tentar captar a nossa atenção. Depois ela, e eu sem perceber se era a sorte ou o azar que me tinha levado até ali, àquela doce e terminável fonte de prazer.

- E agora? - perguntei

Hoje, não por acaso, lembrei-me do dedo indicador da mão direita dela a trancar-me suavemente os lábios, e os dela a dizerem shhhhhhhhh!, como se o silêncio fosse a única razão para estarmos ali fechados em nós mesmos, por uma só vez.
Hoje, não por acaso, lembrei-me de a ter levado ao autocarro, numa linha qualquer que ligava a rotunda da Boavista à cidade da Maia, e de eu ter ficado ali horas depois de lhe dizer adeus, acreditando que se ali ficasse talvez a tornasse a ver. E a cidade disse shhhhhhhh!
Hoje, não por acaso, lembrei-me que o Amor tem esta mania estúpida de, mais tarde ou mais cedo, nos vir dizer que não é bem assim. Que estávamos enganados e nos devemos sentir gratos por isso. E eu aqui, a concordar com ele, que me sinto grato por ter existido e por me lembrar dele. Hoje, não por acaso.

5.30.2013

conversa 2015

Ela - Passei ontem à noite pelo meu ex-namorado e ele fingiu que nem me viu. Ia com a namorada nova dele. Hoje de manhã telefonou-me e explicou-me que a gaja não o deixa falar comigo. Achas normal?
Eu - Acho um absurdo.
Ela - E eu chego à conclusão que namorei dois anos com um banana...
Eu - Ou é um banana, ou ela tem qualquer coisa de muito especial que o faz aceitar isso.
Ela - O que é que pode ser tão especial assim?
Eu - Hum...
Ela - Já percebi. Agora tira esse ar de criança a pensar em doces!

5.29.2013

pensamentos catatónicos (296)

Os jornais andam a dizer que este vai ser o Verão mais frio em Portugal dos últimos duzentos anos. Por mim tudo bem, pode ser. Na verdade é-me igual ao litro. O que não me é indiferente é que, nos dias que correm, tudo o que acontece tem que ser o mais não sei quê do mundo.
Se não for o frio a ser o mais frio de todos, é um calor que é o mais quente. Também pode ser um shopping a ser o maior numa determinada área, uma equipa de futebol a ser a mais cara num determinado campeonato ou até, imagine-se, a mulher a ter as maiores mamas do mundo.
Em Portugal sublinhamos tudo o que é mais do que o resto. Temos o maior farol da península Ibérica em Aveiro, Lisboa tem o maior hipermercado do país e o jogador de futebol mais caro do mundo é português. Mais ainda, no Euro 2004 fizemos o maior logótipo humano da História, no Natal gostamos de ter a árvore de Natal mais alta da Europa e, por falar em Natal, também costumamos fazer os maiores desfiles de Pais Natal. Além disso, já perdi a conta aos maiores bolos, pães e feijoadas sobre pontes que se realizaram neste país.
Talvez este Verão não seja o mais frio dos últimos duzentos anos, mas se não o anunciassem assim, ninguém lhe ligava nada.
Não interessa como se é, interessa quanto se é desde que se seja o maior. Este país transformou-se num livro de recordes e, imagine-se, não é feliz.. E eu, que aprendi com a vida a detestar todos os que tentam ser mais do que os outros, ando aqui a tentar Amar o mais possível, sem ser aquele que Ama mais entre quem passa por mim.


5.27.2013

conversa 2014

Ela - Tens horas?
Eu - Não.
Ela - Não tens?!
Eu - Não. Esqueci-me do telemóvel em casa e nunca ando com relógio.
Ela - Como é que é possível alguém andar sem horas?!
Eu - Também andas, caso contrário não perguntavas.
Ela - Eu tenho o telemóvel, mas está na minha carteira e dá muito trabalho encontrá-lo.

5.24.2013

respostas a perguntas inexistentes (254)

Conheci-a numa festa qualquer. Nenhum de nós gostava de dançar, nenhum de nós gostava da música demasiado alta, nenhum de nós queria acabar a noite com demasiado álcool no sangue. Acabámos por ficar os dois na cozinha, o local de culto habitual para quem está numa festa sem querer efectivamente estar e sem querer, efectivamente também, não estar. Falámos de nós e, tanto quanto me lembro, de temas tão diversos como a música pop nos anos oitenta, o queijo de cabra francês, a cordilheira dos Andes ou a forma como as Orcas caçam focas bebés.
A festa acabou para todos eram aí umas quatro da manhã. Menos para nós. Como se costuma dizer, a coisa aconteceu. Primeiro comprámos dois grandes copos duma espécie de café na máquina automática duma bomba de gasolina, que bebemos ainda dentro do meu carro minúsculo. Acabámos por aceitar que estávamos os dois a esticar a noite com o mesmo propósito. Ela levou-me para casa dela. Lembro-me, especialmente, do contraste entre o frio dos lençóis e o calor do corpo.

- É tão estranho! - disse ela.
- O quê?!
- Se passasses por mim na rua, serias apenas mais um transeunte sem qualquer tipo de interesse...

E eu a pensar que não. Se passasse por ela na rua seria apenas mais uma transeunte, sim, mas com todo o interesse do mundo. Olharia para ela fingindo que não o estava a fazer. Talvez me baixasse para dar um jeito aos atacadores dos sapatos e, tão certo como eu estar ali, suspiraria pelo menos uma vez.

É sempre essa a diferença entre um homem e uma mulher, pensei. Um homem é sempre um homem qualquer, enquanto aquela mulher é sempre aquela mulher.

5.21.2013

conversa 2013

Ela - Lembras-te daquela noite em que demos as mãos e passámos horas abraçados a olhar para a Lua cheia?
Eu - Hum... aquela em que finalmente, depois de anos a esforçar-me, tivemos sexo?
Ela - Essa mesmo.
Eu - Lembro, já foi há uns sete anos. Depois nunca mais...
Ela - Pois não. Acabo de perceber porquê.

5.20.2013

conversa 2012

Ela - O meu marido já te fez queixas, alguma vez, da vida sexual dele?
Eu - Não. Já nem falo com ele há bastante tempo. Porquê?
Ela - Constou-me que ele se anda a queixar da vida sexual que tem comigo.
Eu - Ah! Não sei de nada...
Ela - O que eu acho incrível é que ele a mim não me diz nada. Depois vai-se queixar aos amigos...
Eu - Não podes ter a certeza que ele se vai queixar aos amigos. Alguém pode ter inventado isso...
Ela - Deve ter queixado, deve...
Eu - Porque é que dizes isso?
Ela - Era muita coincidência inventarem isso exactamente na altura em que ele tem razões de queixa.

5.18.2013

conversa 2011

(ouvi hoje no comboio Aveiro-Porto)

Ele - Ainda me Amas?
Ela - Mais ou menos...
Ele - Mais ou menos?!
Ela - Sim, mais ou menos. Mas sabes isso, não sabes?
Ele - Ahn?!
Ela - Já estamos um bocado cansados um do outro. Sabes isso, não sabes?
Ele - Sei lá o que é que eu sei...
Ela - Preferes que te minta e te diga que estou louca por ti?
Ele - Se calhar prefiro.
Ela - Estou louca por ti. Amo-te muito. Sabe-te bem ouvir isto?
Ele - Não.

5.17.2013

respostas a perguntas inexistentes (253)

Até que enfim que é sexta-feira, disse ela. Eu não respondi e, para além da poupança nas palavras, tentei evitar a mais pequena reacção facial que fosse. Depois ela insistiu. Até que enfim que é sexta-feira, repetiu com o mesmo tom de voz. Por fim ficou a olhar para o fundo da chávena vazia.
Tomo café com a Cristina uma vez por outra. Na verdade, chamo-lhe a minha amiga dos cafés. Nunca saio com ela à noite, não vamos os dois ao cinema, nem sequer jantamos juntos uma vez que seja. Tomo café com ela de vez em quando, sempre depois do almoço. É que à noite noite, diz ela, gosta de ficar em casa sozinha.
Até que enfim que é sexta-feira, repetiu. Eu costumo sorrir. Menos hoje. Depois ela pediu-me explicações para o silêncio. Não me agrada a ideia de que a vida seja isto: andar cinco dias a suspirar pelo sexto. Pagámos os cafés, saímos, despedimo-nos e afastámo-nos. Telefonou-me três minutos depois a perguntar se podemos jantar um dia destes. Que sim, respondi.


5.15.2013

respostas a perguntas inexistentes (252)

ser pragmátic@

Existe por aí uma mania qualquer de considerar que o pragmatismo é a melhor coisa do mundo. Ser pragmático é optar pela eficiência em detrimento da emoção e do intelectual. Enfim, abdicar de tudo para ser eficiente. Ainda hoje, em conversa com uma amiga que se orgulha de ser pragmática, percebi que ela abdica de grande parte do tempo que tem para estar com quem Ama, em nome das horas extras no emprego.
Trabalha mais, vive menos. Tem orgulho nisso.
O problema das pessoas pragmáticas costuma ser  a morte. Não há nada mais pragmático do que a morte, já que no fim morremos todos. Quem abdica de alguma da sua vida antes da morte está a morrer antes do tempo. É isso que é ser pragmático e é isso que o mundo nos diz para sermos hoje em dia.
Eu orgulho-me de não ser pragmático. Costumo pôr a minha vida antes de qualquer outra coisa. Desculpem qualquer coisinha, mas nem a merda do produto interno bruto, nem a dívida externa portuguesa, nem as imposições da Troika me convencem a abdicar de mim mesmo. Opto pela vida. Quando me deixam, claro.
Sou pragmático o suficiente para perceber que o pragmatismo é uma merda. É a força de quem ainda não percebeu a lógica da existência, ou seja, do Amor.
Devia ser proibido ser pragmático. Por mim, a lei devia obrigar-nos a ser líricos, inúteis e crianças de vez em quando. Não é por nada de especial. Só para sermos felizes. Só para que a vida não passe por nós sem que passemos por ela. 

5.14.2013

conversa 2010

Ela - Tenho quarenta anos e ainda ando à procura da minha alma gémea. Tu, ao menos, já encontraste a tua.
Eu - Não encontrei nada.
Ela - Não?! Pensava que tu e a Raquel...
Eu - Sendo muito sincero, nunca quis encontrar a minha alma gémea. Para quê?! Ia eu apaixonar-me por uma alma idêntica à minha?! Que grande seca! O que sempre procurei no Amor, foi encontrar uma alma diferente pela qual me apaixonasse.
Ela - Arranjas sempre forma de me confundir.

5.08.2013

pensamentos catatónicos (295)

rosé

Os portugueses em geral detestam o vinho rosé. Inventaram-no, mas não o bebem, e dizem-no com orgulho. Tive uma namorada que me olhava de lado sempre que eu me servia um copo de rosé.

- Isso não é vinho! - tugia ela.

Eu gosto de rosé. Na verdade, posso dizer que adoro rosé. O rosé é o melhor de dois mundos: o mundo do tinto e o mundo do branco. Aliás, sempre que eu abria uma garrafa de rosé, ela abria uma de tinto ou de branco. Os dois bebíamos como se, naquele preciso momento, houvesse uma enorme cratera a separar-nos. Eu, sempre com a sensação que tinha mais mundo do que ela.
Namorámos, sei lá... talvez uns três meses. Quando ela se foi embora apertou-me a mão. Deu-me um passou bem, por assim dizer, e segredou-me que devia ter adivinhado que não podia ter uma relação com um homem que bebia rosé.
Perguntei-lhe se não me dava um abraço de despedida. Que não, respondeu ela. Os abraços dão-se quando existe Amor. Fiquei fodido. Vi-a fechar a portar de casa e, pela janela, afastar-se lentamente até se diluir no horizonte.
Os abraços dão-se quando são precisos, pensei. Eu precisava dum abraço. É esta mania das purezas que me revolta. Abraços puros, Amores puros e vinhos puros. Eu queria um abraço, mesmo que não tivesse a pureza do Amor. Precisava dele. O rosé, por exemplo, não é puro. Mas sabe bem...

5.07.2013

conversa 2009

Ela - Os homens são qualquer coisa, realmente. Um vizinho meu, casado e com filhos, desceu ontem comigo no elevador e fez-se a mim.
Eu - Fez-se a ti, como?
Ela - Perguntou-me se eu estava bem, depois começou a dizer que eu parecia muito bem e que sempre me achou muito bonita. Já na porta do prédio, disse-me que a relação dele com a mulher não está muito bem...
Eu - Sim, é conversa de engate.
Ela - Pois, mas ele é casado e com filhos. Pior ainda, eu conheço a mulher dele.
Eu - Também só o aturas se quiseres...
Ela - Sim, isso é verdade. Agora há duas hipóteses.
Eu - Que hipóteses?
Ela - Ou corto definitivamente com o gajo e deixo de lhe dar confiança, ou então vou uma vez para a cama com ele, na casa dele, e esqueço-me das minhas cuecas bem lá no fundo dos lençóis...

5.06.2013

pensamentos catatónicos (294)

Às vezes guardamos aquilo que sentimos dentro de nós como se fossemos um frasco de vidro. As tristezas, as alegrias, os Amores e desAmores, que para todos os efeitos habitam dentro de nós em permanente desconforto, estão latentes.
É por isso que evitamos chorar à frente dos outros. É também por isso que hesitamos em assumir que Amamos alguém. Por algum motivo que ninguém explica, mas todos nós compreendemos, sabemos que as emoções são uma fragilidade. De uma maneira ou de outra, talvez o Amor seja mesmo a maior fragilidade de todas. Aquela que faz de nós uma embalagem com as setinhas a indicar para que lado temos que estar virados para não quebrarmos.
Quebrar, como está escrito em alguns vidros, só em caso de urgência. É quando choramos, sorrimos ou gritamos pelo que está dentro de nós.
De Istambul trago muitas recordações. Algumas doces, outras nem por isso. Mas, agora que estou aqui sentado em casa numa manhã primaveril, só me pergunto como estará a mulher com quem me cruzei há uns dias atrás, numa estação qualquer do tram. Percebi que ela estava em dificuldade para entrar no cais.
O Istambulcard que ela passava no leitor automático dava erro e alguns passageiros, turistas na sua maioria, davam sinais de nervosismo e protestavam em línguas diversas. Voltei atrás, passei o meu passe na entrada dela e a passagem abriu como se fosse uma ampulheta a iniciar a contagem do tempo.
Reparei, por uns segundos, que ela estava a chorar. Nervosa, limpou os olhos com as mãos e só depois é que me agradeceu. Com um sorriso, porque percebeu que também eu não falava turco. Os nossos olhares tornaram a tocar-se quando ela entrou no primeiro tram e, ao afastar-se, me disse adeus com as mãos. Somos todos iguais.

4.28.2013

conversa 2008

Ela - Então, está tudo bem?
Eu - Não posso estar ao telefone contigo. Estou em Istambul e é muito caro.
Ela - Estás em Istambul? Sortudo.
Eu - Não posso é estar aqui ao telefone...
Ela - Estás a gostar?
Eu - Sim. Depois falamos...
Ela - Quanto é que foi a viagem?
Eu - Depois falamos.Pára de fazer perguntas. Olha! Vou desligar...
Ela - Nunca me queres ouvir...
Eu - Não é isso...

 (fiquei sem saldo)

4.25.2013

coisas que fascinam (160)

Istambul 

Lembro-me de acordar muito devagar, embalado pelo suave soluçar do comboio que atravessava a Europa, por sentir que alguém tinha entrado no mesmo compartimento onde, até então, eu tinha viajado sozinho. Quando abri os olhos vi uma mulher bonita, de olhos tão azuis como o céu que espreitava pela janela. Lia um livro cujo autor e título eu não conhecia. Estávamos algures na Alemanha, e desejei secretamente que ela se dirigisse para o mesmo e longínquo destino que eu, fosse ele qual fosse.

Lá fora, alguns telhados de casas pontilhavam uma misteriosa floresta densa e escura. De vez em quando, a espaços, algumas pessoas marcavam presença nas janelas ou nos quintais, uma demonstração de que ali existia vida humana. A paisagem, a mim, lembrava-me mais o cenário dum conto fantástico, povoado apenas por bruxas, duendes e espíritos milenares.

Num troço do percurso, sem motivo aparente, o comboio diminuiu bastante a velocidade, e tive a sensação que alguns espantalhos de palha e roupas velhas nos observavam com curiosidade. Entre dois desses espantalhos, uma criança que brincava a alguns metros de dois agricultores levantou-se e disse-nos adeus. Sorri perante aquele gesto, de levantar a mão direita e abaná-la como o pêndulo de um relógio antigo virado ao contrário, por concluir que faz parte duma linguagem universal, comum a quase todo o planeta. Talvez mesmo todo o planeta, pensei. Depois respondi fazendo exactamente o mesmo.

Reparei então que a viajante que entrara no meu compartimento me observava pelo canto do olho, mas quando lhe devolvi o olhar, ela voltou à sua leitura como se nela estivesse muito compenetrada. Aproveitei esse momento para a analisar ao pormenor. Tinha uma face bastante magra e o queixo saliente, supostamente capaz de fazer um sorriso bonito que eu não cheguei a conseguir ver. Era loira, ancas relativamente largas e oprimidas por umas calças pretas demasiado apertadas.

Por qualquer motivo que não percebi, fiquei com uma vontade enorme de falar com ela, de a conhecer, de saber de onde vinha, para onde ia e o que pensava do mundo. Levantei-me instantaneamente e tirei da mochila um termo de café quente que uma amiga me tinha oferecido em Paris, ao qual era possível subtrair duas canecas de plástico, e servi-me duma chávena fumegante. Depois, assim como quem não quer a coisa, perguntei-lhe em inglês se era servida. Para meu espanto ela disse que sim.

Era russa e viajava para a Ucrânia. Tinha saído nessa manhã de Lille, em França, e ia encontrar-se com a namorada em Kiev. Tinha medo de andar de avião, confessou antes de me começar a fazer perguntas sobre mim.
Tem que haver qualquer coisa de muito especial entre algumas pessoas, pensei eu, para que nos interessemos por trivialidades referentes a pessoas que acabámos de conhecer. E há mesmo. Apesar de eu nunca ter visto aquela mulher antes, era genuíno o meu interesse pela origem e passado dela.

Expliquei-lhe que vinha de Paris, onde tinha estado três dias, e não sabia para onde ia. No entanto, com alguma sorte talvez acabasse em Istambul dentro de um dia ou dois. Era verdade que nessa viagem eu não sabia para onde ia. Sabia apenas que quando aquele comboio chegasse ao seu destino, na Áustria, eu procuraria imediatamente outro para outro sítio qualquer. Istambul era apenas uma das cidades que eu mais queria conhecer, e portanto um dos possíveis destinos para quem se podia dar ao luxo de simplesmente mudar de direcção em qualquer momento.

- Vais ter com alguém? - Perguntou-me ela.
- Não. Estou a viajar sozinho.
- Não se deve ir a Istambul sozinho. É uma boa cidade para quando estamos apaixonados.

Não percebendo muito bem porque é que ela me disse aquilo, acredito que tenha sido o motivo para eu não ter lá ido. De certa forma, acreditei que o que podia ganhar ao visitar Istambul, poderia perder no exacto momento em que me visse sozinho e, portanto, sem ninguém para partilhar a experiência. 

Passaram-se anos desde então, e nunca cheguei a visitar aquela cidade dos meus sonhos. Vou fazê-lo amanhã e durante a próxima semana, porque neste momento me encontro nas condições definidas por essa efémera companhia de viagem há muitos anos atrás.

Depois de todo este tempo, se algum dia a encontrar por aí, num dos escaninhos deste planeta, tenho a certeza que a poderei identificar pelo queixo. Talvez lhe agradeça o conselho. Talvez a veja sorrir. Talvez até lhe diga que já estou em condições de visitar Istambul.

4.23.2013

Estarreja rules!


Enquanto estava na fila para ser atendido numa repartição das finanças aconteceu aquele pequeno incidente. Ao meu lado sentou-se a mulher mais bonita do mundo, pelo menos no que era o mundo naquele momento e naquele sítio. Quando chegou a minha vez de ser atendido, dirigi-me ao balcão e disse adeus àquela fogosa paixão. Nesses dez minutos de espera, aquele Amor foi a coisa mais importante da minha vida.
O meu mundo tem essa mania de ser aquilo que pode ser. Nem mais, nem menos. Está, por isso, condicionado pelo espaço, pelo tempo e por quem o partilha comigo. As paixões, neste âmbito, podem ser uma coisa estranha.
Hoje de manhã, durante mais de uma hora, o meu mundo foi a Biblioteca da Escola Secundária de Estarreja, onde estive a conversar com algumas dezenas de alunos sobre o que ando aqui a fazer, sobre o que andamos todos aqui a fazer.
Serve o presente para agradecer aos que me aturaram durante esse espaço de tempo e aos que proporcionaram a oportunidade. Estarreja rules!

4.22.2013

respostas a perguntas inexistentes (251)

É a hora do almoço e Dora não tem fome 

É a hora do almoço e Dora não tem fome. Saiu da cama há apenas alguns minutos, depois de ter estado algumas horas naquele limbo delicioso que é vaguear entre o sono e a luz, espreguiçando-se espaçadamente como se fosse um gato sem preocupações. Por falar em gatos, o Kiko também só agora deu sinais de vida, miando desesperadamente ao pé da taça de comida vazia.
Ontem tiveram uma longa conversa os dois, Dora e o gato, que é o mesmo que dizer que ela passou toda a noite a falar consigo mesma, enquanto o felino ronronava fingindo compreensão. É motivo mais do que suficiente para ter inveja do Kiko, esta forma de viver cuja maior preocupação é o abastecimento da sua taça de comida. Quem lhe dera a ela conseguir preocupar-se apenas com o que se encontra dentro do seu frigorífico e da despensa. Não consegue, e por isso é que às vezes passa as noites em claro.
As conversas que tem com ela mesma são normalmente aquelas que não teve com quem era suposto. Nem quando era suposto. Ontem, por exemplo, teve um jantar silencioso com o marido. Nem sequer saber do que lhe queria falar, nem sequer sabe o que lhe queria ouvir. Sabe, no entanto, e com toda a certeza do mundo, que queria que as palavras de ambos se beijassem no ar. Não beijam.
É a hora do almoço e Dora não tem fome. Encosta-se à janela, de onde pode ver todo aquele formigueiro excitado que é Lisboa quando almoça. Pergunta-se quantas pessoas daquelas terão conversado com o seu Amor no jantar de ontem à noite. Não sabe a resposta. O gato também não.

4.19.2013

conversa 2007

(na minha casa)

Ela - Estou outra vez solteira.
Eu - A sério?!
Ela - Sim. Eu e o Daniel acabámos ontem.
Eu - Então?
Ela - Então... eu sou muita mulher para ele. Ele não aguentava comigo...
Eu - Não acho que sejas mais pesada do que ele...
Ela - Bem, vou embora.
Eu - Já?!
Ela - Sim. Estar a falar contigo ou com uma parede é a mesma coisa.
Eu - Lá estás tu.
Ela - Percebes que eu não estava a falar do meu peso, nem do peso do Daniel?!
Eu - Estavas a falar de quê?
Ela - Estava a falar da maneira de ser. Ele não aguentava com a minha maneira de ser.
Eu - Pronto, desculpa. De qualquer maneira vai dar ao mesmo.
Ela - Ao mesmo?!
Eu - Sim. Também não acho que sejas mais chata do que ele.
Ela - Às vezes pergunto-me porque é que continuo a ser tua amiga...

4.17.2013

pensamentos catatónicos (293)

Um bêbado senta-se ao meu lado num café dos subúrbios onde, para além de mim, só está o dono. É um homem gordo, com um lápis atrás da orelha que vai tirando para fazer contas num caderno que o tempo pintou de amarelo.
Fui até lá de bicicleta e, para ser sincero, nem sequer sei bem onde estou. Não sou dali, daquele subúrbio de Aveiro onde nunca estive antes, e o bêbado sabe-o. Eles conhecem-se bem, tão bem que um copo cheio de vinho tinto aparece subitamente em cima do balcão.
Estou a escrever na minha imitação de moleskine, mas ainda nem sei bem sobre o que estou a escrever. Tenho algumas frases que talvez venham a dar alguma coisa. Ou talvez não, penso.

- A poesia é sempre erótica! - diz o bêbado.

Eu rio-me. Desconfortável por ele estar a olhar para mim, mas rio-me.

- Quando escrevemos poesia fazemos Amor com as palavras! - insiste ele.

Continuo a rir, embora tente engolir o riso.

- Eu sou bêbado porque nunca fui bom a fazer Amor com as palavras! - conclui.

O homem serve-lhe outro copo, que ele bebe duma só vez. Dá-me uma pancadinha nas costas e vai-se embora. Eu rio-me, mas fico a pensar no que ele disse. Também peço um copo de vinho.

4.15.2013

pensamentos catatónicos (292)


a cebola faz chorar

Anabela não sabia morrer. Às vezes pensava nisso e chegava sempre à conclusão que era bom a morte ser inevitável, caso contrário nunca conseguiria pôr termo à vida. Se não sabia morrer, muito menos sabia matar-se. A sua morte chegaria um dia, portanto, da mesma forma que outra coisa qualquer. Picar cebolas, por exemplo. Anabela não sabia picar cebolas, mas fazia-o sempre que decidia cozinhar um refogado.
Lembra-se de, em criança, ver a mãe de barriga encostada à banca da cozinha a picar cebolas, com um avental branco que tinha o desenho duma árvore. Era incrível como, apenas com uma simples faca, a cebola ficava tão bem picada. Aliás, às vezes parecia que aqueles bocadinhos pequenos de cebola eram todos iguais e, por isso, esculpidos à medida. A mãe era, de facto, uma artista na cozinha, e depois chorava sempre um bocadinho.

- A cebola faz chorar! - dizia então.

Anabela também chora quando tenta picar cebolas da mesma maneira. Só não tem a certeza que seja por causa delas. Aqui há uns dias passou a tarde a sentir-se sozinha, depois de um almoço silencioso com o namorado. Nunca chorou, apesar da tristeza, até chegar o momento de picar cebolas para o jantar. Ao fazê-lo, os seus olhos transformaram-se em cascatas. O namorado passou por trás sem dizer nada (ainda não tinham trocado palavra nesse dia), mas ela sentiu-se na necessidade de se justificar.

- A cebola faz chorar! - disse.

Ao almoço, ela tinha posto em cima da mesa uma panela de massa com tomate e carne estufada. O namorado sentou-se e não a cumprimentou. Também não comeu nada do que lá estava. Limitou-se a ir ao frigorífico buscar um pouco de pão e queijo levou para o sofá e devorou enquanto via televisão.
Ela levantou-se em silêncio, arrumou o prato e os talheres dele na gaveta da cozinha. Depois guardou as sobras no frigorífico e foi para a janela ver se o mundo lá fora ainda estava vivo. Estava, ou pelo menos parecia. Dois pardais disputavam um pedaço de pão no passeio e uma mulher passeava um cão do outro lado da rua. Era só ali dentro de casa dela que as coisas pareciam ter parado de repente. Durante o resto da tarde, como já disse, não chorou.
Não chorou, mas chegou a uma conclusão. Os momentos mais importantes da vida não são aqueles em que os outros nos dão importância. São sim, aqueles em que decidimos alguma coisa. Por exemplo, decidir ter um cão, ir passear à praia, comer um chocolate ou sorrir a um desconhecido na rua são momentos importantes. São eles que definem a nossa vida no tempo seguinte. Da mesma forma, decidir cortar cebola para poder chorar à vontade, também é uma decisão importante.
Desta forma, a decisão que tinha tomado de namorar com aquele homem, tinha feito com o que o tempo seguinte tivesse este dia incluído, com um silêncio tão imperceptível quanto incomodativo. Bastaria, num momento qualquer, decidir não namorar mais com ele e tudo mudaria.
Por hoje, Anabela decidiu apenas abraçar-se a si mesma, e nesse abraço tentar agarrar o vento que corre interminavelmente pelas ruas da cidade. Decidiu sentir-se feliz por poder optar por brincadeiras improvisadas nessa dança solitária, como pisar apenas os riscos brancos nas passadeiras quando as atravessa, chutar pedrinhas brancas em direcção aos buracos de esgoto como se quisesse marcar um golo ou, depois mais à noite, picar cebola para chorar à vontade. E, claro, dizer que a cebola faz chorar.

coisas sobre mulheres que leio nas portas de casas de banho públicas (6)

Não gosto das novas casas de banho dos restaurantes e dos shoppings. Já não são como antigamente, em que a porta e as paredes estavam repletas de escritos e sabedoria popular. Agora estão sempre limpas, o que é o mesmo que dizer vazias de conteúdo. É muito raro encontrar uma casa de banho à antiga, embora uma vez por outra ainda seja possível, num restaurante duma estrada nacional ou num tasco esquecido dos subúrbios da cidade.
Também é verdade que a internet acabou em grande parte com esta forma de comunicação. Agora escrevemos qualquer coisa num blogue ou numa rede social e ela é lida por milhares de pessoas. Dantes, as portas das casas de banho públicas eram a melhor garantia de chegar a um grande número de pessoas. Nos anos setenta e oitenta, as casas de banho eram a rede social mais popular do mundo.
O problema estava na questão de género. Como as casas de banho eram divididas por géneros, também o eram todos os posts escritos a caneta, esferográfica, ou até com um isqueiro queimando a madeira das portas. Aquilo que um homem escrevia, era lido apenas por homens. O mesmo se passava com as mulheres.
Pensei nisto hoje por causa da Eva, que me ligou logo de manhã para combinar um café. Lembro-me dela me ter explicado uma vez, há muitos anos, que para Amar alguém temos primeiro que gostar de nós mesmos. 
Discordei e, a meio de algumas cervejas e argumentos, interrompi a coisa para ir à casa de banho. Mesmo à minha frente, por cima do autoclismo, alguém tinha pintado com um grosso marcador preto: "Odeio-me a mim mesmo, mas estou apaixonado por ela!". 
A discussão chegou a um ponto em que, com este meu último argumento e a pedido da Eva, fiquei à porta da casa de banho dos homens durante dois minutos, para ela poder entrar e ler a frase com os seus próprios olhos. Insistiu que tinha sido eu a escrever a frase. Desmenti.
Coincidência ou não, deu-me hoje razão nessa matéria. Uns vinte e cinco anos depois. 

- Preciso tomar um café contigo - disse.

4.11.2013

conversa 2006

Ela (ao ver-me) - Grande carecada!
Eu - É que corto o cabelo a mim mesmo com a máquina, percebes? Vou cortando até ficar todo igual, mas só consigo quando o pente é mesmo muito curto.
Ela - Ah! Já me aconteceu.
Eu - Já?! Não me lembro de te ver com o cabelo rapado.
Ela - Não foi na cabeça, totó!

4.10.2013

respostas a perguntas inexistentes (250)

- Pára de olhar para as outras mulheres - disse ela.

Todos no café ouviram, incluindo a mulher em quem aquele homem pousava brandamente os olhos. Era bonita, e também eu fizera o mesmo. Aliás, dei comigo a dar goles num copo de cerveja já vazio durante o processo. A mulher dele é que não gostou. Deu-lhe um puxão no braço e marcou território com aquele grito.
Eu gosto que a minha companheira de vida olhe para outros homens. Gosto até que suspire por eles. É a única forma que tenho de ter a certeza que ela me escolheu entre todas as possibilidades, apesar de haver muitas. Se ela olhasse só para mim, talvez andasse comigo apenas por ignorância.
Eu gosto de olhar para outras mulheres. Aliás, é depois de me deliciar com a sua presença que fico com a certeza de por quem estou apaixonado. Há tantas mulheres bonitas, que não pode ser só por isso que sinto isto que sinto. A definição de Amor, a existir, anda por aí.
Olhar para uma mulher bonita é o melhor dos museus. Apreciamos verdadeiramente aquilo que vemos, jogando ao mesmo tempo para que o nosso olhar não se torne invasivo. Mesmo que para isso tenhamos que dar um gole num copo de cerveja já vazio, vestir um casaco do avesso ou ir contra o poste dum sinal de trânsito.
Olhar para uma mulher bonita não significa ser voyeur. Significa, já que há tantas por aí, estar permanentemente a inspirar fundo como se estivéssemos a ver pela primeira vez as cataratas do Niagara.

- Não pares nada! - diria eu àquele homem.

Mas não disse.

4.09.2013

conversa 2005

(ao telefone)

Ela - Ando a comer tão mal...
Eu - A sério?!
Ela - Sim.
Eu - Epá! Vou fazer umas pizzas para o jantar. Queres vir jantar aqui a casa?
Ela - Não me entendeste. Ando a comer demais.
Eu - Pensei que tinhas dito que andavas a comer mal.
Ela - E disse...

4.08.2013

tenho marido na Ucrânia


Nunca pensei tornar a vê-la. Na verdade, para ser sincero, já nem tinha bem a certeza da sua existência real. Talvez tivesse sido apenas um produto da minha imaginação, naquela altura em que a minha mente criava mulheres em série, como se fosse uma fábrica no auge da sua vida produtiva.
Não a reconheci por nenhum traço fisionómico, nem sequer pelo cheiro ou pela voz. Ia simplesmente a caminhar entre a multidão quando um som se destacou na cidade. Era o bater duns saltos altos nas pedras do passeio, quase igual e tão diferente de tantos outros. Pensei: “é ela”. Olhei para trás e era mesmo.
Num quiosque mesmo ao lado vendiam-se cartões telefónicos que prometiam bastantes minutos de conversa para países como a Roménia, Ucrânia, Turquia ou Grécia. Fiquei a pensar naquela venda que tratava o tempo como um produto consumível, como se fosse um tinteiro de impressora ou um frasco de polpa de tomate. No nosso caso, o tempo tinha sido isso mesmo, um consumível de pavio curto. Se no princípio tudo me parecera bem, assim que os nossos corpos se tocaram uma última vez tudo passou a ser uma vertigem.
Eu não andava à procura de nada, nem sequer de sexo, no dia em que ela se sentou ao meu lado do balcão dum bar e me pediu lume. A sensação de poder Amar alguém estava tão distante como um barco que lentamente partira em direcção à linha do horizonte, e eu pouco mais fazia do que trabalhar e ver jogos de futebol enquanto me embebedava num tasco qualquer.

- Não fumo! - respondi.
- Ainda bem. Eu também não...

Depois sorrimos ao mesmo tempo e pedimos mais um copo. Não sei, escusado será dizer, quanto ficou o jogo dessa noite. Sei que eram seis da manhã quando ela se levantou e se foi embora sem se despedir. Eu, a fingir que dormia, deixei-a ir conforme combinado. Lembro-me do som dos sapatos de salto alto, num ritmo fora do normal. Aliás, nunca mais me esqueci.
Era ela. Reconheci-a por esse mesmo som. Olhei para trás e vi-a comprar um desses cartões que nos dão tempo como se dessem vinho. Lembrei-me do acordo que fiz com ela nessa noite e retomei o meu caminho sem lhe dizer nada.

- Tenho marido na Ucrânia. Só preciso de alguém por uma noite.
- Está bem, então... - disse.

4.06.2013

conversa 2004

(ao telefone)

Eu - Vamos beber um copo?
Ela - Até ia, mas estou tão cansada que só me apetece dormir. Aliás, isto é sempre assim. Trabalho tanto durante a semana que passo os fins de semana a dormir. Quando finalmente me sinto em forma, já tenho que ir trabalhar outra vez.
Eu - Dito assim, é como se a vida te estivesse a passar ao lado.
Ela - E está mesmo. Não faço mais nada senão trabalhar, dormir e...
Eu - E quê?
Ela - E...
Eu - E sexo?
Ela - Não.
Eu - Ir ao cinema?
Ela - Não.
Eu - Ir às compras?
Ela - Nem por isso. É mesmo limpar a casa.
Eu - Desisto.
Ela - Eu também desisto.
Eu - Desistes?! Então bebemos um copo?
Ela - Não. Vou dormir.

4.05.2013

respostas a perguntas inexistentes (249)

Quando eu era criança frequentei exactamente as mesmas escolas que a minha filha tem frequentado agora, em Aveiro, algumas décadas depois. São exactamente as mesmas escolas, os mesmos edifícios e, em alguns momentos, até os mesmos cheiros. Para além duma ou outra obra de menor importância, a única coisa que mudou foi a entrada. Na minha altura as escolas estavam sempre de portas abertas, tanto para sair como para entrar. Agora têm porteiro e umas longas vedações.
As escolas são, antes de outra coisa qualquer, lugares. Lugares onde é suposto ensinar e aprender qualquer coisa, não apenas através da relação entre o aluno e o professor, mas também no estabelecimento do nossos primeiros laços sociais. Não critico, obviamente, a política de segurança nas escolas, mas tenho a percepção que estas crianças de hoje não têm o mesmo leque de opções que eu tive. 
Eu saía da escola para ir dar pão aos patos do parque, para brincar nos milheirais (que entretanto se transformaram num imenso bairro social), para andar de barco ou, muito simplesmente para sair desse lugar. A minha filha está confinada àquele espaço, assim como todos os seus colegas. Admito que hoje, enquanto esperava para poder falar com o porteiro da escola, pensei nisso como uma espécie de prisão. Fiquei com um nó no estômago. Afinal de contas, foi no princípio da adolescência que comecei também a percorrer esse longo e imenso pântano que é o Amor. Percorri-o, por exemplo, através duma árvore que era só minha e da Helena e que, só por acaso, ficava fora da escola.
Já não existe, essa árvore. Foi deitada abaixo para a construção duma avenida. Mas o que ainda existe é esse lugar que, apesar de tudo, faz parte da minha vida e me traz doces recordações. Entreguei o que tinha para entregar e voltei para o automóvel. Também nós somos lugares, pensei. Espero que a minha filha não se deixe transformar ela mesma num lugar fechado, com porteiro e altas vedações. Eu tentei nunca fazê-lo e, duma forma ou de outra, acho que é por isso que consigo estar apaixonado hoje, tal como estive na adolescência.

4.02.2013

conversa 2003

Ela - Hoje apetece-me ter sexo.
Eu - Caramba! Dizes-me isso assim, porquê?
Ela - Desculpa. Estava a pensar alto. Acho que vou mandar uma mensagem ao meu namorado.
Eu - A dizer que hoje te apetece ter sexo?
Ela - Sim. É que quase nunca me apetece e ele anda um bocado chateado, mas hoje apetece-me.
Eu (silêncio)
Ela - Na verdade até anda amuado. 

3.28.2013

pensamentos catatónicos (291)

É uma pena que os balcões dos bares estejam em vias de extinção. O balcão do café, com aqueles pequenos bancos giratórios, eram o melhor amigo do Homem, mas actualmente vivemos na ditadura das mesas de café.
Um homem quando está só, precisa tanto dum balcão de um bar como do ar para respirar. É que o balcão engrandece a solidão, uma mesa reprime-a. Um balcão é um tapete de boas-vindas a quem anda sozinho pelas ruas, uma mesa é um dedo acusador. "Estás sozinho e aqui só se sentam pessoas acompanhadas", diz-nos. É triste, mas é assim.
Quando um homem está sentado ao balcão de um café, está assumidamente só. Quando está numa mesa de café, não é possível perceber se está à espera de alguém, mas mesmo que não esteja, a tristeza é o ar que se lhe dá. As mesas de café, com uma só pessoa sentada, são um deserto de emoções.
O balcão sim, é uma verdadeira instituição de engate. O empregado de balcão, aliás, é outra. Um cliente pede uma cerveja mas compra também uma conversa sobre seja o que for, nem que seja o estado do tempo, e de repente tod@s @s solitári@s ali sentad@s estão a conversar através dele.
Foi assim que conheci a Luísa há alguns anos atrás. Sentei-me ao lado dela, deixando um lugar vazio entre nós para não parecer mal. Através do empregado, um tipo simpático de bigode ruivo, acabei por falar directamente com ela e saltar, em apenas alguns segundos, essa enorme distância dum pequeno banco giratório que nos separava. Ainda somos amigos e, uma vez por outra, ainda falamos desse dia com um misto de nostalgia e júbilo.
Hoje disseram-me que o Refúgio, o café com o maior balcão da cidade de Aveiro, já não existe. O tempo chamou-lhe velho e fechou-o. Resta-nos as trincheiras do café Ramona e da sala interior do Convívio. É uma pena. Hoje seria difícil conhecer a Luísa.

3.26.2013

conversa 2002

Ela - Já nem me lembro da última vez que me apaixonei...
Eu - Não?! Eu lembro-me das vezes todas que me apaixonei. Desde a escola primária até aos dias de hoje...
Ela - Sim, também me lembro. O que eu queria dizer é que já não me apaixono há anos.
Eu - Ah!
Ela - Os homens com que me tenho cruzado parecem-me desenxabidos. Não sei explicar muito bem... mas não há nenhum que me interesse.
Eu - Hum... e tens conhecido muitos?
Ela - Na verdade quase nem saio de casa, a não ser contigo uma vez por outra.

3.25.2013

conversa 2001

(na minha casa)

Ela - Qual é o lugar da casa mais importante para ti?
Eu - Não sei... não faço ideia.
Ela - És um sortudo, então.
Eu - Porquê?
Ela - Para mim é a casa de banho. A sanita propriamente dita.
Eu - Porquê?
Ela - Porque é o único sítio onde consigo estar longe do meu marido, e mesmo assim tive que o proibir de entrar quando lá estou. Há mínimos...
Eu - Mas queres estar longe do teu marido? Até pensava que se davam bem...
Ela - E damos, mas preciso estar longe dele na mesma. Ainda hoje lhe pedi, muito simplesmente, para tomar conta da sopa que estava a fazer enquanto eu ia à casa de banho. Acreditas que me foi bater não sei quantas vezes à porta para fazer perguntas?!
Eu - Que perguntas?
Ela - "Onde é que está a colher de pau?", "A sopa está a ferver. Desligo ou diminuo o lume?", "Passo tudo com a varinha mágica?", "Como é que se tempera a sopa?". Coisas do género...
Eu - Qual é o problema?
Ela - O problema é tu estares a perguntar-me qual é o problema. Desisto!
Eu - Não percebo.
Ela - Não percebes porque de certeza que a tua namorada não te vai fazer perguntas desnecessárias sempre que estás na casa de banho. Não percebes porque sabes o que é ter tempo só para ti, sem ninguém a chatear. Isso porque as mulheres sabem fazer tudo e os homens não sabem fazer nada.
Eu - Pronto, tem calma!
Ela - Posso ir um bocadinho à tua casa de banho sem ninguém me chatear?
Eu - Podes, podes...

3.22.2013

conversa 2000

Ela - Estou completamente apaixonada!
Eu - A sério?! Fixe! Há muito tempo que não te via com essa luz.
Ela - Acho que vou fazer uma tolice!
Eu - Que tolice?
Ela - Perco o Amor a noventa euros e compro uns sapatos que vi hoje numa montra.
Eu - Espera aí. Estás apaixonada por uns sapatos?!
Ela - Claro. Achas que ainda me consigo apaixonar por homens?
Eu - Nem sei que te diga...
Ela - Uns sapatos, pelo menos, nunca desiludem...

3.20.2013

conversa 1999

Eu - Queres um bocado de chocolate?
Ela - Não, obrigado.
Eu - Não queres?! Eu não resisto a uns quadrados dum Cadbury, de vez em quando...
Ela - Estou um bocadinho gorda e entrámos na Primavera. Não posso.
Eu - O que é que a Primavera tem a ver com isso?
Ela - Vem aí o calor e as roupas mais curtas...
Eu - Ah! Percebo...
Ela - Percebes?!
Eu - Sim, queres poder usar umas t-shirts sem se notar o pneu da barriga...
Ela - Dá-me aí um bocadinho. Estou a ficar deprimida.

respostas a perguntas inexistentes (248)

Quando se Ama, o Amor do outro nunca chega. Vai chegando, quando se é correspondido, o que é completamente diferente. Ir chegando é isso mesmo. Quer dizer que se vive com a permanente sensação de que se gosta mais do que se é gostado. É um desequilíbrio que se sente permanentemente, mesmo quando a razão nos diz que não é assim.
É por isso que ansiamos sempre por um qualquer sinal que respire Amor (um toque numa mão, um sorriso transparente, uma palavra suave ou um abraço prolongado) e, assim que ele acontece, ficamos à espera de outro que nunca mais chega. Assim que se sobe às nuvens por uns segundos, cai-se vertiginosamente na terra. De novo.
Quando o Amor perde isto, deixa de ser Amor, ainda que possa ser outra coisa qualquer desigualmente boa, ou desigualmente má. Igual, igual, não há nada.

3.18.2013

coisas que fascinam (159)

como numa nuvem

Dentro de casa havia várias goteiras e, debaixo delas, alguns baldes coloridos à espera de engolir os pingos que caíam ordenadamente do tecto. Fiquei a olhar para eles, invejando-lhes a paciência com que iam acumulando a água. A mãe da Sónia despejava-os duas ou três vezes por dia, disse-me. Depois mandou-me sentar numa cadeira que tinha uma almofada feita à mão, enquanto esperava que a minha nova amiga acordasse. Aqueci as mãos numa enorme chávena de café quente, que ela me pôs à frente, e fui bebericando tentando não fazer barulho.
Aquele era o tempo de ser feliz. Aos vinte anos, o corpo não é uma fonte de preocupações. É apenas algo de que a nossa alma usufrui. Já levava meia chávena bebida quando aquela senhora, de avental sujo por cima de dois ou três casacos de malha, mo disse enquanto sorria. Trocámos um olhar repentino do qual eu fugi primeiro. Ela sabia porque é que eu estava ali. Não era apenas pela filha dela e pelos sentimentos confusos que gerara dentro de mim. Era também pelos meus vinte anos.
A Sónia apareceu depois, ainda meio ensonada, e pediu-me desculpa por ter adormecido. Peguei num dos baldes, o vermelho, e fiz a mesma coisa que já tinha visto a mãe dela fazer com um azul: despejei-o para o pátio rapidamente e voltei a colocá-lo no mesmo sítio, onde as as primeiras gotas marcaram presença com um som seco e abrupto. Tinha-a conhecido uns dias antes e ela prometera mostrar-me grande parte da ilha da Madeira a pé, mas a inesperada chuva primaveril ameaçara estragar-nos os planos durante os dias seguintes. Apesar de tudo, com um leve corta-vento por cima de uma camisola de algodão, eu estava disposto a fazer-me à estrada, aproveitando o que parecia ser uma ligeira melhoria do tempo. Ela, ainda a emergir do sono profundo da noite, é que parecia menos entusiasmada.

- Se não quiseres vir... - disse eu.
- Vou, vou. Amanhã voltas para o continente e, afinal de contas, o prometido é devido! - respondeu ela interrompendo-me.

Saímos de casa em direcção ao ponto mais alto da ilha, por uma estrada sinuosa que escalava a montanha. Caminhámos em silêncio durante algumas horas, até ela me avisar que estávamos a entrar dentro duma nuvem. O céu, entretanto, tornara-se azul e eu vestia apenas uma t-shirt preta. Foi aí que demos as mãos, já não me lembro por iniciativa de quem. Provavelmente, e porque só o Amor permite esse tipo de sintonia entre duas pessoas, por iniciativa dos dois. Das mãos passámos a um abraço prolongado e depois aos lábios, de forma que, quando chegámos a um pequeno planalto, já cada um dos nossos corpos se tinha habituado à textura e ao calor do outro.
Sentámo-nos numa pedra com vista para os mundos. Dois mundos, mais precisamente, aquele que se estendia debaixo dos nossos pés, e também aquele que acabáramos de criar dentro de nós e do qual éramos os únicos habitantes. O do Amor, digo. Silêncio de novo.

-  Amanhã vais embora! - disse ela.
- Vou... - aceitei com um tom de derrota.

 Tenho quarenta e um anos e, ainda hoje, me lembro desse dia quando olho para cima e vejo uma nuvem qualquer isolada das outras, como se andasse à procura de alguma coisa. Sei que a Sónia foi um Amor efémero dentro duma dessas nuvens e, mesmo contra algum comichoso moralismo social, tenho a noção de que aproveitei ao máximo o meu corpo de vinte anos.
Hoje, olhando para trás, para as pequenas histórias de Amor da minha juventude, estou de facto a olhar para a frente. Na verdade, foram elas que me ajudaram a conseguir vivê-las ainda hoje, agora com a Raquel e com a certeza dos quarentas. Vou vivendo o Amor da mesma forma que a água pingava nos baldes coloridos desse dia. Sem ansiedade e, acima de tudo, como numa nuvem.

3.13.2013

conversa 1998

Ela - Olhas para as tuas mãos...
Eu - O que é que têm?
Ela - Estão secas. Será que nunca pões um creme nessa pele?
Eu - Não, nunca ponho.
Ela - Estás a gozar!
Eu - Não estou nada.
Ela - Nunca puseste um creme nas mãos?
Eu - Não.
Ela - Então como é que fazes para as hidratar?
Eu - Bebo coisas. Água, cerveja, vinho, leite, uísque...
Ela - Está explicado porque é que é tão mais fácil ser homem...

3.11.2013

respostas a perguntas inexistentes (247)

Ontem devolvi uns discos de música que uma amiga minha me tinha emprestado há uns anos. Bem... há mesmo muitos anos. Tantos anos que, durante a conversa, me apercebi que no dia em que ela mos emprestou ainda não havia internet.
Durante mais de vinte anos, sempre que mudei de casa, fiz limpezas ou reorganizei a minha colecção de música coloquei-os à parte e pensei: "tenho que devolver isto à Catarina". Durante esse tempo todo aconteceu-me tirar o curso no Porto, ter vários empregos, casar, ser pai, divorciar-me, fazer filmes, casar de novo, etc. Foram mais de vinte anos de vida com um montinho de dois cds à parte, à espera de os devolver à proveniência.
Devolvi-os ontem, durante um encontro efémero num bar em Aveiro. Por dois ou três minutos, enquanto a ouvi falar, foi como se o tempo não tivesse passado. Apesar de tudo, por dentro, não deixei de pensar em como a Catarina foi branda comigo. Eu não deixaria ninguém, durante mais de vinte anos, ter dois cds meus lá em casa sem mos devolver. Às vezes acho que é uma competência exclusivamente feminina, esta. Ainda por cima, devolvi-lhos como se não fosse nada.

- Aqui estão os cds que me emprestaste há alguns anos! - disse.
- Já eram teus por direito. - respondeu, antes de dar um primeiro gole numa cerveja.

A conversa continuou noutras direcções. Em todo o caso, estava agora mesmo a organizar os meus cds e reparei que me esqueci de os gravar para mim...

3.08.2013

Dia Internacional da Mulher

Amanhã, e nos outros dias que se seguirem, enquanto eu estiver vivo, continuarei  a lutar pela igualdade entre géneros no que diz respeito às condições de vida e de trabalho. E sobre este dia, é só o que tenho para dizer.

conversa 1997

Ela - O meu marido manda-me calar várias vezes, sem sequer dar por isso.
Eu - Manda-te calar?
Ela - Sim, em conversas com amigos, por exemplo. De repente sai-lhe um "tá calada!" e depois continua como se nada fosse. Detesto isso. Ainda ontem me aconteceu num jantar...
Eu - Se dizes que ele nem dá por isso, talvez devesses avisá-lo de que ele o faz, se calhar inconscientemente...
Ela - Não percebes mesmo nada de mulheres, pois não?
Eu - Mas porquê?
Ela - O que me incomoda, precisamente, é ele nem dar por isso. É-lhe natural mandar-me calar e pôr-me para segundo plano. Acho que a única saída disto vai ser o divórcio.
Eu - Divórcio?! Não estarás a exagerar?
Ela - Está calado.

3.05.2013

não desisto

São dez da manhã e estou à espera de ser atendido no Centro de Emprego. Não faço a mínima ideia que só vou sair dali às quatro e vinte da tarde, depois de uma longa e inesperada espera. Hoje foi este o meu dia.
Tenho na mão uma capa com toda a papelada que acumulei desde que caí nas malhas do desemprego, incluindo todo o processo que vou levar a tribunal, mais o primeiro volume de 1Q84, do Haruki  Murakami, que a minha namorada me ofereceu. Nunca agradeci tanto um presente, acho eu.
Já li, aliás, cerca de cem páginas do livro quando o meu estômago começa a dar os primeiros sinais de apetite. Tenho a senha B091 e vai na B034. É uma da tarde. Passo em revista quase todas as caras das pessoas que se amontoam naquele espaço exíguo, algumas em pé, outras sentadas. Há alguns sorrisos que me parecem esforçados, há ausência na maior parte dos rostos e, para piorar, sinais de evidente derrota em alguns deles.
O homem ao meu lado, por exemplo, que deve ter uma idade a rondar os sessenta anos, está ferido num olho e sua tristeza por todo o corpo. Tira um bocado de pão do bolso esquerdo e come-o em pequenos pedaços, sem mais nada, escondendo-o dos demais. Não é por medo que lho roubem. É, parece-me, para preservar alguma eventual réstia de dignidade que ainda tenha.
Algumas vozes, ainda que contidas, protestam com as funcionárias que vão chamando lentamente os utentes. Chamam-lhes preguiçosas das mais diversas maneiras mas, em abono da verdade, acho injusto. Não vi nenhuma parada. Sei por experiência própria que alguns processos são bastante demorados. Não deixa é de ser curioso que, onde há tantos desempregados à espera de vez, não empreguem mais ninguém para atender. Rio-me, para dentro, do meu próprio país. Tenho pena de o fazer.
Sinto um toque no joelho. É uma criança que olha, babada, para o chocolate que entretanto abri. Parto uma porção generosa para lhe dar, mas primeiro procuro a autorização no olhar da mãe, que está algumas cadeiras ao meu lado. Ela abana ombros, consentindo com vergonha. A criança agradece, sem saber que eu é que lhe agradeço ainda mais. A mãe tem uns olhos tão bonitos que parecem um oásis naquele deserto de emoções. São negros, e fico com a sensação de que é impossível adivinhar o que está por trás deles. Apaixono-me por dois minutos. Valeu a pena o chocolate. A criança afasta-se.
Fixo os olhos no chão, como que para fugir dali por uns momentos, apesar da noção de que é impossível esconder-me. Fixo uns sapatos cujas solas estão quase todas descoladas. Parecem bocas abertas e, como tal, gritam em silêncio. É o que eu estou a fazer, a gritar em silêncio. A pobreza é pornográfica e está ali, à vista de todos sem chocar ninguém. É chocante.
Não desisto, penso. Chegou a minha vez de ser atendido. Chegará a nossa vez de viver.

3.03.2013

conversa 1996

Ela - A tua cadela é tão gira!
Eu - É! Agora está gira, sim. Quando a fui buscar ao canil estava muito maltratada e nem eu próprio percebi que ela era tão gira.
Ela - O que é que lhe fizeste, então?
Eu - Nada. Dou-lhe água, comida e levo-a à rua de vez em quando. Uma vez por outra dou-lhe banho.
Ela - Pois... era o que eu precisava que alguém me fizesse. 
Eu - O quê?
Ela - Que me dessem água, comida e me levassem à rua de vez em quando. O banho, uma vez por outra, também podia ser...