5.30.2013

conversa 2015

Ela - Passei ontem à noite pelo meu ex-namorado e ele fingiu que nem me viu. Ia com a namorada nova dele. Hoje de manhã telefonou-me e explicou-me que a gaja não o deixa falar comigo. Achas normal?
Eu - Acho um absurdo.
Ela - E eu chego à conclusão que namorei dois anos com um banana...
Eu - Ou é um banana, ou ela tem qualquer coisa de muito especial que o faz aceitar isso.
Ela - O que é que pode ser tão especial assim?
Eu - Hum...
Ela - Já percebi. Agora tira esse ar de criança a pensar em doces!

5.29.2013

pensamentos catatónicos (296)

Os jornais andam a dizer que este vai ser o Verão mais frio em Portugal dos últimos duzentos anos. Por mim tudo bem, pode ser. Na verdade é-me igual ao litro. O que não me é indiferente é que, nos dias que correm, tudo o que acontece tem que ser o mais não sei quê do mundo.
Se não for o frio a ser o mais frio de todos, é um calor que é o mais quente. Também pode ser um shopping a ser o maior numa determinada área, uma equipa de futebol a ser a mais cara num determinado campeonato ou até, imagine-se, a mulher a ter as maiores mamas do mundo.
Em Portugal sublinhamos tudo o que é mais do que o resto. Temos o maior farol da península Ibérica em Aveiro, Lisboa tem o maior hipermercado do país e o jogador de futebol mais caro do mundo é português. Mais ainda, no Euro 2004 fizemos o maior logótipo humano da História, no Natal gostamos de ter a árvore de Natal mais alta da Europa e, por falar em Natal, também costumamos fazer os maiores desfiles de Pais Natal. Além disso, já perdi a conta aos maiores bolos, pães e feijoadas sobre pontes que se realizaram neste país.
Talvez este Verão não seja o mais frio dos últimos duzentos anos, mas se não o anunciassem assim, ninguém lhe ligava nada.
Não interessa como se é, interessa quanto se é desde que se seja o maior. Este país transformou-se num livro de recordes e, imagine-se, não é feliz.. E eu, que aprendi com a vida a detestar todos os que tentam ser mais do que os outros, ando aqui a tentar Amar o mais possível, sem ser aquele que Ama mais entre quem passa por mim.


5.27.2013

conversa 2014

Ela - Tens horas?
Eu - Não.
Ela - Não tens?!
Eu - Não. Esqueci-me do telemóvel em casa e nunca ando com relógio.
Ela - Como é que é possível alguém andar sem horas?!
Eu - Também andas, caso contrário não perguntavas.
Ela - Eu tenho o telemóvel, mas está na minha carteira e dá muito trabalho encontrá-lo.

5.24.2013

respostas a perguntas inexistentes (254)

Conheci-a numa festa qualquer. Nenhum de nós gostava de dançar, nenhum de nós gostava da música demasiado alta, nenhum de nós queria acabar a noite com demasiado álcool no sangue. Acabámos por ficar os dois na cozinha, o local de culto habitual para quem está numa festa sem querer efectivamente estar e sem querer, efectivamente também, não estar. Falámos de nós e, tanto quanto me lembro, de temas tão diversos como a música pop nos anos oitenta, o queijo de cabra francês, a cordilheira dos Andes ou a forma como as Orcas caçam focas bebés.
A festa acabou para todos eram aí umas quatro da manhã. Menos para nós. Como se costuma dizer, a coisa aconteceu. Primeiro comprámos dois grandes copos duma espécie de café na máquina automática duma bomba de gasolina, que bebemos ainda dentro do meu carro minúsculo. Acabámos por aceitar que estávamos os dois a esticar a noite com o mesmo propósito. Ela levou-me para casa dela. Lembro-me, especialmente, do contraste entre o frio dos lençóis e o calor do corpo.

- É tão estranho! - disse ela.
- O quê?!
- Se passasses por mim na rua, serias apenas mais um transeunte sem qualquer tipo de interesse...

E eu a pensar que não. Se passasse por ela na rua seria apenas mais uma transeunte, sim, mas com todo o interesse do mundo. Olharia para ela fingindo que não o estava a fazer. Talvez me baixasse para dar um jeito aos atacadores dos sapatos e, tão certo como eu estar ali, suspiraria pelo menos uma vez.

É sempre essa a diferença entre um homem e uma mulher, pensei. Um homem é sempre um homem qualquer, enquanto aquela mulher é sempre aquela mulher.

5.21.2013

conversa 2013

Ela - Lembras-te daquela noite em que demos as mãos e passámos horas abraçados a olhar para a Lua cheia?
Eu - Hum... aquela em que finalmente, depois de anos a esforçar-me, tivemos sexo?
Ela - Essa mesmo.
Eu - Lembro, já foi há uns sete anos. Depois nunca mais...
Ela - Pois não. Acabo de perceber porquê.

5.20.2013

conversa 2012

Ela - O meu marido já te fez queixas, alguma vez, da vida sexual dele?
Eu - Não. Já nem falo com ele há bastante tempo. Porquê?
Ela - Constou-me que ele se anda a queixar da vida sexual que tem comigo.
Eu - Ah! Não sei de nada...
Ela - O que eu acho incrível é que ele a mim não me diz nada. Depois vai-se queixar aos amigos...
Eu - Não podes ter a certeza que ele se vai queixar aos amigos. Alguém pode ter inventado isso...
Ela - Deve ter queixado, deve...
Eu - Porque é que dizes isso?
Ela - Era muita coincidência inventarem isso exactamente na altura em que ele tem razões de queixa.

5.18.2013

conversa 2011

(ouvi hoje no comboio Aveiro-Porto)

Ele - Ainda me Amas?
Ela - Mais ou menos...
Ele - Mais ou menos?!
Ela - Sim, mais ou menos. Mas sabes isso, não sabes?
Ele - Ahn?!
Ela - Já estamos um bocado cansados um do outro. Sabes isso, não sabes?
Ele - Sei lá o que é que eu sei...
Ela - Preferes que te minta e te diga que estou louca por ti?
Ele - Se calhar prefiro.
Ela - Estou louca por ti. Amo-te muito. Sabe-te bem ouvir isto?
Ele - Não.

5.17.2013

respostas a perguntas inexistentes (253)

Até que enfim que é sexta-feira, disse ela. Eu não respondi e, para além da poupança nas palavras, tentei evitar a mais pequena reacção facial que fosse. Depois ela insistiu. Até que enfim que é sexta-feira, repetiu com o mesmo tom de voz. Por fim ficou a olhar para o fundo da chávena vazia.
Tomo café com a Cristina uma vez por outra. Na verdade, chamo-lhe a minha amiga dos cafés. Nunca saio com ela à noite, não vamos os dois ao cinema, nem sequer jantamos juntos uma vez que seja. Tomo café com ela de vez em quando, sempre depois do almoço. É que à noite noite, diz ela, gosta de ficar em casa sozinha.
Até que enfim que é sexta-feira, repetiu. Eu costumo sorrir. Menos hoje. Depois ela pediu-me explicações para o silêncio. Não me agrada a ideia de que a vida seja isto: andar cinco dias a suspirar pelo sexto. Pagámos os cafés, saímos, despedimo-nos e afastámo-nos. Telefonou-me três minutos depois a perguntar se podemos jantar um dia destes. Que sim, respondi.


5.15.2013

respostas a perguntas inexistentes (252)

ser pragmátic@

Existe por aí uma mania qualquer de considerar que o pragmatismo é a melhor coisa do mundo. Ser pragmático é optar pela eficiência em detrimento da emoção e do intelectual. Enfim, abdicar de tudo para ser eficiente. Ainda hoje, em conversa com uma amiga que se orgulha de ser pragmática, percebi que ela abdica de grande parte do tempo que tem para estar com quem Ama, em nome das horas extras no emprego.
Trabalha mais, vive menos. Tem orgulho nisso.
O problema das pessoas pragmáticas costuma ser  a morte. Não há nada mais pragmático do que a morte, já que no fim morremos todos. Quem abdica de alguma da sua vida antes da morte está a morrer antes do tempo. É isso que é ser pragmático e é isso que o mundo nos diz para sermos hoje em dia.
Eu orgulho-me de não ser pragmático. Costumo pôr a minha vida antes de qualquer outra coisa. Desculpem qualquer coisinha, mas nem a merda do produto interno bruto, nem a dívida externa portuguesa, nem as imposições da Troika me convencem a abdicar de mim mesmo. Opto pela vida. Quando me deixam, claro.
Sou pragmático o suficiente para perceber que o pragmatismo é uma merda. É a força de quem ainda não percebeu a lógica da existência, ou seja, do Amor.
Devia ser proibido ser pragmático. Por mim, a lei devia obrigar-nos a ser líricos, inúteis e crianças de vez em quando. Não é por nada de especial. Só para sermos felizes. Só para que a vida não passe por nós sem que passemos por ela. 

5.14.2013

conversa 2010

Ela - Tenho quarenta anos e ainda ando à procura da minha alma gémea. Tu, ao menos, já encontraste a tua.
Eu - Não encontrei nada.
Ela - Não?! Pensava que tu e a Raquel...
Eu - Sendo muito sincero, nunca quis encontrar a minha alma gémea. Para quê?! Ia eu apaixonar-me por uma alma idêntica à minha?! Que grande seca! O que sempre procurei no Amor, foi encontrar uma alma diferente pela qual me apaixonasse.
Ela - Arranjas sempre forma de me confundir.

5.08.2013

pensamentos catatónicos (295)

rosé

Os portugueses em geral detestam o vinho rosé. Inventaram-no, mas não o bebem, e dizem-no com orgulho. Tive uma namorada que me olhava de lado sempre que eu me servia um copo de rosé.

- Isso não é vinho! - tugia ela.

Eu gosto de rosé. Na verdade, posso dizer que adoro rosé. O rosé é o melhor de dois mundos: o mundo do tinto e o mundo do branco. Aliás, sempre que eu abria uma garrafa de rosé, ela abria uma de tinto ou de branco. Os dois bebíamos como se, naquele preciso momento, houvesse uma enorme cratera a separar-nos. Eu, sempre com a sensação que tinha mais mundo do que ela.
Namorámos, sei lá... talvez uns três meses. Quando ela se foi embora apertou-me a mão. Deu-me um passou bem, por assim dizer, e segredou-me que devia ter adivinhado que não podia ter uma relação com um homem que bebia rosé.
Perguntei-lhe se não me dava um abraço de despedida. Que não, respondeu ela. Os abraços dão-se quando existe Amor. Fiquei fodido. Vi-a fechar a portar de casa e, pela janela, afastar-se lentamente até se diluir no horizonte.
Os abraços dão-se quando são precisos, pensei. Eu precisava dum abraço. É esta mania das purezas que me revolta. Abraços puros, Amores puros e vinhos puros. Eu queria um abraço, mesmo que não tivesse a pureza do Amor. Precisava dele. O rosé, por exemplo, não é puro. Mas sabe bem...

5.07.2013

conversa 2009

Ela - Os homens são qualquer coisa, realmente. Um vizinho meu, casado e com filhos, desceu ontem comigo no elevador e fez-se a mim.
Eu - Fez-se a ti, como?
Ela - Perguntou-me se eu estava bem, depois começou a dizer que eu parecia muito bem e que sempre me achou muito bonita. Já na porta do prédio, disse-me que a relação dele com a mulher não está muito bem...
Eu - Sim, é conversa de engate.
Ela - Pois, mas ele é casado e com filhos. Pior ainda, eu conheço a mulher dele.
Eu - Também só o aturas se quiseres...
Ela - Sim, isso é verdade. Agora há duas hipóteses.
Eu - Que hipóteses?
Ela - Ou corto definitivamente com o gajo e deixo de lhe dar confiança, ou então vou uma vez para a cama com ele, na casa dele, e esqueço-me das minhas cuecas bem lá no fundo dos lençóis...

5.06.2013

pensamentos catatónicos (294)

Às vezes guardamos aquilo que sentimos dentro de nós como se fossemos um frasco de vidro. As tristezas, as alegrias, os Amores e desAmores, que para todos os efeitos habitam dentro de nós em permanente desconforto, estão latentes.
É por isso que evitamos chorar à frente dos outros. É também por isso que hesitamos em assumir que Amamos alguém. Por algum motivo que ninguém explica, mas todos nós compreendemos, sabemos que as emoções são uma fragilidade. De uma maneira ou de outra, talvez o Amor seja mesmo a maior fragilidade de todas. Aquela que faz de nós uma embalagem com as setinhas a indicar para que lado temos que estar virados para não quebrarmos.
Quebrar, como está escrito em alguns vidros, só em caso de urgência. É quando choramos, sorrimos ou gritamos pelo que está dentro de nós.
De Istambul trago muitas recordações. Algumas doces, outras nem por isso. Mas, agora que estou aqui sentado em casa numa manhã primaveril, só me pergunto como estará a mulher com quem me cruzei há uns dias atrás, numa estação qualquer do tram. Percebi que ela estava em dificuldade para entrar no cais.
O Istambulcard que ela passava no leitor automático dava erro e alguns passageiros, turistas na sua maioria, davam sinais de nervosismo e protestavam em línguas diversas. Voltei atrás, passei o meu passe na entrada dela e a passagem abriu como se fosse uma ampulheta a iniciar a contagem do tempo.
Reparei, por uns segundos, que ela estava a chorar. Nervosa, limpou os olhos com as mãos e só depois é que me agradeceu. Com um sorriso, porque percebeu que também eu não falava turco. Os nossos olhares tornaram a tocar-se quando ela entrou no primeiro tram e, ao afastar-se, me disse adeus com as mãos. Somos todos iguais.

4.28.2013

conversa 2008

Ela - Então, está tudo bem?
Eu - Não posso estar ao telefone contigo. Estou em Istambul e é muito caro.
Ela - Estás em Istambul? Sortudo.
Eu - Não posso é estar aqui ao telefone...
Ela - Estás a gostar?
Eu - Sim. Depois falamos...
Ela - Quanto é que foi a viagem?
Eu - Depois falamos.Pára de fazer perguntas. Olha! Vou desligar...
Ela - Nunca me queres ouvir...
Eu - Não é isso...

 (fiquei sem saldo)

4.25.2013

coisas que fascinam (160)

Istambul 

Lembro-me de acordar muito devagar, embalado pelo suave soluçar do comboio que atravessava a Europa, por sentir que alguém tinha entrado no mesmo compartimento onde, até então, eu tinha viajado sozinho. Quando abri os olhos vi uma mulher bonita, de olhos tão azuis como o céu que espreitava pela janela. Lia um livro cujo autor e título eu não conhecia. Estávamos algures na Alemanha, e desejei secretamente que ela se dirigisse para o mesmo e longínquo destino que eu, fosse ele qual fosse.

Lá fora, alguns telhados de casas pontilhavam uma misteriosa floresta densa e escura. De vez em quando, a espaços, algumas pessoas marcavam presença nas janelas ou nos quintais, uma demonstração de que ali existia vida humana. A paisagem, a mim, lembrava-me mais o cenário dum conto fantástico, povoado apenas por bruxas, duendes e espíritos milenares.

Num troço do percurso, sem motivo aparente, o comboio diminuiu bastante a velocidade, e tive a sensação que alguns espantalhos de palha e roupas velhas nos observavam com curiosidade. Entre dois desses espantalhos, uma criança que brincava a alguns metros de dois agricultores levantou-se e disse-nos adeus. Sorri perante aquele gesto, de levantar a mão direita e abaná-la como o pêndulo de um relógio antigo virado ao contrário, por concluir que faz parte duma linguagem universal, comum a quase todo o planeta. Talvez mesmo todo o planeta, pensei. Depois respondi fazendo exactamente o mesmo.

Reparei então que a viajante que entrara no meu compartimento me observava pelo canto do olho, mas quando lhe devolvi o olhar, ela voltou à sua leitura como se nela estivesse muito compenetrada. Aproveitei esse momento para a analisar ao pormenor. Tinha uma face bastante magra e o queixo saliente, supostamente capaz de fazer um sorriso bonito que eu não cheguei a conseguir ver. Era loira, ancas relativamente largas e oprimidas por umas calças pretas demasiado apertadas.

Por qualquer motivo que não percebi, fiquei com uma vontade enorme de falar com ela, de a conhecer, de saber de onde vinha, para onde ia e o que pensava do mundo. Levantei-me instantaneamente e tirei da mochila um termo de café quente que uma amiga me tinha oferecido em Paris, ao qual era possível subtrair duas canecas de plástico, e servi-me duma chávena fumegante. Depois, assim como quem não quer a coisa, perguntei-lhe em inglês se era servida. Para meu espanto ela disse que sim.

Era russa e viajava para a Ucrânia. Tinha saído nessa manhã de Lille, em França, e ia encontrar-se com a namorada em Kiev. Tinha medo de andar de avião, confessou antes de me começar a fazer perguntas sobre mim.
Tem que haver qualquer coisa de muito especial entre algumas pessoas, pensei eu, para que nos interessemos por trivialidades referentes a pessoas que acabámos de conhecer. E há mesmo. Apesar de eu nunca ter visto aquela mulher antes, era genuíno o meu interesse pela origem e passado dela.

Expliquei-lhe que vinha de Paris, onde tinha estado três dias, e não sabia para onde ia. No entanto, com alguma sorte talvez acabasse em Istambul dentro de um dia ou dois. Era verdade que nessa viagem eu não sabia para onde ia. Sabia apenas que quando aquele comboio chegasse ao seu destino, na Áustria, eu procuraria imediatamente outro para outro sítio qualquer. Istambul era apenas uma das cidades que eu mais queria conhecer, e portanto um dos possíveis destinos para quem se podia dar ao luxo de simplesmente mudar de direcção em qualquer momento.

- Vais ter com alguém? - Perguntou-me ela.
- Não. Estou a viajar sozinho.
- Não se deve ir a Istambul sozinho. É uma boa cidade para quando estamos apaixonados.

Não percebendo muito bem porque é que ela me disse aquilo, acredito que tenha sido o motivo para eu não ter lá ido. De certa forma, acreditei que o que podia ganhar ao visitar Istambul, poderia perder no exacto momento em que me visse sozinho e, portanto, sem ninguém para partilhar a experiência. 

Passaram-se anos desde então, e nunca cheguei a visitar aquela cidade dos meus sonhos. Vou fazê-lo amanhã e durante a próxima semana, porque neste momento me encontro nas condições definidas por essa efémera companhia de viagem há muitos anos atrás.

Depois de todo este tempo, se algum dia a encontrar por aí, num dos escaninhos deste planeta, tenho a certeza que a poderei identificar pelo queixo. Talvez lhe agradeça o conselho. Talvez a veja sorrir. Talvez até lhe diga que já estou em condições de visitar Istambul.

4.23.2013

Estarreja rules!


Enquanto estava na fila para ser atendido numa repartição das finanças aconteceu aquele pequeno incidente. Ao meu lado sentou-se a mulher mais bonita do mundo, pelo menos no que era o mundo naquele momento e naquele sítio. Quando chegou a minha vez de ser atendido, dirigi-me ao balcão e disse adeus àquela fogosa paixão. Nesses dez minutos de espera, aquele Amor foi a coisa mais importante da minha vida.
O meu mundo tem essa mania de ser aquilo que pode ser. Nem mais, nem menos. Está, por isso, condicionado pelo espaço, pelo tempo e por quem o partilha comigo. As paixões, neste âmbito, podem ser uma coisa estranha.
Hoje de manhã, durante mais de uma hora, o meu mundo foi a Biblioteca da Escola Secundária de Estarreja, onde estive a conversar com algumas dezenas de alunos sobre o que ando aqui a fazer, sobre o que andamos todos aqui a fazer.
Serve o presente para agradecer aos que me aturaram durante esse espaço de tempo e aos que proporcionaram a oportunidade. Estarreja rules!

4.22.2013

respostas a perguntas inexistentes (251)

É a hora do almoço e Dora não tem fome 

É a hora do almoço e Dora não tem fome. Saiu da cama há apenas alguns minutos, depois de ter estado algumas horas naquele limbo delicioso que é vaguear entre o sono e a luz, espreguiçando-se espaçadamente como se fosse um gato sem preocupações. Por falar em gatos, o Kiko também só agora deu sinais de vida, miando desesperadamente ao pé da taça de comida vazia.
Ontem tiveram uma longa conversa os dois, Dora e o gato, que é o mesmo que dizer que ela passou toda a noite a falar consigo mesma, enquanto o felino ronronava fingindo compreensão. É motivo mais do que suficiente para ter inveja do Kiko, esta forma de viver cuja maior preocupação é o abastecimento da sua taça de comida. Quem lhe dera a ela conseguir preocupar-se apenas com o que se encontra dentro do seu frigorífico e da despensa. Não consegue, e por isso é que às vezes passa as noites em claro.
As conversas que tem com ela mesma são normalmente aquelas que não teve com quem era suposto. Nem quando era suposto. Ontem, por exemplo, teve um jantar silencioso com o marido. Nem sequer saber do que lhe queria falar, nem sequer sabe o que lhe queria ouvir. Sabe, no entanto, e com toda a certeza do mundo, que queria que as palavras de ambos se beijassem no ar. Não beijam.
É a hora do almoço e Dora não tem fome. Encosta-se à janela, de onde pode ver todo aquele formigueiro excitado que é Lisboa quando almoça. Pergunta-se quantas pessoas daquelas terão conversado com o seu Amor no jantar de ontem à noite. Não sabe a resposta. O gato também não.

4.19.2013

conversa 2007

(na minha casa)

Ela - Estou outra vez solteira.
Eu - A sério?!
Ela - Sim. Eu e o Daniel acabámos ontem.
Eu - Então?
Ela - Então... eu sou muita mulher para ele. Ele não aguentava comigo...
Eu - Não acho que sejas mais pesada do que ele...
Ela - Bem, vou embora.
Eu - Já?!
Ela - Sim. Estar a falar contigo ou com uma parede é a mesma coisa.
Eu - Lá estás tu.
Ela - Percebes que eu não estava a falar do meu peso, nem do peso do Daniel?!
Eu - Estavas a falar de quê?
Ela - Estava a falar da maneira de ser. Ele não aguentava com a minha maneira de ser.
Eu - Pronto, desculpa. De qualquer maneira vai dar ao mesmo.
Ela - Ao mesmo?!
Eu - Sim. Também não acho que sejas mais chata do que ele.
Ela - Às vezes pergunto-me porque é que continuo a ser tua amiga...

4.17.2013

pensamentos catatónicos (293)

Um bêbado senta-se ao meu lado num café dos subúrbios onde, para além de mim, só está o dono. É um homem gordo, com um lápis atrás da orelha que vai tirando para fazer contas num caderno que o tempo pintou de amarelo.
Fui até lá de bicicleta e, para ser sincero, nem sequer sei bem onde estou. Não sou dali, daquele subúrbio de Aveiro onde nunca estive antes, e o bêbado sabe-o. Eles conhecem-se bem, tão bem que um copo cheio de vinho tinto aparece subitamente em cima do balcão.
Estou a escrever na minha imitação de moleskine, mas ainda nem sei bem sobre o que estou a escrever. Tenho algumas frases que talvez venham a dar alguma coisa. Ou talvez não, penso.

- A poesia é sempre erótica! - diz o bêbado.

Eu rio-me. Desconfortável por ele estar a olhar para mim, mas rio-me.

- Quando escrevemos poesia fazemos Amor com as palavras! - insiste ele.

Continuo a rir, embora tente engolir o riso.

- Eu sou bêbado porque nunca fui bom a fazer Amor com as palavras! - conclui.

O homem serve-lhe outro copo, que ele bebe duma só vez. Dá-me uma pancadinha nas costas e vai-se embora. Eu rio-me, mas fico a pensar no que ele disse. Também peço um copo de vinho.

4.15.2013

pensamentos catatónicos (292)


a cebola faz chorar

Anabela não sabia morrer. Às vezes pensava nisso e chegava sempre à conclusão que era bom a morte ser inevitável, caso contrário nunca conseguiria pôr termo à vida. Se não sabia morrer, muito menos sabia matar-se. A sua morte chegaria um dia, portanto, da mesma forma que outra coisa qualquer. Picar cebolas, por exemplo. Anabela não sabia picar cebolas, mas fazia-o sempre que decidia cozinhar um refogado.
Lembra-se de, em criança, ver a mãe de barriga encostada à banca da cozinha a picar cebolas, com um avental branco que tinha o desenho duma árvore. Era incrível como, apenas com uma simples faca, a cebola ficava tão bem picada. Aliás, às vezes parecia que aqueles bocadinhos pequenos de cebola eram todos iguais e, por isso, esculpidos à medida. A mãe era, de facto, uma artista na cozinha, e depois chorava sempre um bocadinho.

- A cebola faz chorar! - dizia então.

Anabela também chora quando tenta picar cebolas da mesma maneira. Só não tem a certeza que seja por causa delas. Aqui há uns dias passou a tarde a sentir-se sozinha, depois de um almoço silencioso com o namorado. Nunca chorou, apesar da tristeza, até chegar o momento de picar cebolas para o jantar. Ao fazê-lo, os seus olhos transformaram-se em cascatas. O namorado passou por trás sem dizer nada (ainda não tinham trocado palavra nesse dia), mas ela sentiu-se na necessidade de se justificar.

- A cebola faz chorar! - disse.

Ao almoço, ela tinha posto em cima da mesa uma panela de massa com tomate e carne estufada. O namorado sentou-se e não a cumprimentou. Também não comeu nada do que lá estava. Limitou-se a ir ao frigorífico buscar um pouco de pão e queijo levou para o sofá e devorou enquanto via televisão.
Ela levantou-se em silêncio, arrumou o prato e os talheres dele na gaveta da cozinha. Depois guardou as sobras no frigorífico e foi para a janela ver se o mundo lá fora ainda estava vivo. Estava, ou pelo menos parecia. Dois pardais disputavam um pedaço de pão no passeio e uma mulher passeava um cão do outro lado da rua. Era só ali dentro de casa dela que as coisas pareciam ter parado de repente. Durante o resto da tarde, como já disse, não chorou.
Não chorou, mas chegou a uma conclusão. Os momentos mais importantes da vida não são aqueles em que os outros nos dão importância. São sim, aqueles em que decidimos alguma coisa. Por exemplo, decidir ter um cão, ir passear à praia, comer um chocolate ou sorrir a um desconhecido na rua são momentos importantes. São eles que definem a nossa vida no tempo seguinte. Da mesma forma, decidir cortar cebola para poder chorar à vontade, também é uma decisão importante.
Desta forma, a decisão que tinha tomado de namorar com aquele homem, tinha feito com o que o tempo seguinte tivesse este dia incluído, com um silêncio tão imperceptível quanto incomodativo. Bastaria, num momento qualquer, decidir não namorar mais com ele e tudo mudaria.
Por hoje, Anabela decidiu apenas abraçar-se a si mesma, e nesse abraço tentar agarrar o vento que corre interminavelmente pelas ruas da cidade. Decidiu sentir-se feliz por poder optar por brincadeiras improvisadas nessa dança solitária, como pisar apenas os riscos brancos nas passadeiras quando as atravessa, chutar pedrinhas brancas em direcção aos buracos de esgoto como se quisesse marcar um golo ou, depois mais à noite, picar cebola para chorar à vontade. E, claro, dizer que a cebola faz chorar.