7.30.2013

conversa 2028

Ela - Uma coisa que as mulheres costumam fazer, é dizerem às amigas que os maridos são melhores na cama do que realmente são.
Eu - Tens a certeza?
Ela - Tenho.
Eu - Como é que podes ter a certeza?
Ela - O meu marido, antes de casar comigo, era namorado da minha melhor amiga.

7.29.2013

conversa 2027

Ela - Desculpa lá não ter ido ao teu jantar de aniversário...
Eu - Não te preocupes. Não faz mal.
Ela - Não faz mal?!
Eu - Não... claro que não. Estava muito pessoal.
Ela - Estou a sentir-me rejeitada...

7.26.2013

Virginia Johnson

Na década de 50 o mundo recuperava lentamente de duas guerras mundiais. A memória da segunda, que atingira directa ou indirectamente todos os continentes e vitimara milhões de cidadãos, estava bem viva. Entre a frágil sensação de paz mundial, nascia a Guerra Fria e o mundo dividia-se em dois. O pacto assinado em 1950 pelas duas maiores nações comunistas ameaçava o mundo ocidental e abria uma nova frente de guerra nas Coreias. Nos EUA iniciava-se a Caça às Bruxas moderna, que é como quem diz, a Caça aos Comunistas.
Foi neste ambiente que Virginia Johnson deu andamento à expressão "Make Love, Not War" e revolucionou os estudos sobre a sexualidade. Com o seu marido, e com base na observação directa e métodos de medição por ela criados, explicou a esse mundo frio o que é o orgasmo. A mim parece-me bem.
Morreu ontem. Que o mundo agora a homenageie na cama.

7.25.2013

conversa 2026

Ela - Era bom que os homens percebessem o elemento chave de qualquer relação heterossexual...
Eu - E qual é?
Ela - Um homem apaixona-se por uma mulher, uma mulher apaixona-se pelo facto desse homem estar apaixonado por ela.
Eu - E é tudo?
Ela - É.

7.23.2013

respostas a perguntas inexistentes (258)

Nessa altura trabalhava numa fábrica de cerâmica, a alimentar durante oito horas seguidas a linha de produção com placas em bruto que alguns minutos mais tarde seriam já azulejos. O salário ainda era pior do que o trabalho, por isso não tinha outro remédio senão assumir esse tempo como uma subtracção à minha vida. Era como se aquelas oito horas diárias não fizessem parte dos dias. Para tal arranjava múltiplas e variadas formas de me abstrair durante o expediente.
O trabalho consistia em manobrar uma máquina cujos comandos se assemelhavam ao volante duma mota. Esse volante estava pendurado no tecto e, com aquilo que seriam os travões, abria e fechava uma boca capaz de segurar centenas de azulejos duma só vez. Eram esses azulejos que eu ia buscar a uma palete e depois largava sobre duas borrachas em constante movimento que os faziam cair, um a um, num circuito que os limpava, texturizava e envidraçava. No fundo era como se estivesse a conduzir oito horas seguidas, mas sem sair do mesmo sítio, sem luz natural e sem paisagens edificantes.
Quando saía da fábrica estava sempre tão cansado que tudo o que eu queria era beber umas cervejas com uns amigos, comer qualquer coisa e depois ir para casa dormir. Comecei a ter uma enorme vontade de escrever, mas as forças que me restavam depois de tudo não me permitiam fazer muito mais do as palavras cruzadas do jornal do café que eu frequentava. Por isso acabei por arranjar um método alternativo. Andava sempre no bolso com um pequeno caderno e uma esferográfica e, quando me vinha uma ideia qualquer à cabeça, fosse ela a base de um argumento ou apenas uma metáfora solta, apontava-a nesse caderno. Interrompia o trabalho por cinco ou dez segundos, escrevia o que queria e voltava a fechá-lo.
Foi assim que conheci a Margarida. Um dia o supervisor reparou no que eu fazia e confiscou-me o caderno como uma prova de que eu não cumpria totalmente com o meu contrato de trabalho. Ameaçou-me com despedimento e entregou-o, junto com uma queixa escrita, no departamento de pessoal. O supervisor era um tipo estranho de quem eu não gostava ali, naquele ambiente hostil e desconfortável, mas também não gostaria em nenhum outro local do mundo. Nem que o conhecesse numa ilha tropical durante umas férias de Verão.
Alguns dias depois ele passou por mim e, tugindo, informou-me que eu tinha que ir ao tal departamento de pessoal prestar informações.

- A doutora Margarida chamou-te! - disse.

Subi umas escadas curvas com a sensação que ia ser presente a um tribunal Inquisidor. Lá em cima inspirei e expirei profundamente três vezes seguidas e decidi, antes de entrar, que à mínima falta de respeito pela minha pessoa esticaria o dedo do meio e virava costas àquele sítio para sempre.
Como as minhas mãos estavam cheias de óleo, entrei ainda na casa de banho e lavei-as. Penteei o cabelo com a ponta dos dedos e, finalmente, dei por mim a bater à porta da tal Doutora Margarida, mulher de quem já tinha ouvido falar mas nunca tinha visto nem para assinar contrato, pois era sempre uma intermediária sua que falava comigo.
Para meu espanto era bonita. Nunca esperei que uma mulher de quem, na generalidade, os trabalhadores falavam tão mal pudesse ser tão bonita. Tinha o cabelo apanhado e uma camisa branca parcialmente aberta num decote generoso. Usava um lenço avermelhado e tinha um sinal no queixo que combinava com os seus grandes olhos castanhos claros. Além disso, a sua face transmitia, acima de tudo, alguma generosidade.

O meu livro estava em cima da secretária dela, junto a umas folhas que eu não sabia se tinham a ver com o meu processo. Ela perguntou-me, antes de qualquer outra coisa, se o livro era meu.

- O livro é meu! - respondi.

Ela sorriu, admitiu que o tinha lido todo, do princípio ao fim, e perguntou-me porque é que eu escrevia aquelas coisas todas durante o trabalho.

- Não é durante o trabalho, é durante a vida. Faço anotações em qualquer sítio ou altura porque gosto de escrever e de me sentir vivo. Apesar de não me sentir muito vivo quando estou na produção, faço os possíveis...

Ela tornou a sorrir e perguntou-me a que horas é que eu saía. Como o meu turno acabava uma hora depois do dela, convidou-me para jantar lá em casa. Lembro-me que fez carne guisada com batatas e ervilhas e serviu-me um bom vinho. Depois do jantar levantou-se e desapareceu dentro dum quarto que apenas tinha estantes e livros. Quando regressou trazia uma série de cadernos iguais ao meu, com anotações feitas por ela.

- Faço exactamente o mesmo que tu, sabes? A diferença é que eu estou sentada numa secretária e ninguém dá por ela.

Passei a noite a visitar esses cadernos dela. A partir desse dia ficámos amigos durante muito tempo, apesar de eu ter pedido demissão pouco tempo depois. A Margarida tinha mais doze anos do que eu e nunca quis envolver-se comigo para além dessa amizade. Era um problema para ela, essa diferença de idade, embora me tenha dito várias vezes que tinha pena de não ser da minha faixa etária.
Um dia encontrou um homem por quem se apaixonou perdidamente e nunca mais nos tornámos a ver. Ontem vi-a numa pastelaria e reconheci-a. Cumprimentei-a à distância com um sorriso que ela devolveu. Ao sair abraçou o marido, olhou para trás e cochichou-lhe qualquer coisa. Eu não sei o que foi, mas abri o meu caderno e escrevi este texto.

7.20.2013

páginas de silêncio

Páginas de silêncio

Página por página, talvez alguém tenha tido um sonho estranho durante a noite, com cadáveres semeando flores em extensões de campos estéreis. Ao acordar, Helena sentiu-lhes o aroma que rareava serpenteando as artérias da cidade, e saiu da cama mais depressa do que o habitual. Costuma ficar entre os lençóis com o sossego que foge das ruas e se vem deitar na cama dela. Normalmente nem fazem amor, ficam só a olhar para o débil e silencioso baile dos cortinados de pano branco sujo. É áspera a luz lá fora, vai pensando suavemente, e o silêncio concorda. Agora que se levantou precipitada, vê-se ao espelho ainda nua e consegue achar-se um bocadinho bonita, apesar do ar cansado e envelhecido. Talvez depois de ir ao psiquiatra passe numa loja e compre um frasco de tinta para o cabelo. Talvez isso a possa fazer feliz, pensa. O silêncio concorda de novo e conforta-a, diz-lhe que o sonho não passou disso mesmo: um sonho. Helena gosta de ir ao psiquiatra por dois motivos: porque pode reinventar os seus sonhos e porque pode nada dizer. Às vezes sabe bem estar com alguém a quem se pode nada dizer.

Página por página, um homem com sotaque do leste folheia em voz alta os últimos dias da sua vida, numa avenida desatenta, mas as suas palavras vão fraquejando entre os olhares flutuantes e ombros embrutecidos que passam. Sente-se um barco à deriva, o homem, e procura um farol algures entre a multidão. Diz que tem trabalhado para um construtor civil qualquer que não lhe paga, que tem filhos à espera numa garagem dum bairro da cidade que sopra, que implora mais alguns dias de vida. Que tem fome. Depois desiste. Deita-se embalado pela sombra duma árvore da avenida. Helena passa por ele sem reparar na sua mão ainda aberta.

As árvores sabem que ele decidiu morrer atirando-se à ria e que, mesmo assim, vai tomar um café com açúcar. Sabem que ele apertará os atacadores dos sapatos várias vezes, até sentir que os mesmos estão justos aos pés. Nem demasiado apertados nem demasiado largos. Depois, penteará ainda o seu reflexo na abundante montra duma pastelaria da cidade. As árvores sabem que ele agirá assim em silêncio, e estenderam um tapete vermelho e outonal que ele vai percorrer devagar, fascinado pela luz que se alonga ao horizonte. Desviar-se-á dum automóvel que não respeitou uma passadeira para peões, antes de esperar, junto à ria, que um autocarro pare e despeje uma dezena de pessoas silenciosas. As árvores sabem que agirá assim para não morrer antes de se matar.

Helena está na sala de espera. Ainda não decidiu de que cor vai pintar o cabelo quando sair dali, talvez porque assim possa continuar a ocupar o espírito com essa preocupação mínima. Não lhe apetecia nada chorar outra vez quando começar a contar os seus dias ao psiquiatra, página por página. Página por página vai lendo, de trás para a frente, uma revista que tirou à sorte dum monte. São só caras, pensa ela, caras empacotadas em fatos e vestidos caros, caras rotuladas por sorrisos torpes, caras sem mais nada. Só caras. Pousa a revista numa das cadeiras vazias ao seu lado. Há várias cadeiras assim e lembra-se de como cresceu dividindo um quarto com mais uma cama vazia. A mãe dizia-lhe que era para quando a família aumentasse, o que nunca chegou a acontecer. Nunca teve ninguém ao seu lado, pensa. Por isso viveu sempre em silêncio. Reprime um esgar de choro.
Vermelho, vai pintar o cabelo de vermelho. Sorri.

Uma morrinha parece segredar qualquer coisa à cidade. Helena nunca desvenda esse segredo, mas tenta encontrar nele qualquer coisa de bom. Às vezes consegue, numa criança que se estica no balcão duma pastelaria para escolher um bolo, num automóvel que pára para deixar atravessar peões que nem sequer estão numa passadeira, num guarda-chuva que se esforça em vão por abrigar mais do que uma pessoa. Às vezes noutra coisa qualquer. Quando consegue agarra esse momento e guarda-o bem na memória, explica ao psiquiatra, que lhe pergunta se ela se sente mais optimista ou pessimista do que na consulta anterior. Pessimismo? Optimismo? Não sabe o que é, diz ela. As coisas são o que são, vai-se vivendo página por página. Depois emudece durante cinco, dez, talvez quinze minutos. Levanta-se, despede-se e sai. Hoje não chorou.

Há páginas que são um erro e se devem rasgar, há outras que se rasgam sozinhas, mesmo quando não queremos. Helena caminha compreendendo o seu silêncio amante, mas sorri-lhe distanciando-se. Que não quer pensar nisso. Um grupo de pessoas agita-se junto a um dos canais da ria que, como sangue, percorre a cidade transportando algum oxigénio. O corpo dum homem oscila ali entre as mãos de dois médicos do INEM, e começa a expulsar alguma água suja pela boca. Já mexe, diz alguém. Que é ucraniano, conclui outro alguém. Que rasgue depressa da sua vida a página do dia de hoje, deseja Helena. Depois sorri. Vai pintar o cabelo de vermelho, como o vermelho das folhas que despiram as árvores. As árvores estão nuas mas conseguem achar-se bonitas, conclui. Em silêncio.


7.09.2013

conversa 2025

(duas miúdas que passaram por mim, hoje, perto da estação de Campanhã)

Ela1 - Até dava umas voltas contigo, ó jeitoso!
Ela2 - Foda-se! Não vês que ele é um velho?!
Ela 1 - É velho, mas não é como o teu pai.
Ela2 - E tu já comeste o meu pai?
Ela 1- Não, mas ele está sempre a fazer-se ao piso, o cabrão.
Eu (só em pensamento) - Socorro!

7.05.2013

Crónicas da Cidade que Sopra



O meu novo livro, em formato exclusivo digital, está disponível gratuitamente no meu site pessoal: www.ivarcorceiro.net. É um pdf com 128 páginas, A4, e compila crónicas que escrevi para o Diário de Aveiro há uns anos atrás. Estão todos convidados...

7.03.2013

conversa 2024

Ela - Já foste à praia?
Eu - Ainda não. Para a semana devo ir algumas vezes...
Ela - Vais para a mesma zona do ano passado, onde te encontrei várias vezes?
Eu - Devo ir...
Ela - Este ano, se me quiseres encontrar, vai lá mais para trás para o meio das dunas...
Eu - Eu não gosto de ir para as dunas...
Ela - Mas eu tenho que ir... pelo menos enquanto não fizer a depilação total e definitiva...

7.02.2013

conversa 2023

Ela - Acho que sou bipolar.
Eu - Porquê?
Ela - Num dia estou muito feliz e no dia seguinte já estou triste...
Eu - É sempre assim?
Ela - É. Ontem estava deprimida e hoje já estou a sentir-me feliz.
Eu - Bem... aproveita o dia de hoje, pelo menos.
Ela - Não consigo.
Eu - Porquê?
Ela - Porque estou feliz, mas sinto-me mal só de saber que amanhã já vou estar triste.
Eu - Não és assim tão bipolar, então. No fundo estás sempre triste.
Ela - Mais ou menos. Amanhã, por exemplo, vou estar triste, mas como sei que além de amanhã vou estar feliz consigo andar mais ou menos bem...
Eu - Estás a gozar comigo?
Ela - Não.
Eu - Parece mesmo!
Ela - Os homens é que não percebem estes labirintos sentimentais das mulheres.

7.01.2013

conversa 2022

(ao telefone)

Eu - Ia convidar-te para vires beber uma cerveja comigo, mas suponho, se bem te conheço, que não deves querer sair com este calor...
Ela - Importas-te de me fazer o convite sem responderes por mim?! Que coisa irritante!
Eu - Queres vir beber uma cerveja comigo?
Ela - Não. Está demasiado calor...

6.28.2013

conversa 2021

Ela - Pode ser que agora, no Verão, arranje um namorado decente.
Eu - Então e o teu?
Ela - Acabámos a semana passada.
Eu - E já estás a pensar no seguinte.
Ela - Para esquecer um Amor, nada como levar um gajo para a cama.
Eu - Hum...
Ela - Como dizem os brasileiros, há mais gente na fila. 

6.26.2013

conversa 2020

(com uma de duas senhoras, testemunhas de Jeová, que me bateram à porta)

Ela - Andamos a explicar a importância de Deus...
Eu - Não vale a pena perderem tempo comigo. Sou ateu.
Ela - Posso só fazer-lhe uma pergunta?
Eu - Se não for para vender nada, pode. Além de ateu, estou desempregado.
Ela - Quem é que fez a sua camisola?
Eu - Sei lá. Provavelmente um escravo qualquer no Bangladesh...
Ela - Então alguém a fez?
Eu - Sim, alguém a fez...
Ela - E acredita que o mundo poderia existir sem ninguém o ter feito?
Eu - Acredito na teoria do Big Bang.
Ela - É possível, mas o Big Bang não poderá ter sido mão de Deus?
Eu - E quem é que fez Deus?
Ela - Ninguém pode ter feito Deus. Deus é o Pai.
Eu - O meu pai tinha um pai também, que por acaso era meu avô.
Ela - Mas com Deus é diferente.
Eu - Porquê?
Ela - Porque... porque...
Eu - Bem me pareceu que não sabia.
Ela - Posso deixar-lhe só este jornal sobre como ser um bom pai de família?
Eu - Está bem. Prometo ler quando estiver na casa de banho.

6.25.2013

respostas a perguntas inexistentes (257)

Dizem que é preciso algum tempo para perceber se se gosta de alguém. Eu concordo que às vezes sim. Outras vezes não.
Com a Irina, por exemplo, foi uma questão de espaço e não de tempo. Por isso é que decidi em dez minutos que não gostava dela. Não gostar dela não significa detestá-la ou ter algum sentimento negativo por ela. Significa apenas que a obrigatoriedade de gostar, para poder sair com ela uma segunda vez, não se cumpriu.
A porta da pastelaria Bissau, mesmo em frente à estação de comboios de Aveiro, é pequena. Por ela passa apenas uma pessoa de cada vez. Há mais cafés ali, mas eu teimo em ir à Bissau sempre que estou naquela zona. Ela perguntou-me porquê, ao telefone, quando combinámos um encontro para eu lhe entregar um saco que uma amiga comum me pedira. Eu expliquei-lhe, sem pensar muito no assunto, que é a pastelaria mais antiga por ali.

- És um tipo estranho! - disse ela.

Fiquei a saber que era estranho eu escolher sempre os cafés e pastelarias mais antigos quando existe a possibilidade de optar. Sempre o fiz e ainda hoje o faço, pelo que me limitei a confirmar que, se por ela não houvesse inconveniente, era na Bissau que eu queria tomar café e fazer a entrega.
Quando, no dia seguinte lá cheguei, ela já lá estava. Reconheci-a pela camisola amarela que ela tinha prometido levar como sinal e, por isso, depois de me apresentar, sentei-me na cadeira em frente. Dei-lhe imediatamente o saco e iniciámos uma conversa de circunstância.
Por norma gosto muito de ter conversas de circunstância ou, como se diz por aí, conversas de treta , arrotar postas de bacalhau (nunca percebi esta), etc. Aquela também não correu mal. No que diz respeito a trivialidades, tanto eu como a Irina mostrámos alguma capacidade de comunicação. Isto para não dizer mais.
O meu problema com ela, se é que se pode chamar problema ao facto de perdermos a vontade de estar com alguém pela segunda vez, foi perceber que ela manteve sempre as pernas esticadas, de tal forma que quem queria ir à casa de banho tinha que pedir por favor para as encolher, o que aconteceu três ou quatro vezes enquanto conversámos, tanto a entrar como a sair. Eu não lhe disse nada, mas comecei a sentir-me incomodado com aquilo. Não percebia por que motivo ela não se virava um pouco e esticava as pernas para outro lado, de forma a não incomodar os clientes que queriam ir aos lavabos.
A conversa acabou e ela levantou-se primeiro do que eu para, por amabilidade, pagar a despesa toda (dois cafés e uma água com gás). Eu, depois de ter apertado bem os atacadores dos sapatos, reparei que ela tinha parado exactamente na pequena porta da pastelaria para se assoar duas ou três vezes, fazendo esperar uma mãe com duas crianças que queriam entrar.
Foi já cá fora que lhe expliquei, mais em jeito de explicação do que zangado, que gosto de pessoas com noção de espaço público. Detesto ver automóveis estacionados em segunda fila, por exemplo, da mesma forma que não suporto ver pessoal deitado em dois lugares num comboio repleto de pessoas em pé. Fico incomodado e, por norma, reajo.

- És um tipo estranho! - disse ela.

6.18.2013

conversa 2019

Eu - Tu, que és nutricionista, sabes aconselhar-me alguma dieta para reavivar a memória?
Ela - Andas com memória fraca?
Eu - Acho que sim.
Ela - Não sei...
Eu - Não?!
Ela - Não. Sou nutricionista, mas normalmente bebo para esquecer.

6.13.2013

conversa 2018

Ela - Sinto um vazio enorme dentro de mim.
Eu - O que é que se passa?
Ela - Tenho fome!
Eu - Eu a pensar que estavas com uma pedrinha na alma...
Eu - É quase isso. Preciso dum pedregulho no estômago.

6.12.2013

coisas que fascinam (161)

o fim da paixão e o princípio do Amor

Estou no comboio que liga as cidades do Porto e de Aveiro. Mesmo à minha frente viaja um casal de alemães que não consegue passar despercebido, embora gostasse de o fazer. São ambos altos, loiros e devem ter cerca de sessenta anos.
Já me fizeram algumas perguntas, em inglês, sempre em voz baixa para que ninguém perceba que não são portugueses. A primeira foi logo na estação de São Bento, onde lhes ensinei como funciona a bilhética da CP. Como vão visitar Aveiro para onde, por coincidência, eu também me dirijo, sentaram-se ao pé de mim a pedir conselhos para visitar a cidade.
Falámos cerca de vinte minutos e ele, já cansado, adormeceu. Ela endireitou-lhe a cabeça com a brandura duma mãe, encostou-a ao seu ombro e depois deu-lhe a mão. Eu abri o meu computador para escrever qualquer coisa, neste caso este texto.
Há uns dias falava com uma amiga sobre o fim da paixão e o princípio do Amor. Dizia-me ela que a paixão é uma forma de começar uma relação, normalmente com muito sexo, suor e lágrimas. Acha que, com o tempo, essa paixão se vai transformando lentamente em Amor, ou então em nada. Zero. Quando se transforma em nada, a relação acaba. Quando se transforma em Amor, a relação continua.
A tese dela é que a paixão é o início. O Amor ou o nada vêm depois.
Eu não concordei com ela, se bem que não tenha propriamente apresentado uma tese alternativa à sustentação duma relação duradoura. A lei das probabilidades no Amor impede-me de ser tão esclarecido. Mesmo assim acabei de perceber, acho eu, onde ela queria chegar.

A esse propósito, estava aqui a lembrar-me de fogosas paixões que tive e que rapidamente se reduziram a cinzas. Talvez, de facto, continuar uma relação seja uma opção consciente, pelo menos a partir de um determinado momento. Agora, se me permitem, vou fechar o computador e olhar pela janela.

6.10.2013

respostas a perguntas inexistentes (256)

É fim de tarde dum feriado qualquer, ou melhor, dum feriado que já se chamou o Dia da Raça e que agora se chama Dia de Portugal e de Camões. Dou por mim a discutir questões de raça e a enervar-me. Aquela que está à minha frente ri-se quando lhe digo que felizmente a genética acabou com essa merda, com as raças entre nós, humanos. Etnias sim, existem. Raças não. Mas ela ri-se. Trata-me como se eu estivesse a dizer tolices.
Sinto-me esmagado. O café está cheio e tanto os meus nervos como os risos dela já chegaram a alguns clientes das outras mesas. Alguns olham-nos de lado. Numa delas está sentada uma mulher marcada, não sei se pela vida ou pela violência de um eventual marido. É nítido que sustém as próprias lágrimas como uma represa. Está de óculos escuros.

- Quer dizer que um mongol e um sueco loiro não são de raças diferentes? - Pergunta.

Estou a falar com alguém que não conheço de lado nenhum. Ambos estamos à espera da mesma pessoa e considero o nosso encontro uma infeliz casualidade. Puxo pela cabeça para chegar a uma resposta qualquer que não me obrigue a um grande esforço. Estou cansado da conversa e apetece-me ir para casa.

- Quer dizer que um mongol não é um dálmata e que um sueco não é um bulldog.

Ela ri-se. Incomoda-me.

- Isso sei eu.

Noutra mesa está uma família. Pai, mãe e dois filhos, um de cada género. O pai bebe uma Super Bock e olha para o infinito, os filhos lancham umas torradas com leite branco. A mãe não faz nada. Parece uma estátua que deixou de ter significado há muito tempo para quem passa por ela, incluindo a própria família.

- A Ana está tão atrasada! - diz ela.
- Hum, hum... - aceito.

Um homem entra no café com ar apressado e vai ter com a mulher que chora. Pergunta-lhe como está e vejo-a a abanar os ombros. Dão um abraço e a represa cede. Invade-a um violento mar de lágrimas.
Pergunto-me de que são feitos os abraços que têm este magnífico poder de nos controlar totalmente o coração. Não sei, mas acho que alguns abraços, exactamente neste momento, teriam o mesmo efeito em mim.
Levanto-me e digo que vou embora.

- Não esperas pela Ana?!
- Não.
- Ela deve estar mesmo a chegar...
- Que se foda! Tchau!

A cidade parece dormir durante o dia. Telefono à minha companheira de vida. Pelo menos do que é a minha vida agora, penso. Desta vida que vou tendo apesar deste país e desta raça que somos. Rio-me. 

- Está tudo bem?
- Onde estás? Preciso dum abraço.

6.08.2013

conversa 2017

(ao telefone)

Ela - Queres ir tomar café comigo hoje à tarde?
Eu - Pode ser...
Ela - Eu passo aí em tua casa às três. Pode ser?
Eu - Pode...
Ela - Não leves aliança mas, para variar, vê se te penteias e vestes com algum cuidado.
Eu - Eu não uso aliança. O que é que raio se passa?
Ela - Vamos a um café que eu cá sei, onde trabalha um gajo giríssimo, e tu vais-te mostrar muito interessado em mim enquanto eu te dou ao desprezo. Está bem?
Eu - Mas o que é que tu pensas que eu sou?!
Ela - És meu amigo e os amigos servem para isso mesmo. Um dia, se precisares, faço o mesmo por ti...

6.07.2013

dona Elvira

Começo pelo baloiço do parque. Aquele onde a Helena conseguia sempre baloiçar mais alto do que eu e depois saltava lá de cima até enterrar os pés na areia. Lembro-me de a ver a sacudir as mãos e a dizer-me "outra vez!". E eu, que não tinha coragem para ir tão alto, ficava a vê-la repetir a operação durante uma tarde inteira.

- Não fazes? - perguntava ela de vez em quando.
- Não me apetece! - nunca admiti que tinha medo.

Depois veio o ciclo e uma nova paixão, já diferente da anterior e mais perto do início da puberdade. Não havia baloiço, mas havia um enorme muro onde jogávamos ao equilíbrio. A Maria fazia-o todo quase em bicos de pés, eu caía sempre antes de chegar ao fim. Era grande demais para a minha idade e meio desconchavado. Uma vez ela começou num extremo do muro e eu no outro, até nos encontrarmos algures no meio. Dei-lhe a mão e a voz tremeu-me.

- Gosto de ti!

Ela olhou para mim durante alguns segundos, com aqueles enormes olhos de amêndoa de que nunca mais me esqueci. Atirou-me ao chão e fugiu. Eu chorei escondido num arbusto da escola, sem ninguém me ver. Depois o Filipe deu-me um maracujá, porque eu gostava de maracujás ou pelo menos fingia que sim. Talvez tenha sido a minha primeira desilusão de Amor.
Veio o liceu e mais duas mulheres com quem nunca tive coragem de falar, que não queria cair de mais nenhum muro. Passei por elas durante anos como uma bola perdida numa máquina de flippers, aquela Dona Elvira onde vim a fazer um dos meus melhores amigos depois duma cena de pancadaria entre os dois.
Eu estava a jogar, creio que quase a bater o meu recorde pessoal, e ele deu um pontapé na máquina para accionar o bloqueio automático da mesma. Os dois flippers pararam e eu perdi o jogo. Dei-lhe um encontrão que se veio a transformar em murros e pontapés. Acabámos os dois a sangrar do nariz e expulsos do café por um dos empregados, que nos pediu para nunca mais lá voltarmos.
Passámos a cumprimentarmo-nos nos corredores da escola, já que afinal de contas éramos conhecidos. Primeiro com alguma distância, mas depois o tempo curou a nossa zanga e tornámo-nos amigos. Bebemos as primeiras cervejas juntos e falávamos de Amor como se dominássemos o assunto. Não dominávamos, mas parecia que sim e só ele sabia de quem eu gostava mesmo.
Hoje, tantos anos depois, gostava de lhe poder dizer que uma dessas miúdas é a minha namorada, por quem estou apaixonado como quando andava no liceu. É essa a recordação que eu tenho da escola. De Amores transformados em lágrimas e lágrimas transformadas em abraços. É certo, mais um murro ou um pontapé à mistura.
Talvez hoje a escola não esteja a formar pessoas, não esteja a ensinar-nos a viver com o sucesso e com a derrota, ambos inerentes à própria vida. Talvez a competição instaurada entre alunos seja um erro e talvez a maior parte dos professores não tenha mais forças para realmente o ser.
Há qualquer coisa de errado nisto tudo, menos os putos.